Notas iniciais
Dentre os meus piores medos, o que mais me atormenta é me tornar uma pessoa que se esqueceu de seus próprios princípios.

Não era algo especial daquele dia que eu tivesse acordado durante a madrugada. Na verdade, nas últimas duas semanas, isso tinha se tornado um hábito que eu até já tinha me acostumado. Eu não sei o porquê. Se me sentia ansiosa por nada e, portanto, isso acabava acontecendo ou se era apenas mais um reflexo do estresse diário que eu estava tendo.

Às três horas em questão, após abrir os olhos, o barulho de algo se chocando com o chão fez o meu coração disparar violentamente. Olhei para os lados, tentando captar qualquer tipo de movimento que eles pudessem notar. Foi então que reparei que o meu corpo não estava se mexendo.

Finalmente a famosa paralisia do sono havia me pegado. Meu batimento cardíaco ficou ainda mais acelerado, pois ao olhar para cima, tive a minha primeira alucinação da noite: um homem pálido, de óculos e oriental me encarava com um sorriso sem mostrar os dentes. Toda a força que coloquei em minhas mãos e pés para me mexer trouxeram-me algum resultado uns minutos depois, enquanto ele ainda me encarava.

Ao fechar os olhos e abri-los novamente, ele não estava mais lá. Se eu não soubesse que podemos alucinar quando estamos tendo a paralisia do sono, com certeza, começaria a duvidar de minhas crenças religiosas.

Com os movimentos de volta, levantei-me e fui até a cozinha para me servir um copo d’água. Durante o trajeto, notei que uma de minhas plantinhas havia caído no chão, esparramando parte da terra. Logo lembrei do barulho que escutei quando acordei. Mais para cima, notei que a janela em que a plantinha ficava, estava aberta. No entanto, a cortina não balançava, o que me causou estranhamento, pois deveria ter sido o vento a derrubá-la.

Fechei a janela e me servi de água, voltando para a cama em seguida. Passei uns vinte minutos refletindo sobre os acontecidos até pegar no sono novamente e ele ser interrompido pelo despertador me avisando que eram seis e meia.

Hora de levantar-se.

Contudo, eu não me levantei de imediato. Posterguei o tempo que consegui na cama até finalmente reunir coragem suficiente para pôr-me de pé e iniciar mais um dia. O que se seguiu, do momento que levantei, até chegar à empresa que eu trabalho foi completamente como nos outros dias: vestir uma roupa; tomar um gole de café; sair correndo pedir um Uber e chegar um pouco atrasadinha.

Um grande infortúnio tinha me acontecido dias atrás, na qual o meu carro havia decidido que não iria mais funcionar. Agora ele estava no mecânico e encontrava-me indo trabalhar de Uber todos os dias desde então.

Assim que cheguei na empresa e coloquei minha bolsa em cima da minha mesa, o estagiário olhou para mim com uma feição de desespero. Respirei fundo, antes de dizer:

— Diz pra mim que não aconteceu algo muito grave. — Ele deu um riso pra dentro, continuando calado. — Tudo bem. Pode me falar, mesmo que seja muito grave. Vamos conseguir resolver.

— A gráfica ligou agora pouco avisando que não irão conseguir entregar os folders a tempo.

Respirei fundo, me sentando e iniciando o computador à minha frente.

— Certo. Talvez não consigamos resolver.

O estagiário continuou a me encarar.

— E por qual motivo? — Perguntei.

— Eles tiveram uma falha técnica e a maioria dos folders saíram com uma coloração que não foi a que pedimos.

— Qual a solução que eles apresentaram?

— Não cheguei a perguntar.

O estagiário fez uma cara de bunda, percebendo que ele deveria ter pressionado a gráfica sobre o folder, visto que precisávamos dele o quanto antes.

— Tá bom, me passa o telefone.

Ele me entregou e busquei pelo número da gráfica, discando em seguida.

— Gráfica dos Irmãos, bom dia.

— Bom dia. Eu gostaria de falar com o seu chefe, por favor.

— Quem fala?

— A diretora de comunicação da Brief.

— Ok. Um momento que eu vou passar pra ele.

Ele era, além de dono da gráfica, a pessoa com a qual tínhamos fechado o negócio com os folders para um evento que o nosso cliente teria no próximo dia.

— Oi, bom dia. Quem fala?

— Bom dia. É a diretora de comunicação aqui da Brief, tudo certo?

— Tudo sim.

— Olha só, o nosso estagiário me passou que vocês nos ligaram avisando que não conseguirão entregar os folders a tempo hoje. Quero saber mais sobre o que aconteceu.

— Então, nós tivemos um problema com cores aqui nas nossas principais impressoras e o técnico já está vindo arrumar. Mas não consigo entregar a demanda pra vocês hoje, pois nós vamos ter que reimprimir tudo novamente e é um número muito alto.

— Você sabe que eu tenho prazo para a entrega desse material, não sabe?

— É, isso eu sei. Mas assim, não tenho o que fazer... sabe? É o que tem pra hoje, infelizmente.

— Então eu quero que você dê prioridade máxima para nós, e faça o possível e o impossível para me entregar esse material amanhã cedo. O evento do meu cliente é amanhã pela parte da tarde e se ele tiver que acontecer sem esse folder, eu vou romper qualquer tipo de acordo que vocês tenham com a nossa empresa. Você sabe que somos a sua principal fonte de faturamento. Não me decepcione.

— Pode deixar.

A ligação foi encerrada.

Virei-me para o estagiário e disse:

— Você não precisa tratar as pessoas com grosseria. Mas às vezes você vai ter que pressioná-las para que elas percebam o seu erro e corram atrás de resolvê-los. Você não pode passar o pano pra algo quando não foi o combinado, certo?

— Certo, chefia... Você tem uma reunião com o departamento de atendimento agora. Na sala de reunião Rafe 3.

— Obrigada por lembrar. O café está pronto?

— Está sim — ele respondeu. — Ali em cima.

Me servi de café, peguei o meu caderno de anotações e fui na direção da sala de reunião mencionada por meu estagiário. Não tinha a menor ideia sobre o que seria.

Ao chegar, reparei que, exceto pelo estagiário que não participava de muitas reuniões, todo o meu time da área de comunicação estava presente. Assim como o diretor de atendimento e seus analistas e o CEO da empresa.

A reunião iniciou e não demorou muito tempo para descobrir que era, basicamente, uma comida de rabo do povo de atendimento em cima do povo de direção de arte. O problema ali enfrentado era que o nosso rendimento e a nossa produtividade não estavam sendo suficientes e que estávamos passando por muito retrabalho – alterações pedidas pelos clientes em nossas artes – e o atendimento às novas contas da agência estavam ficando mais atrasadas.

Alguém quis jogar a culpa no briefing realizado pelo pessoal de atendimento e o pessoal de atendimento quis jogar a culpa para o pessoal de criação, seja por falta de habilidade ou interpretação.

Isso continuou por um tempo, até o CEO falar.

— Estamos enfrentando um momento sombrio aqui agora. Vocês, ao invés de pensar sobre como resolver o problema, estão pensando em acharem um culpado. Isso não vai fazer a menor diferença no momento e podem ficar despreocupados que serei eu a achar o culpado, ou culpados. Se bem que acho que um time que não se dá muito bem junto, é um time em que todos já são os culpados. Esse não é o tipo de comportamento que eu esperaria da nossa agência.

As pessoas ficaram quietas e constrangidas.

— A questão é a seguinte: a diretora de comunicação, junto com o diretor de arte, vai encontrar um novo profissional que irá atuar no atendimento das novas demandas. Quanto ao restante, passaremos a monitorar a produtividade de cada um de vocês, pois queremos ver o retorno do salário de cada um de vocês, que não é baixo.

A reunião foi encerrada com isso. Antes de sair, contudo, o CEO acenou para mim, me chamando. Esperei todos saírem da sala e fechei a porta.

— Você precisa de alguma coisa?

— Sim, por favor. Pode ver esse relatório que está aqui na frente?

Fui em sua direção, olhando para o papel em cima da mesa. Não levou mais de dois segundos para que, ao chegar na sua frente, ele me agarrasse e eu sorrisse em resposta.

— Tive que conter uma ereção a reunião inteira, pois estava louco pelo momento em que ela fosse acabar e eu poderia finalmente beijar essa tua boca linda.

Eu o beijei ali mesmo, já sem tempo para demorar. O que se seguiu foi uma sequência de coisas que ninguém deveria saber e, vinte minutos depois, estava eu ajeitando a minha roupa e em seguida o cabelo, bagunçados pelo que se antecedera.

— Pensei em fazermos algo no sábado. O que você acha? — Eu o sugeri. — Não estou mais aguentando poder ter você apenas entre uma reunião ou outra.

Meu chefe ergueu uma sobrancelha em dúvida.

— E o seu marido? — perguntou, lembrando-me de meu adultério.

— Está viajando para a empresa. Se bem que não duvido que ele só esteja comendo a secretária em qualquer motel por aí.
Meu chefe sorriu. Ele achava divertido quando eu falava sobre meu marido, talvez por algum fetiche estranho em foder com a mulher dos outros.

— Mas a questão é que ele não estará em casa no sábado — me aproximei mais dele — e eu posso te mostrar melhor quais são os meus lugares favoritos da casa para foder.

Seu sorriso debochado tornou-se um sorriso safado e ele disse:

— Mal posso esperar.

— Você acha que consegue dar um perdido na sua esposa também?

— Eu sou o CEO de uma empresa, meu amor. Eu também estou sempre a viagens.

Eu sorri.

Depois de um beijo e mais uma ajeitada no cabelo, eu saí da sala de reuniões. Contudo, não tive tempo para ficar animada ou qualquer coisa do tipo, pois o meu celular começou a vibrar incessantemente e obriguei-me a ver que a Hamburgueria Donatel’La estava me ligando.

Era o cliente dos folders.

— Alô, bom dia — atendi.

— Oi, bom dia. É a diretora de comunicação?

— Isso mesmo. Algum problema?

— Sim. Olha só, entrei em contato com o seu estagiário e ele me informou que os folders não serão entregues hoje, apenas amanhã.

— Exatamente. Eu já tratei com a gráfica para eles nos darem prioridade máxima, mas o que ocorreu foi um erro técnico deles que já está sendo tratado.

— O combinado foi serem entregues hoje, não foi?

— Isso, mas acidentes acontecem. Não conseguimos prever tudo.

— Precisávamos disso para hoje, para prepararmos os nossos funcionários hoje, pois o nosso evento é amanhã! Me admira a sua falta de profissionalismo. Se um erro acontece com o meu hamburguer, eu encontro um meio de fazer outro e agradar o cliente.

— Não é questão de falta de profissionalismo, é questão de um acidente com o nosso fornecedor. Por isso, peço desculpas, mas não vou tolerar ofensas.

— Você não vai precisar tolerar mais nada mesmo, porque não voltaremos a fechar negócios com vocês. Se para a impressão de cinco mil folders isso acontece, imagine um projeto maior.

— O senhor está sendo injusto e eu tenho trabalho pra fazer. Então, como já dito, desculpas pelo atraso. Até mais.

— Espero que isso seja corrigido o quanto antes.

A ligação foi encerrada pelo próprio cliente. Respirei fundo, tremendo de nervosismo. Não importava que eu fosse uma das pessoas mais importantes da agência, desde muito cedo, envolver-me em discussões ou ficar sob uma enorme pressão me deixava estressada.

O celular vibrou novamente com uma mensagem no whatsapp, de uma cliente em potencial.

“Bom dia. Marcaram uma reunião comigo e ninguém apareceu. Estou completamente arrasada com o descaso.”

Maldito estagiário.

Além dessa, uma mensagem pessoal também surgiu entre todas as outras dezenas que queriam algo de mim. Uma mensagem de minha irmã.

“Oi. A cachorra não está muito bem. Me liga.”

Encontrei um lugar mais afastado dentro da agência e disquei para ela.

— Oi, irmã.

— Ah, oi.

— O que está acontecendo com ela?

— Ela está vomitando. Será que foi algo que comeu?

Meu coração deu uma aliviada, ao menos era só um vômito e não algo mais sério.

— O que você tem dado a ela?

— Ração normal. Mas essa semana um pessoal veio aqui em casa e jogaram algumas outras coisas para ela. Será que foi isso?

— Acredito que sim.

— Graças a Deus. Estava completamente assustada.

— Fica tranquila, mas de olho nela. Se voltar a acontecer, você me liga.

— Ok, pode deixar. Mas e aí, como que tu tá?

— Tô quase surtando. Tem muita demanda aqui na empresa. Hoje mesmo a gráfica resolveu nos foder e não conseguiu entregar uns folders. Agora pouco estava em ligação com um cliente e ele me desceu o cacete. É estressante, irmã. Maldita hora que decidi cursar publicidade.

— Nossa, que horrível. Mas pelo menos você conseguiu, né? Está cheia do dinheiro, é uma profissional renomada.

— Mas no fundo eu me pergunto se vale tanto estresse por alguns folders.

Minha irmã não conseguiu dizer nada depois da minha fala e nem tinha o porquê, pois nós duas sabíamos que era verdade.

— E eu tô transando com o meu chefe casado.

— Nossa. Essa eu não esperava de você. Você também é casada, ou eu preciso te lembrar?

— É... eu sei. Mas não estávamos em um bom momento. Aposto que ele está fodendo outra agora mesmo.

— É sempre bom lembrar que um erro não justifica outro.

— É... mas enfim, como está a sua filha?

— Está muito bem — ela riu, entusiasmada. — Falou mamãe pela primeira vez essa semana. Foi um momento bem emocionante, mas agora o meu marido está com ciúmes, porque não foi ele. — Ela riu.

Eu admirava a família de minha irmã. Especialmente o marido incrível que ela conseguiu encontrar.

— Que bom. Fala pra ela que eu mandei beijos. Agora preciso desligar, tenho que voltar a trabalhar.

— Falo sim. Até mais, irmã.

Ela desligou a ligação.

A partir de então eu tive que realmente voltar a trabalhar e dar um esporro no estagiário por não ter me avisado da reunião que havia marcado. Depois disso, trabalhei feito uma condenada. Sobre uma análise mais profunda, no fim, eu estava me estressando por um trabalho que daqui algum tempo não faria muita diferença no mundo. Talvez nenhuma.

Era extremamente exausto me estressar pelo que os clientes consideravam o fim do mundo e que, na verdade, não era. A minha função na empresa havia deixado de ser direcionar pessoas, para resolução de problemas. Todo dia tínhamos algum e todo dia eu tinha que resolvê-los porque, se eu não o fizesse, ninguém o faria.

Depois de horas extras exaustas, decidi ir embora. Já era noite quando estava esperando meu Uber para ir pra casa. Infelizmente eu era a última pessoa a ir embora, então estava tudo apagado e silencioso.

O Uber demorou cerca de cinco minutos a chegar e assim que o fez, sentei-me no banco de passageiros. Ele sorriu, simpático.

— Boa noite — eu falei, ao entrar.

— Boa noite, tudo bem?

— Tudo sim.

Ele deu início a nossa viagem.

— Voltando essa hora, deve ter trabalhado um monte, hein?

— Você nem imagina o quanto — respondi, tentando fazer com que a conversa morresse, pois não estava muito interessada em forçar uma simpatia que não precisávamos.

— E tá bem quente hoje — ele continuou.

— É verdade. Mais quente do que ontem.

— Com certeza.

Depois disso a conversa morreu de verdade. E, ao longo do trajeto, não pude deixar de notar que seus olhos estavam inquietos. Eles passavam da estrada para o GPS, do GPS para mim e de mim para a estrada. Ele fez isso no mínimo umas cinco vezes.

Meu celular vibrou. Era meu chefe.

— Oi — disse ele, assim que atendi.

— Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

— É... aconteceu. Olha só, não vou poder me encontrar com você no sábado. Falei com a minha esposa e ela meio que deu uma surtada aqui, então vou tentar amenizar a situação no final de semana, até por causa das crianças... Mas você é uma mulher inteligente, então entende, né?

— Novidade. Ela sempre surta assim.

— Não posso culpá-la, meu amor. Não temos sido muito cuidadosos e tem uma amiga dela na empresa que está desconfiando. Então qualquer coisinha é motivo de explosão.

— Quem é a amiga dela?

— A analista do departamento financeiro.

— Hum. Sei que é.

— Agora eu preciso desligar... até amanhã.

— Até.

A ligação se encerrou e fui jogada de volta para a realidade, já com os meus pensamentos não tomados pelo meu chefe e a sua esposa. Então que eu percebi que Uber estava diminuindo a velocidade, uma esquina antes de casa, e parando em um local escuro.

— O que você está fazendo? Não é aqui ainda.

Ele travou as portas.

— É... eu sei. Só queria te fazer uma proposta.

— Não tem proposta nenhuma! Me deixa sair.

— Calma, gatinha. Relaxa. Eu acho que você vai gostar.

— Eu não quero saber. Você sabe que eu tenho os seus dados pelo aplicativo, não sabe?!

Ele se aproximou de mim e me vi obrigada a soltar o sinto e empurrá-lo com todas as minhas forças. O Uber se tornou um monstro de um segundo para outro. Seu sorriso de canto deu lugar a uma linha sem expressão e um olhar safado a um olhar raivoso, violento.

— Você não deveria ter feito isso.

Tentei abrir a maçaneta com força.

Ele segurou os meus braços para cima do banco e beijou a minha boca. Meu primeiro instinto foi mordê-lo e chutá-lo com força. Nos segundos que ele foi jogado para trás e minhas mãos ficaram livres, tive a chance de pegar a chave de casa do bolso e dar mais dois socos nele. Não adiantou muita coisa e ele veio pra cima de mim novamente.

O alarme do carro disparou.

Ele ficou completamente assustado e, na ânsia de fazer o barulho parar, destravou o carro e consegui abrir a porta do passageiro. Saí e saí correndo, mas não pude deixar de ouvir seu último comentário:

— Eu sei onde você mora, sua vadia!

Não parei para retrucar ou qualquer coisa do gênero. Não sabia se meu coração já tivera tão acelerado antes. Ao chegar na porta de casa, errei ao mínimo quatro vezes o encaixe dela na maçaneta. Minha mão tremia muito e finalmente as lágrimas estavam caindo.

Eu quase fui estuprada. Ainda pela porra de um Uber.

Assim que entrei dentro de casa, dei uma última olhada pela janela da sala e vi o carro do Uber passar devagar na frente de casa.

Meu primeiro instinto foi me sentar e discar o número do meu esposo.

— Alô?

Eu não respondi de imediato.

— Alô? Está tudo bem?

Respirei fundo, antes de dizer:

— Eu quase fui estuprada pelo Uber.

— Meu deus, que horrível! Como você está agora?

— Eu estou acabada.

— Você já denunciou ele?

— Ainda não, era a próxima coisa que eu iria fazer.

— Ok, toma um banho, deita na cama e descansa. Vou pegar um avião agora para ir pra casa cuidar de você.

— Obrigada.

— Não se preocupe, meu amor. Vai ficar tudo bem. Logo eu estou em casa.

Dessa vez, eu encerrei a ligação.

Eu não o merecia. Tinha certeza disso.

Mesmo assim, fiz o que ele sugeriu. Tranquei a porta, fechei as cortinas da sala e subi para tomar um banho quente. Com a água caindo sobre os meus cabelos, sentei-me no chão e abracei os joelhos.

Se eu pudesse fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para ter um abraço de minha mãe, eu o faria. Tudo o que eu mais queria naquele momento era ouvir a sua voz. Ouvir que ficaria tudo bem; que todos os meus problemas melhorariam daqui um tempo.

Mas eu não tinha como.

Se, ao menos, eu tivesse conhecido o meu pai.

Depois de vinte minutos no banho, eu saí, vesti uma roupa confortável e me deitei na cama. Liguei a televisão e coloquei um filme romântico para assistir enquanto tentava pegar no sono.

Minha mente não me permitiu tentar dormir com tranquilidade. As cenas de o que poderiam ter acontecido comigo se o alarme do carro não tivesse disparado me atormentavam. Fiquei o tempo de o filme acabar virando de um lado para o outro tentando pegar no sono.

Quando menos percebi, eu estava em cima de um prédio. Era cedo e o vento ali era muito forte. A beirada estava cerca de dois metros na minha frente e ali de cima eu conseguia enxergar paisagens belíssimas. Conseguia ver a vida lá embaixo: pessoas e mais pessoas correndo atrás de seus objetivos comuns, tentando conquistar algo que no fim não faria a menor diferença.

Eu só sabia disso agora, que tinha conquistado o que muitos buscavam.

— Pula.

Eu olhei na direção da voz.

— Pula.

Eu não conhecia o homem idoso a minha frente.

— Eu não vou pular — respondi, dando dois passos para trás.

— Por quê?

— Eu tenho medo.

— Você tem medo, mas não disse que não quer pular.

— Eu vou me machucar se eu pular.

— Você não vai sentir.

— Como você sabe?

— Eu já pulei. E estou aqui agora.

— Como foi?

— Pular?

— É.

— Você tem que pular para descobrir. Você quer ajuda?

— Não. Acho que eu consigo sozinha.

O homem desconhecido sorriu.

— É verdade. Você sempre foi uma mulher independente.

Eu andei até a beirada. Meu corpo já estava em estado de alerta e minhas mãos estavam suando frio.

— Você não pode pensar muito sobre. Só pula.

— E se eu me arrepender de pular?

— Por que você se arrependeria? Você não quer pular?

— Quero.

— Então não tem do que se arrepender.

Então eu pulei.

Meu corpo estava caindo por dezenas de andares em uma velocidade exorbitante. Eu não conseguia gritar ou fazer qualquer outra coisa.

Só conseguia experimentar a sensação da liberdade.

Eu estava finalmente no controle.

Eu estava sentindo tudo o que eu poderia sentir, naquele momento.

E depois não estava sentindo nada.

FIM.

Notas finais
Se alguém leu, deixe-me saber ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!