Meu querido Idol

4 Um dia sem acidentes


–É claro que eu achei absurda a sorte que demos em poder cuidar dos garotos, mas não pense que eu acreditei que seria tão fácil assim.-
Mais ou menos uma semana se passou desde o incidente. Uma semana que começamos a estudar,e tivemos só três dias pra organizar tudo e dividir o tempo de estudar com o de trabalho na Big hit.
Acabou que nós ficamos manhã e tarde na escola,depois disso devemos ir para a Big hit.Enquanto nossos amigos fazem aula extra ou saem,nós temos trabalho extra. A maior parte dos eventos marcados na agenda do BTS é a noite, e é aí que entramos com nosso trabalho de assistentes faz tudo.
Naquela noite quando fomos liberadas,Gaby teve que pagar uma multa de muitos wons,enquanto Thais e eu apenas fomos escoltadas para casa.Os caras de terno ficaram um bom tempo esclarecendo nossa situação para os funcionários do nosso prédio e pediram sigilo da nossa situação para que não fossemos mandadas para o Brasil.Claro que não foi de graça,lá se foi mais dinheiro que teríamos que repor a longo prazo. Eu sinceramente me sentia uma escrava que teria que trabalhar pela liberdade,é incrível como essas empresas são desprezíveis.
A partir daí,eu não me lembro de ter passado mais de duas horas por dia dentro do meu apartamento.Chegavamos em casa de madrugada quando tinham eventos importantes e as vezes dormíamos na Big hit pra poupar dinheiro da passagem de metro.Faziamos tudo, desde buscar comida, até a colocar os microfones ou abana-los em dias muito quentes.
Aquela semana foi horrível,mas aposto que foi pior para a Thais do que pra mim.Ela teve um ataque de fã quando viu o Jungkook pela primeira vez e foi repreendida.A partir daquele dia fomos separadas,ela ajudava sozinha no camarim arrumando tudo,e eu fui mandada para o dormitório do BTS.

E aqui estou eu agora,literalmente atolada.O dormitório é incrivelmente pequeno,apesar de ter mais cômodos que minha casa no Brasil cada centímetro quadrado está coberto por roupas e pequenos varais — também cheios de roupas -.Os quartos não são muito melhores,as camas são tão juntas que tenho que desviar com a destreza de um gato para não bater meu dedinho em alguma quina.
De volta ao que deveria ser a sala,vejo uma pequena estante branca com vários brinquedos,reconheço alguns de animes que já assisti...devem ser do Suga.Sigo meu caminho até o único espaço realmente livre naquele dormitório,a cozinha.Parece muito com a minha,toda encaixada perfeitamente nas paredes para poupar espaço.Mas eu não estou aqui para observar o maravilhoso design,estou aqui para recolher os objetos do Jimin e levar até o apartamento de cima.Com a perna quebrada vai ficar difícil viver com os outros.
A propósito isso foi tudo o quê me disseram na mensagem de texto.
– "Vamos leva-lo às onze,esteja com o apartamento pronto até lá." — Dou um longo suspiro e coloco o celular de volta no bolso. Já são dez e meia e ainda não consegui encontrar todos os seus pertences.

Se eu não estivesse sendo obrigada a trabalhar com certeza já teria sido despedida.Acabei de chegar no novo apartamento, não tenho certeza se todas as coisas que peguei no dormitório são dele, porém, ele que se resolva depois . Óbvio que depois de ler a mensagem e ver o quanto estava atrasada,eu peguei todos os óculos e bonés que vi pela frente e enfiei na bolsa.Jimin tem vários bonés e óculos,foi só questão de lógica.
Acabei de organizar as roupas no novo closet quando a campainha tocou.
Aquela era a primeira vez que eu o via desde o acidente. Thais foi comigo ao hospital uma vez mas disseram que ele tinha sido levado para outro,e não me diziam qual era.

Uma outra garota estava atrás dele segurando sua cadeira de rodas,meio gordinha,com cabelos compridos,eu a cumprimentei brevemente e ela foi embora sem dizer mais nada. Lancei um breve olhar para o Jimin, sua perna direita estava coberta com gesso,ele usava boné e máscara pretas,mas ainda assim era visível o curativo em sua testa. Trouxe ele para dentro do apartamento em silêncio,ele não parece querer falar comigo,o que eu posso fazer? Dizer: "me desculpe pela sua perna,mas foi minha amiga que passou com o carro em cima de você" não parece uma boa idéia. Suspiro e resolvo esquecer as desculpas, não importa quem passou com o carro em cima dele, a perna não vai se curar com desculpas.

–Bom...esse é seu novo apartamento temporário -tento sorrir,mas Jimin nem sequer está olhando pra mim,ele só olha para baixo.Ignoro a culpa que aperta meu peito e sigo em frente.
–Se estiver com fome é só me dizer -minha voz sempre soa infantil,geralmente quando quero manipular as pessoas a fazer algo que quero,mas agora minha voz soa assim porque me sinto pequena demais.
Eu não quero continuar aqui pra ele me julgar por algo que não fiz,então apenas paro com minha tentativa de gentileza e vou para a cozinha.
Comprei um livro de receitas que deixei em cima da pia,lá só tem receitas de comida coreana simples às mais elaboradas. Começo a cozinhar kimchi e arroz o suficiente para almoço e janta enquanto corto alguns legumes.
Ouço o som de algo deslizando em minha direção,não preciso me virar pra sabem que ele está atrás de mim.

–Noona,eu queria te devolver isso.
Eu me viro,mas não pra ver o que ele quer me devolver.

–Você acabou de me chamar de Noona? — aponto pra ele com a faca na mão.Eu estou consciente que isso parece uma ameaça,mas mesmo assim não abaixo a faca,se ele não quer falar comigo então não tenho porque ser educada. Mas ele apenas sorri,um sorriso tímido e...meu Deus,tão lindo,que me faz essitar.

–É que você não me disse seu nome.

–Ainda assim eu não pareço tão velha! Sou três anos mais nova que você — murmuro magoada.

–Me desculpe,é que...eu não estou acostumado com estrangeiros dessa forma — Coça a cabeça envergonhado. -Eu acho que isso é seu -Ele estende a mão com um casaco que reconheço como o que havia deixado com ele no dia do acidente.

–Meu casaco! -sorrio. -Achei que não fosse vê-lo nunca mais.

–Eu pedi pra lavarem,mas ainda tem manchas aqui — Jimin aponta para uma mancha escura na manga,pelo menos não parece mancha de sangue.

Seus dedos estão arranhados do acidente,eu acho que fiquei olhando demais pra suas mãos,porque ele as puxa de volta um pouco sem jeito.Sou uma fã como qualquer outra e me distraio com essas coisas,mas parece tão difícil ficar feliz por conhece-lo devido às circunstâncias. Ferrei a vida dele.

O silêncio pesa entre nós como uma rocha,evitamos nos ohar nos olhos.Queria dizer alguma coisa mas não sei mais o que.

–Eu me chamo Carla -estendo a mão para ele.
–Kalla? — repete enquanto damos as mãos.
–Quase isso -sorrio,estou sorrindo muito pro meu gosto,mas não é forçado como a maioria das vezes em que sorrio.

Meu celular toca,eu atendo sem nem ver quem é.
–Alô?
–Carla eu tô de folga aqui,vamos fazer alguma coisa? -Thais pergunta.
–Tá,eu vou só terminar uma coisa aqui e já vou, me encontra naquele café perto do dormitório.
Desligo o celular sem esperar uma resposta. Depois me viro para o Jimin que está prestando atenção na nossa conversa meio surpreso.
–Eu vou sair,mas volto daqui uma hora,tudo bem ?
–Claro...que língua era aquela? Não parecia inglês -Jimin inclina a cabeça curioso.
Pego a comida e vou levando até uma mesa de madeira na sala,baixa o suficiente para ele conseguir comer sem precisar sair da cadeira,enquanto respondo.
– E não era,é português.

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Pego minha bolsa e saio. O melhor jeito de se andar por Seul é a pé,porque assim eu aprendo mais rápido a andar pelas ruas,elas são todas iguais pra mim,sempre com o mesmo asfalto cinza,e montanhosas,parecem mais subidas do que decidas. Chego em frente ao café,olhando através das portas de vidro vejo Thais sentada próxima aos fundos com um olhar ausente,ela nem parece me ver.
–Alou alou! -sento de frente pra ela batendo as mãos na mesa.
–Ah...Você chegou...-Ela olha pra mim quase decepcionada,retirando pequenos pedaços de um pãozinho com os dedos e levando a boca,tão lentamente que eu quase enfiei a mão na cara dela.
–Nossa tô super feliz por te ver também,obrigado -reviro os olhos.

Ficamos ali por um tempo em silêncio. Somos amigas a muito tempo então ficarmos assim não é constrangedor, mas é no mínimo estranho que Thais fiquei quieta por mais de cinco minutos. Quase acabei de beber um copo enorme de café gelado,então,pelos meus cálculos estamos sentadas ali olhando pro nada a vinte minutos.
Definitivamente tem algo muito errado. O rosto dela está pálido,isso significa que... ELA NÃO ESTÁ USANDO MAQUEAGEM. Com certeza aconteceu algo grave.
Espremo seu rosto com a mão,forçando ela a olhar para mim.
–Já chega! Fala agora o que tá acontecendo.

–Carla, estão olhando pra gente -sussurra.

–Eu vou jogar esse copo na sua cabeça — aponto para o copo em que acabei de beber.

Ela suspira e se afasta da minha mão, me obrigando a sentar direito.
–O Pietro tá muito estranho comigo -desabafa. — Ele não me chama no Skype,nem responde em qualquer lugar! Só faz uma semana que estamos aqui e ele faz isso comigo?

O Pietro de novo não,esse namorado fajuto dela vive fazendo ela de trouxa e depois eu escuto as reclamações...

–Quando a gente voltar pro Brasil eu mesma quebro o nariz dele. Agora levanta que a gente tem quarenta minutos pra comprar roupa nova -
Dou um abraço em Thais, mais para bagunçar o cabelo dela do que oferecer conforto,e saímos do café.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.