Meu novo mundo
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Acordei pelas sete horas da manhã com o tamborilar de gotas de chuva num balde de metal que estava embaixo da janela do meu quarto. Estava chovendo e o cheiro das árvores e da chuva alegravam meu nariz e ajudava com a pior parte do dia: Acordar cedo.
Bocejei alto e fui até o banheiro logo a frente do quarto. O chão estava frio então fiquei dando pulinhos na ponta dos dedos até chegar ao banheiro, mas o mesmo também estava com o chão gelado. Desisti e fiquei com os pés congelados mesmo assim. Bocejei alto, o que acidentalmente ligou o minicomputador do espelho, que escaneou meu rosto com um flash e processou os dados. Uma pequena tela disse que eu deveria tomar banho para acordar e começar o dia relaxado. Aceitei a proposta, tirei a roupa, joguei-a no cesto e fui tomar banho. Estaria tudo bem não fosse o fato de que esqueci que não sabia qual torneira ligava a água quente e acabei acidentalmente ligando a água fria. Os vizinhos provavelmente escutaram meus gritos de dor.
Após um banho de meia hora, sendo os primeiros quinze minutos eu tentando achar uma forma de ligar a água quente, eu saio do banheiro, vou até o quarto e coloco uma blusa preta, um jeans e uma superjapona á prova d’água.
Eu não havia comprado ingredientes para fazer meu café da manhã, então teria que comer fora. Vesti as galochas e finalmente saí de casa.
Ao contrário da maioria das pessoas, eu amo chuva. O céu branco por causa das nuvens, o cheiro, o tamborilar das gotas de chuva, as árvores e plantas molhadas e felizes com a hidratação recebida, o asfalto molhado refletindo a luz dos faróis dos carros que passam e o friozinho bom que vem junto.
Lembrei que estava sem carro, então teria que andar até o restaurante mais próximo, e assim foi.
No caminho fico pensando na vida. Pensamentos redundantes como meu recomeço, a alegria de finalmente encontrar novidades e um lugar calmo para se viver, novas espécies de animais e pessoas, o bom de viver perto de todo mundo...
Quando chego perto da esquina eu vejo uma mulher de uns 20 e poucos anos com uma criança menor, um menininho loirinho de uns oito anos, agachados olhando para a floresta de pinheiros logo a minha direita, como se tivessem visto algum bicho.
–Mãe olha! É como se fosse um Pokémon!- disse o menino, tentando alcançar alguma coisa com um graveto na mão.
Me aproximo e vejo que ele estava cutucando um lagarto, e toda vez que ele cutucava o lagarto soltava uma faísca. Ele poderia acidentalmente causar um incêndio, então imediatamente tirei o graveto da mão do garoto.
–Menino, você está doido? E se ele te machuca ou provoca um fogo?
O menino e a mãe olham para mim enquanto eu jogo o graveto para longe e o lagarto aproveita para fugir mata adentro. A mãe levantou uma sobrancelha:
–Não precisava se preocupar, ele estava comigo!- Ela disse, tentando parecer responsável, o que é deprimente.
No dia anterior Klaus havia me dado o catálogo das espécies já descobertas na área. Aquele lagarto era um réptil que se defendia usando eletricidade estática de seu próprio movimento, e quando era ameaçado ele soltava faíscas ou até mesmo eletrocutava pequenos insetos e animais para comê-los.
Os dois se levantam emburrados com minha intromissão no momento mãe-filho deles. Resolvo me desculpar:
–Desculpe por ser rude, meu nome é Khail, e você...?
A mulher ajeita os longos cabelos negros para o lado, revelando o rosto rosado e os lábios carnudos. Não é meu tipo de mulher, mas ela é linda.
–Miranda Leland. Essa coisinha pequena do meu lado é o Liam. –apresentou-se.
Eu aceno com a cabeça e dou um sorriso pro menino, tentando ser agradável, mas ele faz uma cara emburrada e se esconde atrás das pernas da mãe. Ele não gostou da minha interrupção.
–Sério garotinho, me desculpe, mas aquela espécie é perigosa!- tento explicar, me curvando para perto dele, mas ele se afasta ainda mais, me olhando com olhinhos azuis irritados.
A mãe ri, passa a mão no cabelo do Liam e cochicha algo no ouvido dele. Ele suspira e finalmente aceita minhas desculpas:
–Tá “discupado”. – ele diz, ainda meio emburrado. Internamente eu morro de fofura com o “discupado” dele. A mãe sorri e então pega o menino pelos ombros.
–Você é novo por aqui, nunca te vi antes... Está indo trabalhar, não?- ela pergunta. Eu aceno negativamente com a cabeça, enquanto respondo:
–Nah, eu vou procurar algum lugar pra tomar café da manhã e depois vou trabalhar.
Miranda morde os lábios. E então levanta a mão e aponta para o oeste.
–Há uma pequena padaria que vende café da manhã bem barato, por 0,45 bitcoins, fica logo ali na esquina. É melhor que o restaurante.
Parei um momento para analisar as mãos dela: Eram grandes, lisas e perfeitas. Suas unhas eram cortadas, mas pintadas de preto. Infelizmente havia um anel de casamento, o que cortou minhas esperanças de ter uma garota em tão pouco tempo, mesmo que ela tenha um filho.
–Então... Lá vou eu, obrigado pela informação!- agradeço, sorrindo e então vou em direção da Padaria, dando um cafuné nos cabelos de Liam enquanto passo por ele. O garoto faz biquinho e fica emburrado.
A Padaria tinha uma arquitetura que lembrava as clássicas casas alemãs do século XIX, e assim que cheguei a poucos metros dela eu senti o suave cheiro de pão quente e bolo, o que me esquentou por dentro e me fez me sentir mais confortável. Entrei lá dentro e pedi um café da manhã ao padeiro, um velhinho magro e sorridente, na casa de seus 80 anos. Eu dei meu chip de bitcoins para ele e completamos a transação no caixa. Ele ajeitou o chapéu de padeiro e foi até a cozinha preparar meu café da manhã. Assim que me sentei na mesa eu senti o cheiro do café preto vindo direto da cozinha.
Enquanto isso no lado de fora a chuva começou a engrossar, e o calmo tamborilar virou um tremendo pé d’água. O telefone toca em meu bolso, me assustando de leve. Eu atendo e ouço a voz de Klaus:
–Khail, estou indo te pegar em quinze minutos, ok?
–Ok, estou na padaria perto de casa, estou tomando café da manhã já que não comprei nada ontem.
Ouço o roçar de papel no outro lado da linha.
–Muito bem, eu passo aí daqui a pouco. Tenha um bom dia!- ele diz, antes de desligar o telefone.
Sinto o cheiro de ovos, pão quente e café se aproximando. O velhinho deixa uma bandeja em minha mesa. Eu aceno com a cabeça e agradeço, e então começo a comer minha comida: Abro o pão, coloco os ovos mexidos dentro e como tudo em três mordidas. O pão quente e fofinho é uma festa gloriosa para o meu paladar e sinto-o derretendo goela abaixo, me satisfazendo por completo. Fazia anos que eu não tomava um café da manhã tão delicioso. Olho para trás para ver o velhinho e o vejo conversando com sua esposa, uma senhorinha baixinha e fofinha, de olhos apertadinhos e rosto enrugadinho.
Nisso, sinto uma presença atrás de mim, mas não ligo. Ainda olhando em outra direção eu tento pegar minha xícara de café apenas para perceber que ela não estava mais lá. Curioso eu olho para ela e vejo que Viktor estava bebendo meu café e me olhando de jeito estranho.
–Realmente o café daqui é delicioso, deveria vir aqui mais vezes. – ele diz, colocando o café de volta no pires.
Ele com certeza está a fim de mim e eu tenho parar isso antes que ele se machuque.
–Viktor, eu sei que você sente atração por mim, mas entenda que não sou como você e- Viktor resolve me interromper colocando dois dedos em meus lábios.
–Shh, eu entendo isso, se realmente estivesse a fim de um pouco disso você teria me ligado ontem. –ele sorri, e então relaxa na cadeira.
Eu bebo meu café em um gole e então começo a questioná-lo, eu tenho que saber o porque de minha interrupção.
–Como me descobriu aqui?
Viktor riu
–Olhe-se no espelho, querido, com esse casaco eu pude te ver a uma milha de distância. –ele cutucou a minha superjapona- Aliás, Khail, eu sou vizinho da Miranda e vi você interagindo com ela e Liam. Achei bem fofinho.
Oh ótimo, eu sou vizinho de um cara que quer meu corpo nu.
–Mudando de assunto, Khail, como você chegou até Europa-2?- ele perguntou, colocando as costas da mão direita embaixo do queixo e me olhando de um modo curioso.
A resposta certa seria quem NÃO queria sair da Terra? Moedas em crise, corrupção e burocracia para todos os lados, medo, insegurança e a falta de confiança, o mal venceu na Terra e o que restou foram os ossos do que antes foi uma sociedade democrática e livre.
Há três anos os jovens foram às ruas. Independente de Esquerda, Direita, anarquismo ou fascismo, todos gritavam uma única voz: Socorro.
Os jovens pararam de sonhar. Todo e qualquer sonho era imediatamente esmagado pelo mundo hostil da falta de humanidade que a corrupção trouxe. Terminou a faculdade e quer um bom emprego? Mil perdões, mas nós só aceitamos você se for filho ou parente do diretor do RH. Quer casar com sua namorada e ter uma família? Você é otário por acaso? Quer terminar gordo, feio e endividado com ninguém para carregar seu caixão? Toda e qualquer possibilidade de futuro era esmagada pela malandragem e sacanagem causada pelo excesso de burocracia e pela ineptocracia aguda.
Mas aí veio uma oportunidade de vida: Os novos mundos. Uma companhia precisava de jovens inteligentes, sonhadores e de bom coração para ajudar á tecer um novo mundo, criar uma nova história. Eu ingressei nessa companhia, e competi com muita gente. O que ninguém sabia era que essa competição estava sendo vigiada, e a única razão da existência dela era ver quem era bom, quem era mau.
Eu era um biólogo que acabou de sair da faculdade, e desesperado por emprego. Meu pai estava endividado para pagar a própria comida para a casa e todas as empresas de biotecnologia que fui não queriam um jovem, pois era mais caro treinar novos empregados do que manter os velhos empregados. Só entrava quem tinha parente. Eu saí de casa e tentei em todos os cantos uma oportunidade, mas não conseguia, e de acordo com meus amigos, ninguém conseguia uma vida melhor. Todos tinham um único sentimento coletivo de medo, desespero e tristeza. O nível de depressão em jovens tinha aumentado absurdamente e quase toda hora havia um suicídio em meu bairro.
A competição consistia de várias entrevistas de emprego, um teste Voight-Kampff, um teste de Q.I, uma análise psicológica e também havia várias pegadinhas para mostrar o valor da pessoa.
Uma delas aconteceu comigo e mais um jovem. Estávamos andando a caminho de um teste, e propositalmente a empresa fez com que nossos horários fossem remarcados ao ponto de chegarmos atrasados. Nós dois estávamos com pressa, correndo pelo pátio do prédio da empresa quando um zelador, negro, de uns 80 anos, caiu no chão e começou a ter um ataque epiléptico. Eu parei para amparar o senhor enquanto o outro, sem querer perder a oportunidade e sem amor pelo próximo, partiu para dentro do prédio. Quando o outro competidor já havia subido o segundo andar, o zelador parou seu ataque, me apertou as mãos e disse em meu ouvido:
–Parabéns, você passou no teste. Você é um ser humano.
Uma coisa que a empresa sabia era de que nem todo Homo Sapiens era um exemplar de Ser Humano. Há animais entre nós. Covardes, egoístas e com uma faca escondida para cortar sua jugular assim que você der as costas. Meu pai foi morto por um desses animais, e uma tal comissão de direitos humanos protegeu o ladrão, disse que era vítima da sociedade opressora em nossa volta, e o advogado do animal consegui liberá-lo. Logo em seguida minha mãe, num surto depressivo, se matou com overdose de antidepressivos. Era um sinal: Viver na Terra seria meu fim, e eu deveria começar minha vida de verdade fora de um lugar comido e devastado pela corrupção.
Quando terminei de contar minha história para Viktor, ele segurou uma lágrima, se ajeitou na cadeira e levantou-se.
–Que história triste, Khail. Não sabia que estava tudo tão... Horrível por lá... –disse, num tom baixo e entristecido, ao contrário do normal tom alegre de sua voz.
–Foi uma gloriosa oportunidade começar minha vida aqui. –eu disse, observando a chuva molhar os arbustos do lado de fora. As gotas batiam numa folha, deslizavam sobre ela e por fim desciam calmamente da ponta dela até uma poça d’água que se formava abaixo.
–Aliás, Viktor, qual a sua história?- perguntei, olhando de lado para ele. Viktor se sentou novamente, lambeu os lábios e me contou tudo.
Viktor Lopes nasceu numa colônia de Terraformação em Alpha Centauri, filho de dois engenheiros-cientistas que eram responsáveis pela construção de alguns prédios das cidades. A colônia dele era pacífica, liberal, mas tinha que viver sob uma redoma de vidro enquanto a atmosfera do planeta se formava para vida humana, algo que levaria duas gerações contando com a de Viktor. Ele sempre gostou de ser mais feminino que os outros e se enturmava mais com as meninas, que adoravam ele, pena que ele não estava interessado nelas, e ele mesmo teve que recusar vários convites de namoro. Ele quase se casou com um cara, mas esse cara era bissexual e traía-o com uma garota. Depois de se formar em engenharia, Viktor começou a estudar os artefatos encontrados em Europa-2 e logo se alistou para ser um especialista em tecnologia extraterrestre, e cá está ele.
Assim que Viktor terminou de me cantar sua história, um Volvo se aproximou da porta da Padaria. Klaus.
–Bem, obrigado pela companhia, Viktor. — agradeci, enquanto me levantava para ir ao carro. Viktor sorriu de leve e apenas acenou com a cabeça. Ele me observou enquanto eu ia até o carro, mas não com atração, mas com empatia.
Abri a porta do carro e rapidamente entrei e fechei a porta atrás de mim, respingando gotas de chuva em mim mesmo e em Klaus.
–Scheisse!- Ele xingou, baixinho, em alemão. Gesticulou levantando as mãos para cima, já que acidentalmente molhei o terno novo dele.
–E um bom dia para você também. — respondi, sarcasticamente, ao palavrão de Klaus. Ele apenas olhou para mim meio emburrado, passou a mão no terno e acelerou o carro para fora da calçada.
–Então, o que vamos fazer hoje? –pergunto. Klaus abriu o porta-luvas do carro, sem tirar os olhos da estrada, e de dentro caiu uma prancheta. Nela havia diversos esboços de gravuras da Fênix que havíamos visto ontem.
–Nós vamos capturar esse espécime, o quero vivo e quero fazer uma biópsia nele. –disse Klaus, sorridente.
–Entendo. Você quer analisá-lo sem matá-lo. Isso é quase impossível, precisaríamos de um bom cirurgião. –respondo, colocando a prancheta de volta no porta-luvas.
Klaus acena positivamente com a cabeça e dá um tapinha em meu ombro.
–Não se preocupe herr Khail, eu encontrei a pessoa perfeita e ela está nos esperando no laboratório. — ele disse sorridente.
Eu acenei positivamente com a cabeça e olhei para o lado de fora, mas a chuva estava tão intensa que eu via apenas a água batendo no vidro do carro e as luzes dos postes e faróis de carros como pontinhos amarelos. O barulho do limpador jogando a água da chuva de um lado para o outro e do motor quebravam o silêncio.
–Que tal um pouco de música, Khail? –perguntou Klaus, levantando uma sobrancelha e tentando alcançar o porta-luvas. Meu coração pulou, pois ele tirou os olhos do trânsito e tenho pavor de acidentes. Eu o ajeitei de volta no banco e abri o porta-luvas.
–Preste atenção no trânsito e deixa que eu pegue... –percebi que não sabia o que diabos ele ia pegar no porta-luvas. O carro tinha um rádio. Eu olhei para o rádio e percebi que ele era extremamente antigo, Klaus não havia colocado um Rádio moderno, com biblioteca MP3 e de vídeos.
–Klaus, onde está o rádio?- perguntei. Ele soltou uma risadinha de escárnio e encostou o carro na estrada.
–Deixa eu mostrar para você como é aqui dentro. –ele se esticou novamente até o porta-luvas e de dentro tirou um pequeno retângulo com dois furinhos e uma fita enrolada dento. Uma incógnita surgiu em minha cabeça.
–Fita Cassete. Uma das formas de mídia do final do século 20. –mostrou Klaus. Ele pôs a fita cassete no rádio antigo do carro e a música começou a tocar: Reconheci uma música clássica, do compositor Giuseppe Verdi. Era aquela que tem o coro com os martelos batendo. Klaus logo me lembrou do nome, enquanto saía do acostamento:
–“Coro di Zingari”, de Giuseppe Verdi.
Fiquei pensando durante um bom tempo da viagem sobre Klaus. Ele parece ser um cara que gosta de viver no passado. Um terno antigo de lã, um Volvo do século 20, fitas cassete... Me pergunto porque ele é cientista-biólogo e não um historiador. Klaus acompanhava o coro movimentando a boca e batendo de leve no volante no ritmo das marteladas. A medida em que nos aproximávamos do laboratório a chuva acalmava, até que se transformou num pequeno chuvisco.
O laboratório ficava no meio das grandes planícies floradas, um pequeno prédio retangular de cinco andares no meio do nada. No topo ficava um pequeno heliporto, que raramente era usado. O tom cinza e triste do prédio não combinava com a paisagem florida em sua volta, o que fazia o mesmo parecer um prédio abandonado e mal-assombrado, mas esta má impressão ia embora logo ao entrar no hall principal: Durante a construção do prédio havia uma árvore que seria cortada, mas o arquiteto ficou com pena e em uma noite só ele refez todo o plano do Hall de entrada para acomodar a árvore, adicionando um pequeno jardim verde que corta o prédio ao meio por dentro. A chuva molhava a árvore e caía no chão do jardim, que já estava com várias poças d’água que derramavam para o chão de azulejos do hall. A zeladora do prédio, Dona Coco, jogava a água de volta para o jardim usando um rodo.
–Bom dia Dona Coco. –disse Klaus, sorridente, acenando para a zeladora enquanto andava rapidamente até o laboratório. A Zeladora acena de volta e sorri, e percebo que ela está com fones de ouvido. Eu também aceno, mas ela não me vê.
Klaus começa a subir as escadas com bastante energia para um homem de meia-idade. Fico indeciso se devo agradecer a medicina avançada ou ao entusiasmo dele. Depois fico me perguntando se ele sabe que estou sendo deixado para trás. Resolvo interromper.
–Hey, Klaus, espere por mim, você está muito exaltado! –digo, tentando pegar fôlego para seguir o velho. Ele parou e me esperou subir. Quando cheguei ao lado dele ele abaixa a cabeça, mas sem tirar o sorriso do rosto, e confessa:
–Desculpe-me, mas sabe como eu sou: Apaixonado pela descoberta! A descoberta é o que move o ser humano, novas experiências, novas espécies, novos lugares. Creio eu que foi a monotonia da Terra que fez com que a sociedade de lá engalfinhasse.
Eu fecho meus olhos, cerrando-os, e tento evitar as péssimas memórias que tenho daquele lugar sujo e perdido. Klaus nota, e seu sorriso se transforma numa cara de preocupação.
–Algum problema?- pergunta ele, passando as mãos em minhas costas para me acalmar.
Eu suspiro e sigo em frente. Klaus vai logo atrás, e então respondo.
–Nada, apenas não quero me lembrar daquele lugar. Más e péssimas memórias, você sabe como é.
Klaus acena positivamente com a cabeça, olha para um lado e para o outro, suspira e então bate as duas mãos, e num sorriso grande, de ponta á ponta, esbraveja:
–Vamos nos focar no novo, na descoberta!- e então mais uma vez correu em direção ao laboratório.
–O último a chegar é a mulher do padre!- brincou, me deixando para trás de propósito. Klaus realmente é um grande cientista e uma grande pessoa, não é a toa que é famoso entre os cientistas responsáveis pela exploração e pesquisa dos novos mundos. O cara não para, ele se alimenta do desconhecido. Quando encontra uma novidade ele vira criança novamente. É uma transformação: De um sujeito sério e estudado ele vira uma criança feliz ao abrir seu presente de Natal.
Quando chego ao quinto andar, o andar do laboratório, vejo Klaus ofegante perto da porta do laboratório. Ele olha para mim e se levanta.
–Bem, minha idade está atacando. Mesmo com toda a medicina do mundo eu sou vou viver até os 200 anos mesmo. –disse. Não perguntei sua atual idade para não ofendê-lo. Entramos juntos no laboratório e de repente eu vejo uma visão que quase me joga para trás. Uma loira, um pouco baixinha, de sardas, bochechas apertáveis e olhos profundamente azuis, fazendo anotações em frente a uma gaiola de pássaros. Ela vestia o jaleco azul do laboratório e uma grande echarpe em volta do pescoço. Me pergunto se estou morto para minha vida estar indo tão bem.
–Khail, esta é a nova assistente de laboratório, Linda Sears. — apresenta Klaus. Linda apenas sorri e acena com toda a fofura do mundo.
–Linda não só no nome, pelo jeito. –brinco. Ela ri e continua a escrever. Klaus liga o seu computador e imediatamente o logo do Windows MSX aparece em um holograma na mesa. O logo se transforma em um rosto feito de números e letras.
–Senha?- pergunta o rosto, com uma voz robótica que lembra as vozes sintetizadas de uma música do Kraftwerk.
Klaus digita uma senha no teclado holográfico na mesa e o rosto acena positivamente e explode em um milhão de letras e números, que por fim formam um desktop interativo. Eu sento numa cadeira ao lado e fico brincando com uma pasta rodopiando ela no ar com uma mão e segurando o queixo com outra.
–Então, qual o plano de vocês? –perguntou Linda. A voz dela era um pouco rouca.
–Khail, conte para ela nossa descoberta. –pediu Klaus. Eu me levanto e seleciono a pasta com minhas anotações sobre a Fênix.
–Ontem enquanto Klaus me levava para cá um pássaro vermelho, lindo, apareceu de repente em nossa frente. –clico num arquivo, que é o esboço do desenho da Fênix que Klaus fez. –É um pássaro capaz de voar apesar de seu corpo ser mais cheio e o pescoço alongado. Eu nomeei o espécime de Fênix de Lambert.
Linda ficou olhando fascinada para o desenho da Fênix, mesmo sendo um esboço feito do pouco que observamos do pássaro. Ela agarrava a prancheta que carregava contra o seu corpo e olhava para o holograma do desenho com seus lindos olhos azuis e curiosos.
–É lindo! –exclamou Linda. Eu ri da ironia, uma linda garota chamada Linda chamando um espécime de lindo.
–É realmente uma ave linda. Eu e Khail ficamos praticamente imobilizados quando a vimos. –disse Klaus, coçando os cabelos grisalhos atrás da orelha.
Linda puxou um banco e se sentou á mesa do computador. Aproveitei para me sentar também. Klaus continuou de pé.
–Então, qual o plano? –perguntou Linda. Klaus estalou os ossos do pescoço, soltou um pigarro e se pôs a falar:
–Primeiro, Khail: Esta descoberta é sua, mesmo que eu tenha praticamente visto a ave primeiro. Quem nomeou foi você e como a fênix é símbolo do recomeço e você está recomeçando eu acho nada mais justo do que atribuir a descoberta a seu nome.
Meu rosto se enche de alegria e gratidão, transformando-se num belo sorriso que expõe minhas covinhas. Linda solta um sorrisinho, ela percebeu.
–Segundo... –continuou Klaus — Linda, eu preciso que você contate o cirurgião local para manter o espécime vivo enquanto fazemos a biópsia. Quero analisar o espécime sem matá-lo.
Linda acenou positivamente com a cabeça e pegou uma agenda eletrônica de bolso para anotar as ordens de Klaus.
–Terceiro — continuou Klaus, dessa vez olhando para mim — Está chovendo e provavelmente o espécime não aparecerá hoje. A previsão do tempo diz que amanhã o clima estará como o de ontem, ou seja, ensolarado. Vamos então marcar nossa busca para amanhã.
–Positivo. – digo, me ajeitando na cadeira. Linda anotava tudo em sua agenda eletrônica. Resolvo dar uma olhada de perto e vejo que a agenda dela não era touchscreen, usava botões para o teclado e não era fino e maleável como as agendas modernas: Outro produto reciclado do século 20!
–Pronto, tudo anotado como o senhor pediu. –disse Linda, sorrindo com suas bochechas sardentas e mordíveis. Meu deus como eu quero mordê-la.
Klaus acenou com a cabeça e fechou o arquivo do desenho da Fênix com um movimento rápido no ar.
–Enfim, algum serviço hoje? – Klaus perguntou a Linda. Ela pegou a prancheta e entregou para ele.
Ele leu a prancheta com seus olhos cansados e velhos e foi analisando as informações enquanto andava até as gaiolas. Resolvi bater papo com Linda, que ficou parada ao lado da mesa.
–Então... Como uma garota tão linda e frágil chegou aqui em Europa-2?- perguntei, flertando com ela. Linda ajeitou os cabelos, sorrindo.
–Assim como você: De nave. –respondeu sarcasticamente. Nós dois rimos e então insisti:
–Não, sério, qual sua história?
Linda engoliu em seco, e fez uma cara séria, e então respondeu, baixinho e de cabeça baixa, como se quisesse se esquecer do passado:
–Bem... Nós todos não saímos, praticamente fugimos, não?
Eu acenei positivamente com a cabeça e me arrependi de ter cortado o clima com um assunto acidentalmente delicado. Eu sou tão estúpido...
Linda tirou a echarpe do pescoço, revelando uma cicatriz em sua garganta. Era o motivo de sua voz rouca.
–Eu saí por causa da violência. – ela disse, entristecida. Ela então me olhou nos olhos e me perguntou:
–E você saiu por quê?
Eu pensei numa resposta curta e objetiva: Não queria entediá-la com uma história longa, ainda mais que relembrar novamente minha vida na Terra estragaria o dia. Já fiquei com um gosto ruim na boca ao contar tudo para Viktor então imagine falar tudo de novo.
–Corrupção, morte de entes queridos e falta de emprego. – respondi, digitando aleatoriamente na mesa e olhando para o longe. Linda mordeu os lábios inferiores e se levantou. Observei os braços dela: Ela tinha uma fina pelugem nos braços, o que me deixou ainda mais derretido por ela.
Ela se aproximou de uma cafeteira e pegou uma caneca rosa, assumi que é a dela.
–Vai querer café? –ela perguntou, sorrindo. E levantando a jarra de café fumegante da cafeteira.
–Não obrigado, se eu tomar mais hoje eu fico acelerado demais. –recuso.
Klaus volta de sua inspeção e deixa a prancheta na mesa. Ele tira os óculos e coça os olhos.
–Linda, prepare uma xícara de café para mim também, por favor. –ele pediu.
Eu levanto uma sobrancelha, Klaus aparentava estar triste com alguma coisa.
–Algo errado? –perguntei. Ele olhou para mim e então senta na mesa do computador.
–Acabei de receber uma ligação de lá de baixo, um imbecil conseguiu atropelar uma espécie de raposa escamosa, sabe, aquelas que têm escamas e pelos e conseguem nadar. –ele disse, enquanto Linda lhe entregava uma fumegante xícara de café. Ele bebeu um longo gole e pôs a xícara de volta ao lado da cafeteira.
–Vai fazer a autópsia e aproveitar para analisar o espécime? –perguntei. Klaus acenou positivamente com a cabeça e fez um gesto para eu acompanhá-lo. Ele realmente se sentiu mal ao saber da morte do animal. Realmente tenho admiração por ele: Um cientista brilhante e ainda por cima com uma grande empatia pelos animais que estuda.
Descemos até a sala de autópsia onde o espécime estava pronto para ser analisado. Colocamos as roupas especiais para não sermos infectados com alguma doença ou vírus e entramos na sala.
A raposa estava com a barriga praticamente aberta e as patas dianteiras tinham fraturas expostas. Deduzi que ela morreu com o impacto, pois podia jurar que os miolos estavam saindo pelas orelhas. Klaus pegou o bisturi com força, por trás da máscara eu podia jurar que ele estava vermelho de raiva.
–Deveriam multar muito quem faz esse tipo de coisa. –grunhiu Klaus, ajeitando a raposa para vê-la melhor do lado dele. Ele olhou para os olhos em vida da criatura e soltou um suspiro triste, enquanto acariciava a raposa por trás das orelhas.
–Pobre criatura... –sussurrou, e então se pôs a abrir e separar categoricamente os órgãos da criatura. Eu o ajudava segurando a raposa de barriga para cima. Um a um foram saindo, com cuidado, os órgãos da Raposa até ela ficar vazia por dentro.
–Vamos retirar depois uma pequena amostra de cada tecido e mandar analisar. –disse Klaus, colocando os órgãos em pequenas comportas de gelo. Ele aproveitou para guardar algumas escamas da raposa também.
–E o resto do corpo da criatura? –perguntei, enquanto observava ele guardar os órgãos.
Ele parou, fechou as comportas e se aproximou da Raposa. Ele a amarrou dentro de um pano e a pegou nos braços.
–Ela será enterrada. Precisa de um enterro digno, ela precisa descansar em paz apôs a morte violenta.
Eu levanto uma sobrancelha e cruzo os braços.
–Ué? Agora? Onde?- pergunto confuso, mas ao mesmo tempo admirado pela atitude nobre de Klaus.
Ele vai até a sala de descontaminação, e as luzes especiais descontaminam ele e o pano com a raposa dentro. Eu o sigo até o lado de fora. Ainda estava nublado e o chão ainda estava molhado.
Klaus atravessa a estrada e dá dez passos dentro do campo florido, e então coloca a Raposa num canto e olha para mim.
–Pegou a pá?- ele pergunta, esperando que eu tenha percebido que não dá para enterrar algo sem uma pá. Senti-me estúpido e sem dizer uma palavra eu volto rapidamente até o prédio, e lembro que somos cientistas e não pedreiros. Onde diabos ia arrumar uma pá?
Percebo que Dona Coco ainda estava no hall, dessa vez passando a vassoura em um canto. Eu me aproximo e cutuco ela. Quando ela virou, Coco pulou para trás, assustada. Realmente, a roupa anti-contaminação fazia com que eu parecesse um alien.
–Desculpe assustá-la, mas o senhor Klaus quer enterrar a Raposa e precisamos de uma pá. –eu digo, com toda a calma do mundo para não deixá-la mais acelerada.
–Sim,sim, tem uma lá no armário de ferramentas do jardim de inverno, vou lá pegar e já volto. –ela diz, colocando a vassoura de lado e indo em direção do armário.
–Ótimo, eu vou lá falar com o Klaus, a gente tá logo em frente ao prédio. –eu digo para a já distante Dona Coco, que me responde com um joinha.
Volto para o lado de fora e vejo Klaus sentado ao lado do corpo, tristemente acariciando o animal morto.
–Cadê a pá? –perguntou ele, calmamente, sem parar de acariciar a falecida raposa.
–Dona Coco foi buscar e já volta. –respondo, e me sento do lado dele. Eu olho para o lado e vejo que Dona Coco, Linda e alguns dos cientistas e operários do laboratório, estavam vindo para o enterro também. Um é pouco, dois é bom...
A Zeladora me entrega a pá com cuidado. Todos ficaram observando. Me levantei e comecei a cavar. Todos estavam em silêncio em minha volta, o que era triste e perturbador ao mesmo tempo. Após um pouco de esforço eu consigo cavar uma pequena cova para o animal, e percebo que estou suando como um.
–Pronto, vamos enterrá-la. –completo, e Klaus se aproxima da cova com a raposa e cuidadosamente a põe lá dentro.
Todos ficamos parados, dando um minuto de silêncio para a pobre criatura atropelada.
Olhei em minha volta e vi a expressão de todos. Não havia muitas mortes em Lambert, então a morte de um animal comovia a todos com a mesma intensidade que a morte de uma pessoa. Todos cabisbaixos.
–É muito triste quando uma vida se perde, principalmente uma vida selvagem, que não merecia morrer em nossas mãos, seja propositalmente ou por acidente. -Klaus começou a discursar, pegando a pá do chão. –É importante, principalmente para o bem-estar da colônia, que nós vivamos em harmonia com a natureza e com a fauna, e evitar os grandes erros que nossos antepassados cometeram durante a existência na Terra.
Todos já ficaram comovidos. Dona Coco segurava as lágrimas.
–Bem... Isso é tudo. –terminou Klaus, jogando a Terra dentro da cova. Todos aplaudiram.
Enquanto Klaus ia jogando a Terra uma a uma as pessoas foram voltando para seus postos. Eu também voltei para meu canto, troquei de volta para minhas roupas normais e fui ver o que Linda estava fazendo.
Não encontrei Linda no laboratório e nem nas gaiolas, então voltei para o hall de entrada e a vi saindo para o almoço. Eu fui falar com ela.
–Hey, indo almoçar, não? –perguntei. Ela sorriu e acenou positivamente com a cabeça.
–Foi muito nobre da atitude de vocês dois enterrar a raposa escamosa. –ela comentou, enquanto saíamos de dentro do prédio.
Eu a acompanhei até o carro dela, e notei que também era um carro antigo: Um Buick Roadmaster 1992 cinza.
–Belo carro. Onde conseguiu? –perguntei. Ela abriu a porta do carro e respondeu:
–Na loja de carros no centro comercial ué. –ela encolheu de ombros e entrou no carro.
Alguma coisa ficou batendo na minha cabeça. Porque este povo é tão aficionado com coisas velhas? Primeiro o modelo das casas, remanescentes das casas do século 20. Depois são os carros que variavam de modelos de 1970 até o fim dos anos 90. Depois a agenda eletrônica de Linda, que aparentava ser muito menos avançada que as de hoje em dia. Uma incógnita surgiu em minha cabeça, mas resolvi não me incomodar muito com isso. O que realmente me incomodava era que estava na hora do almoço e eu estava com fome.
–Vai querer uma carona? –Linda perguntou, antes de fechar a porta do carro. Eu sorri e acenei positivamente com a cabeça.
–Vai almoçar aonde?- perguntei, me aproximando do carro.
–Num restaurante italiano perto do espaço porto. Quer ir? –ela propôs, destrancando a porta do carona.
–Comida Italiana? Claro! –aceito, deslizando sobre o capô do carro e entrando no carona. Linda riu da minha palhaçada.
Ela ligou o carro e partimos para o centro comercial da cidade.
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