Meu querido sonâmbulo 2
19 Minha querida bola de tênis
Notas iniciais
Naquela mesma manhã, Shinhye finalmente se lembrou de ligar para o seu peculiar assistente e fiel seguidor Lee Haechan para, ao menos, checar como estavam indo as coisas na clínica. Como gerente, ela tinha total liberdade dada pelos seus próprios chefes de trabalhar de casa quando precisasse, contudo, suas faltas não estavam sendo exatamente compensadas com trabalho remoto — afinal de contas, ela mal parava mais em casa há mais ou menos uns três dias. Ao menos, tivera parte da madrugada anterior para adiantar alguns serviços pendentes e resolver algumas outras questões da própria sala de casa, afinal, era lá que ela tinha que ficar caso quisesse tomar conta de Namjoon durante a noite, de preferência com os olhos bem abertos. Enviou tudo para o email do assistente já próximo das três horas da manhã e, só então, se permitiu descansar por pouco mais de um par de horas até ser acordada por um cobertor sendo gentilmente posicionado sobre si.
Mas, ainda assim, não podia deixar o trabalho tão de lado e negligenciado, e era justamente por isso que sempre ligava para Haechan para checar o atual estado da clínica. O assistente atendeu à chamada animado porque, na verdade, sentia falta de ter a chefe lhe ordenando de um lado para o outro durante o dia, mas fez questão de tranquilizá-la dizendo o quão tranquilamente tudo estava correndo mesmo sem a sua presença física.
Do outro lado da linha, Shinhye pode respirar um pouco mais aliviada — pelo menos havia uma coisa completamente dentro do seu controle naquele momento.
— Na verdade, Haechan, eu estarei trabalhando de casa por mais alguns dias. — a terapeuta informou e podia jurar que ouviu um suspiro frustrado do outro lado da chamada, o que quase a fez rir. — Mas não hesite em me ligar caso aconteça qualquer coisa, ouviu bem? Eu estarei aí em questão de poucos minutos para resolver tudo.
— Está bem, Dra. Kim.
Em seguida, não havia muito mais o que ser dito, então Shinhye apenas passou mais algumas instruções para o assistente e encerrou a chamada. Ainda havia um resquício de trabalho lhe esperando em casa, contudo, o seu destino era outro um tanto contrário ao seu apartamento. Depois de deixar Namjoon na sua antiga casa com a promessa de que retornaria mais tarde com alguns mantimentos, ela partiu para um dos lugares que mais lhe importava naquele momento: a casa dele. Na verdade, tratava-se do apartamento que dividia com Min Yoongi em Seul, mais especificamente.
Já conhecia o caminho, por isso, não tardou a encontrar o prédio de cinco andares em meio ao desgastado conjunto de apartamentos onde Namjoon costumava viver até então. Contudo, daquela vez em específico, optou por uma abordagem um pouco menos chamativa, já que já tinha notado alguns bons olhares sobre si das outras duas vezes que estivera lá: deixou o carro na rua ao lado e chegou a pé, o que permitiu que ela passasse despercebida pelos outros moradores. Tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo baixo e um boné cobrindo grande parte do seu rosto, além de não estar vestindo as roupas sociais de trabalho que geralmente vestia. Assim, a figura disfarçada com roupas cotidianas e um andar um tanto apressado conseguiu alcançar rapidamente o apartamento de número 304, cujo qual carregava a chave da porta da frente no bolso da jaqueta preta — pois, mesmo relutante e sem entender o propósito daquele pedido tão específico, Kim Namjoon tinha lhe dado aquele significativo voto de confiança.
E, de acordo com o mesmo, Min Yoongi não costumava estar em casa naquela hora do dia devido ao trabalho, o que era ainda melhor para Shinhye. A terapeuta pode, então, girar a maçaneta da porta da frente com cuidado e entrar na habitação de forma mais tranquila, já que não havia ninguém ali dentro.
O lugar cheirava a toalhas molhadas e a algo tostado, o qual Shinhye imaginou se tratar de uma torrada ou algo do tipo. Era pequeno e possuía uma cozinha americana que parecia não receber nenhum tipo de atenção há alguns bons dias, especialmente devido à louça acumulada na pia. Em suma, tratava-se da personificação do estereótipo de apartamentos de homens solteiros, e Shinhye não duvidava que a moradia do seu próprio irmão mais novo tivesse uma aparência muito similar àquela ou, talvez, ainda pior e mais abandonada. Assim, observando os poucos detalhes dos dois primeiros cômodos, Shinhye seguiu em direção a um pequeno corredor que continha três portas: duas de quartos e uma de um banheiro.
— O meu quarto é o primeiro do corredor. — lembrou-se de Namjoon dizendo naquela mesma manhã ao dar uma planta falada e rápida para a Kim do local. — Depois, o banheiro e, na última porta, fica o quarto do Yoongi-hyung.
Começaria por onde realmente lhe interessava, então. Afinal, deveria haver alguma coisa no quarto de Namjoon capaz de lhe mostrar algumas verdades.
Infelizmente, Shinhye não era a única que tinha pensado naquilo e, para piorar a situação, tinha sido a última a chegar no apartamento. Ao abrir a velha porta de madeira do primeiro quarto, encontrou um cômodo completamente revirado, gavetas abertas e coisas espalhadas pelo chão. Estava nítido que várias pessoas haviam estado ali para causar todo aquele caos, o que acabou não surpreendendo a Kim.
— E eles ainda queriam me ensinar sobre organização na academia... — a terapeuta murmurou para si mesma enquanto entrava no cômodo, irônica.
A polícia, óbvio. Se eles já estavam em busca de Namjoon, era de se esperar que começassem a procurar pela sua residência atual. Ela sabia que um par de viaturas também tinha ido procurar pela família Kim em Daegu, outro possível esconderijo de Namjoon. Namkyu tinha lhe dito ao telefone na noite passada que, felizmente, seus pais sequer cogitaram acreditar no que os oficiais insistiam que o filho mais velho tinha feito e, por isso, omitiram o fato de que Shinhye tinha acabado de levá-lo de volta para Seul. Um alívio a mais e muito bem-vindo naquele momento, a terapeuta tinha que admitir.
Contudo, o fato de ter chegado ao apartamento do Kim depois da polícia a colocava em desvantagem. Conhecendo Lee Jihoon como conhecia, o promotor deveria ter montado uma equipe com os melhores investigadores para acompanhá-lo, o que significava que as chances de algo importante ter passado despercebido por aqueles olhos aguçados era basicamente nula. Suspirou.
— Tem que ter alguma coisa. — afirmou para si mesma e, decidida, começou a vasculhar toda aquela bagunça.
O quarto de Namjoon era pequeno, tinha todas as paredes pintadas de marfim e o teto de branco, além de possuir apenas três móveis ocupando o espaço: uma cama de solteiro, um guarda-roupas de madeira simples e uma escrivaninha da mesma cor e material formando um conjunto. Além disso, havia um ventilador de pé ao lado da cama e nada mais — nenhum porta-retrato, pôster ou objetos de decoração, absolutamente nada. Era como se alguém havia estado ali apenas de passagem, como um quarto de hotel ou algo do tipo.
Justamente por isso, não demorou muito para que Shinhye conseguisse vasculhar por completo aquele pequeno caos e, como esperado, não encontrar nada ali que pudesse ajudá-la a provar a inocência de Namjoon. O pior teria sido, no caso, se os policias que tinham estado ali antes dela tivessem encontrado algo capaz de incriminá-lo. Afinal de contas, a pessoa de quem Shinhye mais suspeitava morava sob aquele mesmo teto e, por isso, não deveria ter sido tão difícil encontrar evidências naquele apartamento que inevitavelmente acabassem incriminando Namjoon, que era quem já estava sob a mira da polícia.
— É isso! — a Kim concluiu para si mesma, finalmente sendo capaz de enxergar algo com mais clareza.
Na academia de polícia, tinha aprendido que era duplamente mais fácil incriminar alguém do que inocentá-lo, então era justamente aquilo que ela deveria estar fazendo: encontrando provas contra o seu principal suspeito, ao invés daquelas a favor da pessoa cuja qual ela queria tanto provar a inocência.
E as provas contra Min Yoongi poderiam estar bem ali, debaixo do seu nariz.
Com essa nova linha de raciocínio em mente, Shinhye deixou o quarto de Namjoon em disparada em direção ao último cômodo do corredor, o qual felizmente não ofereceu resistência à sua entrada, já que a porta estava destrancada. Girou a maçaneta e, não muito diferente do que esperava, encontrou um quarto praticamente idêntico ao de Namjoon, com a exceção de que aquele em específico estava impecavelmente bem arrumado. Ambos o teto e as paredes possuíam a mesma coloração, além de também estarem ali os mesmos três móveis do quarto ao lado, porém, sendo esses de cor branca. Ao invés de um ventilador de pé, havia um instalado no teto e, além disso, uma mesinha de cabeceira antiga fora colocada ao lado da cama de solteiro — tirando essas pequenas diferenças, até a posição dos móveis era a mesma.
Contudo, a maior divergência que Shinhye pode sentir entre os dois quartos estava na energia que cada um transmitia. Não era muito de ligar para aquelas coisas e as vezes até duvidava de que aquilo realmente fosse real, porém, o dormitório do Min exalava um ar pesado e mais sombrio, como se a pessoa que passasse as suas noites ali estivesse repleta de rancor ou algum outro sentimento obscuro do tipo. Aquilo jamais teria sido capaz de amedrontar Shinhye, porém, era uma observação que ela sentia que não deveria ser deixada de lado.
— Vamos ver o que você tem a me dizer, Min Yoongi. — murmurou e, sem pensar duas vezes, começou a vascular cuidadosamente pelas coisas do Min.
Ao contrário do quarto de Namjoon, aquela seria uma busca que demandaria paciência e atenção, afinal, o simples fato de acabar tirando algo do seu devido local de origem e não colocar de volta em seguida poderia denunciar que alguém estivera ali. A própria Shinhye costumava prestar muita atenção nos próprios objetos da sua casa para que, quando fossem movidos intencionalmente ou não, ela pudesse notar de primeira que algo estava errado. Poderia não conhecer Yoongi tão bem, mas não esperava nada de muito diferente dele.
Vasculhou gavetas, arquivos, livros e todos os compartimentos do armário, porém, não encontrou nada que lhe fosse realmente útil. Depois de mais de meia-hora em uma procura ininterrupta, a Kim bufou frustrada ao perceber que o seu plano inicial poderia não ser tão bom e eficaz quanto ela esperava.
Droga, seus instintos não costumavam falhar daquele jeito.
De pé ao lado da mesinha de cabeceira, na qual tinha acabado de realizar uma varredura cuidadosa, ela fitou o móvel mais uma vez e se deparou com um detalhe pequeno, porém, que acabou lhe chamando atenção depois de ter passado despercebido da primeira vez: uma bola de tênis. Verde neon como qualquer outro do tipo, o objeto continha o autógrafo de um tenista coreano extremamente famoso há um par de décadas atrás, mas que hoje já havia se aposentado. Como não se tratava de um esporte muito popular no país, Shinhye achou aquela pequena bola um tanto curiosa — mas, infelizmente, não passava daquilo. Deu de ombros e a colocou de volta no seu devido lugar, porém, após o impacto contra o móvel de madeira, a mesma acabou caindo da mesa e rolando para debaixo da cama. Shinhye se xingou mentalmente pelo descuido e se ajoelhou ao lado da cama, precisando praticamente colar o rosto no chão para ir tateando o piso atrás da tal bola.
E foi então que, finalmente, ela encontrou uma falha no quarto perfeito de Min Yoongi.
Uma das batidas contra o piso produziu um som estranhamento oco, o que imediatamente capturou a sua atenção. Bateu as costas dos dedos da mão direita contra o mesmo piso novamente e, como esperado, o mesmo som se fez presente. Uma cavidade oca, algo que não deveria existir debaixo de um chão de piso. A Kim automaticamente sacou o celular do bolso traseiro de sua calça e acendeu a lanterna do mesmo para iluminar melhor o espaço apertado e escuro, o que acabou lhe mostrando algo que certamente teria passado despercebido aos olhos de alguém que não estivesse procurando nada ali, o que obviamente não era o seu caso: uma fenda quase imperceptível entre o piso em questão e o ao lado, como se um não estivesse realmente rejuntado no outro — e não estava, de fato.
Quando Shinhye forçou, um piso se separou do outro, revelando um buraco feito no chão logo abaixo de ambos. Tratava-se de um pequeno esconderijo. Ao se deparar com aquilo, a Kim arregalou os olhos em surpresa e se perguntou o que diabos Min Yoongi teria a esconder com aquela ideia tão engenhosa; algo que ela estava a um passo de descobrir. Sem pensar duas vezes, ela tateou o interior um tanto arenoso do compartimento até seus dedos alcançarem algo mais duro, como uma caixa. Agarrou o objeto e, mesmo que a sua posição não ajudasse muito, conseguiu puxá-lo de dentro do tal buraco.
E era uma caixa, de fato. Feita de madeira devidamente envernizada, a caixa tinha pouco mais de dez centímetros de comprimento e a metade de largura, além de, felizmente, não estar trancada — talvez Yoongi tivesse confiado até demais na sua engenhosidade, o suficiente para não ver necessidade de trancafiar o que quer que houvesse ali dentro. Um estalo seco foi ouvido quando Shinhye soltou o único pino de ferro que a fechava e, assim que a abriu, se deparou com uma variedade estranha de objetos. Três frascos de algum remédio, uma seringa ainda não utilizada, um outro frasco pequeno e não-rotulado que continha um líquido esbranquiçado e um papel dobrado; aquilo e nada mais.
— O que diabos é tudo isso? — a Kim indagou para si mesma, começando aos poucos a retirar os objetos de dentro da tal caixa.
Primeiro, um dos três frascos de remédio. Todos estavam rotulados com a mesma etiqueta: remédio manipulado para insônia. De acordo com o rótulo, tinham vindo de um laboratório de manipulação famoso em Seul por trabalhar com ingredientes sempre os mais naturais possíveis, produzindo os frascos mais caros e disputados do mercado. Tinha que ser aquele o remédio que Namjoon tinha lhe contado que Yoongi lhe dera assim que os dois descobriram que o Kim era, de fato, um sonâmbulo, mas por que o Min o mantinha armazenado em um esconderijo debaixo do chão daquele modo? Boa coisa não poderia ser, obviamente. Shinhye também se lembrou de que Yoongi trabalhava em um laboratório, só não sabia qual — e talvez fosse realmente aquele dos rótulos.
Perspicaz e prevenida como sempre, a terapeuta tinha levado consigo pequenos saquinhos transparentes e vedáveis, algo parecido com aqueles de coleta de evidências florences dos filmes de investigação. Abriu um dos frascos e subtraiu do mesmo um par de comprimidos pequenos e brancos, os colocou dentro de um saquinho e, em seguida, guardou tudo em um dos bolsos interiores da jaqueta, protegidos de qualquer colisão ou perigo. Antes de guardar a embalagem plástica de volta na caixa, tirou uma foto do rótulo para um momento futuro no qual sabia que precisaria daquilo e logo voltou a sua atenção para o interior da caixa novamente.
Olhando com mais atenção, o frasco menor e não identificado parecia fazer uma espécie de par com a seringa, como se aquele líquido estivesse ali para ser injetado em alguém.
— Será que isso é para o Namjoon? — Shinhye questionou, sozinha. — Talvez, ele possa ter injetado isso em Hoseok ou Seokjin...
Não se lembrava de Taehyung ter comentado sobre marcas de agulha em nenhuma das vítimas, porém, os irmãos não tinham conversado exatamente sobre o caso ainda. Não seria algo que teria passado despercebido aos olhos de um bom legista, então, se Hoseok e Seokjin tivessem sido espetados, àquela altura do campeonato a polícia já saberia. De um jeito ou de outro, Shinhye não tinha outra saída a não ser quebrar a sua premissa de deixar tudo o que encontrara no quarto do Min exatamente como estava antes da sua chegada, afinal, para descobrir do que se tratava aquela líquido viscoso, ela teria que levá-lo consigo. O máximo que poderia fazer naquele momento era torcer para que o seu dono demorasse mais do que o esperado a dar falta do pequeno frasco, caso contrário, Shinhye imaginava que Yoongi era esperto o suficiente para mudar todos os seus planos diante daquela nítida ameaça aos mesmos.
Pegou o pequeno frasco e, assim como os comprimidos, o armazenou em um saquinho, guardando-o em um outro bolso. Colocou a seringa de volta na caixa, pois acreditava que a mesma não teria nenhuma utilidade para si, e alcançou o objeto que ainda lhe faltava analisar: o papel. Dobrado ao meio, o pedaço de folha branca continha alguns dizeres rápidos em si, como se fosse uma breve e direta carta.
“Eu avisei a eles que me vingaria. No dia do julgamento, quando foram descaradamente inocentados, eu berrei com todo o ar dos meus pulmões que eles teriam o que mereciam. Muitos anos se passaram, mas eu finalmente poderei cumprir a minha promessa agora.
Dois deles já foram, porém, isso está longe de chegar ao fim. O mal precisa ser cortado pela raiz.”
O que diabos significava aquilo? As letras em questão tinham sido rabiscadas aparentemente com pressa e mais algum outro sentimento ruim misturado, o que Shinhye julgava ser rancor dado tudo o que estava escrito naquele pedaço de papel mal cuidado. A Kim já tinha visto a caligrafia de Namjoon algumas vezes e em nada ela se parecia com aquela do pedaço de papel — unindo isso ao fato do local onde a tal carta havia sido escondida, aquilo só poderia significar uma única coisa.
Min Yoongi estava completamente envolvido nos assassinatos de Kim Seokjin e Jung Hoseok e, de acordo com o que dizia naquela carta, os dois não seriam as suas únicas vítimas.
O julgamento ao qual ele se referia tinha que ser o dos dois homens assassinados quando, na época, foram acusados pelo atropelamento de Namjoon. Shinhye só conseguia imaginar um único cenário em sua mente: naquele dia, ao ouvir a sentença tão injusta e nitidamente manipulada, Yoongi se viu, de algum modo, revoltado e desamparado, o que o fez jurar vingança pelo Kim verbalmente. Desse modo, fazia sentido que Hoseok parecesse tão apavorado ao se deparar com Namjoon no enterro de Seokjin; ele soube, imediatamente, que seria o próximo. Talvez Yoongi tivesse, até mesmo, o ameaçado antes ou algo do tipo, mas não era como se Shinhye pudesse perguntar aquilo para nenhum dos dois, então resolveu manter a ideia como uma teoria, pelo menos por enquanto. Porém, de qualquer forma, agora ela tinha certeza de que Yoongi estava envolvido até o último fio de cabelo nos assassinatos. E, por mais que ainda lhe faltasse descobrir qual era a real participação de Namjoon em tudo aquilo, aquele já era um passo muito significativo por si só.
Rapidamente, a Kim tirou uma foto da tal carta para ter tudo aquilo bem registrado e, em seguida, guardou tudo de volta na caixa do modo mais parecido com o que havia encontrado possível. De repente, seu coração estava apertado e algo lhe dizia que ela precisava sair logo dali; sentimento esse que a terapeuta escolheu sabiamente não ignorar. Abaixou-se, ajeitou os pisos que cobriam o esconderijo debaixo da cama e logo já estava de pé, pronta para sair o mais rápido possível daquele apartamento. Caminhou até a porta do quarto de Yoongi e chegou a levar a mão até a maçaneta da mesma, quando, de repente, um barulho bem específico a fez congelar onde estava.
A porta da frente rangeu em alto e bom som, o que significava que estava sendo aberta.
Não, aquilo não podia estar acontecendo. De acordo com Namjoon, apenas ele e o colega de quarto tinham a chave da porta. Assim, se o Kim estava escondido em Guryong... A pessoa que tinha acabado de adentrar no apartamento só poderia ser Yoongi.
Com o raciocínio ainda turvo pela surpresa, Shinhye só se deu realmente conta do perigo que estava correndo quando os passos arrastados pareciam se aproximar cada vez mais de si, ecoando pelo curto corredor da moradia um após o outro. Ela não tinha saída ou para onde correr, por isso, olhou ao redor em uma tentativa suplicante de encontrar algo que pudesse ajudá-la. Não poderia atacar Yoongi ou se meter em qualquer tipo de atrito físico com ele, afinal, ela não fazia ideia do que o Min poderia ser capaz ou tinha nenhuma noção da sua força, então, teve de recorrer à decisão mais plausível naquele momento: esconder-se. Apressou-se em direção ao armário do quarto e, encolhendo-se o máximo possível, conseguiu caber no mesmo o suficiente para fechar a porta e, consequentemente, se trancar lá dentro.
No segundo seguinte, Yoongi abriu a porta do próprio quarto. Seus passos soavam apressados e, pelas pequenas frestas do guarda-roupas, Shinhye pode ver a figura magra e pálida surgir rapidamente no seu limitado campo de visão. Ela estava rodeada por muitas roupas de frio e, por isso, o ar parecia mais escasso, mas não havia nada que pudesse fazer a não ser se calar e esperar.
— Idiota, não acredito que fui esquecer justamente o documento que aquele infeliz do meu chefe me pediu ontem... — falou para si mesmo, praticamente cuspindo as palavras. — Talvez, depois que tudo isso acabar, eu me vingue dele também.
A frase foi acompanhada de uma risada horrenda e sarcástica, o que fez Shinhye se arrepiar. Min Yoongi era um monstro e não lhe restavam dúvidas quanto a isso.
Apressado, o Min caminhou até a sua escrivaninha e, depois de remexer alguns papéis, pôs as mãos em um envelope amarelo que parecia ser aquilo que ele procurava. Bufou e já se dirigiu até a porta, quando, de repente, parou bruscamente onde estava. Franziu o cenho e, parecendo se mover em câmera lenta, ele girou para trás até que sua visão englobasse a parede onde estava a sua cama.
— Onde está a minha bola de tênis? — perguntou para si mesmo.
O questionamento fez Shinhye congelar dos pés à cabeça em um único segundo apavorante. No calor do momento, ao notar que havia algo de errado com o barulho oco que os pisos produziam quando ela batia seus dedos contra os mesmos, esqueceu-se completamente de procurar a bolinha de tênis que havia rolado para debaixo da cama para, assim, colocá-la de volta no seu devido lugar. Não tinha o feito e, agora, sua vida poderia estar em risco devido ao mínimo dos erros.
Porque, se Min Yoongi a encontrasse ali, ela não tinha ideia do que ele seria capaz de fazer.
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