Notas iniciais
Gente, desculpa a demora pra postar, é que a internet tá teimosa - caindo muito - se eu não postar o outro capítulo hoje, já sabe né. xoxo =*

A chuva continuava forte lá fora, ainda era noite. Benjamin estava sentado ao meu lado na cama, cabisbaixo.

— Eles são homofóbicos…

— Por que não me disse antes? – perguntei.

— Já estava na hora de eu lhe contar a verdade, não é? – soltou um sorriso sem graça, em seguida passou a mão sobre meus cabelos, os espalhando.

Concordei com a cabeça.

— Eles não são meus pais de verdade... – olha para o chão, vejo seus cabelos cobrirem seus olhos – os verdadeiros morreram num acidente de carro com meus avós.

O clima começa a ficar pesado.

— O homem que nos jogou para fora é meu tio, a mulher é apenas a esposa.... Não tínhamos nenhuma outra família, eu e Bento fomos mandados para a casa deles.

— Quantos anos vocês tinham?

— Nove...

Ele também perdeu os pais, isso explica claramente o porquê dele nunca falar deles... Sei perfeitamente o que sentia...

— Meu tio ficou conosco, mas ele sempre foi muito exigente e sempre nos tratou como objetos... Viviam dizendo que tínhamos de tirar as melhores notas, passarmos em cursos e concursos difíceis para que aumentássemos nossos status. Tínhamos de ser assim para que continuássemos vivendo debaixo daquele luxo e de todo investimento que faziam em nós....

— Como se fosse um pagamento por terem adotado vocês?

Ele concorda com a cabeça.

— Eles são internacionalmente famosos, e têm o costume de se envolver com outras pessoas ricas e tentar nos misturar a elas.... A noiva de Bento foi escolhida por eles... Aquele idiota.

— Ben... – passo a mão nas costas dele gentilmente – por que tem tanta raiva do seu irmão?

— Bento era a única pessoa que eu podia confiar... Mas ele preferiu continuar na riqueza a ter que fugir comigo, prometemos um ao outro que iriamos embora daquele lugar, mas ele mudou... Passou a me entregar ao meu tio... Quando me viu com um garoto, ele disse.... Fui trancado no meu quarto durante uma semana, as janelas tinham grades... Simplesmente não sabia o que fazer...

— Por que ele fazia isso?

— Queria que eu fosse como ele.... Apenas, me curvasse e obedecesse...

Silêncio breve.

— Eles sabiam que você saía com garotos?

— Pensavam que eu estava numa fase. Fazia aquilo pra chamar atenção, queria que soubessem que sou livre pra fazer o que bem entender... Nunca tiveram sentimentos reais conosco... Mas, eu sempre corri atrás da minha liberdade...

Olha para mim.

— Você é a minha liberdade, Ariel....

Sorri.

— Eles devem ter ficado furiosos daquela forma porque me assumi na frente de todos.... – ele passa a mão no cabelo – ah, as punições deles sempre foram tão dolorosas... Sempre... Tão diferente dos meus pais.... Tão....

Os olhos dele se umedecem, Benjamin começa a chorar. Passa as mãos sobre as pálpebras tentando se desfazer das lágrimas, mas elas caíam sem sua permissão. Ítalo entra no quarto, devagarinho.

— Ariel.... – soluçava – aonde eu vou agora? Eu não tenho mais família... Nem casa ou dinheiro algum….

As lágrimas molhavam sua calça – já que estava de cabeça baixa.

— Isso não é família Benjamin... – diz Ítalo, que fica na frente dele – não chore por eles, não merecem toda essa atenção... Pessoas que te machucam, nunca são as mesmas que te amam... Não sofra por quem não se importa, e sorria para quem te acolhe.... Nós somos a sua família agora Benjamin, chore de felicidade por ter se livrado deles....

Ítalo olha para mim.

— Minha família... – Ben faz o mesmo que o meu irmão.

— Benjamin... – sussurrei.

Coloco minha mão no queixo dele gentilmente.

— Quer morar com a gente? – perguntei.

Os olhos se enchem de lágrimas novamente. Eu e Ítalo o abraçamos simultaneamente, enquanto soluçava, não sabíamos se de alegria ou de tristeza, talvez fosse uma mistura dos dois...

Agora ele era apenas meu Benjamin... Nós éramos a sua única família.... E apesar de tudo que ouvi daquelas pessoas, eu me senti feliz ao saber que agora ele estava livre. Assim como eu.

...

Dia seguinte.

Ele guardava seus objetos na minha casa – começou cedo – mas percebi que tinha parado numa espécie de brinquedo antigo feito de madeira, que segurava firmemente enquanto permaneceu sentado na cama.

— Ainda funciona? – perguntei sentando ao lado dele.

— Sim...

— Quem te deu?

— Presente da minha mãe – sorriu para mim, mostrando as covinhas – ganhei quando tinha dois anos, mas só lembro dele ter virado importante aos sete.

Era óbvio.

— Vivia quebrando... Meu pai tinha um hospital de bonecas...

Seus olhos começaram a brilhar.

— Consertava todo tipo de brinquedo... Eu ficava feliz todas as vezes que salvava a vida dos meus... Mas.... – se entristece – depois que ele morreu, não tive ninguém para concertar....

Abraça o brinquedo docemente.

— Eu o usava para fugir da minha nova realidade... Para esquecer como a minha vida tinha virado um inferno de um dia para o outro...

— É por isso que gosta tanto de criar brinquedos? – sorri enquanto eu fazia cachinhos nas mechas do cabelo dele.

— De alguma forma... Talvez um dia eu possa recriar o hospital de bonecas.... – sorriu.

— Tenho certeza de que irá ser o melhor médico do mundo. – o beijei na bochecha.

— Ariel....

Olho para ele.

— Quer mesmo que eu fique aqui?

— Preciso responder?

Sorriu.

— Só não vai ter mais carona...

— Ah – suspirei – que problema terrível! – sarcasmo.

Ele ri novamente.

— Obrigado... Por tudo Ariel...

O beijei, pude sentir aqueles lábios, agora trêmulos se encostarem nos meus. Um momento tão difícil e ao mesmo tempo tão libertador, vi aquele peso se desvencilhar das costas dele, eu estava feliz....

Descobri que Benjamin ia para a livraria todas as tardes porque não queria ver os tios, e quando não, era porque o obrigavam a voltar para a casa. Tinha raiva do irmão por ele ter cedido aos caprichos deles apenas para não perder o luxo – ainda que isso tenha sido inteligente – acredito que o ódio era pelo fato de Bento sempre o dedurar, na tentativa de fazê-lo voltar à normalidade – um garoto que sai com meninos e meninas não era aceitável naquela família.

Descobri também que nunca me apresentou a eles porque pretendia se formar primeiro e assim que se tornasse independente ficaria comigo. Estava sob pressão por causa dos tios que jogavam uma garota – aquela nojenta Elisa não sei o que – para cima dele.

A história dele era tão triste quanto a minha, mas agora estávamos livres...

Notas finais
Deixe seu comentário seus lindos e cheirosos =* xoxo