Meu querido diário
33 Peças perdidas
Notas iniciais

— Por que está fazendo isso comigo? – Ele perguntou tentando se acalmar o máximo possível. Mas falhando notavelmente, passava as mãos sobre o cabelo o tempo todo.
Continuei olhando para baixo pensando em alguma resposta rápida, afinal, não podia me esquecer que há seis meses, eu que tinha causado tudo o que estava acontecendo, minha mentira lá do começo, virou uma bola de neve, e agora eu carregava comigo todos os dias, dois corações machucados por causa dela. Optei por afastá-lo ainda mais.
— Isso... Não é mais da sua conta, desculpa professor! – Respondi sentindo uma pontada intensa no peito, segurei o máximo que consegui para não chorar. Dei uma última olhada, e pude ver a cara de decepção do Cebola ainda me encarando, seu olhar era vazio. Sem esperar outro sermão virei e sai pela primeira porta que encontrei o mais rápido que pude, não ousei olhar para trás, eu sabia que não agüentaria encará-lo por mais um minuto sequer.
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Sai correndo sem direção e ainda confusa, quando bati de frente com o Fabinho. Que saco! Tinha esquecido totalmente que ele estaria na sala de espera.
— O que foi? Ele te falou alguma coisa? – Ele me perguntou se levantando imediatamente preocupado, vendo que eu estava abalada.
— Não... Quer dizer, me falou quase tudo que falou para você, é que estou atrasada para o Espanhol, por isso a pressa – Respondi a primeira coisa que veio em minha cabeça.
— Ainda bem, senão ele ia ver só. Essa escola parece um internato, sempre achei um saco. Me desculpa por fazer você passar por isso, você nem tinha que ter escutado nada, foi tudo culpa minha – Ele pediu segurando em uma das minhas mãos.
— Não Fabinho, eu também tive culpa, nós dois estamos exatamente onde deveríamos estar, você não fez aquilo sozinho – Respondi sorrindo um tanto quanto corada, o beijo não tinha sido de todo ruim.
— Quer dizer que valeu a pena? – Ele perguntou abrindo aquele sorriso encantador.
Eu apenas sorri de volta e sai o deixando com o beneficio da duvida, por dentro eu estava arrasada, mas ele não precisava saber disso. Se não fosse pelo que eu ainda sentia pelo Cebola, valeria a pena tentar engatar em uma coisa mais seria com ele.
Quem dera mandássemos no coração, eu pelo menos tiraria a dor absurda que me sufocava naquele momento.
Não estava em clima de aula nenhuma, e toda minha animação para encontrar as meninas mais tarde, conforme combinamos, também havia ido para o brejo, a única vontade que eu tinha era de tomar um banho quente, comer um pote de sorvete de chocolate inteiro sozinha e chorar. Era pedir muito?
Passei reto da sala, e pela primeira vez optei por faltar, caminhei tristemente até minha casa e assim que cheguei me atirei no sofá sem olhar para os lados.
— Ueh, você não tinha aula até mais tarde hoje? – Titi perguntou aparecendo no corredor.
— O que você está fazendo em casa? Não deveria estar no estágio? – Respondi com outra pergunta enquanto me recuperava do susto, ele odiava isso, mas dessa vez percebi que algo nele estava diferente. – Você ta bem?
— Estou, eu cheguei agora pouco, vim mais cedo, passei um pouco mal na academia, falta de ar – Ele respondeu, fazendo com que eu estranhasse cada palavra que saia de sua boca.
— E por que está me contando isso? – Perguntei atenta, será que ele estava mentindo? Ele nunca me contava nada sobre a vida dele, ainda mais depois de tudo que tinha acontecido. Nossas conversas eram monossilábicas.
— Você perguntou não foi?! – Ele respondeu naturalmente, mas eu podia perceber uma expressão diferente em seu rosto.
— Parece preocupado... – Comentei o observando mais atentamente.
— Vai ficar me olhando? Virou analista agora? – Ele me cortou voltando ao seu estado normal.
— Eu só vim descansar um pouco seu insuportável, jajá vou sair com as meninas – Respondi tirando o tenis e deitando no sofá.
— O papai sabe que vai sair? – Ele perguntou daquele jeito controlador que me tirava do sério.
— Sabe Titi, que saco isso, não sou mais criança – Conclui ligando a TV. – Será que nem passando mal me deixa em paz?
— Me respeita menina, e vê se começa a estudar mais no horário da tarde viu, aproveita que tem tempo livre de sobra, ao invés de ficar sonhando com o que não deve – Ele respondeu bem a tempo de ser acertado por uma almofada voadora que arremessei em sua direção.
— Não enche! – Conclui levantando e caminhando até o meu quarto, definitivamente não daria para ficar na sala.
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Não consegui dormir conforme tinha planejado, uma vez que aquela angustia não me deixava em paz.
Tomei um banho demorado, e aproveitei a água para deixar que minhas lágrimas fossem juntamente com ela para o ralo. Conforme os meses foram passando, as vezes em que chorava foram diminuindo, mas sempre que alguma coisa me transportava para o Cebola eu desabava novamente.
Naquela hora queria ter conseguido falar que ainda o amava, ou pedir que jogássemos as regras do colégio pro alto e tentássemos passar por tudo isso juntos, mas simplesmente não podia. Seria egoísmo meu arriscar toda a vida dele por causa de uma paixão, quantas outras mulheres ainda apareceriam para ele, sem complicações, todas mais velhas, sem um irmão ciumento, ou um sogro que proíbe sua amada de viver sua história de amor?!
Por isso, e exatamente por isso respondi daquela forma, o afastar era o mais indicado , e era o que eu vinha fazendo todos os dias mesmo totalmente contra a minha vontade.
Tudo que eu não queria, era que ele tivesse presenciado o beijo, jamais quis o machucar, pelo menos não conscientemente, o olhar de decepção que ele me lançou assim que sai da sua sala, só me confirmou que mais do que nunca nosso envolvimento acabava exatamente ali.
Tornei a enxugar freneticamente as lágrimas que caiam do meu rosto a cada palavra nova que escrevia no meu diário, com a cabeça apoiada sobre os joelhos eu me encontrava encolhida em cima da cadeira da escrivaninha naquela tarde fria tanto do lado de dentro quanto do de fora do meu quarto.
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POV Cebola
Demorei um pouco para acreditar no que tinha visto e fiz uma força surreal para não partir pra cima do garoto que segurava em seus braços a mulher que eu amava.
Minha reação foi parar com aquilo de qualquer jeito, e por fim a forma que encontrei foi mandar os dois para a minha sala. Eu não era muito mais velho que eles, mas o jeito que o Fabio me enfrentou, me fez lembrar de quanto eu tinha 17 anos, teria batido de frente com professor e diretor com certeza para lutar por meus direitos.
A questão mesmo era que estava difícil, mas eu tinha que aceitar que era o fim da nossa história juntos. Por mais que eu soubesse que não era ele que ela queria, nossas possibilidades de reaproximação estavam extintas.
Não só pelo meu emprego, e nem só pelos estudos dela, também por nós mesmos, universos diferentes, peças perdidas, nosso quebra cabeça infelizmente não se encaixava.
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Já na faculdade, estava imerso nos meus pensamentos quando reparei um som estranho vindo da carteira ao lado da minha. Sai do transe imediatamente.
— Você está bem mano? – Perguntei para o Titi que respirava pesado com a mão sobre o peito.
— Cara to com falta de ar – Ele sussurrou tentando se acalmar.
— Vamos ali pra fora, vem eu te ajudo, você precisa pegar um ar – O levantei por uma das mãos, o Cascão vendo a situação imediatamente nos seguiu.
Ficamos aproximadamente uma hora do lado de fora, sentindo a brisa no rosto, confesso que até para mim aquilo tinha feito bem, o Titi já respirava mais tranquilamente e só então tornou a falar.
— Valeu mano, estava sufocando naquela sala – Ele agradeceu passando as mãos pelo rosto.
— Velho, você tem ido freqüentemente nas consultas de rotina? – Perguntei preocupado.
— Ah fui por um tempo careca, mas como desde pequeno não tive mais ataques, parei. – Ele respondeu bebendo uma água que o Cascão tinha comprado as pressas.
— Não pode brincar com essas coisas Titi, você já ficou internado e sabe o horror que é ficar naquela maca – Cascão o repreendeu.
— Eu sei, vou ver se marco médico de novo, só não deixem cair na boca da Aninha, ela pega no meu pé se souber que to com falta de ar novamente... – Ele pediu tornando a caminhar para a sala.
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POV Monica
Furei com as meninas, mas mesmo assim a Denise passou em casa com a Maria, ambas confirmaram que tinham uma noticia ótima para mim, então tratei de lavar o rosto e atende-las sem demonstrar qualquer tristeza, o que foi bem difícil.
— Poxa Mo, que ruim que se sentiu mal, na próxima tenta ir, foi muito legal – Maria contou me olhando atentamente.
— Desculpa meninas, não queria mesmo faltar, mas estava com muito mal estar então eu dormi a tarde inteira – Respondi a verdade, sem contar o motivo.
— Bom vamos ver se te animo... – Denise abriu um sorriso tirando um folheto da bolsa.
— O que é isso? – Perguntei curiosa.
— Um convite – Denise falou eufórica.
— Convite? – Perguntei analisando o papel.
— Sim, bom eu sei que você ama escrever, e estamos precisando de uma pessoa na parte de noticias do colégio, comentei sobre você e plim! Amaram a idéia, recebemos uma proposta da própria diretora para ampliarmos os assuntos do jornal e tirarmos a parte das fofocas, o tornando assim mais profissional, que o colégio liberaria uma verba para isso nos ajudando com impressão, site e tudo – Ela contou com um sorriso de orelha a orelha.
— Você ta falando sério? – Eu me levantei ansiosa, olhando para o papel – Não acredito.
— Sério Moniquinha, sabia que ia amar – Maria sorriu por ver minha felicidade.
— Claro que topo – Gritei as abraçando.
Podia estar triste, magoada por causa do Cebola, mas participar de um jornal ultrapassava esse sentimento, não era um problema da paixão, estava lidando com meu sonho.
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