Meu querido diário
52 Esvaindo com o tempo
Notas iniciais

— Hum, entendi, temos algo para hoje amiga? Queria almoçar com meu pai – Perguntei abrindo o guarda roupa.
— Não, hoje está tranqüilo, também vou visitar minha tia e passar lá no escritório da Folha, eles me pediram matéria extra – Respondeu animada.
— Que ótimo amiga, você sempre arrasa, fico feliz por isso – Sorri para ela.
— Olha quem fala – Ela concluiu saindo do quarto – Ah, e eu não desisti dessa conversa, só adiei para respeitar seu tempo.
A vi sumindo pelo quarto e corri para o espelho para analisar meu rosto, o que quer que ele transparecesse naquele momento, teria que parar imediatamente.
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Demorei um pouco mais que o normal para me arrumar naquele dia, passei uma boa parte do tempo com o DC ao telefone, agradecendo a surpresa e o convidando para almoçar conosco o que lamentavelmente ele avisou que não poderia, teria reuniões atrás de reuniões, como sempre, então nem insisti, estava animada para rever meu pai e irmão e não deixaria aquilo me chatear.
Tomei um banho demorado, me troquei tranquilamente, me despedi da Magali e segui para o meu rumo. Em pouco mais de quinze minutos cheguei a casa do meu pai, e uma saudade de infância atingiu em cheio minha memória.
Era incrível como em cinco anos minha vida havia mudado tanto, quando fui morar com meu pai não fazia idéia que me aconteceria tudo que havia acontecido, meus amores, meus medos, inseguranças, o pavor de ir morar sozinha em outra cidade, de ver minha mãe indo pra fora do Pais, a desistência de matéria, o beijo na festa, a escolha entre ficar e tentar viver ao lado do carinha que eu amava, ou ir e desbravar o mundo em busca dos meus sonhos...
Instintivamente levei as mãos ao meu colar, e foi em meio a esses devaneios que meu pai atendeu a porta abrindo o maior sorriso que eu já havia visto ele dar. Retribui da melhor forma que consegui com um abraço carregado de saudade.
— Oh filhinha, como você está linda – Ele soltou do enlaço me olhando.
— Que saudade pai – Respondi emocionada virando para o Titi que se aproximava.
— Vem cá – Ele me chamou abrindo os braços.
Nem havia terminado de cumprimentar o Titi quando ouvi um barulhinho, e segundos depois vi o Monicão vindo correndo e chorando em minha direção, antes que eu pudesse calcular o que aconteceria, ele pulou no meu colo, me lambendo, e ai sim minhas lágrimas desceram e eu o acarinhei com um sorriso cheio de felicidade.
Não sei explicar por quanto tempo esperei para vê-los novamente, nem o quanto ficamos lá apenas nos olhando e abraçando, mas posso dizer que ficou marcado com certeza no meu histórico de momentos mais felizes da minha vida.
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Por volta do meio dia senti o cheiro da melhor macarronada do mundo invadindo a sala, e uma fome instantânea atacou o meu estomago.
Assim que terminei de colocar a mesa, vi que o papai ainda não tinha concluído o almoço, então aproveitei para rever o meu quarto, caminhei olhando cômodo por cômodo até lá, e assim que abri a porta meu coração se encheu de lembranças boas.
Sentei na minha cama reparando em como cada detalhinho havia permanecido no mesmo lugar, tudo que eu não tinha levado comigo continuava lá, meus quadros, meu tapete, as roupas no armário, o lençol, meu puff que eu tanto amava, até mesmo as maquiagens da penteadeira ainda estavam intactas.
Abri a primeira gaveta do meu criado mudo, e vi umas agendas, fones de ouvidos nos quais eu nem lembrava que um dia tive, canetas de todas as cores e um mini game que eu jogava sempre que estava com insônia.
Fui abrindo uma por uma lembrando com carinho de todas as coisas que encontrava, e só parei quando puxei a última, onde um objeto se destacou, uma caixinha escondida, guardada para nunca ser encontrada, trancando consigo uma dor passada, um momento que havia se esvaído com o tempo.
Puxei-a rapidamente para perto de mim, e a abri com as mãos tremulas, admirei em silencio as alianças nunca usadas, em especial aquela que trazia o nome Mel dentro, na qual não tive oportunidade de experimentar. Havia esquecido completamente que tinha as guardado ali, naquele lugar.
Peguei a que pertenceria a mim com a mão direita e imediatamente contrastei com a minha de noivado, que brilhava dourada sob o meio Sol daquele dia, uma mescla de ouro branco e ouro dourado reluziu na parede e imediatamente um arrepio frio percorreu meu corpo, tratei de guardá-la novamente, o mais rápido que consegui, o que quer que fosse eu não queria e nem podia sentir.
Voltei para a sala pensativa, mas desfiz a cara de preocupação no segundo seguinte quando vi a mesa com o meu prato preferido servido e meu pai sorrindo por ter feito mais uma vez um delicioso almoço, a macarronada preferida da família inteira.
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Posso dizer que foi um dos melhores almoços da minha vida, havia comido até demais, papai sempre caprichava em macarronadas, voltei para casa já no começo do cair da noite, e assim que abri a porta me joguei cansada no sofá.
Com preguiça e quando estava quase dormindo ouvi meu celular tocando me forçando a sair da posição atual.
Levantei-me um pouco puxando minha bolsa de qualquer jeito, tirei meu aparelho de dentro e o atendi ainda embalada pela moleza que antecede o sono.
“- Alo? – Atendi calmamente.
— Oi amor, tudo bem? – DC perguntou do outro lado, era claro, como pude esquecer... Eu tinha combinado de ligar pra ele quando saísse do meu pai para nos encontrarmos.
— Oi lindo, desculpa não ter te ligado, cheguei a pouco com um sono anormal – Respondi lamentando.
— Não tem problema princesa, vamos jantar hoje? O produtor do casamento mandou no meu celular umas mil cores de toalhas de mesa e estofado de cadeira para escolhermos, disse alguma coisa sobre ter que combinar com a fita do convite, você sabe que não levo jeito nenhum pra escolher essas coisas, ele avisou que mandou no seu também mas você não respondeu – Contou animado.
— Ah... Verdade, eu vi notificação dele mesmo, mas como estava na casa do meu pai não peguei muito no celular – Contei a verdade – Amor, você sabe que amo cuidar desses detalhes né? Mas hoje não estou muito bem, minha cabeça está estourando, acho que vou tomar um banho e dormir – Contei pausadamente torcendo para ele não ficar chateado.
— Ah Mo, justo hoje que estou com tanta saudade desse beijinho – Ele reclamou do outro lado.
— Também estou, sério, mas podemos marcar para amanhã o que acha? Hoje estou indisposta – Choraminguei apelando, eu sabia que ele nunca resistia.
— Falar assim não vale... Ta bom, mas então toma um remédio e descansa viu – Ele recomendou preocupado – Quer que eu passe ai?
— Não precisa lindo, vou fazer isso e dormir logo depois – Conclui.
— Então até amanhã, beijos – Se despediu.
— Beijos amor – Desliguei jogando o celular longe.”
— Toma, trouxe seu remédio – Magali entrou na sala com uma caixinha na mão esquerda, me assustando.
— Ai Maga!!! – Coloquei a mão no peito – Que susto.
— Ueh... Ta devendo? – Ela questionou rindo ao se sentar do meu lado. – Toma, pra sua dor de cabeça.
— Que dor de cabeça? Tá doid.... – Comecei a falar, mas lembrei rapidamente que essa foi a desculpa que dei no telefone para o DC e ela provavelmente havia escutado.
— Sabia – Cruzou os braços me olhando.
— Que foi? – Perguntei virando os olhos.
— Ueh, inventando desculpas pra não sair com o noivo – Comentou pausadamente.
— Para de viajar Maga só estou indisposta hoje – Conclui fechando a cara – Já remarquei para amanhã... Chegou faz tempo?
— Ok... Um dia vai ter que contar pra alguém... Não vai poder guardar pra sempre tudo isso ai dentro... – Me provocou dando de ombros.
— Contar o que criatura? – Questionei me levantando. – Vai continuar com isso?
— Hum... Bom em resposta a sua outra pergunta eu não cheguei faz tempo, mas já recebi uma ligação da Folha – Contou ligando a TV.
— Ah, e é noticia boa? Você foi lá hoje não foi? – Perguntei preocupada me sentando novamente e agradecendo mentalmente pelo assunto ter mudado de foco.
— Fui, e sim é noticia ótima – Riu se divertindo do meu interesse repentino.
— Então conta logo mulher – Joguei uma almofada na cara dela.
— Calmaaaa, amanhã vamos participar da feira anual de jornalismo numa faculdade aqui do bairro.
— Ual, não acredito, sempre ouvi falar dessa feira daqui – Respondi animada.
— Pois é, vamos palestrar as 16h00 eu você e mais dois da redação – Ela continuou contando.
— Ok fechadíssimo – Me animei na hora – Em qual faculdade que é?
— A Faculdade do Limoeiro, aquela que seu irmão estudou – Ela concluiu sorrindo.
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