Meu querido diário
22 O efeito de um contato
Notas iniciais

— Não acredito – Maria exclamou sentando ao banco do vestiário, um tanto quanto chocada.
— Nem eu – Denise concordou se acomodando ao seu lado.
Levei a mão novamente ao rosto e chorei por dentro tentando achar uma saída, se fosse no meu antigo colégio eu conseguiria ir embora, mas nesse não se tinha permissão de saída nem sob tortura. Eu tinha que me manter firme, mas como faria a aula dele se ao menos conseguia ouvir a sua voz?
Não tive muito tempo para pensar nisso, o enjôo voltou com força e o unico tempo que tive, foi de correr para o banheiro.
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A Denise teve que me arrastar para a aula, que sob muito custo eu era obrigada a assistir, com a Maria muda desde que contei tudo, não me restaram dúvidas de que eu estava mais ferrada do que imaginava.
Sentamos todos na arquibancada enquanto o Cebola ajustava as coisas do circuito, era a primeira vez que eu entrava na quadra, quadra essa que antes estava tão empolgada para conhecer, e mesmo sendo totalmente incrível, para mim não fazia mais sentido algum permanecer ali naquele local.
A vontade de chorar incomodava e a incerteza do que aconteceria queimava como garra na minha garganta, sem contar a vergonha da mentira que formei em volta de tudo isso que tomava conta da minha face.
Não conseguia olhá-lo nos olhos, tinha medo de encará-lo naquele momento. Ele conseguia me destruir apenas com o ar da decepção, imagina o efeito de um contato mesmo que visual.
Nunca tinha sentido nada igual na minha vida, uma dor misturada com medo e saudade se difundia dentro de mim. Tinha medo de perdê-lo e saudade do que ainda não tínhamos vivido, os planos e vontades de conhecermos cada vez mais um ao outro, agora pareciam distantes, em outra dimensão.
Foi envolta nesses pensamentos que tomei uma cortada no rosto, a bola de handball atingiu bem minha orelha e fiquei um tanto quanto zonza. A Denise saiu correndo para me socorrer junto com a Maria que por mais quieta que estivesse não deixaria de prestar socorro.
— Amiga, faz o favor de prestar atenção no jogo, senão o Cebola vai ter que chamar sua atenção, e vai ser pior – Maria retomou a voz e me repreendeu sussurrando.
— Desculpa, eu to bem, foi só uma pancadinha – Respondi desorientada, tentando impedir de que o professor precisasse chegar ate mim.
— Então vê se volta pra terra – Denise gritou do outro lado fazendo com que eu me posicionasse novamente.
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Pareceu um século, mas o final da aula chegou e ele se despediu da sala, terminando de anotar algumas coisas que não consegui ver o que eram, e sumindo de vista. Durante a uma hora que passou ele sequer direcionou o rosto em minha direção. Ninguém da sala podia negar, ele era bom no que fazia, mas especialmente hoje todos seus movimentos levavam consigo uma melodia notavelmente triste.
O acompanhei com o olhar a tempo de vê-lo virar para trás pela primeira vez e por segundos nos encararmos, como um choque ele tornou a caminhar rapidamente e sumiu pelo corredor comprido que escondia os professores atrás da sala de coordenação.
Caminhei até o vestiário e corri para o meu celular precisava mandar urgente uma mensagem para ele. Digitei com habilidade e enviei ansiosa, mas deveria saber que ele não responderia. Caminhei de um lado para o outro ansiosa, sob o olhar atento das minhas duas amigas.
— Monica, você tem que se acalmar, se você for conversar com ele assim vai ser pior, e espera a poeira baixar, o Cebola não sabe conversar quando está nervoso – Maria contou arrumando seu cabelo.
— E quanto mais agitada você estiver mais agitada será a conversa – Denise complementou terminando de se trocar.
— Ele nem olhou pra minha cara gente, deve estar muito bravo, ou muito decepcionado – Choraminguei dobrando minhas roupas.
— O que você fez não foi certo, nem legal Mo, mas não sou de julgar e nem apontar o dedo pra ninguém, o Cebola é bem grandinho e não precisa de uma irmã que briga por causa dele, só toma cuidado, ele odeia mentiras – Maria concluiu saindo do vestiário me deixando sozinha com a Denise.
— Ok, ela não gosta mais de mim, claro enganei o irmão dela, o que eu esperava? – Falei mais para mim do que para Denise.
— Amiga, calma, tudo aconteceu hoje, ainda está cedo, você precisa respirar, pensar e depois ir falar com ele, até porque ele está em horário de aula — Denise respondeu saindo comigo do local — Você não conseguiria fazer nada agora.
— A culpa de tudo isso é sua, que me fez ir nessa festa – Choraminguei a empurrando.
— Ahhh ta, ninguém mandou se atracar com o bofe bonitão – Ela brincou rindo e me abraçando.
— Quero ele pra mim De, não quero perde-lo – Retribui o abraço forçando as lágrimas a não caírem.
— Vocês vão ficar juntos amiga, ele te ama de verdade – Ela concluiu quando entramos em sala novamente.
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Acho que quanto mais eu pensava no tempo mais ele demorava a passar, o intervalo foi um porre, não consegui comer absolutamente nada, e a Maria ficou muda o tempo todo. Não sei se por ciúme ou por decepção mesmo, mas ela estava claramente evitando conversar.
As últimas três aulas passaram lentamente e as únicas coisas que entendi entre português e geografia foram os nomes dos professores. Escrevi sem parar no meu diário, o que me distraia bastante, e mesmo assim as horas pareceram se arrastar.
O sinal bateu e eu na vã esperança de encontrá-lo, aguardei no jardim do lado de fora por pelo menos uma hora. Checava meu celular de minuto em minuto esperando uma resposta e nada. Absolutamente nada, nem respostas, nem visualizações.
Só decidi ir embora quando o sinal das crianças da tarde bateu e elas entraram tomando espaço do local. Com a cabeça baixa abandonei a escada um pouco confusa.
A Maria tinha me dito que ele almoçava em casa, todos os dias. Saia logo após o final do horário da manhã pelo portão lateral, e foi lá que eu o esperei, mas nada dele aparecer, talvez soubesse que eu faria isso, ele me conhecia tão bem.
Tracei um rumo novo em minha cabeça imediatamente e caminhei em silencio para lá, comeria algo no pub e depois ficaria escrevendo, não iria para casa dar a chance de alguém chegar e me ver assim. Precisava me acalmar.
Entrei no local com um aperto no coração, a última vez que tinha ido lá estava acompanhada por ele, olhei a mesa na qual sentamos e resolvi ficar por ali novamente. Pedi algumas coisas para comer, tirei minha lapiseira da mochila junto com um caderno e comecei a escrever um novo roteiro.
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POV Cebola
— Você sabe que não gosto de mentiras – Maria reclamou sentando a mesa do almoço em casa.
— Maria, você não mentiu, eu faço isso todos os dias mesmo saio exatamente por aquela porta, você só me ajudou a evitar uma conversa que não quero ter agora – Eu respondi irritado. – Ia ser pior se nos falássemos.
— Cebola ela está péssima, e gosta de você de verdade, devia dar uma chance para a Monica se explicar – Ela reclamou enquanto colocava arroz em seu prato.
— Monica... Maria eu sequer sei o nome dela de verdade, a conheci como Mel,você checou o RG dela pra ver se é Monica mesmo? – Retruquei nervoso.
— Entendo que deve ser difícil maninho, eu também não gostei nada do que ela fez, mas acho que estão desperdiçando o sentimento, deixando o orgulho falar mais alto – Ela concluiu sorrindo para minha mãe que entrava na sala. – Ainda está cedo, se quiser pensa mais um pouco, de tempo ao tempo e na hora certa a procure.
— Você não pode crescer assim Maria, está me assustando com essa maturidade ai – Conclui tentando rir.
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Terminei de comer um tanto quanto angustiado, lembrar da Mel... Monica, sei lá qual o nome dela, me deixava com um nó no peito. Lutei contra minha vontade de ir procurá-la hoje, precisava de um tempo para pensar.
Foram muitas noticias ao mesmo tempo e muita decepção junta, ao menos o nome dela... Podia ser real.
Não era Mel, não era maior de idade, não era da faculdade, nem sei se aqueles textos que ela me mostrou eram realmente dela. A ajudei o tempo todo e pelas minhas costas talvez ela estivesse rindo. Tudo ficava ainda mais difícil quando lembrava das normas do colégio e das restrições pesadas sobre aluno se relacionar com professor.
Não costumava chorar muito, mas dessa vez estava fazendo um esforço um pouco maior para me segurar. Sabia que o certo seria conversarmos, mas naquele momento, exclusivamente naquele dia, estava sem cabeça nenhuma para isso.
Vi meu celular tocar uma, duas, três vezes, e na quarta decidi desligá-lo, ainda me doía muito quando o nome Mel estampava a tela do meu aparelho sendo que eu ao menos sabia quem era ela de verdade.
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