Meu verdadeiro Mundo
1 Prólogo: Euzinha
Notas iniciais
Prólogo: Euzinha
Eu sou sua irmã em meio a sua caminhada
Sou sua melhor amiga não importa o que for
Sou sua conselheira em momentos bons e ruins
Sou seus olhos lacrimejados e perdidos
Eu sou o seu mundo.
Todos os dias desde que começara o segundo ano do ensino médio (a mais ou menos cinco meses), eu me torturava em levantar as cinco da manhã, por ser totalmente lenta e não conseguir me arrumar em dez míseros minutos e abrir o portão para entrar no carro que me levaria a escola em outra cidade, eu acabava gastando mais de vinte minutos para esse acontecimento majestoso que iniciava o meu dia, animadamente. Semana de provas e a escola pública em Belo Horizonte era acolhedora com a sua pequena área verde logo na entrada, claro que o terreno atrás dela com a mata alta e uma poça d’água fedida colaboravam muito (havia dias que mal se sentia o odor de esgoto, pois as narinas já estavam acostumadas).
Uma nova cerca encontrava-se em volta da área verde, onde aparentemente era o melhor lugar para se sentar (mas que particularmente eu achava, que depois de tantos traseiros pressionando a grama, tinha deixado o solo infértil e por isso ao redor de duas grandes e viçosas árvores, havia círculos de terra seca) perto de um muro de tijolinhos vermelhos que nos separava do terreno “abandonado”, então enquanto eu ainda estava na cama, com o cabelo amarrotado e cheio de pequenas bolinhas de algodão nas pontas duplas, eu me perguntava porque tinha me deixado levar para aquela situação deplorável. Meu peito estava vazio, inabitado de emoções fixas, olhei para o teto e o celular vibrava ao lado da pilha de livros em cima do criado mudo, minha avó roncava ao pé do meu ouvido na cama de casal, o quarto quente e as cortinas pesadas detinham a invasão do sol (eu queria continuar deitada por mais alguns minutos, mas a vida não é perfeita, né).
Foi então que o peso na consciência sobre minha possível demora me atingiu como uma âncora, provocando um gemido que ficou preso na garganta, não queria que a velha acordasse, se isso acontecesse sabe Deus o que ela inventaria de falar para que eu fizesse o café. Levantei-me sorrateiramente jogando o edredom pesado de lado, peguei os meus óculos e usei o celular para iluminar o quarto. O ventilador rugia em cima da mesinha de madeira velha ao pé da cama, que deixava pouco espaço para que eu passasse pela minha beirada da cama. Sai do quarto suspirando e tratei de tirar o blusão com estampa de oncinha e a calcinha, joguei no chão do banheiro miúdo com ladrilhos brancos até a metade da parede e entrei no box, salpicado de creme dental.
Ainda eram cinco e quarenta, eu deveria ter levantado antes, meu estômago reclamava pedindo por comida e eu tentei não demorar muito no banho, mas quando sai, vi que já se passara dez minutos e ainda me sentia sonolenta com o vapor da água me envolvendo e embaçando o espelho do armarinho pequeno acima da pia. Peguei a escova de dentes já desgrenhada e sai do banheiro com ela dentro da boca aliviando o odor de podridão que saia desse buraco que entrava mais besteiras do que alimentos saudáveis. Eu tinha dormido cedo ontem à noite e esquecido de escovar os dentes, minha garganta pinicava com a sede e tudo o que eu fazia era me olhar no espelho que estava em cima da tábua de passar roupa, averiguando meu corpo nada sexy, nem curvilíneo, era meu corpo marcado com os anos e que estava ali, úmido e diante de mim como um retrato defeituoso que eu me recusava a admirar, não tinha nada de bonito ali.
Vesti uma calcinha de oncinha (se você acha que eu gosto de estampas, meu querido você está muito enganado), um top azul ao invés de sutiã, e procurei uma blusa de uniforme que já não estivesse usada, mas todas estavam, estiquei-as e cheirei debaixo das mangas, peguei a que estava parcialmente neutra, com o leve cheiro de desodorante Dove e a vesti. Das duas calças nenhuma tinha cheiro de bunda. Ufa! Demorei isso tudo para me descrever saindo da cama, que maravilha. Claro que gastei mais uns cinco minutos olhando para o chão, mordendo as cerdas da escova na minha boca, segurando uma meia rosa com bolinhas com uma dificuldade poética sobre qual pé eu calçaria primeiro.
Para ficar mais claro como roupa de molho em água sanitária, vou tentar não dar spoiler logo de início, minha vida é um porre e você não vai gostar de como vou descrever cada acontecimento o mais precisamente possível, tenho um lance com detalhes que não sei como funciona, quero me entender como o quanto você quer saber que diabos está acontecendo na vida dessa garota ou o que vai acontecer. Tem a ver com gostar de um cara que parece só querer brincar com os sentimentos alheios e de outro que é quase parecido só que com um QUÊ a menos (que infelizmente tem uma namorada, a garota mais fofa e amorosa que já conheci, afinal, ela aparenta ser assim, e morro de medo só de pensar em duvidar disso), sexualidade e a porcaria da adolescência alterada por algum acontecimento do passado que veio à tona agora e uma mistura de fantasia.
Um típico clichê juvenil, e a proposito me chamo Mia, exatamente como uma das personagens mexicanas da novela Rebeldes, eu nunca fui muito com a cara dela, cheia de frufru e magrinha (não tenho nada contra as magrinhas, minha melhor amiga é um “palito”, mas é sociável e não fica de charminho para nenhum Miguel da vida). Que comecemos a história.
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