Era hoje. Era hoje.

Eu estava muito empolgada.

Hoje era o meu primeiro dia de pedir doces na rua no halloween.

Meus pais nunca me deixaram fazer isso. Diziam que era uma festa pagã e que todos os tipos de coisas ruins eram liberados nesse dia para fazer maldades e atormentar as pessoas e principalmente crianças, mas sinceramente? Eu só queria pegar os doces que nossos vizinhos compravam e nos davam.

- Estou pronta, mamãe. – eu pulava no lugar com minha roupa de bruxa que minha mãe comprou para mim.

Eu conseguia ver nos seus olhos que ela não queria que eu fosse.

- Luiza, filha. Tem certeza que quer sair para pedir doces? Eu compro para você. – tentou me persuadir. – Você só tem oito anos para sair na rua a essa hora.

Revirei meus olhos.

- Mamãe, são cinco horas da tarde. Até as oito eu volto. E não vou sozinha, a Lory vai comigo.

Lory é minha melhor amiga desde sempre.

- Mas a Aurora tem a mesma idade que você. São duas crianças e você não me deixa ir junto.

Olhei para meu pai que também estava com a expressão séria.

- Papai. – tentei apelar para aquele que nunca me dizia não.

- Dessa vez eu concordo com sua mãe, mas se quer tanto ir...

Meu sorriso só aumentou. Quando meu pai concordava, a causa estava ganha.

- Certo. – minha mãe se convenceu. – Como sou voto vencido... – ajeitou minha fantasia e disse com a voz firme. – Quero a senhorita em casa às oito horas em ponto. E nada de sair do bairro. Entendido?

Pulei sem parar no lugar.

- Combinado. – a abracei e em seguida fui até meu pai. – Muito obrigada e eu amo vocês.

Sai de casa super empolgada e avistei Lory me esperando no portão.

- Finalmente, Lu. Finalmente nós vamos sair para pedir doces.

Minha amiga estava tão empolgada quanto eu.

Sempre quisemos isso, mas meus pais nunca me deixaram. Eles, na verdade, detestavam essas comemorações, mas como eu vivia pedindo isso a eles, acho que dessa vez tiveram dó de mim.

- Certo, para onde primeiro? – eu olhava em volta e via muitas crianças com fantasias de fantasmas, múmias, fadas, heróis e todos os tipos que pode imaginar.

- Vamos para a casa dos Andreson... Eles dão os melhores doces.

Aurora saia todos os anos para pedir doces, ela sabia quem davam os melhores.

E assim foi durante duas horas. Minha sacola estava forrada de chocolate, balas, pirulitos e até uma escova de dentes... pois é, isso foi o que o senhor Crown nos deu. “Para eliminar todas as caries que vocês terão com todos esses doces que irão comer”, palavras dele.

Quando olhei em meu relógio de pulso, vi que faltavam apenas uma hora para eu retornar. Decidi que estava na hora que chegar mais perto de casa, já que precisamos nos afastar um pouco para pegar os melhores doces. Quando ia erguer meus olhos, avistei no chão uma espécie de colar que continha um amuleto, achei ele interessante e me abaixei, o pegando e o colocando no pescoço.

Olhei para o lado, para poder chamar a Lory para irmos, mas não a encontrei.

Comecei a procura-la em volta, mas também não conseguia encontrar ninguém. Sério... Ninguém.

As ruas estavam simplesmente silenciosas. Aquelas crianças todas que estavam correndo e pedindo doces nas casas... sumiram.

Senti uma leve pontada de pânico e resolvi ir bater na casa do senhor Petter.

Assim que apertei sua campainha, ouvi um grito vindo do fim da rua. Nesse momento os pelos dos meus braços se arrepiaram. Não era um grito comum, ele era assustador.

Comecei a bater desesperada na porta do senhor Petter, na esperança dele abrir rápido, mas nada acontecia. Me atrevi a abrir a porta, mas a mesma estava trancada.

- Ai, não.

Olhei em volta e não via nada e nem ninguém.

Comecei a caminhar pelas ruas vazias em direção a minha rua.

Onde a Lory se meteu? Onde todo mundo se meteu? Até mesmo as casas que estavam com suas portas abertas para receber as crianças, estavam agora fechadas...

Algo está muito errado. Isso não deveria estar acontecendo.

Quando finalmente cheguei na minha rua senti um alivio tremendo, porque morava a menos de dois minutos de onde eu estava. Logo estaria em casa e com meus pais.

Só que a cada passo que eu dava eu ia sentindo uma sensação de que algo estava me seguindo.

Eu parei por uns segundos e me virei lentamente para trás, mas não encontrei nada. Apenas a luz do poste que começou a piscar, como sempre fazia. Respirei fundo, me virei para frente e voltei a caminhar, dessa vez um pouco mais rápido.

Quando avistei minha casa, corri. Como se eu estava fugindo de algo, porque era exatamente isso o que eu sentia. Que alguma coisa estava me seguindo.

Quando cheguei no meu portão, senti que algo estava errado.

Minha casa estava toda acesa, como quando eu saí, mas algo ainda estava errado. Não sei dizer o que, mas sei que está.

Abri o portão e comecei a caminhar lentamente até a porta e entrei devagar.

- Mãe? Pai? – o medo estava presente em mim, não sei dizer o porquê.

- Aqui, querida. – ouvi a voz da minha mãe.

Só que ao contrário do alivio que eu achei que sentiria, eu me arrepiei e não era um arrepio bom.

Comecei a caminhar para a cozinha, que era onde ouvi a voz dela.

Assim que adentrei eu paralisei.

Meu pai estava sentado na cadeira de costume, mas sua expressão não era a descontraída de sempre, era séria e ele olhava fixamente para a parede da frente da mesa. Já minha mãe estava de costas para mim, cortando algo que parecia ser carne.

- Hum... – eu ainda sentia aquele frio incômodo na espinha. – Já voltei... – pela primeira vez não sabia o que dizer diante dos meus pais.

- Que ótimo querida. Se divertiu?

Não sei dizer, mas não sentia que era minha mãe ali. Pode ser loucura... mas não era ela.

- Sim. – dei dois passos para trás. – Vou para meu quarto.

- Não. – dessa vez foi meu pai. O olhei e ele ainda fitava a parede. – Senta.

Estava estranho. Tudo estava muito estranho.

- Não, pai. Estou cansada. Meus pés estão doendo.

Dessa vez meu pai me olhou e o que vi em seus olhos me fez tremer.

- Sente-se agora, Luiza.

Assenti e me sentei.

Meu pai nunca falou assim comigo. Ele não tinha esse olhar... de... morte. Esse definitivamente não era meu pai. O que estava acontecendo? Será que eu caí, bati a cabeça e isso é um pesadelo?

- Vamos comer. – minha mãe se virou com uma carne totalmente ensanguentada dentro de uma travessa.

Meus olhos se arregalaram e eu soltei um grito sem querer, me levantando rapidamente e fazendo a cadeira bater contra o chão.

- O que está fazendo, Luiza? – disse minha mãe com desgosto na voz. – Enlouqueceu?

Eu estou num pesadelo. É isso. Não é possível. Esses não são meus pais. Essa não é minha casa.

Os dois me olhavam inexpressivos.

- Eu... – gaguejei. – Preciso me deitar. Estou morrendo de dor de cabeça. Por favor. – minha voz não passava de um sussurro.

Meu pai pegou a carne ensanguentada que minha mãe colocou sobre a mesa e cortou um pedaço, colocando em seu prato e em seguida levando a boca.

Quase vomitei.

- Vá direto para seu quarto. – disse sem nem me olhar.

Nem precisei de mais uma palavra. Saí correndo para meu quarto em desespero.

Mas o que é que está acontecendo? Eu só posso estar sonhando.

Assim que cheguei em meu quarto, o tranquei e peguei meu celular que tinha deixado carregando em cima da escrivaninha.

Disquei o número de Lory e começou a chamar.

- Anda Aurora, atende. – eu andava de um lado para o outro em completo desespero. – Onde você se enfiou?

A ligação caiu na caixa postal.

- Lory, me liga. Tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Por favor. Estou com medo. – e desliguei.

Estava tudo bem. Eu tinha saído de casa e ido pegar doces com a Lory. Comecei a rever os fatos mentalmente. Fomos em todas as casas do bairro e quando estávamos indo para a última casa da rua sem saída eu verifiquei meu relógio e quando olhei em volta... Todo mundo tinha sumido.

- Isso é loucura.

Ouvi passos pelo corredor em frente ao meu quarto, mas não me atrevi a abrir a porta. De uma coisa eu tenho certeza, esses não são meus pais.

- Luiza. Abra. – era meu pai, mas a voz dele estava aterrorizante.

Se eu ficar quieta ele vai achar que eu dormi e vai embora. Por favor... Vá embora.

- Luiza... Abra. – e começou a bater na porta.

Vai embora. Vai embora.

- LUIZA. ABRA. – essa já não era mais a voz do meu pai. Era grossa demais, rouca demais. E começou a esmurrar a porta. – ABRA. ABRA. ABRA.

- VAI EMBORA. – eu gritei em completo desespero e comecei a chorar.

Foi então que ele parou, mas eu conseguia ouvir sua respiração forte ainda atrás daquela porta.

Cinco minutos se passaram e finalmente ele se foi.

Peguei meu celular de novo e olhei a hora... 20:59. Desbloqueei meu celular e tentei ligar para a Aurora de novo, mas na hora que ia apertar para chamar, meu celular começou a tocar. Era ela.

- Lory. – atendi em desespero e sussurrando, encolhida em cima da minha cama. – Onde você se meteu... Tem alguma coisa estranha acontecendo... Eu não sei explicar...

- ... – silencio. Era isso que vinha do outro lado da linha.

Tirei o aparelho do ouvido e o olhei. A ligação não havia caído.

- Aurora? – meu medo só cresceu.

- Luiza... – sua voz era nada mais que um sussurro sofrido. – Foge. Corre daí.

Meu corpo todo ficou em alerta.

- O que?

- Foge. – sua voz era desesperada agora. – Não são seus pais. Corre. – e a ligação caiu.

Olhei para a porta e a sombra de alguém do outro lado estava ali, por baixo da fresta da porta. Eu só sabia chorar em silencio.

- Querida... Abre a porta para a mamãe. – a voz dela tentava ser amável, mas não era. – Venha, vamos assistir a um filme juntas.

E ali eu tive a confirmação de que não era minha mãe. Ela odiava televisão. Sempre foi amante dos livros.

- Eu... – respirei fundo. – Estou com dor de cabeça... mãe. – pigarreei. – Vou descansar.

Ela tentou abrir a porta.

- Por que sua porta está trancada, Luiza? – e forçou para tentar entrar.

- Ela emperrou. – dei uma desculpa qualquer.

Eu precisava sair dali. Eu precisava saber onde a Lory estava. Por favor, Deus... Me ajude.

- Tudo bem, vou pegar alguma coisa para abrir. – e saiu.

Era minha hora. Peguei meu celular e abri a janela do meu quarto. A queda não seria tão grande assim. Eu me troquei rapidinho, coloquei uma calça, tênis e corrida e uma blusa de frio preta. Precisava passar despercebida pelo jardim.

Quando aterrissei no chão, comecei a correr pela rua. Eu precisava sair dali. Não sei o que estava acontecendo, mas sabia que não era normal.

Corri como nunca corri antes. Sentia minhas pernas queimarem, mas sabia que não poderia parar. Eu precisava sair dali. Eu precisava saber o que estava acontecendo...

Então, quando virei a esquina da minha casa, eu estanquei. No meio da rua estava um homem totalmente de preto, debaixo da luz do poste e me encarava. Não conseguia ver seus olhos, mas conseguia sentir os mesmos em mim.

Eu não podia voltar... mas estava com medo de seguir...

Fui dando passos curtos em direção ao início da rua que me tiraria daquele lugar.

A luz do poste apagou e reacendeu, mas o homem não estava mais ali. Nem parei para pensar no que isso significava, comecei a correr pra onde tudo começou. Fui na direção da rua da casa do dentista, já que foi a última casa que peguei os “doces”.

- Graças a Deus.

A rua estava do mesmo jeito. Iluminada pelas luzes dos postes, mas as casas estavam fechadas. Peguei meu celular e tentei ligar para a Aurora, mas caia na caixa postal.

Eu estava tremendo dos pés à cabeça. Parecia que eu estava em uma outra dimensão. Era muito estranho que isso estivesse acontecendo.

- Não deveria estar aqui.

Pulei de susto e me virei em direção a voz. Era o homem. O mesmo que estava sob a luz do poste na rua debaixo.

Fui me afastando lentamente dele. Ele era alto e tinha cabelos pretos e penteados para trás, os olhos eram de cores diferentes, sendo um azul e o outro verde, muito bonito. Pele bem branca e aparentava ter seus 25 anos. Porém, sua expressão era muito séria.

- Eu... – gaguejei. – Não sei o que quer dizer com isso. – disse sem parar de me afastar dele lentamente.

O rapaz pendeu sua cabeça um pouco para o lado me observando.

- Você não deveria estar desse lado.

Cada vez que ele falava eu ficava mais e mais confusa.

- Olha, eu só quero ir para casa. – parecia loucura, mas eu sentia que ali não era a minha casa. – Não sei o que aconteceu.

Ele deu uns passos para frente e sorriu. Um sorriso bem bonito.

- Ainda não era hora de nos conhecermos.

Franzi o cenho e parei meus movimentos.

- O que quer dizer com isso?

Ele balançou a cabeça e seus olhos tinham um brilho diferente ao me olhar.

- Precisa voltar para casa, Luiza. – ele estendeu a mão ainda me olhando. – Me dê o amuleto!

Só então me lembrei dele. Olhei para baixo e o vi pendurado em meu pescoço. O segurei e comecei a tirá-lo para lhe entregar.

- O que é isso? – perguntei quando estendi o colar para ele.

O homem segurou minha mão ainda com o colar.

- É um portal. – disse. – Não era para ele ter se perdido dessa forma, foi muita irresponsabilidade. Mas quando te vi, eu fiquei sem reação.

Certo.... Agora eu fiquei com vergonha.

- Como... Como assim?

Ele levou minha mão até uma mecha do meu cabelo que caia em meu rosto e a afastou para olhar meus olhos.

- Daqui um tempo, você vai entender tudo... – eu ia soltar o colar, mas ele prendeu minha mão. – Espera... Se você larga-lo, você vai voltar para sua realidade, mas antes disso... – ele se aproximou de mim e deu um beijo com tanto carinho em minha testa que eu fiquei totalmente sem reação. – Me espera... Eu vou te encontrar. – disse sussurrando sobre minha pele e então ele tirou o colar da minha mão e do nada, do nada mesmo, as ruas voltaram a ficar forrada de crianças pedindo doces ou travessuras, os adultos com seus potes de doces distribuindo para as crianças. E eu com a roupa de bruxa de novo.

- Lu, olha só quantos doces eu consegui.

Olhei para a aurora que estava parada na minha frente, pulando de felicidade e eu ainda estava atordoada. O que raios foi que aconteceu aqui?

- Aurora. – a peguei pelo ombro, me lembrando de sua voz chorosa no telefone. – Você está bem?

Minha amiga estranhou a pergunta.

- Claro que estou. – me estendeu sua vasilha. – Olha só quantos doces. Vou comer chocolate até semana que vem.

Balancei a cabeça e olhei meu relógio de pulso. Era exatamente a mesma hora que eu tinha visto antes de todo mundo sumir. Como isso era possível?

- Vem, Lu. Vamos para casa. – Lory me puxou pela mão.

Sinceramente me deixei levar, porque eu não estava mais com ânimo para nada. Principalmente para pedir mais doces.

Conforme fomos chegando perto da minha casa, o medo foi crescendo dentro de mim. E se meus pais não fossem meus pais... E se... Eles ainda estivessem daquele jeito assustador?

- Luiza.

Olhei para o lado e vi Aurora olhando para mim indignada.

- O que disse?

- Estou há mais de dez minutos falando com você e você no mundo da lua.

Não era bem muito da lua aquele que eu estava.

- Desculpe... Estou meio distraída. Acho que é o cansaço.

Assim que paramos no meu portão, minha amiga se despediu e se foi.

Devo confessar que estou muito receosa de entrar em casa... tenho medo do que posso encontrar lá.

- Luiza, filha. Por que está parada igual uma estátua no portão?

Dei um pulo para trás e olhei minha mãe. Com aqueles olhos doces e gentis que transbordava amor.

- Mãe! – a abracei.

Era ela... Eu tenho certeza de que essa sim era a minha mãe.

- Filha, está tudo bem? – perguntou preocupada e me abraçando de volta.

- Estou bem... Só senti sua falta. – disse sincera.

- Oh, meu amor.... Vem – disse me puxando para dentro. – Vamos entrar, porque eu preparei um misto quente delicioso para você.

Hoje o dia não poderia ter sido menos entranho.

Eu sei que não estava na minha realidade. Não sei como é possível isso, mas aconteceu e isso é algo que não vou esquecer tão cedo... Assim como não vou e esquecer do rapaz que encontrei.

Ele era bem mais velho que eu, mas me olhava com tanto carinho... Era no mínimo estranho, mas ele era bem bonito, devo admitir.

Depois que comi eu subi para eu quarto... Hoje a loucura foi completa. Só quero descansar e esquecer que esse dia existiu... Por mais que eu saiba que isso jamais vai acontecer.


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ALGUNS ANOS DEPOIS

Desde aquele fatídico dia, eu nunca mais fui buscar doce no dia das bruxas. Pois é, foi minha primeira e única vez... me traumatizou legal.

- Vai sair com a Aurora, filha? – pergunta meu pai encostado na soleira da porta do meu quarto.

Eu estava de frente para o espelho, terminando de passar meu batom.

- Vou sim, pai... mas volto cedo, ta? – fui até ele e beijei seu rosto, deixando uma marca de batom vermelho.

- Não precisa, filha... Você nunca sai e já tem 18 anos... Pode sair para uma balada com sua amiga sem ter hora para voltar. Confio em você.

Sim, se passaram 10 anos desde aquele halloween. Depois disso, nunca mais sai de casa para a nada. Só ia para a escola e da escola para casa. Aurora vinha direto aqui para fazer trabalhos ou só para brincar comigo ou papear.

Desci as escadas com meu pai, ajeitando o vestido vinho que eu usava. Meu salto fazia barulho no assoalho de casa e no mesmo instante Aurora se virou para mim.

- Finalmente. – disse – Bora, estamos atrasadas. – me puxou pela mão. – Tchau tio, Rick e manda um beijo para a Tia Ana quando ela voltar do mercado.

Nem tive tempo de me despedir do meu pai, Aurora já me rebocou para seu mais novo presente de aniversário recém adquirido, uma Jetta preto que ela era completamente apaixonada.

- Amiga, eu sinto que hoje nossas vidas irão mudar. – ela estava eufórica.

- Ah é? – eu afivelei meu cinto e a olhei. – E posso saber de onde vem essa empolgação toda?

Deu de ombros.

- Eu só sinto.

Deu partida no carro e fomos o caminho inteiro cantando Bruno Mars. Amávamos demais as músicas dele.

A balada era nova na cidade. Aurora me convenceu a sair com ela, por mais que eu sempre dissesse não, dessa vez eu não consegui.

Chegamos e a fila estava enorme. Estacionamos o carro e fomos para a fila da área VIP. Não me perguntem como ela conseguiu essas entradas, mas...

Quando coloquei meus pés dentro da boate, senti um frio na barriga. Era como se algo estivesse para acontecer, só não sabia o que.

- Vamos beber alguma coisa. – pegou minha mão e fomos até o bar.

Aurora pediu uma bebida colorida que eu não sabia o nome e eu fui na onda dela. Bebemos e dançamos boa parte da noite. Eu realmente estava me divertindo, como nunca me diverti antes.

Depois de mais algumas horas, eu estava cansada e resolvi que queria ir embora, mas Aurora tinha sumido com um carinha e eu nem sei onde ela estava agora. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para ela.


Lory, estou cansada e resolvi ir para casa. Por favor, não faça nenhuma besteira... Eu te amo.


Paguei o meu consumo e sai porta a fora. O ar que bateu meu rosto me trouxe alivio. Lá dentro estava quente demais, então esse ventinho foi uma maravilha.

Eu estava entrando no aplicativo para pedir um carro, quando escuto uma voz.

- Eu disse que te encontraria.

Meu corpo se arrepiou na mesma hora. Eu me lembrava daquela voz. Como se tivesse sido ontem, porque eu sonhei com ela por anos. Sonhei com o dono dela por anos.

Ergui meus olhos lentamente e o vi.

Era ele. Exatamente do mesmo jeito. Ele não tinha envelhecido nada. Ainda aparentava estar com seus 25 anos. Cabelos penteados para trás, pele clara, os olhos que me tiraram o folego por anos, um azul e o outro verde. E o lindo sorriso no rosto. Aquele sorriso que me hipnotizava.

- É você! – minha voz era apenas um sussurro.

Ele se aproximou e parou a poucos centímetros de mim.

- Dessa vez eu vim para ficar, Luiza.



FIM


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!