Depois de pensar sobre aquilo, me senti um pouco aliviado de alguma forma. Vesti as roupas, pretendia ir tomar banho mas quando sai do quarto me deparei com essa imagem, Ítalo cozinhando para Benjamin que acabara de sentar à mesa.

— Ítalo, por que está mexendo com fogo?! – perguntei me aproximando dele.

— Já terminei. – ele vira com a panela, tinha acabado de fazer ovos mexidos.

Parei naquele momento para reparar a mesa redonda e pequena feita de vidro com uma toalha branca. Lá estavam café, leite, pães levemente torrados, e uma gama de frutas.

— Você preparou tudo isso? – perguntei espantado.

— Eu estava com fome Ariel, imaginei que também estariam. Não queria incomodar vocês. – fez aquela carinha.

— Que?

— Disse algo que te envergonhou? – coloca os ovos na mesa – está vermelho.

— Ítalo, isso aqui está muito bom! – se intromete Benjamin, comia os pães.

— Obrigado!

Não disse mais nada, apenas fui até o banheiro, o garoto me seguiu.

— Ariel...

— Hum? – virei para ele.

— Desculpe por ontem, eu realmente não conseguia dormir com o barulho.

Se eu já estava vermelho antes, imagine.

— Bem Ítalo, é que nós estávamos... – começo a coçar a cabeça tentando bolar alguma resposta convincente.

— Tenho uma ideia do que seja, não precisa me contar não! – riu – eu posso ficar traumatizado com alguma coisa, então vai ter que me pagar um psicólogo se me disser.

Talvez ele realmente ficasse, me senti mal por isso. Parou de rir quando percebeu.

— Ah.... Eu estava brincando. Você gosta dele mais que amigo? Assim, como um casal?

— Não sei.... É estranho pra você, Ítalo? – senti um pouco de pesar, tinha medo da resposta.

— Estranho em que sentido?

— Você acha que é errado sermos um casal?

— Hum.... Tipo, menino gostar de outro menino?

Afirmei com a cabeça.

— Errado seria se você o odiasse por gostar de garotos. Menino com menino é um tipo de amor meio excêntrico, mas é amor. Amar não é sempre o melhor caminho? Então ame. Você está feliz?

— Acho que sim....

— Se você está feliz, eu também vou estar. – sorriu.

— Por que?

— Não sei explicar mas, você é o único que pode encontrar sua própria felicidade. Não pode se basear nela indo de acordo com o que eu acho, por mais que eu te conheça, nunca irei saber o que realmente te faz feliz. Hoje em dia é comum ver menino com outro menino, se é assim que se sente bem, vai em frente, não me importo. Só não façam aqueles barulhos ok? Eu preciso dormir.

Acabei rindo com aquele final.

— Sabe, gosto que fique perto do Benjamin, ele te fez esquecer dos problemas daqui, ficou mais relaxado. Não gosto de ver você triste irmão.

Ele vai até mim e me abraça docemente, eu precisava ouvir aquilo....

— Estava com medo que se sentisse sozinho ou se desesperasse por causas das responsabilidades depois que o papai morreu, Benjamin te livrou desses pensamentos.

Era verdade.

— Obrigado Ítalo…Eu amo você.

— A recíproca é verdadeira.

— Que?

— Significa que sinto o mesmo.

Olho para ele.

— Não dava pra dizer simplesmente que me ama, como uma pessoa normal?

— Assim não seria eu. – piscou um dos olhos descaradamente – vai tomar banho, tá todo suado, vem comer depois, estamos te esperando. – ele sai.

Ah, aquele garoto....

— Desde quando ele sabe cozinhar?! – falei para mim mesmo.

Tenho que passar mais tempo com ele. Ou sou lerdo para perceber as coisas. Das duas uma. O obedeci, acabou sendo um banho mais demorado do que o de costume. Lavei até mesmo o cabelo. Sai do box, peguei a toalha azul e comecei a enxugar os cabelos úmidos, abri a porta. Ouvi Ítalo conversar com Benjamin.

— Se você quiser podemos criar um carrinho de madeira. – sugeriu o loiro.

— Isso seria incrível! Quando você vai voltar?

— Depende do seu irmão.

— Vocês estão namorando?

Ítalo meu filho! Que pergunta é essa?! – ainda fiquei atrás da porta ouvindo com a toalha nos ombros.

— Depende do seu irmão. – riu.

— Hum... Benjamin.

— Sim?

— Tenha paciência com ele. – suspirou – Ariel tem dificuldades para gostar das pessoas.

— Gostar em que sentido?

— Em todos. Amizade, namoro, essas coisas.

— E por que ele é assim?

— Por dois motivos, o primeiro é que ele se apega muito quando ele realmente gosta e tem medo de perder essa pessoa de alguma forma, como aconteceu com a nossa mãe. O segundo é que foi traído nos dois relacionamentos que teve.

— Entendo, tem medo de se envolver e.... ser abandonado?

— É. Então, por favor se quer mesmo que o Ariel goste de você não faça como as duas outras meninas malvadas. Ele não merece isso, não vou te perdoar se fizer o meu irmão infeliz.

Eu já não tinha palavras pra descrever o que senti. Ítalo estava me protegendo? E, ele sabia de tudo isso sobre mim? Eu não fazia ideia....

— Não se preocupe – deu um sorriso sem graça.

Mas não chegou a dizer que aquilo não aconteceria. Fiquei nervoso. Benjamin saia com garotos por diversão, quem me garantiria que eu não seria como os outros? É, eu tinha que ser cauteloso.

Fui até a mesa e sentei entre os dois – só tínhamos três cadeiras. A terceira tinha ficado vaga depois que meu pai faleceu. Benjamin me beija na bochecha, me fez corar na hora.

— Não faz essas coisas na frente dele! – coloquei a mão no rosto.

— Ah, desculpe acha que pode influenciá-lo?

— Peeen – Ítalo fez esse barulho com a boca – errado. Se fosse assim você iria gostar de meninas, Ariel. Afinal, papai nunca esteve com outro menino.

Realmente, pensando nisso acredito que esse tipo de coisa não aconteça apenas se algum membro da casa for. Ítalo já tinha uma ideia formada, acredito que aquilo não o atingiria.

— Sente atração por meninas, Ítalo?

Engasguei na hora.

— Benjamin! – passei todo meu ódio para ele telepaticamente.

— Sinto uma forte atração por vídeo games! Ainda não estou interessado nessas coisas, mas quando eu estiver me lembre de responder a essa pergunta.

— Garoto, você é um prodígio. – ele ri.

Deus quase faleci. Depois daquilo fingiram que não tinham conversado nada antes de eu chegar. Quando terminamos, Benjamin insistiu em lavar a louça, acabei permitindo.

— Eu já vou indo Ítalo. – disse Benjamin, estávamos na porta.

— Virá nos visitar mais alguma vez?

— Claro.

— Certo, vou estar esperando, lembre-se disso. – sorriu.

Descemos, o levei até seu carro ainda parado na porta.

— Onde tem um posto? – coloca as mãos na cintura.

— Na próxima esquina. – aponto para o seu lado esquerdo.

— Certo...

Ele vira para mim.

— Me dá seu número?

— Ah sim, claro.

Peguei o celular, trocamos telefones.

— A gente se vê depois ou na faculdade?

Tinha me esquecido completamente daquilo, ele estudava comigo não era? Não tinha como fugir.

— Te ligo pra avisar.

— Ariel – ele segura as minhas mãos – e a minha proposta?

— Bem... Eu ainda estou confuso... Acho melhor deixarmos como está...

— Amizade colorida?

— É....

— Hum...

Ele pareceu aceitar. Acredito que não reclamou por causa das coisas que Ítalo tinha dito.

— Só não se acostume Ariel, não quero ser seu brinquedo para quando estiver carente, eu quero sempre ser seu.

Eita que eu me arrepiei todinho!

— Ok.... – com certeza eu estava vermelho. Aquele arrepio não me enganava.

— Mas ei, tem algo que quero esclarecer.

— O que é?

— Você não vai se envolver com outras pessoas né? Quer dizer, amizade colorida tem dessas coisas Ariel.

— Se envolver com....

A imagem que veio na minha cabeça foi a dele abraçando ou beijando um cara qualquer – quem sabe uma mulher também – fiquei nervoso. A ideia me irritava, não era como Sara, não me importaria se acaso visse ela beijando alguém, mas ele....

— Não, não, não, não, não... – repeti mais umas cinco vezes.

— Então seria como se...

— Estivéssemos nos conhecendo! – boa resposta Ariel.

Ele ergue as sobrancelhas.

— Ok, parece justo. Acho melhor eu ir.

— É, seus pais devem estar preocupados.

Ele riu espontaneamente.

— Eles nunca estão em casa.

Aquilo me parecia afetá-lo de alguma forma. Seu telefone não tocou nenhuma vez, ele esteve fora de casa desde ontem à tarde e ninguém se importa? Tem algo estranho. Ele foi até o posto e comprou a gasolina, foi embora em seguida.

Não parei para imaginar no que os pais dele estavam pensando por deixa-lo sair e ficar o dia fora de casa. Encontrei umas contas no correio. Sentei no chão da casa e liguei para Miguel – o cara das pizzas.

— Ainda está doente?

— AHNSJA.... – estava.

Não sabia se aquele emprego iria sobreviver por muito tempo. Ter um chefe bêbado a maior parte do tempo que também é o cozinheiro não me parecia algo relevante quando me candidatei a ele. Na realidade, era amigo do meu pai e ele me ofereceu essa “oportunidade”

Deixei o telefone e peguei as contas. A mesa ficou cheia delas, Ítalo se aproxima de mim.

— O que é isso?

— Contas – suspirei.

– Dá pra pagar tudo?

— Sua escola, o aluguel do apartamento e a feira da semana. Vou ter que deixar algo de fora...

Sim, Ítalo estudava numa escola particular, eu fazia questão de dar a ele a mesma educação que tive até meus dez anos.

— Eu já voltou.

Ele sai correndo para o quarto. Não entendi o porquê então voltei às contas.

— Ah droga...

Passo a mão no rosto, era muita coisa para pouco dinheiro.

Ele volta.

— Toma.

— Que?

Várias notas verdes estavam em suas mãos.

— Onde arrumou esse dinheiro Ítalo?! – temia que fosse de forma errada.

— Vendendo chocolate.

Estranhei.

— Desde quando?

— Você sempre esteve fora de casa trabalhando, então eu faço chocolate para vender na escola. Toma, vê se dá pra pagar tudo.

Eu fiquei surpreso. Tinha em torno de cem reais, daria para pagar alguma coisa.

— Dá pra pagar tudo! – sorri pra ele, a mentira era apenas para deixa-lo contente, ele não tinha obrigação.

— Tem certeza? Eu tenho mais lá dentro.

— Quanto?

— Tá tudo no cofrinho.

— Não quero que quebre ele.

— Dá pra abrir embaixo.

— Ítalo, esse dinheiro é seu. Não precisa fazer isso. – sorri.

— Mas a casa é nossa, a comida que você come é a mesma que a minha, é justo que eu te ajude. – fez bico.

Ah, eu não resisti, o abracei e beijei doidamente o rosto dele.

— Faz cócegas, pare! – falou rindo.

— Onde aprendeu a fazer chocolate?

— Sei fazer muitas coisas na cozinha. Olha se você gosta – vai até a geladeira e pega um depósito com alguns bombons embrulhados em papéis coloridos. – aqui.

Eu pego. O chocolate era grande, mas o sabor... Nossa, era incrivelmente bom.

— Que delícia, é um pouco diferente, o que tem nele? – falei mastigando.

Era um gosto mais adocicado e levemente apimentado.

— Um ingrediente secreto.

— Posso saber qual é?

— Se eu te contar não vai ser mais secreto!

Claro, claro.

— Eu ia vender esses na escola, mas acabei não indo.

— Mas você sempre acorda cedo. – já estava pegando outro.

— É que eu não consegui dormir direito ontem à noite. – olha para mim.

Entendi a indireta.

— Então, o que acha de fazermos mais e irmos vender no.... – parei para pensar – shopping! Lá tem muita gente.

— Boa ideia! Eu vou fazer! – pretendia correr.

— Espera – seguro o braço dele – me deixa te ajudar?

— Não. – falou de imediato.

— Nem parou pra pensar...

— Não lembra da última vez que tentou fazer chocolate? Quase explodiu a cozinha!

— Eu não sabia que não podia colocar papel alumínio no micro-ondas....

— Se fosse só isso.

— Mas eu fiz tudo direitinho.

— Você fez tudo, só esqueceu de usar chocolate!

— Eu me esforcei com minha própria vida.

— Então você deveria estar morto Ariel.

Acabei rindo.

— Ok, mas o que eu faço então?

— Hum.... – ele coloca o dedinho no próprio queixo e começa a pensar – você transforma em bolinha e embrulha, certo?

— Certo! – falei animado.

Acabou sendo divertido no final. Ítalo era paciente e perfeccionista, era incrível como ele fazia aquilo tudo tão rápido. Arrumamos uma cesta, enfeitamos e fomos direto para o shopping.

Fomos para perto do cinema. Assim encontrei mais uma habilidade dele.

— Olá moça bonita! – parou uma mulher, acompanhada por outras duas – gostaria de experimentar nosso chocolate?

— Bem, é que…. – ela pareceu estar lisonjeada já que era uma senhora não uma moça.

— Certo, antes que responda vamos fazer isso, você experimenta se não gostar leva de graça!

— Oh! – ela sorri.

Ítalo pega um e entrega a ela, a moça-senhora mordeu um pedaço. Fez caras e bocas, e no final...

— É muito bom! – sorriu – eu vou querer!

— Então por que não leva logo três para que saiam sorrindo e se deliciando com nossos chocolates?

— Garotinho esperto – a moça sorri – vá buscar então.

Ela pareceu ficar contente ao ver Ítalo feliz. É, ele tinha uma conversa que era capaz de convencer a qualquer um. Como por exemplo, uma moça que tinha uma circunferência avantajada nos eixos – também conhecida como gordinha – veio com uma desculpa para fugir dele.

— Estou de dieta rapazinho.

— Dieta? Pra que? Você está linda, não se prenda, sei que é uma boa apreciadora de chocolates, então não deixe de experimentar porque dizem que não deve.

Ela pareceu entender o jogo dele, mas foi seduzida por aquele rostinho corado e olhos grandes de uma criança pidona.

— Certo, mas apenas um!

— Quantos desejar! – ele vem e pega comigo – um chocolate para uma moça esbelta!

Ah, nunca vi ninguém sorri tanto. Acabamos vendendo tudo, voltamos para casa as cinco da tarde.

— Metade pra mim e metade pra você.

Coloca o dinheiro na mesa.

— Ítalo, você....

— Fique, eu sei que o dinheiro que te dei antes não paga tudo. Mas como você é orgulhoso, agora não vai inventar a desculpa que me esforcei sozinho. É metade seu! – ele pega a parte dele e vai até o quarto.

Provavelmente foi guardar no cofrinho. No final, não é que o dinheiro deu pra pagar tudo? É, aquele era realmente um garoto prodígio... Posso ter herdado um pouco dessa inteligência, passei em medicina com dezenove anos, mas ele me fazia parecer uma criança. Era como se cuidasse mais de mim, do que eu dele.

Notas finais
Olá crianças :D gostaram do capítulo? Então deixe seu comentário ele é muito importante pra mim! Assim posso saber a sua opinião sobre a história de Ariel.