Meu querido sonâmbulo 2
4 Minha querida investigação
Já fazia quase cinco anos completos que as principais atividades matinais de Kim Namjoon se resumiam a limpar mesas, banheiros, organizar o estoque da aconchegante cafeteria onde trabalhava desde os seus vinte anos e tudo mais o que lhe fosse ordenado — aconchegante, no caso, apenas para os clientes que não passavam do balcão para dentro. O trabalho era puxado, o suficiente para que o jovem Kim fosse o único que já estivesse durando por tanto tempo como empregado naquele lugar. Tirando ele, o funcionário mais antigo tinha apenas dois anos de casa e já estava com tudo pronto para pedir sua demissão e, assim como o próprio dizia, aproveitar sua alforria bem longe daquele lugar. Contudo, mesmo que tivesse que trabalhar sob tais condições, Namjoon não se importava muito com o que o serviço lhe demandava. Primeiro de tudo, já havia se acostumado com todas as regras e tarefas e, segundo, para onde iria se não fosse ali? Seu chefe era o único homem que não tinha se importado com a condição física de Namjoon ao contratá-lo e, por isso, o Kim sentia que o mínimo que deveria fazer para demonstrar sua gratidão era trabalhar sem reclamar ou exigir nada.
Ou, melhor traduzindo, Kim Namjoon era apenas mais um escravo gado do capitalismo. Mas vamos deixar para discutir isso em um outro momento, está bem? Talvez quando eu, narrador dessa peculiar história, me sentir um pouco menos revoltado com essa situação.
Naquela manhã em específico, mesmo que sua cabeça estivesse lotada de outros pensamentos, a rotina de Namjoon não estava sendo tão diferente: chegara na cafeteria às oito horas e trinta minutos em ponto para que, às dez, pudesse abrir as portas da mesma e iniciar oficialmente seu expediente. Já eram nove e alguns muitos quebrados e, como o bom funcionário que era, o Kim já tinha conferido todo o estoque de grãos e outros ingredientes, organizado o balcão e limpado a cozinha. Havia somente ele e mais outro rapaz no local, um tímido e jovem aprendiz de barista que raramente desviava os olhos das cafeteiras, e, por isso, o silêncio reinava enquanto Namjoon terminava de limpar e organizar as mesas que logo mais estariam lotadas de clientes. Seu chefe obviamente ainda não havia chego, pois o mesmo só costumava dar as caras depois do almoço, e os outros funcionários costumavam chegar cerca de dez minutos antes do começo do expediente — por isso, Namjoon geralmente era o único a chegar tão cedo, já que cabia a ele a tarefa de aprontar todo o lugar para que estivesse impecável ao abri-lo.
Bem, agora havia o tal aprendiz de barista também, sobrinho do dono e que chegava mais cedo para conseguir treinar um pouco mais suas habilidades com os diversos grãos de café, mas o jovem não chega a ser relevante para a nossa história. Prossigamos.
Enquanto terminava de limpar a última mesa, Namjoon ouviu soar o suave sino da porta da frente. Estava de costas para a mesma e não se importou de se virar imediatamente, já que com certeza se trataria de algum dos funcionários chegando para trabalhar e que logo se manifestaria com um sonoro, porém igualmente frustrado, bom dia.
Pois bem, o Kim achou errado.
— Desculpe, senhora, mas nós ainda não abrimos. — o Kim ouviu o jovem barista dizer de trás do balcão no seu típico tom baixo e reservado, o que o fez franzir o cenho. Não era exatamente o que ele estava esperando ouvir. — Porém, se quiser, pode se sentar em uma das mesas e aguardar um pouco que...
— Tudo bem, eu não vim como cliente. — disse a voz feminina que automaticamente fez Namjoon se virar em direção à porta.
Assim que o fez, o atendente se deparou com a figura um tanto imponente de Shinhye fitando-o de volta e esperando que o mesmo a notasse ali. Ela vestia uma calça social tingida por um tom de nude bem claro e uma blusa branca, também social. Nos pés havia um par de sapatos de salto com o solado avermelhado os quais Namjoon, apesar de não se lembrar do nome da marca, sabia que custavam um rim e meio e possivelmente mais uma parte do seu salário. Assim como os saltos, a bolsa era preta e completava de vez e com maestria o visual de mulher independente e bem-sucedida de Shinhye.
Na verdade, Kim Namjoon não havia reparado em sequer metade dessas coisas, eu que decidi lhes contar mesmo. Mas prossigamos com a história.
— Shinhye? — o Kim perguntou, aproximando-se dela que ainda estava de pé próximo à porta. — Aconteceu alguma coisa?
Tecnicamente, Shinhye estava com pressa e inquieta demais para explicações e rodeios, então apenas decidiu ser direta e franca com Namjoon.
— Quanto você cobra pela hora? — ela perguntou firme.
Ao fundo, os dois ouviram algumas tossidas de um barista engasgado e surpreso com a pergunta que, mesmo sem querer, tinha escutado por detrás do balcão. Namjoon o fitou com o cenho franzido e, quando finalmente entendeu o que se passava na cabeça do mais novo, voltou-se para Shinhye com um olhar surpreso.
— Olha, eu sei que você me encontrou num estado não muito agradável na sua rua na noite passada, mas não é o que você está pensando. — o Kim respondeu, na defensiva. — Eu não faço essas coisas.
— Que coisas? — foi a vez de Shinhye de ficar confusa.
Sem coragem para respondê-la diretamente, Namjoon sentiu as bochechas esquentarem ao fitar as próprias partes baixas como resposta. A Kim, ao finalmente perceber o que ele tinha entendido com a sua pergunta, só faltou pular para trás tamanha a surpresa.
— Você enlouqueceu?! — ela exclamou e, quando percebeu que o jovem barista agora prestava sorrateiramente atenção na conversa dos dois, resolveu abaixar o seu tom de voz. — Você acha que eu sou algum tipo de tarada ou o quê?
— De fato, você estava me observando enquanto eu dormia essa manhã e... bem, você trocou as minhas roupas, não foi? — o atendente sussurrou de volta, o que automaticamente deixou Shinhye da cor de uma pimenta.
— Kim Namjoon! — ela o repreendeu num berro contido, se é que isso é humanamente possível. — Eu estava me referindo a quanto você cobra pela sua hora de trabalho aqui, na cafeteria.
— Ah... — ele deixou escapar quando finalmente entendeu sobre o que ela falava, ainda que não entendesse o porquê da pergunta. — Mas por que você quer saber disso?
Por que diabos você não me perguntou antes o porquê de eu supostamente querer saber se você vende o seu corpo, seu estranho?
Era, na verdade, o que a Kim queria ter lhe respondido, mas achou melhor não estender ainda mais aquele assunto.
— Porque eu pretendo alugar o seu tempo hoje. — ela respondeu, por fim. — Kim Namjoon, nós precisamos conversar.
***
— Para onde nós estamos indo?
Aquela era, no mínimo, a milésima décima vez que Namjoon lhe perguntava aquilo. Shinhye bufou e, mentalmente, se perguntou como diabos ele poderia estar agindo feito uma criança curiosa e inquieta quando, na verdade, era o principal suspeito de um assassinato. Bem, pelo menos para ela ele era. Era muito provável que o Kim não fizesse a menor ideia do que estava de fato acontecendo por trás do seu episódio sonâmbulo e, na verdade, era exatamente isso que Shinhye estava querendo testar.
Perigoso? Talvez. Eu até poderia lhes contar se Namjoon sabia ou não sobre o que estava acontecendo porque, oras, eu sei se ele sabe ou não, mas aí perderia toda a mágica da história.
Então não, nessa casa não spoilers não passarão.
— Nós já estamos chegando. — ela finalmente respondeu e, alguns míseros passos depois, simplesmente parou de caminhar. — Chegamos.
Namjoon vinha caminhando logo atrás da terapeuta e precisou fazer uso do seu freio de mão mental para não atropelar a mulher, que cessou sua caminhada tão repentinamente. Quando finalmente se recuperou, o Kim se deu conta de que estavam no Parque Yeouido, uma das maiores e mais conhecidas áreas arborizadas de Seul. Repleto de cerejeiras que, naquela época do ano em específico, estavam recuperando as folhas que há um par de meses caíam de seus troncos e consequentemente proporcionavam um espetáculo de beleza natural, o parque era realmente extenso e recebia muitos visitantes durante todo o ano, ainda que em maior quantidade nas estações mais quentes. Pessoas de diversos cantos do mundo caminhavam pelas calçadas e pistas principais sozinhas ou acompanhadas, o que dava um charme a mais para o lugar. Sem que o Kim percebesse, Shinhye havia o conduzido para um canto um pouco menos movimentado, ainda que alguns visitantes continuassem sempre por perto.
O local, na verdade, tinha sido estrategicamente pensado pela Kim. O parque era de uma beleza deslumbrante e, certamente, deixaria Namjoon distraído durante a conversa dos dois — o suficiente para que ele pudesse deixar escapar alguma coisa útil para Shinhye. Além disso, o lugar era bem movimentado, o que significava que ele não tinha como tentar nada contra ela ali. Estavam um pouco afastados da concentração de pessoas para que, assim, ninguém parasse para prestar atenção na conversa dos dois; e, mesmo assim, ainda havia gente o suficiente por perto para mantê-la segura e protegida. Desse modo, Shinhye poderia interrogá-lo sem ser interrompida, nem mesmo pelo próprio.
Ela se sentia uma gênia do mal, mas precaução e mais alguns outros cuidados detalhistas nunca eram demais.
Quando avistou um banco vazio, a Kim caminhou até o mesmo e se sentou, deixando ao seu lado espaço o suficiente para que Namjoon fizesse o mesmo. O dia estava bonito, ensolarado, e a brisa leve conduziu o homem até o banco sem maiores problemas — exatamente como Shinhye havia planejado, no caso.
— Por que nós estamos aqui? — Namjoon perguntou um tanto despreocupado enquanto admirava a bela paisagem natural ao seu redor.
Antes de respondê-lo, a Kim engoliu em seco e pensou por um par de segundos. Precisava manter a cautela se quisesse sair dali com alguma informação útil.
— Na verdade, eu pensei sobre isso a manhã inteira e, bem, resolvi que posso ajudá-lo com o seu sonambulismo caso você queira. — ela iniciou, o que automaticamente atraiu a atenção do outro para si. — Contudo, antes de nós começarmos com os exames e tudo mais, eu queria lhe fazer algumas perguntas. O que você me diz?
Namjoon permaneceu em silêncio durante alguns segundos e, por um momento, Shinhye achou que todos os seus esforços e planos desceriam ralo abaixo diante de uma resposta negativa do Kim.
— Pode perguntar. — ele respondeu e a Kim teve que conter um suspiro aliviado. — O que eu mais quero nesse momento é me livrar disso.
Pois bem, o primeiro passo já estava dado.
— A maioria das pessoas não sabe quando seus primeiros episódios como sonâmbulos começam a acontecer pois, bem, elas estão dormindo. — Shinhye iniciou e, de escanteio, viu Namjoon concordar com ela através de um balançar positivo de cabeça, o que significava que ele também não fazia ideia de quando tudo aquilo tinha iniciado. — Contudo, em algum momento, elas percebem. Quando você se deu conta ou começou a se perguntar se era mesmo sonâmbulo?
O Kim pensou um pouco, ainda fitando as belíssimas cerejeiras diante dos seus olhos.
— Uns três ou quatro anos atrás. — o Kim afirmou, o que não chocou Shinhye. Ao contrário do que as pessoas pensavam, sonâmbulos costumam viver nessas condições por muito tempo, até mesmo anos, até realmente se sentirem incomodados o suficiente para procurarem ajuda. — Na verdade, não fui bem eu quem descobriu. Eu comecei a dividir um dormitório com um amigo de infância algum tempo depois de nós nos formarmos no colégio e, eventualmente, ele percebeu que tinha algo de errado comigo.
— E você ainda mora com esse amigo? — a terapeuta perguntou sutilmente, tentando a partir daquele momento traçar alguma espécie de perfil psicológico do rapaz.
— Sim. — ele respondeu sem desconfiar de nada. — Nós conseguimos nos mudar para um apartamento pouca coisa maior do que o antigo no ano passado, mas continuamos dividindo o aluguel.
Shinhye balançou a cabeça e concordou com um murmúrio, pensando com cuidado em qual pergunta deveria ser feita a seguir. Namjoon estava se mostrando colaborativo e, se continuasse daquele jeito, em breve estaria respondendo o que quer que a Kim inventasse de perguntar.
— Você não faz ideia de qual possa ser a origem do seu sonambulismo? — ela indagou. — Digo, às vezes é uma condição causada por algum outro problema clínico ou talvez até psicológico. Você talvez possa ter sentido algum sintoma a mais ou tenha passado por algum trauma...
A Kim deixou a frase pender no ar e, em seguida, fitou Namjoon para analisar melhor o rapaz. Ao contrário do que ela esperava encontrar, uma expressão pensativa ou ainda que ponderava algo, o Kim apenas encarava o horizonte com um enorme vazio estampado em seu rosto. Ele parecia dolorido, mas não fisicamente. Shinhye notou que provavelmente tinha encostado em alguma ferida interna do homem que, apesar de nitidamente se tratar de algo triste, significava que a terapeuta estava no caminho certo.
— Na verdade, eu não me lembro de nada de grande parte da minha vida. — o Kim iniciou, parecendo perdido em seus próprios pensamentos. — Eu tinha dezenove anos quando sofri um acidente de... não, a verdade é que eu fui atropelado. — ele se corrigiu, o que pegou Shinhye de surpresa e a fez arregalar os olhos. — Foi um acidente feio e o motorista, que estava em alta velocidade, fugiu e nunca foi encontrado. Eu passei dois meses em coma no hospital e, quando acordei, não me lembrava de nada. Era como se eu tivesse acabado de nascer, simples assim. Além disso...
Namjoon não terminou a frase, o que frustrou a Kim. Contudo, Shinhye também não era um ser humano totalmente desalmado e sabia que memórias dolorosas como aquela precisavam de um certo tempo — e coragem, obviamente — para serem revividas. Ela resolveu esperar, pois ele parecia disposto a lhe contar aquela história e só precisava de um pouco mais de força para fazê-lo.
Por fim, Namjoon respirou fundo e resolveu continuar.
— Além disso, o meu joelho direito estava em pedaços. — disse, desviando o olhar para a grama debaixo dos próprios pés. — Eu fiz algumas cirurgias e, mesmo com isso e mais um longo ano de fisioterapia, eu ainda não consegui recuperar totalmente os movimentos. Sendo sincero, eu não acho que isso tenha mais jeito.
Shinhye voltou a encará-lo, agora com um olhar pintado por um pouco mais de empatia. A verdade era que, por trás de todas as suas teorias e desconfianças, existia um ser humano com uma história para contar — e uma daquelas carregadas de dores e momentos difíceis. Por isso, até que se provasse o contrário, Shinhye resolveu naquele exato momento que continuaria sim a investigar Namjoon, mas agora com o intuito de inocentá-lo. Se ele fosse o culpado pela morte de Seokjin, a verdade eventualmente viria à tona e, bem, ela teria feito o que estava dentro do seu alcance para ajudá-lo. Ele sofreria com as consequências dos seus atos e pagaria pelos mesmos sozinho, mas aquele poderia não ser o caso também.
Pela primeira vez, Shinhye se deu conta de que Namjoon poderia ser inocente. E, ao invés de investigá-lo com o intuito de pegar um criminoso, ela agora tinha um outro objetivo: ajudá-lo.
— Eu sinto muito por isso, de verdade. — ela disse, por fim.
Namjoon deu de ombros e balançou a cabeça.
— Tudo bem, parece que tudo aconteceu há uma década. — comentou. — Minha família e meus amigos me contaram o que eu precisava saber sobre mim mesmo e, bem, eu já aceitei que terei que conviver com esse joelho meia-boca para o resto da minha vida.
Shinhye o fitou e logo chegou à conclusão de que, talvez, seu caso de sonambulismo pudesse ter algo a ver com esse trauma passado. Pelo o que Namjoon tinha contado, as duas coisas não tinham acontecido ao mesmo tempo, mas poderiam estar ligadas de algum modo. Algo poderia ter funcionado como uma espécie de gatilho dentro da cabeça do Kim e, de repente, ter começado a reviver tudo aquilo em sua mente. Tudo era possível e, pelo visto, Shinhye tinha um longo e cansativo trabalho pela frente.
Primeiro de tudo, ela precisava descobrir se Namjoon estava mesmo lhe dizendo a verdade. Nenhuma possibilidade poderia ser descartada tão cedo, inclusive a de que o Kim estivesse mentindo ou tentando manipular a terapeuta enxerida que de repente estava lhe fazendo perguntas demais sobre a sua vida pessoal.
— Onde tudo isso aconteceu? Digo, o acidente. — ela indagou depois de conseguir sentir o clima entre os dois um pouco mais ameno.
— Em Daegu. — o Kim respondeu sem parecer ter nenhum problema com isso. — Depois do acidente, minha mãe me contou que eu tinha sido nascido e criado lá. Além disso, foi no Hospital Geral de Daegu onde eu acordei depois de tanto tempo em coma.
Pois bem, era exatamente daquela informação que Shinhye precisava. A terapeuta balançou a cabeça positivamente, já colocando seus neurônios para funcionarem e pensarem nos seus próximos passos. Sabendo daquilo, não seria muito difícil para a Kim conseguir o que queria para, assim, começar a sanar aos poucos as milhares de dúvidas que percorriam em sua cabeça com relação a Namjoon.
De repente, o telefone do Kim vibrou um par de vezes em seu bolso. Ele o pescou da calça jeans e viu piscar no visor o nome de seu chefe.
— Desculpe, mas eu preciso voltar ao trabalho. — disse enquanto lia as mensagens do homem estampadas em sua tela de bloqueio, sem abri-las.
— Claro, tudo bem. — Shinhye concordou já se levantando do banco. — Quanto deu?
— Deu o quê? — Namjoon indagou e, em seguida, lembrou-se da conversa desastrosa que tinham tido ao se encontrarem na cafeteria. — É sério que você estava pensando mesmo em me pagar para conversar comigo?
— Claro, oras. — ela afirmou. — Eu lhe tirei do seu ambiente de trabalho durante o seu horário de trabalho, então não há nada mais justo.
Namjoon riu da convicção da mulher e, em seguida, se levantou.
— Tudo bem, acho que é para isso que eu trabalho feito um escravo naquele lugar. — disse. — Se eu fosse cobrar pelas minhas horas extras, nós poderíamos passar o resto do ano conversando.
Shinhye ficou um pouco espantada pelo modo casual como Namjoon falava aquilo, mas resolveu acreditar no rapaz e logo estava se despedindo do mesmo. Eles seguiriam caminhos diferentes e, bem, nem em sonho Namjoon poderia estar indo para o mesmo destino que ela naquele momento. Assim, Shinhye ficou para trás e pode ver o Kim se afastar aos poucos, sem olhar para trás nenhuma vez sequer. Quando o mesmo já estava longe o suficiente, a terapeuta se apressou para encontrar seu celular dentro de sua bolsa e logo estava procurando pelo nome de uma das pessoas para quem ela mais ligava ao longo do seu dia a dia.
Lee Haechan, vulgo seu pequeno assistente desastrado. Bem, não que o rapaz fosse pequeno em altura, mas era jovem o suficiente para que Shinhye o apelidasse assim. Era o único estagiário da clínica e estava na metade de sua faculdade de psicologia, sendo que a Kim não fazia ideia de o que ele tinha feito para ser contratado. Um dia, o chefe de Shinhye apenas a presenteou com um assistente e, assim, ela resolveu usar Haechan como o verdadeiro faz-tudo da clínica.
Afinal de contas, ele era o estagiário.
Depois de um único toque, o jovem atendeu à chamada.
— Sim, Dra. Kim. — ele disse prontamente, como se algum ser de um outro plano espiritual tivesse lhe contado que ela estava prestes a ligar.
Na verdade, Haechan era quase um devoto da santa Kim Shinhye. Ele admirava o trabalho da terapeuta do sono e se inspirava na mesma, então, consequentemente, completava todas as tarefas que lhe eram dadas com o mais puro bom grado.
— Haechan–ah, eu preciso de um favor seu. — foi a primeira coisa que a Kim falou. — Preciso que entre em contato com o Hospital Geral de Daegu e peça a eles o prontuário de um paciente que esteve internado lá há uns cinco anos.
— Daegu? — o garoto indagou. — E qual seria o nome desse paciente?
— Kim Namjoon. — ela respondeu. — Ele deu entrada lá devido a um atropelamento.
— Kim Namjoon... — na verdade, Haechan tinha a mania de repetir as informações que lhe passavam, talvez para que conseguisse fixá-las melhor. — Não é nome de nenhum dos nossos pacientes.
— Ainda não. — a Kim o corrigiu, determinada. Fitou Namjoon, que agora era apenas um pequeno ponto uniformizado no horizonte. — Faça isso para mim o mais rápido possível, por favor.
— Está bem, doutora. — o Lee apenas concordou, pois acreditava que o que quer que Shinhye estivesse fazendo, seria algo digno de sua admiração. — À propósito, que horas a senhora volta para a clínica hoje?
Shinhye respirou fundo, finalmente desviando o olhar do pequeno ponto em seu campo de visão chamado Kim Namjoon, que agora já se misturava aos outros diversos pontos que passeavam por aquele parque.
— Não sei. — respondeu, por fim. — Antes de mais nada, há alguém que eu preciso visitar.
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