Meu querido diário
40 Como lanças
Notas iniciais

... Acho que estou gostando dele de verdade!
Limpei uma lagrima que escorreu assim que li essa frase, e folheei mais para frente vorazmente, agora nervoso por não te-la mais comigo. Assim que bati o olho naquela folha percebi que ali estava o que eu queria. Respirei fundo e tornei a ler.
“Meu querido diário, hoje não foi um dia bom....
— Careca? – Um som me despertou daquela história envolvente, porém de triste final.
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POV Cebola
Reconheci a voz do Cascão, rapidamente limpei qualquer vestígio de tristeza presente em meu rosto, enfiei o diário cor de rosa embaixo do travesseiro e levantei estendendo a mão pra ele.
— Fala Cas, firmeza? – O cumprimentei abrindo o sorriso mais falso que eu já dei na vida.
— Eu sim, mas e você? Acordou agora? Com essa cara amassada – Ele me zoou petecando a bola. – Ta mais feio que o normal.
— Cala a boca – Tirei a bola dele e segui para a sala rindo.
— Bora logo, o pessoal já deve ta na quadra – Ele coçou a cabeça olhando no relógio.
— Bora – Respondi, pegando minha mochila e saindo em seguida aliviado por ele não ter percebido nada.
— Cebolinha – Maria me gritou de algum lugar de dentro da casa.
— Ai que saco! – Reclamei dando um passo para trás – O que foi Maria? E já te disse pra não me chamar assim.
— Você por algum acaso pegou minha temporada de GOT? Não acho em lugar nenhum – Ela questionou de braços cruzados parando no corredor.
— Não, tchau – Respondi tornando a fechar a porta.
— Menino I-N-S-U-P-O-R-T-A-V-E-L – Ela gritou fazendo com que eu pudesse ouvir o vestígio de sua voz.
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POV Maria
Vi meu irmão fechar a porta e com raiva marchei de volta para o quarto, eu tinha certeza que estava com ele. Desde que comprei, ele vivia de olho esperando a oportunidade para maratonar a MINHA série.
Revirei por mais alguns minutos as coisas no meu quarto e por fim, quando já estava quase desistindo, percebi pelo espelho do corredor a porta do Ce entre aberta.
— Maria, o que você tanto bagunça? – Mamãe perguntou aparecendo no corredor.
— Ah mãe, o Cebola pegou meus DVDs e agora escondeu – Respondi brava.
— O tempo passa e parece que vocês dois não crescem, isso por que você fez 18 mês passado hein! – Ela me repreendeu voltando a atenção para a TV.
— Briga com o Cebolácio, ele sim tem 23 anos, mas se comporta como criança, eu sou mais madura que ele – Me defendi, e era verdade.
Entrei no quarto dele decidida a encontrar meu objeto perdido, olhei nas gavetas da mesa do computador, nas do armário, olhei nas pilhas de DVD ao lado da TV dele, abri o guarda-roupa, procurei na pasta de trabalho, e somente quando sentei na cama exausta, que reparei em algo que fez a esperança de achar minha série retornar.
Uma pontinha de alguma coisa aparecia sorrateiramente abaixo do travesseiro dele, imediatamente o levantei, que lugar mais fácil para esconder alguma coisa, pensei comigo mesma. Porém na verdade e para meu espanto, a parte antes vista para fora, era do espiral de um diário cor de rosa, que por sinal eu conhecia muito bem.
Abri-o cautelosamente e com um susto confirmei o que já imaginava. Meu irmão havia pegado o diário da Monica.
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POV Monica
Após desligar com a Maga, a mamãe me chamou pra almoçarmos no shopping, comemos, conversamos, a contei direito sobre o Cebola e ela me deu exatamente os conselhos que imaginei que daria, me disse para ser feliz, aproveitar as oportunidade, e dar tempo para nós, que se tivéssemos que ficar juntos, um dia iríamos ficar.
Desejava do fundo do coração que de alguma forma, a minha saudade entendesse isso, e não voltasse, pelo menos por enquanto, a incomodar, como ela fazia todo dia antes eu pegar no sono.
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Sem perceber a noite caiu e a hora de voltar pra casa chegou, caminhei tranquilamente abraçada com a mamãe, fazia um tempo fresquinho, sem muitas nuvens no céu, deixando claro que o verão se aproximava.
Papai tinha aberto a mesa de jardim lá no quintal, vinha achando ele mais animado e isso era ótimo. Sentamos sob o céu estrelado para comermos ao ar livre, nem preciso dizer que nosso jantar acabou em pizza e risadas, como nos velhos tempos, nós quatro juntos e o Monicão que a todo custo tentava pegar um pedaço de pizza que estava sob a bancada dando sopa. Nessa horas eu percebia como devemos dar valor para momentos como esse, sentia uma falta absurda dessa minha família feliz.
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POV Cebola
Cheguei em casa exausto, o futebol acabou em churrasco que acabou em farra, já era tarde e as únicas coisas que eu queria naquele momento era o chuveiro quente e minha cama.
Havia esquecido totalmente que essa noite meus pais não estariam em casa, era aniversário de um amigo do papai, só lembrei quando vi tudo apagado. Pelo jeito a Maria tinha ido junto.
Tranquei a porta assim que entrei, afaguei o Floquinho que animado me recebeu, e caminhei para o meu quarto quase me arrastando.
Posso dizer que por pouco não desmaiei de susto, mas a imagem da minha irmã parada na porta do seu quarto contrapôs a minha dedução anterior, ela tinha ficado.
— Quer me matar de susto Maria? – Perguntei a ignorando e entrando diretamente no meu quarto. – Está no escuro por que?
— Cebola, precisamos conversar – Ela cortou o ar quente, com uma frieza notável.
— Ih Maria, nem começa estou cansadão, amanhã você me enche – Respondi, arrancando minha camiseta, e trocando as meias e sapatos por um chinelo.
— Cebola, tem que ser agora – Ela insistiu em seu tom frio.
— Eu já disse que não peguei sua coleção Maria, já baixei no meu note, não preciso dos seus DVDs – Respondi com descaso, revirando os olhos.
— Já encontrei eles – Ela me respondeu de braços cruzados, apoiada agora no para peito da minha porta.
— Então o que foi? – Questionei já impaciente.
— Cebola, por que você está com o diário da Monica? – Ela perguntou curta e decidida.
— Maria, isso não é da sua conta – Respondi lembrando de repente que tinha o deixado em baixo do meu travesseiro.
— Você tem que devolver é muito feio roubar coisas dos outros – Ela continuou a falar sem perceber o quanto aquilo estava me irritando.
— E você tem que aprender a não se meter nas minhas coisas, já te disse mil vezes que não quero você entrado no meu quarto, será que tenho que começar a trancar a porta pra ter privacidade? – Respondi nervoso ao ver que ela já tinha retirado o objeto do local inicial.
— Eu estava procurando minha série – Se defendeu.
— E eu não o roubei, ele estava caído no chão da cantina e acabei encontrando, agora me da – Pedi estendendo as mãos com autoridade. – Não era pra ter tirado daqui.
— Não! Eu vou devolver pra ela Cebola – Ela bateu o pé.
— Maria, eu nunca me meti nas suas coisas com o Eduardo, então por favor, não confunda nossa relação de irmãos, com a vida particular, eu sei o que eu estou fazendo, e eu que vou devolve-lo – Comecei a me alterar, não queria estragar aquele dia, mas ouvir desaforo da minha irmã me tirava do sério.
— Ela vai embora Cebola, e espero que não esteja pensando em atrapalhar isso também – Ela contou tentando desviar o foco do assunto “Dudu”, acreditando provavelmente que eu já sabia daquela noticia. Teria sido mais fácil tomar um soco, as palavras saíram da boca dela como lanças e me atingiram diretamente, eu tive que sentar na cama para tentar assimilar a frase.
— O que? – Perguntei pausadamente.
— Ah... Você não sabia, não é?! Não acredito que acabei de te contar – Vi o arrependimento imediato nos olhos dela, ao perceber-la levando suas mãos à boca.
— Como assim ela vai embora? – Perguntei ainda confuso.
— Não seria melhor conversar com ela?! – Ela perguntou um pouco insegura sobre me contar ou não, ela sabia que me machucaria.
— Maria, você sabe que não estamos conversando direito, qual a chance dela me contar isso? – Respondi com uma mistura de ansiedade e angustia.
— Ok! – Respirou fundo — ...Faculdade Federal, ela passou na UOP, conseguiu realizar o sonho dela, e eu não queria que algo, meio que estragasse essa oportunidade, ela merece Ce, e esse diário é muito importante pra Mo, quando ela souber que perdeu... – Ela continuou a falar, mas eu já não ouvia uma só palavra.
Me perdi entre alguns pensamentos, e de repente a comemoração da cantina fez sentido, ela tinha passado!
— Quando ela vai? – Perguntei cabisbaixo, eu estava feliz pela conquista dela, mas sabia que seria ainda mais difícil não vê-la mais.
— Vai no comecinho de Janeiro – Ela respondeu percebendo minha tristeza.
— ... Ual, essa me pegou inesperadamente – Balbuciei mais para mim do que para ela.
— Quer saber... — Reparei nela sumindo de vista e reaparecendo com o diário em mãos. — Toma, devolve você.
Ela ia embora, quando parou no meio do caminho e voltou para concluir sua frase.
— Ela vai fazer uma festa de despedida, junto com o aniversário de 18 anos, é um bom dia pra você aparecer de surpresa. – Deu uma piscada e desapareceu corredor adentro.
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