Mezzanotte
1 The Heron, 11:56AM
O Pinot Noir desce pela minha garganta com estupendo frescor enquanto uma doce junção de violinos ecoa na impecável acústica do salão. Não há ninguém conhecido em meio à multidão.
Ah, a classe alta... Todo o esplendor, os pequenos símbolos que fazem com que uma simples camisa custe o triplo de seu valor, as conversas civilizadas sobre assuntos considerados cultos, comidas de gosto discutível e em porções minúsculas que não fazem... É nauseante.
A longa saia de meu vestido cor de creme arrasta nos sofisticados azulejos do chão, e o ruído dos meus saltos marca cada passo enquanto caminho para a porta que leva a uma das luxuosas suítes da cobertura. Estive naquele mesmo lugar desde o começo da festa, e já perdi a conta de quantas cantadas baratas e ofensas podem ser recebidas em uma única noite. Logo que fecho a porta, o som dos violinos cessa atrás de mim. A luz provém da vista da cidade de Londres, banhada pela chuva; é de tirar o fôlego. Ando até a janela e observo a chuva cair por alguns segundos.
— O que conseguimos até agora? — A voz de Christian se faz presente. Ele está sentado na cama com uma taça de champagne na mão. Trocamos as taças, e o sabor adocicado da bebida dourada dança para minhas papilas gustativas. Não é incomum, e nem legal uma menor de idade beber em festas desse porte.
Com a mão direita, tiro da bolsa os seis cartões que me foram oferecidos essa noite. Cirurgião plástico, advogado, engenheiro ambiental, CEO, ator, e...
— Conseguimos o que queríamos — Respondo. — Daryl Campbell, jornalista de Extra!Ordinary. Deu até tempo de notar um padrão nas pessoas que pediam bebidas, de tanto tempo que fiquei lá analisando.
— Ótimo — Christian guarda os cartões no bolso. — Padrão? Foi difícil conseguir o contato?
— Ah, um padrão bem simples. Os casados, que na maioria das vezes precisam dirigir, pediam coisas mais suaves, ou um vinho branco, ou somente bebidas de fruta. Os solteiros pegavam vinhos e bebidas mais fortes, incluindo vodka, e também água com gás. E também, iria se admirar com o quão fácil é conseguir o contato desses babacas. Não preciso nem me mover.
— Imagino. Pode ser loucura minha, mas sei que Campbell está envolvido nisso de algum modo. — Ele dá um sorriso irônico — Já conseguimos o que viemos buscar. Vamos avisar os outros e ir embora.
Daryl Campbell,um jornalista novato, jovem e bonito que vem se destacando na publicidade canadense por matérias realistas que tem a ver com sua área: Jornalismo investigativo. Talvez Christian esteja certo quanto a isso. A mídia normalmente é traiçoeira e capaz de tudo por uma boa manchete.
— Espere — Chamo, e bagunço um pouco seu cabelo. — Isso.
Ele dá uma gargalhada e diz — Claro, tinha me esquecido.
Enlaço a mão em seu braço e saímos da suíte. Chris pede para que a pequena orquestra toque a oitava sinfonia de Beethoven, nosso toque de recolher, e logo Michael e Kaya nos encontram. À medida que andamos até a porta dourada do elevador, agarro um petisco de ricota e o coloco na boca. Assim que chegamos ao lobby, ouço meu celular tocar.
— Alô — Digo.
— Devem ter te oferecido algo muito bom para você aceitar a parceria — A voz rouca de Apollo é o que ouço ao atender.
— Não sei porque ainda se preocupa com isso — Sorrio. — O que houve?
— Se eu fosse você, não sairia do Heron. Temos monitorado as câmeras de segurança de todos os corredores, e garanto que há algo de errado no 406. Sugiro que vá checar.
— Senhor, — Debocho. — Não vá achando que faço isso porque obedeço a você. Sabe que faço isso pelo prazer da adrenalina.
— Nunca sonharia com isso, senhorita — Ele ri do outro lado da linha. — Até logo.
— Até mais.
Kaya e Christian estão ao nosso lado, e Michael me olha com curiosidade quando desligo o celular.
— Esqueci algo lá em cima — Digo, olhando em sua direção. — Me acompanha?
— Não vou deixar uma dama indefesa andar por aí sozinha — Ele caçoa e sorri.
Voltamos ao elevador, e sua curiosidade se eleva quando aperto o penúltimo andar, ao invés da cobertura. O corredor é escuro, mas as luzes pálidas se acendem assim que damos o primeiro passo. O apartamento é o último do corredor, que se encontra vazio.
— Você me dá cobertura? – Pergunto.
— Claro – Ele responde.
Rapidamente, analiso a fechadura. Não deve ser muito difícil de abrir. As fechaduras desses prédios antigos...
Com facilidade, abro a porta e entro no apartamento. O quarto é menor do que o de praxe, e está escuro. Giro o interruptor para a luz não ficar forte, e adentro o local. É uma espécie de flat de luxo, no qual o quarto fica à esquerda e a cozinha à direita. O cheiro aqui faz com que eu tenha dor de cabeça; isso não é um bom sinal.
Caminho para o quarto, o cheiro aumentando e minha cabeça doendo cada vez mais, o que me faz praguejar baixinho quando vejo uma estante com cinco vidros contendo algumas substâncias. Um deles está aberto e, como havia pensado, é dele que vem o cheiro. Deus, uma simples faísca poderia incendiar esse lugar inteiro. Pego um pequeno tubo de minha bolsa e despejo com cuidado parte da substância transparente nele, fechando também o vidro. Depois disso, olho em volta. É um quarto grande, com uma cama enorme coberta com um edredom branco e uma porta que leva ao banheiro mais para a esquerda. Quando estou prestes a descobri-lo, um assobio de Michael me alerta, e ando para fora do quarto, conferindo mentalmente se peguei tudo que tinha levado. Celular, certo. Bolsa, certo. Frasco, certo.
Bem a tempo de trancar a porta e chegarmos ao fim do corredor, um jovem sai do elevador. Foi por pouco.
— O que te entreteve? – Michael pergunta, e tiro o pequeno frasco da bolsa, dando em sua mão.
— Acho que deve saber o que é isso – Digo.
— Sei bem. Não é um bom sinal ter isso aqui. Você acha que houve outro sequestro?
— Talvez... Realmente não é um bom sinal. De qualquer modo, não vamos saber agora.
*
Magma House, 2:16AM
— Éter etílico? – Benedict repete quando lhe dizemos o que está no frasco.
— Sim, senhor. – Michael diz. – Era comumente usado como anestésico, mas não há nada de seguro com ele, por isso foi substituído por substancias mais seguras. Era usado na verdade para cirurgias mais invasivas, porque era perigoso. Ele é extremamente tóxico, causa irritação no trato respiratório e mal estar.
— A questão, senhor, é que quando passado sobre a pele, a evaporação do produto diminui a sensibilidade e provoca uma sensação de frio, que possibilitam a aplicação de injeções. Acho que já sabe onde isso poderia acabar – Prossigo — Também, o éter é altamente inflamável, podendo ocasionar incêndios com facilidade, e atualmente é necessário de autorização da polícia para obter ele, porque não só anestésico, é um solvente para óleos, gorduras, perfumes, inclusive para excluir cocaína.
— Entendo... – Benedict diz novamente. – Parece que faltei várias aulas de química quando estudava. Vamos manter um olho a mais no Heron. Com certeza há algo de errado lá. Muito obrigado pelas descobertas. Podem ir.
Quando movo os olhos pela sala, Kaya me olha feio como sempre faz. Ah, aquela garota me odeia. Jogo um beijo em sua direção e saio do laboratório com Michael, que dá a ordem para os outros pesquisadores voltarem ao trabalho. Andamos lado a lado até o meu quarto, e minhas pálpebras já estão pesadas. Não me deram detalhes sobre a missão, mas sei que com certeza há algo bem mais do que errado. Na minha humilde opinião, não se deve mexer com a ciência.
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