Meu nome é Alma

2 Capítulo Segundo


Notas iniciais
Olá, pessoal! Como vão vocês? Dialoguem comigo! Espero que tenham gostado do primeiro capítulo.

Fazia algumas semanas que Alexandre estava em Bucareste. E naquela noite, enquanto chegava em seu apartamento depois de passar o dia resolvendo assuntos pendentes com alguns gerentes de casas noturnas da parte Sul de Bucareste, havia decidido que precisava resolver logo alguns assuntos seus, e não do trabalho. Sua curiosidade não permitia que esses assuntos continuassem pendentes.

O apartamento não possuía muita vida. As paredes eram todas pintadas de branco, em alguns lugares com detalhes artesanais de lajotas de tijolos envernizados. O forro era de gesso com partes em relevo. Alexandre comprara o lugar previamente mobiliado havia alguns anos.

Na sala, um sofá de couro marrom em frente à um aparador com uma TV média em cima. O aquecedor ocupava o canto de uma parede na sala, em baixo de algumas prateleiras com alguns livros esquecidos, mas outros novos, adquiridos por necessidade naquele mês. Alexandre arrancou os sapatos dos pés e andou até o quarto, passando pela cozinha com bancadas de madeira de cerejeira, junto à sala de jantar, com uma mesa antiga de carvalho acompanhada de cadeiras almofadadas.

“Não achei que a faxineira viria hoje...”, pensou ao ver o quarto arrumado com os moveis polidos, a armação de metal da cama exibindo um jogo de casal bege, diferente do antigo, que Alexandre julgava ter mais de dois anos e acreditava tê-lo esquecido ali, porém exalava um cheiro que lhe lembrava a mesma essência de bambu que vira na Índia.

“Preciso comprar roupas de cama novas.”, fez uma nota mental para isso.

Sentou-se na cama e respirou fundo enquanto criava coragem para um banho e para a noite. Precisava ir no banheiro, e aproveitou o ato para encher a banheira com água quente. Enquanto a banheira enchia, bebeu um copo de água na cozinha e ponderou sobre jantar quando saísse ou depois de resolver seus assuntos.

Passou a mão pelo cabelo curto e apoiou-se na janela, encarando a imagem do Rio Dâmbovița completamente negro, espelhando as luzes dos postes, dos carros e dos prédios a sua volta. Alexandre já vivera em Bucareste e já passara por muitos altos e baixos e problemas por lá. Não ao ponto de chegar a desgostar da cidade, mas ao ponto de ter lembranças “descontentes” de pessoas que ainda viviam lá.

Desvestiu-se no banheiro depois de ligar os aquecedores da casa e deitou-se na banheira, abrandando seu corpo com a água quente. Passou pelo menos metade de uma hora deitado lá, em silencio tanto de palavras quando de pensamento, encarando fixamente algum ponto aleatório que não significava absolutamente nada, mas correspondia ao teto de gesso.

Ele era um homem observador e de raciocínio rápido, gostava de observar, de conhecer e analisar cada detalhe do mundo à sua volta. Tanto que, durante várias vezes, passara um tempo considerável encarando algo, estudando cada detalhe e imaginando os motivos de como e por quê aquilo estaria ali. E por muitas vezes, essas suas características foram a chave para um plano bem sucedido.

Uma hora mais tarde, Alexandre ia até uma loja Café, que também servia de um pequeno restaurante, perto e na mesma rua que seu prédio, em frente ao Dâmbovița. Alexandre julgava que o estabelecimento seria mais velho do que ele mesmo.

Pediu algo quente, denso e com gosto forte para beber. Afinal aquela estação do ano requeria atos daquele tipo.

Enquanto esperava, sentado por preferência em uma mesa ao lado da janela, visualizou por alguns segundos seu próprio reflexo no vidro; o cabelo negro cortado rente a nuca, a barba recém feita... Por um instante encarou seus próprios olhos verdes no espelho. Sua aparência estava apropriada, julgou.

Quando recebeu o pedido, encarou por alguns momentos a própria mão, cerrando o pulso e vendo as contrações como uma forma de auto distração.

“Você está perdendo tempo”, pensou, “Vamos logo com isso.”

Saiu do Café segurando a bebida quente na mão e entrou no carro. Era uma noite amena, a temperatura não chegava aos dezoito, mas não era menor que dez graus. Alexandre desenvolvera um certo afeto pelo calor durante o tempo em que estivera na Índia. Mas também estivera viajando pela Romênia, Hungria e Rússia nos últimos anos... Julgou que não deveria sentir tanto afeto pela característica de um lugar.

O céu tomava um tom negro, azul e alaranjado devido às luzes dos prédios, nuvens e a fumaça na atmosfera. Ligou o rádio, mas lembrou-se de que não trouxera para Bucareste nenhum CD que gostava. Então desligou-o novamente e dirigiu em silêncio. E também fez uma nota mental para comprar alguns CDs novos.

O lugar onde ia não era difícil de encontrar. Desceu a principal para o norte e estacionou em frente ao lugar. Não tinha certeza se ela ainda morava ali, mas tentou se convencer que não custava parar e perguntar.

Estava na periferia da cidade, em um prédio simples de oito apartamentos, construído com blocos de cimento em frente a uma loja que, durante o dia, funcionava como mercearia, porém à noite não passava de um ponto imundo e de má qualidade de venda e uso de drogas, controlado por pessoas que Alexandre julgava como adolescentes. Não que ele mesmo fosse tão mais velho que eles.

Nada que Alexandre precisasse ou, no caso, merecesse se preocupar. As gangues menores da cidade naturalmente mantinham sua hierarquia, deixando claro a posição do lugar e de tudo aquilo que aqueles adolescentes poderiam ou não fazer ou vender. E Alexandre também julgava que seria melhor pessoas como eles acreditassem que homens da mesma organização que ele eram apenas uma velha lenda urbana.

Andou pelo que deveria ser uma entrada com jardim, mas não passava de um quadrado de terra, cheio de pontas de cigarro, pedras e a parte morta do que, um dia, deveria ter sido grama. Uma escada de ferro levava ao andar de cima, porém Alexandre dirigiu-se para os fundos.

As portas dos apartamentos três e quatro eram opostas, uma em frente a outra. Alexandre pode ouvir a voz de uma criança vinda de um deles.

Olhou no relógio e respirou.

Passou a mão novamente pelo cabelo e olhou a porta de número três.

Bateu duas vezes e esperou.

Silencio. As luzes estavam acesas, mais nada.

A voz da criança vinha do apartamento em frente, as palavras eram repetitivas e pronunciadas com um tom enjoativo. Pareciam ser o único som daquele maldito lugar, ao ponto de Alexandre pensar brevemente em passar para o próximo item da lista.

— Ela está no trabalho. – Uma voz feminina disse vinda de trás dele. – Volta mais a noite. Se precisar, deixo um recado para ela.

Alexandre virou-se e observou como sua sombra projetava-se sobre o corpo baixo da mulher desconhecida e magra.

— Obrigado. – Respondeu depois de algum tempo, enfiando as mãos no bolso do casaco. A colônia que usava pairou pelo ar e deixou a mulher brevemente tonta. “Até aquela puta com câncer consegue mais homens que eu”, ela pensou.

— Não gastarei seu tempo. – Alexandre tentou ser minimamente simpático. Achou que deveria sorrir, mas não quebrou sua expressão séria. A mulher olhava-lhe fixamente o rosto.

— Se ela não quiser te atender, volte aqui que faço um serviço melhor e mais barato. – A criança que Alexandre ouvira antes apareceu atrás dela na porta. Era um menino fortemente agasalhado e com o rosto roxo de choro.

Alexandre deu um suspiro longo e moveu a cabeça para baixo. Virou-se e voltou para o carro.

Alma, tristemente, deitou-se na cama naquele momento. Azur dormia em um dos cantos do quarto escuro e frio. Alma passara o último mês com uma garota chamada Gizella, que conhecera logo que chegara em Constanta. Essa garota vivia em uma espécie de albergue, e Alma não gostava mais de toda aquela movimentação e os turistas.

“Eu não tenho mais dinheiro, tenho que colocar isso na minha cabeça. Tenho sorte de não estar dormindo na rua. Não, eu não vou chorar. Preciso fazer alguma coisa... Mas não quero ganhar dinheiro como Gizella... É tudo tão estranho. Ela me deixa ficar, divide a comida e o quarto... Eu não sei... “

Gizella ganhava dinheiro dormindo com os turistas nos fins de semana, na maioria das vezes no mesmo quarto que dividia com Alma. Por isso, Alma sempre se mantinha fora durante aquele tempo. Durante a semana, a amiga trabalhava em uma farmácia de hospital. Alma não sabia muito bem o que ela fazia, mas sempre via Gizella tirando alguns remédios da bolsa.

Alma quis perguntar algumas vezes, mas preferiu não envolver-se com aquilo.

Alma sabia que precisava de dinheiro e de maturidade para aguentar toda aquela situação, mas não sabia como conseguir nenhum dos dois.

Azur trocou o lugar onde antes descansava pelo colo quente da dona. Espreguiçou-se e deitou-se sobre esta, que abraçou-o e sentiu seus olhos arderem com as lagrimas reprimidas. E, como fazia todas as noites desde que chegou ali, repetiu baixinho:

— Amanhã será diferente.

Alexandre perguntara a um conhecido que cuidava da entrada para se certificar.

Sim, ela estava lá.

Entrou no lugar e viu-se em meio as luzes néon, máquinas de fumaça e de música alta. De relance, viu alguns homens e prostitutas cheirando drogas em uma mesa. Ignorou.

Andou em silencio desprezando tudo a sua volta. Conhecia suficientemente bem o lugar, e sabia que a freguesia não era das melhores.

Passou por uma porta discreta que levava aos fundos. Contou as portas e entrou na sétima, um quarto quase vazio, com um espelho grande, mesa e algumas poltronas. Abriu mais uma porta e passou por um corredor com outras portas, algumas abertas exibindo homens jogando cartas, inertes em densas nuvens feitas de fumaça de cigarro e charuto.

Um segurança apareceu, mas ao reconhece-lo abaixou a cabeça e o cumprimentou.

Alexandre tomou a direita e finalmente viu-se em frente a porta que queria. Olhou para seus pés e para onde pisava, era o mesmo chão de antes. Bateu na porta duas vezes... Era o mesmo som, na mesma porta, na mesma parede, na mesma boate. Tudo estava igual, aparentemente intacto. Não sabia o que pensar. Não estava inseguro, apenas incerto...

Abriu-a, uma sala simples com algumas roupas em cabides, mesa, espelho, poltronas.

Uma mulher morena estava sentada na beira da janela fumando. Todos ali fumavam? Como se Alexandre também não possuísse esse hábito às vezes.

— Bianca. – Alexandre disse ou chamou. A voz ecoou grave pelos ouvidos da mulher e fez com que um arrepio frio subisse por sua espinha.

Bianca virou-se, o cabelo castanho curto, grosso e emaranhado cobria parte de seu rosto fino e em certas partes manchado, mas Alexandre podia ver os olhos negros dela que o encaravam. Tinham quase a mesma idade, sendo ela três anos mais nova.

Mil respostas correram pela mente da mulher: “Sabia que estava na cidade, mas não achei que viria.”, “As coisas não tinham acabado?”, “O que faz aqui?” ...

“Kisu min...”¹

As duas palavras não saiam de sua cabeça. Ele entenderia, sim. A pronuncia de seu próprio nome viera daquela língua... Aleksandre.

Porém, com todos os mil em um pensamentos em sua mente, não disse absolutamente nada. Lembrou-se de jurar por Deus e pelo diabo que jamais falaria com ele novamente... Mas ela já descumprira o juramento uma vez... “Talvez seja por isso que fui amaldiçoada com esse câncer no pulmão.”, pensou, ignorando o fato de fumar desde os quinze anos.

Alexandre respirou fundo e fechou a porta. Puxou uma cadeira e sentou-se em frente a mulher, esta tentou ajeitar-se na poltrona em que estava. Alexandre notou hematomas roxos nas pernas e feridas nos braços.

“Andou injetando morfina?”, pensou em perguntar. Mas aquelas perguntas já haviam causado brigas demais.

-Eu precisava te ver. – Foi sincero. Coçou a barba e apoiou o rosto no punho cerrado. O excesso de trabalho estava afetando seus horários de sono...

— Estou com câncer. – Bianca disse rancorosa. A voz era frágil e rouca, como sempre fora.

— Eu sei. – Alexandre confirmou. A luz era fraca demais para seu gosto, sentia-se dentro de uma cela. – Quer sair comigo?

— No final, vou acabar na sua cama? – Bianca não possuía muita emoção na voz, uma característica sua. Talvez nem dentro de si possuísse... Qual fora a última vez em que sentira a felicidade ou a tristeza, ou o ódio, ou paixão... Lembrava-se apenas do ódio e da tristeza em tempos em que era mais jovem. Mas naqueles últimos anos... Apenas o vazio, sim, ela não sentia mais nada.

Alexandre sorriu dentro de sua mente.

— Talvez. – Afirmou, levantando-se e examinando melhor o lugar. Deixou suas palavras vagarem pelo ar por alguns bons segundos enquanto buscava em suas lembranças algum lugar que julgasse “bom” para a ocasião, afinal ainda tinha fome. – St.George... É agradável, quer comer lá?

Bianca, em silêncio, saiu do cômodo e trocou-se no banheiro, escovou os dentes e calçou sapatos em que não parecesse a dançarina de boate que era. Não queria envergonhar Alexandre.

— Fica perto. Podemos ir andando. – Bianca disse enquanto saiam da boate pelos fundos – Como você consegue permanecer igual enquanto todos envelhecem? – Tinha que dizer aquilo, tentou dar um certo ar de exagero, mas não acreditava no que via ou ouvia vindo daquele ser parado no tempo.

“Mas ainda somos tão jovens...”, ele pensou.

— Meu carro está ali na frente. – Alexandre respondeu, e por um breve instante viu-se perto de algo que, na prática, poderia chamar de familiar e confortável. Esqueceu por breves e aparentemente eternos minutos de seus problemas e permitiu-se sorrir.

¹: kisu min pode ser traduzido como “beije-me” da língua universal esperanto, muito popular em poemas e canções.

Notas finais
Por enquanto estamos na introdução da história, então espero que me perdoem pela monotonia. E então, gostaram? Comentem, favoritem, acompanhem... sei que dá preguiça, mas é importante para mim e para a divulgação da história! Beijos a todos! , Rafaela