Meu querido diário
46 Com amor, Cebola.
Notas iniciais

Observei em silencio, ele me entregar um pacote de presente, olhar mais alguns segundos dentro dos meus olhos e em seguida ir embora por entre a escuridão com as mãos no bolso, sem voltar atrás.
— Você estragou tudo.... – Chorei descontroladamente o vendo cada vez mais longe, eu sabia que ele não mais me escutava – Estragou tudo.... – Passei a mão sobre o rosto – Estragou tudo... – Essa ultima frase saiu em forma de sussurro, mais pra mim do que para qualquer outra pessoa. Sentei no chão, abracei os joelhos e permaneci ali chorando enquanto olhava para o embrulho recém entregue, analisei mais um pouco e percebi que dentro havia uma carta, a peguei na mão e passei o dedo delicadamente sobre o nome escrito do lado de fora, com aquela letra que por algumas aulas pude observar na lousa.
— Eu te amo Cebola... Pra sempre – Conclui abaixando a cabeça por entre os joelhos.
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— Amiga? Mo? Está tudo bem? – Magali e Maria me olhavam preocupadas, fazia talvez aproximadamente meia hora que o Cebola havia ido embora e uma chuva fininha caia por entre as árvores do lado externo.
— Ele estragou tudo... – Repeti enxugando os vestígios que as lágrimas deixaram sobre o meu rosto.
— Como assim? O que o Cebola te fez? – Maria perguntou preocupada.
— A gente se beijou – Respondi me levantando do chão com a ajuda da Magali.
— QUE? Ai socorro, mas ele te agarrou? – Magali questionou assustada.
— Não, claro que não, acho que eu quis talvez até mais que ele – Falei enquanto enfiava a carta novamente na parte de dentro do embrulho.
— E então, foi ruim? Por que chora amiga? – Maria tornou a perguntar.
— Foi ótimo, até a parte na qual ele jogou nossa realidade ao vento, funcionou como uma espécie de despedida meninas, ele veio, me entregou esse pacote, nos beijamos, conversamos, e concluímos juntos que não foi nosso momento e ainda não é... – Outra lágrima escorreu — E que talvez um dia, quem sabe a gente volte a se encontrar...
— Caraca – Magali balbuciou coçando a cabeça – Nem sei o que te dizer amiga...
— Foi forte, vem cá – Maria me puxou para um abraço, segundos depois senti a Magali nos enlaçando também.
— Por que fui gostar bem dele? – Perguntei chorosa.
— Não escolhemos por quem nosso coração se apaixona Mo – Magali comentou nos guiando de volta para a festa.
— Por falar nisso, você sabe que o Fabinho está te esperando ha um tempão né? – Maria contou quando estávamos quase chegando à porta do salão.
— Que? Nossa, não acredito. Fiquei tão distraída quando o Cebola chegou que sequer lembrei que estava dançando com ele – Bati a mão na testa em forma de protesto.
— Está preocupado faz tempo, já faz mais de uma hora que você sumiu, por isso viemos te procurar – Ela continuou contando.
— Não quero explicar tudo pra ele hoje – Reclamei impaciente – Não que ele não mereça, ao contrário, mas não estou com cabeça sabe.
— Pede para conversarem amanhã, ou outro dia, mas fala alguma coisa, porque ele pareceu um pouco confuso e chateado – Maria concluiu cruzando os braços.
— E o que tem nesse embrulho? – Magali cortou o assunto, curiosa.
— Também não sei, acho que vou abrir – Tornei a reparar na embalagem.
— Não! Melhor abrir em casa... Vai que é algo que te fará chorar. — Maria interrompeu imediatamente.
— É, pensando por esse lado, tem grandes chances de ser mesmo... – Concordei o guardando em minha bolsa.
— Monica – Ouvi meu irmão me chamar e virei preocupada, não estava preparada psicologicamente para mais nenhum problema aquela noite – Você sumiu, está tudo bem?
— Oi Titi... Eu estava tentando resolver o que não tinha mais jeito... – Respondi rapidamente.
— Que? Como assim? – Ele perguntou encafifado.
— Resumindo tudo, o dia inteiro foi sensacional, simplesmente incrível... Só que minha conversa com o Cebola foi péssima – Resolvi contar a verdade, afinal, nem tinha mais porque esconder alguma coisa, não ficaríamos juntos mesmo, não fazia diferença alguma naquela altura do campeonato — ...Mas vai passar relaxa.
— Ah... Sério?! Nem sei o que dizer... – Ele comentou preocupado. – Ainda não sei se curto muito essa idéia, mas...
— Nem precisa, não vai acontecer! – Terminei o assunto, decidida. – Agora vamos esquecer isso, o importante é que a festa foi ótima, eu amei de verdade, me diverti demais.
— Bom se você gostou, então valeu a pena – Ele concluiu me dando um beijo na testa – Vamos arrumar o salão e ir embora, vai querer carona para casa?
— Claro, quero sim, vou me despedindo do pessoal enquanto isso – Respondi indo em direção a Denise.
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Não demorou muito para arrumarmos tudo e eu me despedir de todos, um por um, me segurei o máximo que consegui para não chorar, mas assim que cheguei neles, meu coração desabou, Maria, Fabinho e o Dudu. Não sabia muito bem o que dizer, mas um abraço naquele momento disse todas as coisas que nosso coração guardava. Prometi mandar noticias sempre e que manteríamos contato todos os dias.
Foi a primeira vez que vi o Fabinho chorar, e uma dor ainda mais forte do que a que eu já estava sentindo naquela noite, se alojou no meu peito, me prometendo uma noite de insônia.
Antes de o Fabinho ter qualquer oportunidade de perguntar o que quer que fosse, e de irmos embora, puxei o assunto com os três ali presentes.
— Sei que tenho que explicar algumas coisas, por serem meus amigos e próximos a mim, falar sobre esse meu sumiço da festa e quem ocasionou ele, mas hoje, especificamente agora, estou um pouco sem cabeça para falar no assunto, prometo que saberão, só peço que entendam, é um dia difícil, sou péssima com despedidas.... – Comentei rapidamente com um pouco de medo olhando nos olhos de cada um deles. – Amo vocês e quero que se lembrem disso todos os dias.
— Também te amamos amiga – Maria me abraçou chorosa.
Em seguida abracei ao Dudu, que pegou nas mãos da Maria com um sorriso, me fazendo sorrir de volta.
— Fabinho... Vou sentir sua falta – Me direcionei a ele receosa.
— Eu também, mais do que imagina, te amo Monica – Ele respondeu me envolvendo em um abraço forte que fez meu coração despedaçar.
— Eu também – Respondi com sinceridade.
— Sobre a festa... – Comecei a falar, mas ele me interrompeu.
— Não precisa me explicar Mo... Acho que no fundo eu sempre soube que a implicância do professor comigo, ia muito alem da rebeldia no colégio – Concluiu abrindo um meio sorriso para mim, e indo embora juntamente ao casal recém formado.
Quis argumentar, mas achei melhor não falar mais nada, não era a despedida que havia planejado para ele, porém quanto mais insistisse no assunto, mais poderia machucá-lo.
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Demoramos mais um pouco no local, fiquei combinando os toques finais com a Magali, afinal passaríamos o Natal e o Ano novo separadas, e apenas no dia da viagem nos reencontraríamos, e naquele momento ela iria para a casa da sua tia que também morava em São Paulo, onde ela estava hospedada, de carona com o Cascão.
Abracei-a firme, e segui ainda cabisbaixa em direção ao meu irmão que já me esperava.
— Tem certeza que esse seu amigo é de confiança Titi? – Perguntei assim que eu ele e a Aninha entramos no carro.
— É Monica, já falei três vezes, eu confio no Cas, e sua amiga sabe muito bem o que faz não precisa ficar no pé dela, já é maior de idade – Ele respondeu dando partida no automóvel.
— Ah que bom saber disso, vou usar esse argumento quando você pegar no meu pé – Reclamei virando os olhos.
— É diferente – Ele se defendeu.
— Fica calma Mo, eu também conheço o Cas, ele é um amor de pessoa – Aninha amenizou com um sorriso.
— Ok! – Conclui de braços cruzados.
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Observei assim que chegamos em casa o céu ao longe que passava calmamente de um azul escuro para laranja, olhei no relógio eram 5h30 da manhã, entrei correndo, subi para o quarto, me troquei e me joguei na cama, decidida a dormir.
Era só fechar os olhos e pegar no sono, mas alguma coisa tirou minha concentração, uma inquietação me agitava por dentro e uma angustia dava nós no meu estomago, o vazio novamente se alojou lá, bem no coração, onde há um bom tempinho não aparecia.
De repente me lembrei do presente dele, como poderia ter esquecido? As despedidas me tiraram o foco, mas naquele momento minha curiosidade havia voltado com tudo. Com um pulo corri até a bolsa e o peguei, liguei meu abajur e sob a luz apagada do quarto iluminei a carta, uma ansiedade percorreu meu corpo como um choque, imediatamente a abri.
Em letras cursivas e firmes comecei a despedaçar meu coração lentamente.
“Oi Moniquinha, começo pedindo mil perdões, não levo muito jeito com as palavras, não igual a você, que as domina com classe. – Limpei uma lágrima que caiu sorrateira, manchando uma parte da caneta esferográfica escrita no papel.
Foi difícil escrever essa carta, mas não tão difícil quanto decidir que o melhor era nos deixar, talvez foi uma das decisões mais difíceis da minha vida não lutar por você, entregar minhas armas, simplesmente porque eu te amo, te amo mais do que imaginei, você é única, é diferente, nos entendemos com o olhar, não são precisos argumentos para expressar o que sentimos.
Mas, tem horas que infelizmente somente isso não é o bastante, e acho que essa hora chegou, de reconhecer nossa despedida, de voar cada um para um lado e talvez na próxima migração, tornamos a nos encontrar.
Um pouco ousado da minha parte essa carta, afinal te escrevo isso sem ter a mínima idéia se ainda pensa em mim, não consegui nesses últimos tempos te olhar nos olhos, decifrar o que se passa nessa cabeça sua brilhante.
Peço desculpas pelos momentos que te magoei, ou que não acreditei em algo, sei que foi difícil mas por favor me entenda, também estava chateado.
Independente de tudo que aconteceu, quero que saiba que torço por você, torço pela sua carreira, e pela sua felicidade.
Espero um dia te ver nas vitrines das livrarias.
Me apaixonei pela Mel, pela Monica e pela minha aluna.
Com amor,
Cebola. “
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