Meu, somente meu
1 Capítulo 1
Akashi guardou seus materiais na mochila e olhou para trás. Kuroko ainda anotava o que a professora havia passado no quadro, ele era bem devagar pra essas coisas.
— Tetsuya.- chamou o azulado, que levantou a cabeça para olhar o quadro, aproveitando para olhá-lo também. O ruivo riu internamente, ele parecia desesperado. — Quer pegar meu caderno depois da aula? Eu não preciso dele já que entendi a matéria.
— Akashi-kun….- ele largou o lápis e o olhou.- Não vai precisar dele para estudar?- perguntou preocupado, não queria atrapalhar os estudos dele.
Sorrindo Seijuro negou com a cabeça.- Eu uso os que tem lá em casa, pode pegar, isto é, se não se importar com as anotações.- abriu a mochila, entregando o caderno de capa azul.
Kuroko pegou o caderno com grande felicidade.- Com certeza são mais organizadas que as minhas, não entendo uma palavra do que ela diz, então o meu caderno fica uma bagunça.- guardou tudo o que tinha na mesa de qualquer modo na mochila, tendo um cuidado especial com o caderno emprestado. Sorriu e agradeceu o azulado, recebendo um aceno em resposta.
Não era de hoje que o namorado o ajudava, e ele ajudava muito por sinal. Desde que entraram no ensino médio, o azulado se perdeu no novo ritmo de ensino, acabando tendo dificuldade em certas matérias. Akashi passou a tirar suas dúvidas da semana inteira nos dias livres e logo depois saiam, em dias que não podiam se encontrar conversavam por mensagens. Sim, Seijuro era o namorado perfeito, inteligente, romântico e responsável.
— Vamos sair hoje?- a pergunta o tirou da pequena contemplação. Era sexta-feira, finalmente. Mas justo hoje ele não podia.
— Sinto muito.- se desculpou olhando pra baixo.- Hoje o filho de uma amiga da minha mãe vai chegar pra passar o mês na lá em casa, ela quer que eu passe o tempo com ele, já que é sua primeira vez no Japão.- explicou.
— Entendo, acontece o mesmo comigo as vezes.- levantou a cabeça do menor com uma das mãos, enquanto a outra segurava a mochila.- Já que é assim, por que não vamos ao parque amanhã? Pode levar ele, vai ser bom nos conhecermos já que estarei muitas vezes na sua casa.
— Ao parque?- os olhos azuis brilharam em antecipação, não percebendo a malícia na frase.- Sim!- o abraçou animado.
Assim como Kise e Momoi, Akashi e Kuroko amavam parques de diversão, apesar de não parecerem ser desse tipo de pessoa. Essa era uma das suas programações favoritas depois de assistir filme em casa, ir pro shopping e lanchar na sua lanchonete preferida. Clichê? Sim, mas gostavam.
O maior se livrou do abraço e o beijou.- Ótimo, mais tarde quando ele chegar, pergunte a ele e me mande a resposta.- o disse quando separou seus lábios. — Vamos? Não sei se percebeu, mas ainda estamos na porta da escola.
Tetsuya se afastou e corou, havia esquecido isso. Acenou positivamente e começou a andar, com o ruivo do seu lado.
~.~.~
Akashi chegou em casa e se deitou na cama. Estava um pouco cansado, mas isso não ia impedi-lo de fazer o que devia.
Quando terminou os deveres, se preparou para jantar. Desceu as escadas e se encontrou com seu pai já na mesa, lendo algum assunto da empresa.
— Acredito que não seja muito educado ler na mesa durante o jantar.- comentou enquanto se sentava, atraindo a atenção do maior com as características iguais a si, se não fosse pelo cabelo e olhos de outra cor. Isso ele ‘puxou’ de sua mãe.
O adulto desviou sua atenção para o filho. — Sim, não é, mas isso é realmente importante.- observou o ruivo começar a comer. — Como vão as coisas no colégio?
— As de sempre.- Seijuro respondeu após engolir a comida.
— Alguma dificuldade?
— Não.
Perguntas e respostas simples eram trocadas entre eles, apesar de serem pai e filho, mal se viam.
— Como vai seu relacionamento com aquele garoto?- depois de um tempo o mais velho o perguntou, quebrando o silêncio com uma pergunta muito constrangedora para Seijuro.
— Hã?
— Tetsuya o nome dele, certo? Bem, como vão?-
— Pai….
— Nunca vi um relacionamento tão duradouro como esse. Vocês namoram desde que tinham uns 8 anos.- bebeu um pouco do suco e Akashi repetiu o ato.- Já fizeram aquilo?
— O que?!? Pai!- quase cuspiu o líquido.- Como pode me perguntar esse tipo de coisa?!- não elevou o tom de voz, mas sua voz ecoou pela sala quase vazia. Se existe uma coisa vergonhosa para um adolescente, é conversar sobre, bem, sexo.
— Ainda não? Como você é lento, puxou isso de quem? De mim que não é.
— Pai, por favor….- repreendeu o mais velho, tão vermelho quanto seu cabelo.
— Tudo bem, tudo bem. Parei.- riu do filho e se calou por um momento.- Mas quando for fazer use camisinha. Não sei como funciona, e prefiro continuar não sabendo, mas é sempre bom usar proteção.
Seijuro voltou a comer, decidido a esquecer a conversa.
— Não saíram hoje?- esse definitivamente é o momento mais constrangedor de sua vida, mas não custava nada responder.
— Não, ele teve que receber o filho de uma amiga da sra. Kuroko no aeroporto. Amanhã vamos sair cedo.- notificou.
— Faça o que quiser, desde que mantenha suas notas no estudo.- disse sério e dessa vez, pra valer e alívio do ruivo, ele se calou de vez.
~.~.~
Literalmente, se tacou na cama. Nunca mais falaria com seu pai sobre seu relacionamento de novo, nem que pra isso tivesse que se tacar da janela.
Ouviu o som do celular debaixo do travesseiro. Uma nova mensagem havia chegado, uma mensagem de Kuroko. Segundo o azulado, o filho da amiga de sua mãe gostou da ideia, então iam se encontrar na estação perto da escola.
‘Por que estou chamando ele disso mesmo? Ah, verdade. Ele não me disse o nome desse garoto.’ Parou para pensar que o coitado ainda nem nome tinha. E já era tarde para perguntar para o namorado. Perguntaria quando se encontrarem.
~.~.~
— Akashi-kun! Aqui!
Avistou o menor sentado em uma das cadeiras de um café da estação. Ele estava sozinho.
— Bom dia.- falou enquanto se aproximava, ficando perto o suficiente para beijar a cabeça do azulado. — Veio sozinho? Onde ele está?- o perguntou.
— Foi ao banheiro, logo volta.
Se sentando do lado de Tetsuya, pegou discretamente a mão de Kuroko. Isso ele fazia desde pequeno, todo recreio ficava do lado do azulado e por debaixo da mesa davam as mãos enquanto assistiam seus amigos fazendo bagunça.
— Isso me lembra do pré.- falou a lembrança que teve.
— Kuroko, quem é esse?- uma terceira voz chamou Tetsuya pelo sobrenome sem o kun. ‘Muito íntimo’ esse foi o primeiro pensamento de Akashi. Se virou e deparou-se com um homem, maior que si, por que todos que conheciam eram maiores que eles?
— Kagami-kun,- menos-mal, ao menos ele não o chamava pelo nome também.- esse é Akashi-kun, um amigo do meu colégio.
O ruivo, o qual ele tinha certeza que era falso, sorriu.- Agami Taiga, prazer.- o ofereceu a mão, típico ato americano. Com certeza não fazia ideia das culturas do país em que estava, mas, mesmo assim, Akashi não seria grosso. Pegou a mão do maior e balançou.
— Seijuro Akashi. Tetsuya não me falou muito sobre você.- comentou olhando para o azulado.
— Que? Ele não parou de falar um minuto sobre você desde que propôs irmos ao parque.- Kuroko desviou o olhar envergonhado. — Era sempre “Akashi-kun é um pouco estranho, mas você vai gostar dele” ou “Se puder, evite fazer isso na frente dele, por favor. Ele não vai gostar.”- gesticulou a medida que falava.
O ruivo deixou um sorriso divertido escapar.- É? Não sabia que me achava estanho, Tetsuya.- provocou o azulado que virou de costas.
— Vamos logo, senão perderemos o ônibus e não poderemos curtir nada.- e saiu andando rápido com a desculpa.
Relaxando os ombros, Kagami o seguiu, e logo em seguida Seijuro se recompondo. Entraram dentro do veículo e se sentaram na última fileira, Kuroko no meio dos dois.
— Ah, acabei de lembrar.- o maior chamou a atenção dos dois.- Kuroko, ontem você disse que havia ido muitas vezes lá, e mesmo assim não se cansava porque tinha uma boa companhia, quem é?
A função de vida de Taiga era envergonhar Tetsuya, se ele não fizesse isso, falharia como ser humano.
Realmente, o azulado ia muito no parque de diversões, mas nem tanto. — Amigos da Teiko.- respondeu simples ao mesmo tempo que sentia uma das mão do namorado subir por suas costas por debaixo da blusa. O olhou pelo canto do olho, ordenando-o parar. Akashi quis rir, mas preferiu conversar com Taiga, estava gostando do rumo.
— Vamos sempre que possível junto com Satsuki e Ryota.- explicou a meia-verdade. Se seu namorado não queria que ele dissesse a verdade, não falaria. Ainda.
— Satsuki? Ryota? Quem são esses?- os perguntou com sotaque. Seu japonês era bom, sabia dizer o necessário, e até o desnecessário, mas para dizer os nomes precisaria melhorar.
Se encostando no banco e fechando os olhos, Kuroko decidiu desistir de tentar de parar os dois, que haviam virado amigos de uma forma mais prática do que imaginava. Por um bom tempo, até chegarem no local, ficou ouvindo o bate-papo dos dois. Após muitos comentários vergonhosos ou de duplo sentido por parte de Akashi, finalmente chegaram ao local.
~.~.~
— Uou! Aqui é maior do que eu imaginava.- Taiga olhou para todos os brinquedos do parque assim que entraram. Estava mais animado do que uma criança. Não que Kuroko estivesse diferente. Um brilho de animação era visível nas orbe azuis, mesmo que o menor já tivesse decorado a cada centímetro do parque.
Enquanto o azulado andava na frente, conversando com a mãe no telefone, Kagami chamou Seijuro e iniciou novamente a conversa. Não da maneira que o garoto de olhos heterocromáticos gostaria.
— Você é bastante próximo do Kuroko, não é mesmo?
A vontade de responder ‘Sim, ele é meu namorado desde do terceiro ano afinal.’ era grande, mas Akashi se controlou e apenas disse o sim.
— Sabe se ele é gay?
Taiga estava jogando cada vez mais lenha na fogueira, e hora ou outra se queimaria o fogo.
— Por que quer saber?- o perguntou ríspido, seu olhar se tornando mais afiado e por dentro do bolso da jaqueta, suas mãos se fechavam em um punho. Ah, como se arrependia de não ter trago algo pontiagudo.
O maior deu de ombros. — Gosto dele.- respondeu simples, mal sabendo do risco que corria agora.
Essa pequena frase, sem nada demais pra qualquer um, conseguiu fazer Akashi desfazer toda a gentileza que havia tido até o momento. E o que era pior, o fazer ter ciúmes.
Infelizmente, antes que o ruivo pudesse comentar algo e colocar Taiga em seu devido lugar, Tetsuya voltou, sorrindo.
— Vamos lá.- apontou para a montanha-russa. De relance, Seijuro viu o falso ruivo ficar pálido, e sorriu maldoso por um instante, antes de voltar a falsa cara de boa pessoa.
— Claro, não vejo problema algum. Vamos, Taiga?
Tremendo, o maior olhou pra altura do brinquedo e depois pro azulado. — Lá?
— Sim, lá mesmo, vem logo caso contrário pegamos fila.- Kuroko tomou uma mão do maior e Akashi a outra, a apertando mais – com o claro objetivo de machucar –, mas não teve efeito algum. Então simplesmente o puxou junto com o namorado pra fila pequena que havia se formado na demora.
— Kuroko, olha a altura disso!!- Kagami gritou mais que as pessoas quando viu o carrinho pegar velocidade e sumir de sua vista.
— Medo?- o ruivo sorriu, com o olhar zombando do americano, que não deixou de perceber.
Engolindo seco, Kagami forçou uma cara normal e começou a andar junto com as poucas pessoas da fila. — Nem um pouco.
Tetsuya, já dentro do carrinho apenas assistia a interação com a cara normal inexpressiva, porém mal esperando o que viria a seguir.
Akashi, pra infelicidade de Taiga, se sentou ao lado do azulado. — Acho que vou no banheiro rapidinho, podem ir sem mim.- já estava saindo quando Tetsuya pegou seu braço e o jogou dentro do carrinho, ao lado de um estranho. E o brinquedo começou a andar. — Vou morrer.- declarou, logo em seguida começou a gritar. O ‘veículo’ acelerava.
Não estavam um pouco mais rápido que o de antes?
Os próximos segundos, que para o falso ruivo parecia uma tortura, se passaram rapidamente para Seijuro e Tetsuya. Ambo riam das voltas ou até mesmo dos gritos afeminados que o maior soltava no banco de trás, e em um certo momento deram as mãos as escondidas de desconhecidos, como sempre faziam.
~.~.~
O dia passou normalmente após a cômica atitude do maior, exceto pelas vezes que se repetia em brinquedos mais ‘radicais’.
De vez em quando, Akashi deixava sua raiva transparecer, até o namorado aparecer e o fazer esquecer, com carinhos ou frases maliciosas indiretas – sim, ele havia entrado no joguinho, não que o ruivo reclamaria disso–.
O maior obviamente notou, mas preferiu ficar calado, até o azulado pegar a mão do ruivo menor e dividir o amado milkshake de baunilha, coisa que ele não fazia com ninguém.
— Akashi-kun.- Taiga parou de andar, e o ruivo repetiu. Ouviram Kuroko dizer algo sobre ir na lanchonete e depois num jogo que dava prêmios e o deixaram ir sozinho. — Você tem alguma coisa com o Kuroko?
Finalmente a pergunta que o garoto de olhos heterocromáticos estava louco para responder.
— Não diria que tenho algo com ele.
— Tem sim.
— Ciúmes?- o menor deixou o deboche claro na pergunta. — É uma pena não? Ele está me dando mais atenção.- Akashi lançou um sorriso debochado em direção ao maior.
— E por que você acha isso?- viu Tetsuya voltar, deixar o milkshake que havia comprado com Seijuro, pegar algo de dentro da mochila que havia trago e ir em direção a barraca de jogos. — Ele te conhece a mais tempo que eu, claro que ficaria mais com você.
— Estamos juntos a quase oito anos, especificamente.- Akashi fez questão de marcar o tempo que namoravam, sem contar o que se conheciam. — Ciúmes de alguém que conheceu faz um dia? Que ridículo, Bakagami.
Bakagami… soava bem melhor do que havia imaginado. Talvez pelo fato de ser uma ofensa misturada com o nome dele?
— Não me chame assim.- ordenou, Taiga. Ele tinha dado uma ordem a um imperador? — Quem você pensa que é?
— Sei-kun.- e novamente Kuroko voltou, dessa vez com uma enorme pelúcia. — Aqui, pra você.- entregou para Seijuro, sorriu – provavelmente tinha esquecido da presença de Kagami – e saiu correndo. Quantas vezes tinha feito isso?
Akashi sorriu vendo o azulado se afastar e se virou pro falso ruivo, se aproximando. Altura? Ele tinha amigos maiores que ele e os deixou no chão mesmo assim, não seria por causa de um qualquer que isso mudaria. — Não está na cara? Ou é tão burro que não consegue perceber?
Taiga ergueu uma sobrancelha. — Ou talvez não tenham nada?
— Sou Seijuro Akashi, namorado de Tetsuya.
O maior soltou uma risada escandalosa. — Está mentindo.- afirmou.
— Não preciso provar para seres inferiores minha superioridade.- ficou sério. — Afaste de Tetsuya, se fizer algo contra ele, não pouparei esforços para lhe colocar no devido lugar.- ordenou e ameaçou, depois sorrindo falsamente. — Irei mais vezes na casa dele esse mês, não se preocupe, terá muitas e muitas vezes para brincar de desafiar a morte.
— Não vai ficar lá sempre. Tudo isso é medo de perder ele?
— Não temo coisas inúteis. Duvida mesmo? Saiba, Bakagami,- os olhos heterocromáticos lançaram um brilho perigoso. Akashi acabava de achar uma nova diversão, que andando na linha que estava não duraria muito. — que até ir embora, você terá que me engolir.- sorriu de canto. — E Tetsuya é meu e somente meu. Boa sorte em tentar tirá-lo de mim.
— Seu…!- antes que pudesse debater contra o ruivo, Tetsuya apareceu e saiu puxando o namorado ao mesmo tempo que falava.
— Akashi-kun, Kagami-kun! Vamos naquele lá!
— Claro. Vamos Tetsuya.- pegou na mão do menor e seguiu andando, não sem antes olhar para o lugar que ficou Taiga, o lançando um olhar de desafio, que fora respondido com um de raiva.
Trocavam farpas por Kuroko, mesmo já sabendo quem ganharia essa.
E ele sequer sabia. Ou sim, era muito observador e conviveu com o ruivo a quase dez anos, sabia o que cada atitude dele significava. Não conhecia bem o falso ruivo, mas esse já era mais que legível. Um livro aberto na verdade.
E preferia não se intrometer nos acontecimentos do mês que viria.
Um longo mês.
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