Midnight

1 Capítulo 1 - Prólogo


Notas iniciais
Aqui está o prólogo.
Espero que gostem! Deixem Reviews!! :D

- Vem. Vem querida, não tenhas medo… — Ela ouviu a voz doce sussurrar. – Não vou magoar-te… Podes confiar em mim, pequena… — Voltou a encorajar.

E de repente não era só uma voz. Tinha uma mão estendida. Uma mão terrivelmente branca, mas pequena, e apelativa… Ela devia ou não segurar aquela mão?... Estava à espera de algo, mas seria aquilo?

“Segura. Pega-a, e não largues.” Sentiu estas palavras mais do que as ouviu. Na sua mente. Ela tinha que pegar aquela mão tão tentadora. Porque ela precisava disso. Era inevitável que o fizesse. Mesmo que a agarrando tudo mudasse…

E assim o fez. Pegou timidamente a mão e sentiu como estava gelada. Não do frio, mas de algo mais… Algo bom. Era macia, e reconfortante.

- Deixa-me aconchegar-te, estás gelada… — O dono da voz disse. E após breves segundos sentiu-se ser envolvida por uns braços finos. Finos, mas fortes ela percebeu. Tão fortes que pensou que não poderia livrar-se deles se quisesse. Mas ela não queria. Estava cansada, tão cansada. E com frio, e com fome, e desolada, triste… Sozinha.

Levantou a cabeça para olhar a quem pertencia aquela bela voz, mas tudo o que conseguiu distinguir foram uns belos olhos dourados, como ouro. Uns olhos profundos, que demonstravam carinho. Olhos que a fizeram confiar. Deixou-se abraçar por aquela mulher. (Sim, não percebeu porque, mas sabia que era uma mulher.) Encostou a face no seu ombro e deixou-se levar pela suave melodia que a outra cantava para a embalar. Fechou os olhos.

E quando os abriu novamente estava sozinha. Sozinha, no escuro. E sentia medo. Um medo terrível, horripilante. Um medo que a impedia de sair do mesmo lugar, embora quisesse correr, fugir. Tentou perceber onde estava, e onde tinha ido aquela mulher. Mas não via nada. Não conseguia enxergar nada para além da escuridão que a envolvia.

“Foge!” ouviu a ordem, mas não era capaz. Os pés não lhe obedeciam. Algo a estava a prender ao chão, não permitindo que saísse dali…

Ouviu um barulho atrás de si, e virou-se rapidamente. A última coisa que viu foi um brilho vermelho aterrador. E depois gritou…

- Em.. Emma… EMMA!... Acorda imediatamente. Estás a ouvir-me?! Levanta.

Ela abriu os olhos com alguma lentidão. Não queria acordar. Porque é que a mãe a estava a acordar.

- Emma Cecile Brandon! Levanta-te agora. Não temos tempo a perder ouviste me! – A mãe gritou. A mãe sempre gritava…

Agora que estava mais desperta sentou-se na cama e olhou para ela. Estava a por algumas coisas, roupas, dentro de uma mochila pequena. Parecia muito chateada, e… triste.

- Mamã… — ela perguntou. Mas a mãe só lhe atirou umas roupas para cima e continuou o que estava a fazer. A remexer as gavetas, à procura de alguma coisa…

- Veste isso. Despacha-te, não quero demoras. – Disse rispidamente.

A Emma não tinha mais nada para fazer que obedecer. Mesmo com 4 anos, quase 5, já sabia que devia sempre obedecer a mãe. Se não queria castigos, ou se não queria que lhe batesse. Eram as regras.

Obedecer. Obedecer e ficar calada. Ficar calada era muito importante. Ainda mais do que obedecer. Se falasse algumas coisas sofria um castigo muito ruim. Ficava fechada várias horas (Às vezes dias!) no porão escuro e apertado que existia debaixo do chão da cozinha. A mãe punha-a lá. Para ela aprender a manter-se calada.

Pegou nas roupas atiradas pela mãe e começou a vesti-las. Quando tirou a camisa do pijama sentiu o frio gelar-lhe os ossos. No inverno estava sempre tanto frio. Ela não gostava do frio. Vestiu umas 3 camisolas, todas elas com o tecido desgastado, e uns jeans que já lhe ficavam pequenos. Calçou umas meias e uns sapatos quentes e estava pronta.

- Mamã… Já estou vestida. – Disse com orgulho, e olhou a mãe com expectativa. Esta olhou-a de volta de fez um aceno de reconhecimento.

- Sim. Bom… Isto também já está. É mais do que suficiente – murmurou a última parte para si mesma enquanto punha a mochila aos pés da cama e olhou para a filha. Saiu do quarto e foi para baixo, provavelmente para a cozinha.

Deixou a Emma à espera. E esta ficou a brincar com um pequeno peluche em forma de cão. Tinha ganho de presente do seu tio Sílvio. Era o único brinquedo que tinha e adorava-o com todo o coração.

Entreteve-se por vários minutos naquela brincadeira tonta, quando ouviu um barulho lá fora. Chegou-se mais perto da janela para olhar lá para fora. Estava tudo branco, pela neve. Dava frio só de olhar. Ela olhou para baixo e viu o carro do pai. Tinha acabado de chegar, e vinha a sair pela porta da frente. Vinha chateado. Zangado… O pai sempre estava zangado. Ela não gostava do pai. Ele era mau, e cruel. Batia-lhe, e fechava-a no porão muitas vezes. Ela chorava, mas não valia a pena. Ele não queria saber. Então ela evitava estar ao pé dele. Ficava sempre no quarto, cá em cima, quando ele estava na casa. E nunca, mas nunca falava para ele aquelas coisas!

O pai olhou para cima e cruzou o seu olhar com ela. A Emma baixou rapidamente a cabeça, escondendo-se dele. Com medo. Olhou para o pequeno cão, King, e esperou ouvir a porta bater até se levantar de novo. O pai tinha entrado já.

Saltou da cama e andou até à porta do quarto. Entreabriu-a, devagar, para não fazer barulho, e passou sorrateiramente por ela, até ao vão da escada.

- Está tudo despachado? Quero este assunto acabado hoje mulher! – Ouviu o pai dizer rudemente para a mãe. Que assunto?...

- Já. Ela está pronta e estava só à espera que chegasses. – A mulher respondeu, e a Emma ouviu o barulho da torneira aberta. Estava a lavar a loiça.

- E porque raio é que estavas à minha espera? Já te tinha dito que quero a fora daqui hoje! — Ele gritou.

- Pensei que… — Ela começou, mas calou-se instantaneamente. Arrependeu-se do que ia dizer. – Esquece. Não tem importância. Vou buscá-la. – Terminou…

- Pensavas que eu me queria despedir? Era isso? Não vejo porque. Aberrações não têm sentimentos, e não devemos ter sentimentos por bichos amaldiçoados. Só trazem desgraça! – Falou sombriamente. – Vai, e sai daqui rapidamente. Quanto mais longe a deixares melhor. – Saiu da cozinha e passou precisamente por baixo do sítio onde a Emma ouvia a conversa.

Esta assustou-se e correu de volta para o quarto. O que será que eles estavam a falar, perguntou-se. Não tinha muito sentido. Aberrações e amaldiçoadas… O pai devia estar a trabalhar de mais. E quem eles queriam fora dali?...

A mãe subiu as escadas e entrou no quarto. Pegou a mochila numa mão enquanto dava um casaco quente para a filha, que esta vestiu prontamente. Pegou-lhe na mão e arrastou-a para fora do quarto. Ela só teve tempo de agarrar o peluche e seguir-lhe os passos.

- Vamos despacha-te. Não tenho o dia todo. – Disse quando já saíam de casa. Fechou a porta atrás de si e dirigiu-se para o carro do marido.

A Emma ficou na entrada da casa a olhar para a mãe, sem perceber bem o que se estava a passar. Ela nunca podia andar no carro do pai. Aliás ela poucas vezes saía de casa. Então não sabia se devia segui-la ou ficar ali…

- Estás à espera do que miúda?! – A mãe perguntou, impaciente. – Entra no carro, já. Não me faças perder a paciência, Emma! – Gritou, já chateada. E a criança obedeceu-lhe. Entrou na porta traseira e sentou-se no banco de pele.

A mulher ligou o motor e seguiram viagem. O interior do carro cheirava a mofo, e a cigarros. Não era um cheiro agradável.

- Mamã… Onde vamos? — Ela perguntou, pondo a cabeça entre os bancos da frente, para ver melhor o caminho. A outra pareceu ponderar um pouco antes de dar uma resposta…

- Vamos passear filha. – Disse, com uma voz um pouco mais doce, mas baixou a cabeça ao mesmo tempo, como se não estivesse muito contente por ter de falar aquilo. – Agora senta-te para trás quieta e põe o cinto se faz favor! – Terminou de forma mais fria.

E a Emma assim o fez. Colocou o cinto e passou o resto do caminho a olhar pela janela do carro, lá para fora. Viu muitas coisas. De início passavam por muitas casas. As ruas estavam cheias de gente a passear e a conversar uns com os outros, ou ao telemóvel. Mas depois de várias horas de caminho e após terem parado duas vezes em estações, para encher o depósito do carro e para ela ir ao banheiro, começaram a passar por estradas mais desertas onde não se via nenhuma pessoa.

A mãe conduziu ainda mais algumas horas sempre dizendo que estavam quase lá ou que só faltava mais um pouco quando a filha perguntava porque nunca mais chegavam. Até que finalmente parou o carro.

- Chegamos. Aqui está suficiente. – Ela disse com tristeza na voz. A Emma olhou para fora com expectativa mas tudo o que viu foi neve. Uma enorme porção de terra coberta por neve. Tirou o cinto e olhou pela outra janela à espera de ver alguma coisa diferente, mas o cenário era igual. Mais neve. Olhou pelo vidro de trás e apenas viu o caminho de terra por onde tinham vindo, e mais neve…

- Mamã não há nada aqui. O que viemos ver? – Ela perguntou, já sem o sorriso de há pouco na cara. Estava zangada porque tinha andado tanto e agora não estava a ver nada engraçado.

- Vamos, vá, sai do carro. – A mãe disse, enquanto ela mesma saía pela porta. A filha saiu também e mais uma vez olhou à volta, à espera de ver alguma coisa que talvez lhe tivesse escapado dentro do veículo. Mas não havia ali nada. Ia perguntar outra vez o que estavam a fazer ali quando sentiu a mãe ajoelhar-se atrás dela, e virou-se para a encarar…

- Emma… Agora temos de dizer adeus. – Ela começou a dizer, mas a voz falhou-lhe, por isso tossiu um pouco para limpar a garganta. – Tens de ficar aqui agora. – Disse mais segura. Parecia que se tentava convencer a si mesma a fazer aquilo.

- Ficar aqui? – A Emma olhou à volta. – Mas a fazer o que? Não há nada aqui para vermos… — Ela disse, meio aborrecida.

- Não estás a perceber… — A mãe explicou. – Tu vais ficar aqui. Eu vou-me embora. Não vens comigo. … Cala-te! – disse mais forte, quando ela ia interrompe-la. – Não há discussões criança! Não podes mais ficar comigo. O teu pai não te quer lá. Eu não te quero lá! – Ela disse.

- Mas, mamã… — Não estava a gostar da brincadeira. A mãe estava a ser má com ela. E as lágrimas ameaçavam começar a cair… — Mamã, eu não quero brincar mais. Vamos embora… Está frio! – Ela disse, enquanto se agarrava a mãe. Esta agarrou-lhe os braços para a desprender do seu corpo.

- Não estou a brincar. Acabou Emma. Vais ficar aqui, e com sorte alguém vai aparecer e levar-te. – ela termino, e tentou levantar-se, mas a filha estava agarrada a ela, mais uma vez, a soluçar…

- Mas… Mamã… Eu não… quero. Não quero,… ficar aqui soz… sozinha… — disse, com a cabeça encostada na mãe.

- Não me interessa o que tu queres. Não trazes mais que má sorte. Há algo de errado contigo. – A mulher gritou, e levantou-se atirando a filha para o chão.

- Não! NÃO… mamã! – Ela gritou desesperada enquanto a via dirigir-se para o carro. Tentou correr atrás dela. – Mamã… Eu prometo… Eu prometo que não falo mais aquelas coisas. Eu não sonho mais. Eu não digo mais nada… Mamã… Desculpa… Mamã, por favor mamã… Não me deixes sozinha. MAMÃ! – Ela disse, entre um choro compulsivo.

A mulher abriu a porta do carro e tirou de dentro a mochila e o peluche dela e atirou-os para o chão. – Agora já não vale a pena. Adeus Emma. – Disse, enquanto entrava no carro e ligava o motor.

- Mamã… Mamã, não vás embora…. Por favor! Mamã... – Ela chorava, gritava, ainda sentada no chão, com a mochila e o peluche aos seus pés, enquanto via o carro afastar-se pelo caminho de terra. Sentiu o rosto sujo e não conseguia ver bem devido às lágrimas. Mas ainda assim percebeu quando o carro virou à esquerda no cruzamento, lá à frente e seguiu viagem sem parar. Ela continuou a olha-lo até que desapareceu de vista.

- Ela… Ela foi embora… Foi embora… — Sussurrou entre soluços. Agarrou o King e abraçou-o, chorando em cima dele.

Chorou, e chorou, e chorou… Chorou até se cansar. Até perder o ar. Chorou durante tanto tempo que nem percebeu a noite chegar. Não percebia o frio, nem sentia o vento gelado que lhe batia na face. Não conseguia sentir nada a não ser tristeza. Queria a mãe de volta. Não queria ficar sozinha. Ela não era má. Não tinha feito nada de errado… Se não fossem os sonhos. Aqueles sonhos horríveis que ela tinha às vezes, mal se lembrava sobre o que eram, mas faziam-na acordar sempre a gritar… Se não fosse isso com certeza a mãe não a teria mandado embora… E ela queria a mãe de volta.

Estava esgotada de tanto chorar, que acabou por apagar, mesmo ali, no meio da neve. E foi no meio da neve que acordou, na manhã seguinte.

PDV Alice

Eu estava sentada ao lado de Jasper à espera que acabasse logo a aula, devo frisar, extremamente entediante, de literatura inglesa.

Não é que eu não gostasse de Shakespeare. Eu gosto, bastante até. O amor poético, inevitável. O destino… Sim, são coisas com as quais eu me consigo relacionar… Sorri dos meus pensamentos irónicos.

Não, o problema estava no facto de ser, nem eu sei bem já, a milionésima vez que eu estava a ouvir tudo aquilo. Ultimamente toda esta rotina de escola, todo este repetir o mesmo, vezes e vezes sem fim estava a tornar-se sufocante.

Mexi-me na minha cadeira o que fez Jasper olhar para mim. Não é normal um vampiro sentir-se desconfortável, seja em que sítio for e ele percebeu que era exactamente assim que eu estava, desconfortável. Por estar ali.

Vi-o levantar a sobrancelha inquisitoriamente, como a perguntar o que se passava. Eu abanei a cabeça, num movimento imperceptível ao olho humano, em resposta. Não queria ter de explicar o que se passava comigo. Até porque nem mesmo eu percebia. A única coisa de que tinha a certeza era de que estava cansada. Da repetição em que se tinha tornado a minha existência…

Olhei para a frente, para ver a Sra. Sheifield escrever no quadro quatro pontos essenciais para o decurso do semestre e apontei-os rapidamente no caderno. Não que eu precisasse de o fazer. Bastava simplesmente concentrar-me um pouco e podia saber exactamente quais seriam as perguntas, e as respostas, dos 2 exames oficiais, e um terceiro surpresa, que teria de fazer durante a cadeira… Mas, sinceramente, iria parecer estranho se não apontasse. Afinal, para todos os outros eu era apenas uma aluna normal, interessada em passar à disciplina. E, além disso, precisava de entreter os pensamentos com alguma coisa… Não que nisso tenha feito alguma diferença. Consigo pensar e fazer diversas coisas ao mesmo tempo…

Alice… O que se passa? Jasper escreveu no meu caderno, a uma velocidade que só eu consegui acompanhar.

Não é nada meu amor. Apenas estou aborrecida. Respondi de volta.

Acho que te conheço um pouco melhor do que isso. Não queres dizer-me o que te preocupa fadinha? Ele escreveu, e olhou-me preocupado. O que me fez doer o peito. Não queria preocupá-lo… Dei-lhe o meu melhor sorriso e teria beijado os seus lábios perfeitos, caso não estivesse rodeada de outras pessoas.

Podemos conversar sobre isso mais tarde? Respondi. Não é nada com os outros, não precisas te preocupar! Acrescentei rapidamente quando vi que ele ficou alarmado.

O que significa que é algo contigo. Isso não me deixa propriamente mais relaxado Alice. Viste alguma coisa? Li o que ele escreveu e pensei durante uns minutos. Eu não tinha visto nada. Aliás, ultimamente eu não andava a ver nada mesmo. Parecia que as minhas visões tinham tirado uma folga. E isso também se estava a tornar frustrante.

Eu não vi nada Jasper. Mas… Não sei, tenho a sensação de alguma coisa vai acontecer. Só ainda não consegui discernir se é algo bom ou mau. Então acho que não vale a pena nos preocuparmos com isso agora, soldado. Respondi e fechei o caderno.

Ele não ficou muito contente por estar a cortar a conversa, mas eu lidaria com isso depois. Estava cansada e não me apetecia continuar ali. Mas que remédio tinha eu… Encostei discretamente a cabeça no seu ombro e deixei-me ficar assim. Sempre gostei de fazer isto. E animei-me um bocadinho. Se ia ter de ficar na aula até ao fim ao menos podia ficar assim, muito mais confortável, junto à razão de toda a minha vida. Inspirei e senti o seu cheiro doce, era uma mistura de mel com menta e relva acabada de cortar. Aconcheguei-me enquanto ele passava o braço pelos meus ombros. Ouvi o sorrir e eu própria o fiz também. Ficamos assim um bom tempo, e por mais curioso que pareça a professor nem pareceu notar. Melhor…

Senti breves segundos antes de ela chegar. Os músculos do meu corpo retesaram-se e perdi o foco. Ainda antes de ser assolada e controlada pela visão pude sentir o Jasper se ajustar na cadeira ao meu lado, ele tinha percebido.

Apenas via branco. Tudo branco. Tudo estava branco. O chão, o céu, tudo… Quase não conseguia distinguir onde acabava um e começava o outro. E então percebi que devia ter estado a nevar. Porque senti as mãos molhadas quando toquei o chão.

Não consegui entender onde estava. Não fazia ideia do que era suposto ver ali. Mas tinha a sensação de que era urgente que lá chegasse. Que era mesmo ali que devia estar.

Olhei à volta, à procura daquilo que devia achar. E não percebi nada diferente. Tudo branco, apenas e só Branco… E a visão não acabava.

Ouvi um barulho atrás de mim e virei-me para ver o que era. E deparei-me com uns pequenos olhos, de um azul tão límpido e belo, que poderia mergulhar neles por horas.

Acordei do transe ainda na mesma posição. Coloquei a mão em cima do peito dele e deixei-me ficar. Se o pudesse fazer acho que agora choraria. Mas não posso. Então fiquei só assim, a respirar calmamente, enquanto o Jasper passava a mão suavemente no meu cabelo, depositando alguns beijinhos discretos no topo da minha cabeça.

Repassava na minha mente a estranha visão. Aqueles olhos azuis… não me saiam da cabeça. Tinha de perceber a quem pertenciam. Onde era aquele lugar? O que eu tinha a ver com aquilo? De quem eram aqueles olhos? Porque pareciam tão vazios?... Onde era aquele lugar?!… Tinha de descobrir onde era aquele lugar, desse por onde desse. Era impreterível.

Levantei a cabeça decidida a descobrir. Agora queria mais do que nunca sair da porcaria da aula e ir para casa. Fazer não sei o que para encontrar aquele sítio... Tinha de haver uma forma de encontrar.

A campainha tocou nesse preciso momento, anunciando o final das aulas e a hora de almoço. Arrumei as minhas coisas em milésimos de segundo sem me preocupar muito se alguém reparava na minha rapidez sobre-humana. Tinha outras coisas com que me preocupar no momento. Levantei-me e andei até à porta. Cheguei lá antes de qualquer um, com o Jasper logo atrás de mim. Dei-lhe a mão e saímos para o corredor onde nos perdemos no meio da multidão que ia em direcção ao refeitório.

Puxei-o mais para um canto, para evitar embater em alguém, e porque não era esse o caminho que queria seguir. Andamos até ao fim do corredor, mas em vez de virarmos à esquerda junto com todos os outros segurei a porta da entrada principal e passámos por ela.

- Alice, o que viste? Onde vamos? – Jasper perguntou. Enquanto me acompanhava até ao carro do Edward.

- Vamos para casa. Não aguento mais nenhuma aula hoje Jasper. E preciso decifrar o que vi. Eu… Eu não entendo. – Respondi-lhe, e ao mesmo tempo abri a porta do carro, de uma forma pouco tradicional, uma vez que não tinha a chave…. Iria ter dores de cabeça depois, quando o meu irmão descobrisse que lhe “roubei” a viatura. – Eu não consigo perceber onde é… Mas eu sei que tenho de estar ali. – Acrescentei, mais para mim mesma do que para ele. Estava perdida nos meus pensamentos. Nem prestava muita atenção na estrada. Mas isso também não era um problema. Os reflexos de vampiro nunca me deixariam embater.

- Precisas de estar em algum lugar? Porque? O que viste? – Ele voltou a perguntar preocupado. – Como era?... O lugar? Se conseguires descrever torna-se mais fácil descobrir. – Terminou.

- Fácil… — murmurei. – Branco. O lugar era branco. Todo e completamente branco. Só consegui ver neve. Quer dizer, eu acho que era neve. Eu… Eu não sei… — Disse insegura.

- Isso torna tudo mais fácil… — Ele disse ironicamente e eu dei uma gargalhada sem vontade.

- Jasper eu preciso de descobrir onde é este lugar. Há alguma coisa… Alguém à minha espera. E eu não tenho muito tempo. É importante. Eu sinto que é extremamente importante. – voltei a olhar a estrada. Estava a ficar muito preocupada e impaciente. Tinha de fazer alguma coisa. Chegámos e estacionei o carro junto à garagem. Saímos os dois ao mesmo tempo e fomos em direcção à casa.

Estava vazia. A esta hora todos estavam no colégio e o Carlisle estava no hospital. A Esme tinha saído, provavelmente para caçar. Subi as escadas e fui em direcção ao escritório. Sentei-me na cadeira atrás da secretária e abri o portátil. Fiz a ligação à internet e entrei no site de meteorologia. Tanta neve no mesmo sítio… Talvez tivesse havido alguma tempestade ou nevão. Se sim eu descobriria aqui. O Jasper sentou-se ao meu lado, e ia dando algumas dicas e indicando alguns sites onde podia ir procurar.

Ficamos ali cerca de uma hora, mas não descobrimos nada. Nenhuma tempestade de neve nos sítios mais próximos…

- Pode ser em qualquer parte do mundo Alice… Neve não há só nos EUA. – Ele alertou-me. E eu sabia que tinha razão… Como ia saber onde devia sequer procurar… Só tinha uma ligeira sensação de que era num sítio aqui perto. Não sabia porque, mas algo me dizia que era assim.

- Talvez… Mas acho que não Jasper. Alguma coisa me diz que é aqui perto, percebes?... Eu só sei que tenho perceber, quanto mais cedo melhor. – Expliquei-lhe.

Desligámos o computador mas ficámos no mesmo sítio, ambos concentrados. Eu estava na esperança de que se focasse o suficiente podia chamar a visão outra vez. Talvez ver mais algum pormenor, algo importante, que me dissesse onde era aquele sítio, ou de quem eram aqueles lindos olhos azuis.

A certa altura ele levantou-se, deu-me um beijo na bochecha e saiu para baixo. Deixei-o ir, precisava ficar um pouco sozinha e acho que ele percebeu isso. Andei em direcção à janela e fiquei a olhar o céu. As nuvens faziam desenhos engraçados na tela azul. Uma rosa, ou talvez fosse outra coisa qualquer, um cão pequenino… Perdi-me em pensamentos durante não sei quanto tempo, até que ouvi passos no exterior da casa. Eles tinham chegado. A Bella vinha primeiro, com a Nessie e o Emmet a segui-la. Só depois, mais atrás é que vi Edward a conversar com a Rosalie. Ele olhou para o carro e depois olhou para cima, para a minha janela. Estava chateado. “Foi necessário no momento… E não tentes ver o que se passa na minha cabeça Edward!”, disse-lhe em pensamento.

Vi-o entrar na casa e quando me virei para trás já ele estava na porta, junto com Jasper.

- O que foi essa visão Alice? O que significa? – ele perguntou-me, interessado. E eu suspirei. Mesmo lendo a minha mente parecia que ainda ia ter de explicar que NÃO PERCEBI NADA DO QUE VI!!! Gritei mentalmente esta última parte especialmente para ele, que me olhou de lado, como que a interrogar-se pela minha reacção…

- Edward não tenho nem tempo, nem paciência para tentar responder a perguntas agora. – disse-lhe mais calmamente.

Desci para o rés-do-chão onde estavam todos. O Emmet olhava a televisão sem interesse, enquanto a Bella e a Nessie estavam na cozinha. Não percebi o que estavam a fazer.

Sentei-me no sofá e concentrei-me novamente. Tentei chamar a visão. Se pelo menos conseguisse tê-la mais uma vez…

Senti-me a perder o foco. Deixei de ouvir o que me diziam e liguei-me à visão…

Neve. Neve em todo o lado. Olhei à minha volta e tudo estava branco. Tudo na mesma… tinha de encontrar alguma coisa. Alguma coisa que me dissesse onde estava. Ou quem estava ali, porque eu sabia que estava alguém ali… De olhos azuis.

De repente o cenário mudou. Mas não muito. Ainda continuava tudo maioritariamente branco, mas agora existia um caminho de terra batida, um pouco lamacento. Virei-me para trás e encontrei um placa. Mas não conseguia perceber o que dizia… Se conseguisse chegar mais perto. Foquei me naquele pormenor e aproximei a minha mente. Conseguia praticamente discernir as letras… WELCOME CHURCHILL FALLS. Churchill Falls… É isso. Era praticável. Se fosse por Boston era só atravessar a fronteira por Montereal. Se fossemos rapidamente ainda conseguíamos chegar lá antes de amanhã á noite.

Assim como veio, acabou. Voltei ao presente. O Jasper agarrou a minha mão e olhava-me com expectativa, enquanto que Edward me olhava com o sobrolho levantado.

- Então vais até Churchill? E sabes o sítio específico? Afinal o que vais lá fazer. Alice isto não me parece boa ideia. Pode ser uma armadilha dos Volturi. Não é seguro! – Ele disse rapidamente, sem me dar oportunidade de interromper. O que me deixou irritada. Era obvio que isto não tinha nada a ver com os Volturi. Se assim fosse não teria visto um par de olhos azuis!

- Edward estás a ser ridículo. Não tem nada a ver com eles. E eu tenho de ir. Algo me diz que não posso deixar passar isto. Não está aberto a discussão! – Levantei-me e dirigi-me à porta. O Jasper continuou sentado, a olhar para mim. Senti-me acalmar. Ele estava a usar o seu poder em mim. Olhei-lhe com desaprovação e ele abriu um sorriso tímido.

- Vamos lá então… Queres ir de carro, ou preferes correr? – Ele perguntou-me, levantando-se também e chegando até mim.

- Vais compactuar com isto Jasper? Não vês que pode ser perigoso? – O Edward ralhou enquanto levantava um braço para nós. – Pelo menos levem mais alguém com vocês… Emmet? – Ele olhou para o vampiro sentado na poltrona do outro lado da sala, que escutava a conversa…

- Não preciso que venha ninguém connosco, aliás devemos fazer isto sozinhos. Não é perigoso e não quero levar mais ninguém. Só iam atrasar. Estás a ser paranóico Edward… Já chega. – Eu disse, ao cruzar os braços. – Vamos embora Jasper. É melhor levarmos o carro. Rosalie… Podemos… — Eu ia perguntar-lhe, mas ela foi mais rápida e atirou me a chave. – Obrigada… Até mais tarde. – Disse.

Saímos pela garagem e fomos em direcção ao descapotável vermelho que estava estacionado a um canto. Entramos e puxei o tejadilho para cima. Abri a porta da garagem e seguimos viagem. O Jasper conduzia rapidamente. Acho que percebeu que estava com pressa.

- Então o que esperas encontrar? – Ele perguntou-me quando estávamos a chegar a Boston, já estava a anoitecer.

- Sinceramente?... Não sei Jasper. Eu sei que está lá alguém à minha espera e é importante que o encontre. Mas não sei o que mais esperar. Não faço ideia de quem seja. – eu respondi, desanimada.

- Hum… Não te preocupes então... Vamos chegar a tempo? – ele perguntou-me, sem nunca tirar os olhos da estrada. Concentrei-me para tentar responder.

- Sim, acho que vamos chegar a tempo… — Disse de olhos fechados.

Continuamos o caminho a uma velocidade elevada. Ultrapassamos a fronteira rapidamente e em três tempos estávamos a sair de Montereal. Mais uma ou duas horas e chegávamos a Chucrill Falls. Só faltava agora perceber em que zona da cidade tínhamos de estar. Isso estava a preocupar-me também. Não podia perder muito tempo, porque estava a chegar a manhã. E tinha a sensação de que se deixasse passar do meio-dia ia chegar tarde demais.

Ele pousou a sua mão na minha e entrelaçamos os nossos dedos. Deixou-me mais calma.

Talvez mais duas horas e chegaríamos. Passámos por uma estrada grande que dava saída para uma mais pequena, e pouco movimentada.

- Segue por ali Jasper. – Eu disse depressa, e apontei para a saída. Ele fez uma manobra precisa e já estávamos a cortar caminho. Andamos mais um bocado e a paisagem à nossa volta ia tornando-se cada vez mais deserta. As casas eram cada vez mais espaçadas, até que a certa altura deixaram de se ver. O cenário consistia em terrenos baldios, deixados ao abandono.

A certa altura o caminho começou a mudar e a estrada estreitou-se. Deu lugar a um caminho de terra batida, rodeado por… Neve! Era isto… Estávamos no lugar certo. Apesar de não ter visto a placa. Mas talvez não existisse. A visão não mostrava as coisas como eram, esta especialmente.

Seguimos mais uns metros, até que mandei o Jasper parar o carro. Ele desligou o motor e saí rapidamente para fora. O ar estava fresco, pelo menos para mim. Para um humano normal provavelmente estaria gelado demais.

Olhei à volta, à procura de alguma coisa, mas tive de segurar o cabelo com as mãos, porque o vento estava forte.

- Alice! Aqui… — Jasper gritou um pouco mais longe. Corri para lá e alcancei-o em menos de 2 segundos. Ele estava a olhar para o chão, uns metros mais à frente, onde estavam dois montes escuros no chão, na borda do caminho.

Dirigi-me para lá agora mais calmamente, com ele ao meu lado. Quando nos aproximámos um dos montes… tossiu. Era uma pessoa! Uma criança… Estava deitada no chão, coberta por meio centímetro de neve. Devia estar gelada!

- Jasper… — Eu sussurei. Não podia acreditar numa coisa destas. Quem deixa uma criança assim, no meio da neve. Sozinha… Sim, porque não estava mais ninguém à vista.

Baixei-me junto dela e estiquei a mão. Mas não lhe toquei. Não sabia bem o que fazer. Acima de tudo não queria assustá-la.

- O que sentes? – Perguntei ao Jasper. Ele estava a olhar para a criança, meio fascinado… talvez. Demorou a responder-me. – Jasper! O que é que ela está a sentir?! – Voltei a perguntar, um pouco impaciente.

- Ela está com medo. E cansada. Acho que devias tentar falar com ela. Acalma-a… Eu ajudo. – Ele disse.

Olhei mais uma vez para aquele monte deitado no chão e pude distinguir uns cabelos pretos, emaranhados com alguma sujeira. Uns cabelos compridos. Era uma menina. De 3 ou 4 anos, pelo tamanho

Toquei-lhe com a minha mão, para despertá-la. Senti quando ela se encolheu sobre si própria e se afastou do meu toque. Muito bem, não ia funcionar assim…

- Acorda pequenina… — disse suavemente. – Está tudo bem. Anda, deixa-me ajudar-te. – Continuei, enquanto lhe passava as mãos nos cabelos. Eram suaves, apesar de tudo. Pareceu funcionar, porque ela relaxou um pouco e virou-se para mim, mas sem abrir os olhos. Será?...

- Vem. Vem querida, não tenhas medo… — murmurei docemente. – Não vou magoar-te… Podes confiar em mim… — Encorajei-a. E estendi a minha mão para ela. Talvez fosse melhor deixá-la dar o primeiro passo. Não queria que se assustasse. Não queria que sofresse.

Ela sentou-se e olhou a minha mão em dúvida durante uns momentos, até que a pegou, timidamente. Quando as nossas mãos se tocaram senti um arrepio percorrer-me a espinha. Era como se tudo estivesse bem naquele momento. Como se o mundo estivesse em Paz e completo. Ela continuava a olhar as nossas mãos juntas, mas os seus cabelos impediam-me de ver a sua cara, e os seus olhos…

- Deixa-me aconchegar-te, estás gelada… — Eu disse, enquanto a envolvi com os meus braços, cuidadosamente. E era verdade, ela estava mesmo gelada. A pele estava branca demais para ser saudável. Há quanto tempo estaria ali?... Que crueldade.

Ela pareceu hesitante ao início, mas depois pareceu entregar-se. E foi então que olhou para cima. Para mim. E eu pude ver aqueles magníficos olhos azuis. Claros como o céu, escuros como o mar. Não conseguia perceber… Ela tinha uma expressão cansada e faminta. E os olhar estava vazio, triste… Como se já tivesse passado por mais do que uma pessoa, e especialmente uma criança, deveria passar.

Peguei-a ao colo e ela abraçou-se a mim. Encostou a cabeça ao meu pescoço e eu podia sentir a sua respiração fraca na minha pele, o que me deixou preocupada. Olhei para Jasper, que até aqui se tinha mantido em silêncio, só observando a cena. Ele estava com uma expressão que não consegui decifrar. Parecia-me receoso... É isso! Ele estava com medo de não conseguir controlar-se, porque ela era humana. Que tolo.

- Jasper, não vais fazer-lhe mal. – Eu assegurei-lhe, e ele aproximou-se. Não sem antes me olhar para ter a certeza… — Vem, anda cá… — Eu chamei-o. Ele veio e olhou para a menina que agora dormia nos meus braços. Estava maravilhado, o que me fez sorrir imensamente. Fez-lhe uma festa na cabeça e olhou para mim.

- Alice… O que vamos fazer com ela… — Perguntou-me tristemente, e voltou a olhá-la, hipnotizado. Eu fiz o mesmo antes de responder.

- Não… Eu não sei. Mas não podemos deixá-la aqui, ao frio. Isso está fora de questão… Nem quero pensar há quanto tempo ela deve estar aqui sozinha. Jasper é cruel! – eu disse, enquanto me dirigia para o carro, devagar porque não queria acordá-la.

- Talvez seja melhor irmos até um hotel por agora. Dar-lhe algo de comer, porque duvido que tenha comido alguma coisa nas últimas horas. – Ele disse, enquanto continuava com uma mão naquele pequeno tufo de cabelos. Consegui perceber que ele também não queria separar-se dela. Ele tinha ficado tão apaixonado quanto eu!

Caminhámos para o carro enquanto eu sussurrava aos seus ouvidos uma pequena melodia de embalar. Entrei pela por traseira. Como a tinha no meu colo era melhor ir atrás, tinha mais espaço. Ele sentou-se no lugar do condutor e ligou o motor do carro. Seguimos em frente uns metros e virámos à direita no cruzamento.

- Acho melhor irmos até Churchill Falls por agora. Lá arranjamos um hotel, e resolvemos a questão em mãos. – Ele disse, numa voz tão baixa que se não fosse a minha audição de imortal, nunca teria percebido.

- Sim. Agora só quero aquecê-la e alimentá-la. Tenta ir mais depressa por favor… — eu respondi no mesmo tom. E vi ele dar-me um sorriso torto enquanto punha o pé no acelerador.

Ainda levaríamos alguns minutos a chegar à cidade, então aproveitei o tempo para examinar a criança nos meus braços… Ela era pequena. Muito magrinha e franzina. Provavelmente devido a uma má alimentação. Trazia um casaco castanho-escuro que lhe tapava o pescoço, pelo menos parecia ser quente. Mas estava desgastado, com uma aparência velha, assim como as jeans de ganga que lhe eram pequenas demais, deixando as meias cor-de-rosa a mostra. Doeu-me o peito só ao pensar no que pode ter sido a vida desta preciosidade.

Mas agora ia ser diferente. Não ia deixar que nada lhe acontecesse, ou que algo lhe faltasse. Ia certificar-me de que quem quer que fosse que ficasse com ela a cuidaria com tudo a que tinha direito. E senti os olhos arder com este pensamento… “quem quer que fosse que ficasse com ela…”. Não queria separar-me. Só a ideia deixou-me desolada. Não podia imaginar-me a deixá-la em algum lugar. Não… Ela era minha.

- Alice, o que se passa? – Jasper perguntou-me preocupado. Deve ter sentido a minha mudança de humor, porque logo a seguir senti uma onde calma e felicidade apossar-se de mim.

- Não quero deixá-la… — Eu murmurei, e olhei para ele através do espelho retrovisor. Ele devolveu o meu olhar também com tristeza. Percebia o meu dilema. Vampiros não cuidam de crianças. Vampiros não vivem com pessoas normais. Mas eu não podia colocar a hipótese de abandoná-la para outra pessoa. Não!

- Talvez… — Ele começou, mas deixou a frase morrer a meio. Olhava para a frente, com uma expressão pensativa no rosto.

- Sim?... O que ias dizer? – Eu perguntei com expectativa.

- Talvez possamos fazer isto funcionar… — Ele disse calmamente. – Ficar com ela, eu quero dizer… Talvez nós consigamos cuidar dela. – Terminou, sem me olhar. Estava com medo do que eu ia dizer, de que eu lhe fosse cortar as esperanças. Acho que ele quer ficar com ela tanto quanto eu…

Sorri amplamente e olhei para o pequeno anjo que agora se tinha esticado no banco, e tirei o casaco para a cobrir com ele. – Sim. Talvez nós possamos. – Eu disse. – Eu não quero deixá-la Jasper. Se a minha visão me trouxe aqui é porque é suposto eu cuidar dela, não?... Não ia conseguir deixá-la. Acho que me ia destruir se o fizesse. – continuei…

- Não sei como vamos convencer o resto da família Alice. Duvido muito que eles achem piada à ideia. – Alertou, mas pude ver a sua expressão mais relaxada. Acontecesse o que fosse, eu sabia que ambos faríamos tudo para resultar. Nenhum de nós queria perder este presente.

- Eu consigo dar um jeito neles. Eles vão ter de aceitar! – eu disse com firmeza.

- Mas já pensaste que ela pode ter-se simplesmente perdido? – perguntou – Não sabemos se tem família à procura dela… — Eu não tinha pensado nessa hipótese. Para mim era óbvio que a tinham deixado ali, sozinha. Mas… E se eu estivesse enganada. E se andasse alguém à procura dela. Olhei para baixo e vi como ela dormia serenamente. Eu não podia separar-me dela. Havia ali uma conexão inexplicável que me dizia que pertencíamos uma à outra… Ela precisava de mim, assim como eu precisava dela…

Ponderei por um momento antes de responder. – Não acho. Como é que ela se iria perder ali, no meio do nada? Como é que ia lá parar? Além disso trazia essa mochila com ela, aposto que aí dentro encontras roupas… Não, eu acho que alguém a deixou ali propositadamente. Porq… Porque queria ver-se livre dela. – Eu disse de forma sombria. Quem no seu perfeito juízo se iria querer livrar de uma menina como esta?

- Sim, talvez tenha razão… Também não gosto da ideia de me separar desse anjinho encantador. – Ele disse docemente, e eu sorri.

- Acho que estamos os dois apaixonados. – brinquei. Mas era verdade, era mesmo assim que estávamos. Cativados por uma pequena princesa.

Chegámos à cidade em 20 minutos e rapidamente encontrámos um hotel para ficar. Nada de muito luxuoso, porque não queríamos muita atenção, embora o carro da Rose por si só já puxasse por isso. O Jasper estacionou e ajudou-me a tirá-la do carro junto com a pequena mochila e um peluche que também encontrámos com ela. Dirigimo-nos até à entrada e ele foi pedir um quarto. Vi o gerente dar-lhe a chave e fomos até ao elevador. Subimos para o 6º andar e entramos no nº13.

Tinha uma sala espaçosa, com tons quentes e aconchegantes. Algumas tapeçarias tradicionais penduradas na parede tornavam o sítio muito acolhedor. Sentei-me no sofá e esperei ele terminar de ligar para o serviço de quartos a pedir que servissem um almoço.

- Achas que devemos acordá-la? – Eu perguntei depois de um empregado ter chegado com a bandeja e ter partido. Ela parecia tão calma a dormir, deitada no sofá com o meu casaco por cima, que me estava a custar ter de a acordar, mas por outro lado ela devia estar faminta. Tinha que se comer qualquer coisa…

- Sim, talvez seja melhor… — Ele disse inseguro. – Deixas me ser eu a fazê-lo? – Perguntou, enquanto se aproximava de nós. Estava com… receio.

- Claro que sim meu amor. – Eu sorri e dei lhe um beijo suave no ombro. Ele ajoelhou-se ao lado do sofá e encostou a mão na cabeça dela, devagar.

- Uma bonequinha a dormir…

Num berço a balançar.

Com sonhos que a deixam sorrir,

Até à hora de acordar…

- Ouvi-o cantar baixinho ao pé dela… Encostei-me no sofá e fechei os olhos enquanto ouvi o resto da canção.

– A noite acabou

E o dia vem devagar…

A bonequinha acordou,

Num berço a balançar…

- Ele terminou e repetiu tudo mais uma vez. Ambos sentimos quando ela se mexeu no sofá ao despertar.

Primeiro olhou para ele, com uma expressão assustada, mas logo relaxou. Sentou-se e olhou para mim, com aqueles olhos azuis… Parecia que estava a concentrada, a tentar pensar em alguma coisa…

- Bom dia pequenina. – O Jasper disse. E ela olhou para ele. – Como te sentes? – perguntou… Ela pareceu hesitar, e olhou novamente para mim. Sorri lhe, encorajando-a.

- Eu… tenho frio. – Ela disse, numa voz fina e num tom baixo, enquanto se aconchegava no casaco. Levantei-me e fui ao quarto buscar uma coberta que enrolei à sua volta calmamente. Ela observou os meus movimentos com curiosidade.

- Quem são vocês?... Onde está a minha mamã? Ela voltou? – ela perguntou com expectativa, e olhou à volta do quarto à procura de mais alguém. Quando percebeu que estávamos sozinhos voltou a sentar-se, com uma expressão desolada. Doeu-me o coração de a ver assim.

- Eu sou a Alice. E ele é o Jasper… Nós, queremos ajudar-te… — Eu disse, e ia continuar mas ela interrompeu-me.

- A encontrar a minha mãe??? – Perguntou rapidamente. Mas depois pareceu pensar um pouco e ficou muito quieta. – Eu não acho que ela quer que eu a encontre… El… Ela foi… Foi-se embora… E, eu… eu não q… não quero ficar sozinha. – conseguiu dizer, entre soluços. Eu cheguei-me até ela e envolvia nos meus braços. Sentei-a no meu colo e embalei durante um bocado.

- Não te preocupes meu amor. Não vais ficar sozinha. Não te vamos deixar sozinha. Nunca. – Eu disse, enquanto a ouvia chorar nos meus braços. Olhei para o Jasper em busca de ajuda, não sabia o que fazer para a acalmar…

Ele chegou-se mais perto e passou a mão na cabeça dela. – Não chores pequenina. Nós não te deixamos sozinha. – disse, e eu senti o seu choro acalmar até não passar de um suave soluçar de ombros.

Ela olhou para cima, primeiro para mim e depois para Jasper. Depois saiu do meu aperto e moveu-se em direcção a ele. Passou os braços pelo seu pescoço e agarrou-se ali. Ele envolveu-a e deixou que ela ficasse lá. Acho que poucas vezes o vi tão feliz. Olhou-me surpreso, como se não pudesse acreditar naquilo que estava a fazer… Mas muito contente consigo mesmo. E eu não via nem uma sombra de dor ou esforço no seu belo rosto. Estava sereno.

- Eu disse-te que eras capaz… — Sussurrei-lhe, e ele sorriu-me.

Levantei-me do sofá para lhes dar lugar. Ela continuava com a cabeça escondida no ombro dele, como se estivesse a aproveitar um colo que nunca teve... Dirigi-me até à bandeja com comida e levantei o plástico que a tapava, com facilidade. Por baixo tinha um prato com alguns legumes a um canto e enfeitado com três pequenas batatas e um bife coberto de um molho estranho, branco. Franzi o sobrolho… É suposto ela comer disto? Voltei-me para trás e levei o carrinho até eles.

- Querida, vem, tens de comer alguma coisa meu amor. – Disse suavemente, enquanto me ajoelhava junto deles e lhe tocava as costas com a mão. Ela levantou a cabeça, com uma expressão que não consegui decifrar e depois olhou o prato com comida. Estava faminta, pude perceber. Menos mal, pelo menos desta forma iria comer aquela “iguaria” estranha.

- Vamos comer qualquer coisa?... – Perguntei e estiquei os meus braços para ela, que logo os agarrou. Recebi-a no meu colo e o Jazz preparou o prato com rapidez, colocando-o à nossa frente.

Primeiro pensei que talvez precisasse de ajuda, mas ela logo pegou a colher timidamente e mesmo com as mãos um pouco trementes serviu-se de alguma comida. Olhei-a comer deliciada. Tanto eu como ele admirávamos a cena como se fosse a coisa mais bela do mundo, e naquele momento, para mim, era. Estranho, ficarmos fascinados por uma coisa tão banal. Mas parecia que a criança nos puxava para ela, ao ponto de não ser possível desviar o olhar.

Senti o telemóvel tocar na minha bolsa, em cima da mesinha de entrada. Corri para lá. Não precisei olhar o visar para saber quem era…

- Carlisle. Está tudo bem connosco. Não aconteceu nada. – Assegurei-lhe. – Não havia nenhuma armadilha… Podes descansar o Edward! – Acabei, aborrecida, sem o deixar falar qualquer coisa.

- Que bom! – Respondeu-me aliviado. — Então estão os dois bem? Onde estão, Alice? –

- Estamos num hotel, em Churchill Falls. Vamos ficar aqui mais uns dias, até resolvermos um assunto… — Disse, e olhei o sofá, onde ela já tinha terminado de comer e agora conversava com Jazz. – Assim que soubermos o que vamos fazer voltamos, Carlisle. – Terminei, mais suavemente.

- Que assunto? Afinal o que significava a visão?! – Ouvi a voz do Edward no outro lado.

- Podes, por favor, dizer ao meu irmãozinho que não precisa se preocupar? Eu e o Jasper explicamos tudo quando chegarmos. – Frisei o “irmãozinho”. Já me começava a irritar toda aquela desconfiança da sua parte.

- Sim, mas que assunto é esse Alice? Precisam de alguma coisa? – Carlisle disse, parecia preocupado.

- Não é nada com que precisem se inquietar agora… Quando voltarmos. … Talvez… Acho que vamos levar uma surpresa. – respondi receosa. Não queria pensar na reacção deles agora…

- Surpresa?! Alice, vê no que te metes! – O Edward disse. – Deixa-me falar com ela, Carlisle. – Ouvi um barulho na linha. – Quanto tempo vão demorar? – Ele perguntou, assim que agarrou o aparelho.

- Não sei Edward! Mais alguns dias!... Vais ter de dar uma desculpa na escola. – Quase gritei, chateada.

- Oh… Ele já deu. – Ouvi a gargalhada do Emmet do outro lado, enquanto falava. O que será que ele tinha feito?!! – Disse que estavas com problemas de estômago, por comeres… chocolates demais. E que o Jasper estava a cuidar de ti… Alice, não sabia que eras tão sensível!! – Ele gritou do outro lado, com falsa preocupação e depois desatou a rir. “Eu não acredito nisto!!!”

- Edward! Como foste capaz!!! Eu nem gosto de chocolates! – Gritei-lhe, perplexa. Ele apenas se riu, do outro lado.

- Eu não acho que o problema sejam os chocolates, visto que não é só isso que tu não comes… — O Jasper disse, enquanto chegava mais perto, com a menina nos braços. Ambos estavam sorridentes, e ele piscou-me o olho. Óptimo! Era só o que faltava. Juntem-se todos à festa…

- Edward! Vais pagar caro por isto – Ameacei e ouvi várias risadas do outro lado.

- Não devias ter feito isso com a tia Alice, pai. – ouvi alguém murmurar. A minha Nessie. Era a única do meu lado.

- Devias escutar a tua filha! – Eu disse. – Vais arrepender-te disto. – continuei sombriamente. Fechei os olhos e concentrei-me. Dei uma gargalhada com gosto… — E até já sei como.-

- Alice… — Fez-se silêncio, tanto neste como no outro lado da linha. Virei-me para aqueles olhos azuis que me encaravam, interessados. – Não gostas mesmo de chocolates? – Perguntou-me, com uma vozinha de criança. Ia responder-lhe, mas fui interrompida por uma voz exaltada.

- Alice! Quem está com vocês? Estão loucos?!! – ele estaria com certeza vermelho se pudesse…

- Sabemos o que estamos a fazer, Edward!! – cortei – Já chega! Falamos melhor quando voltarmos. – E desliguei o telemóvel. Não valia a pena tentar explicar assim.

O Jazz olhava-me com preocupação estampada no rosto. Aproximei-me dele e roubei-lhe a menina dos braços. Ela agarrou-se a mim com total confiança. Senti o meu peito aquecer…

- É verdade… Eu não gosto de chocolates. – Respondi docemente, enquanto fazia uma cara feia. – eles fazem borbulhas… — Ri-me da expressão que ela fez.

- Mas são tão bons! Doces! – Ela disse, com convicção. Levantou as mãos até a minha cara e fez me olhar para ela. Aqueles olhos eram viciantes…

- Tens de gostar de chocolates! Fazem bem, sabias? Fazem-te feliz… — disse, muito orgulhosa de si mesma. Não pude deixar de sorrir.

- Muito bem então, vou pensar no teu caso. – respondi. – Mas acho que agora precisas de um banho bem quente! Que tal? – Sugeri. Apesar de a sua cor já ter regressado um pouco à normalidade, ainda a sentia muito fria. E tinha de dar um jeito naqueles cabelos despenteados.

Peguei-lhe na mão e levei-a em direcção ao banheiro. Era amplo, com tons cremes, tinha uma banheira não muito grande, encostada a um canto. Liguei a água e esperámos que chegasse a uma altura suficiente.

Ela ia tirando as roupas e pude ver que tinha um corpo mais franzino do que me tinha parecido inicialmente.

Ajudei-a a lavar-se e passei um champô nos cabelos. Assim, livre, eram bastante compridos, e muito macios. Tinham um tom negro, muito parecido com o meu, e ondulavam um bocadinho. Peguei uma toalha enorme e enrolei-a, trazendo-a para a cima da cama, king-size. Tinha-mos que esperar que Jasper chegasse com algumas roupas para ela, que saiu para comprar.

Ia passando um pente nos seus cabelos, enquanto conversávamos. Percebi que havia qualquer coisa que ela queria… esconder? Não sei, mas não parecia querer falar sobre isso. Chorou desconsolada quando lhe perguntei porque estava lá, no meio da neve, sozinha. Entre as lágrimas consegui entender que a tinham deixado, que lhe tinham dito que não a queriam… Partiu-me o coração, vê-la naquele estado, e senti uma raiva imensa, descontrolada, por quem quer que fosse que a tivesse abandonado.

Então resolvi passar para tópicos mais banais, mais suaves. Mas enquanto a ouvia ia pensando no que fazer… Não podia deixá-la aqui sozinha. Tinha de haver uma maneira de poder cuidar dela, sem a colocar em risco pelos motivos óbvios. Porque era isso que queria, cuidar dela. Ela era minha … Cheguei à conclusão que, fosse de que maneira fosse, o Jazz iria ter de falar com J. Jenks. Teríamos um novo membro na família.

Com a decisão tomada abracei-a e fiz-lhe algumas cócegas na barriga. Queria deixá-la feliz! E foi nesta brincadeira que o meu parceiro nos encontrou.

Depois de tê-la vestido com um vestido azul clarinho, umas meias brancas com uns sapatos pretos e um casaco preto também, coloquei-lhe um ganchinho no cabelo. Apreciei o resultado… A mudança era evidente. Se já era magnífica antes, agora não tinha como encontrar qualquer defeito. Era uma bonequinha mesmo.

Saímos para a sala e vi o Jazz maravilhar-se com ela. – Quem é esta princesa deslumbrante?! – Ele perguntou teatralmente, enquanto a pegava e rodopiava no ar. Estavam ambos a sorrir satisfeitos.

- Agora só falta saber uma coisa minha menina – eu disse, suavemente, e dei-lhe um beijinho nos cabelos.

- O… O que? – Ela perguntou desconfiada. Sorri.

- Ora… Como te chamas, é claro! Ainda não nos disseste o teu nome meu amor. – Disse.

- Ah… — Ela riu-se e nós também. Mas nada me preparou para aquilo que ouvi a seguir…

- O meu nome é Emma Cecile Brandon. –

Notas finais
Aqui está! Se tiverem alguma dúvida é só perguntar :)
Espero que tenham gostado ^-^