Meu nome é Aaron
3 Um novo lugar
A tarde passou voando... Ajudei Naomi a fazer compras para viajem que seria na madrugada do próximo dia. Pelo visto já estava tudo combinado para irmos para Naperville á semanas, apesar de eu estar morando com eles apenas á dois dias. Trouxe as sacolas do supermercado para dentro de casa e deixei em cima da mesa para Naomi dar o destino certo para cada alimento. Isso me deu fome, e fui à na geladeira para ver se encontrava alguma coisa. Abri, e me deparei com o que parecia ser mais um filme de terror: vários potes com um líquido vermelho e espesso que parecia ser sangue, e havia alguma coisa dentro desses potes, eu só não consegui identificar o que era. Foi um enjoo momentâneo, não consegui controlar. Tinha um odor esquisito então corri para o banheiro e fiquei lá por um tempo para ver se iria vomitar. Naomi bateu na porta, havia percebido que estava no banheiro á muito tempo.
– Está tudo bem aí Aaron?
– Sim, um minuto e eu já saio. – falei rápido.
Saí do banheiro e estava com um embrulho no estômago, que me perseguiu pelo resto do dia. Mas o que eram aqueles potes na geladeira? Havia no mínimo seis, e eu queria descobrir o que era. Voltei para a cozinha quando Naomi estava na despensa arrumando as caixas com os alimentos para á viajem. Fui direto para a geladeira e a abri. Não havia mais nada lá.
– Está procurando comida, querido? – Naomi chegou à cozinha sem eu perceber e levei um susto. – Eu estou empacotando tudo, se quiser alguma coisa me diga que eu pego para você.
– Não, não... Só queria um copo de água gelado, mas eu pego da torneira, sem problemas.
Naomi se retirou e continuou a fazer suas tarefas. Isso foi no mínimo um tanto esquisito. Mas era coisa da minha cabeça, só podia. Deveria ser o mesmo líquido daquele molho de salsichas da macarronada do almoço de hoje. Tirei a ideia da minha cabeça e voltei para o meu quarto.
Nós iriamos partir de NY para Naperville por volta das 9hrs da noite. E eu ainda tinha um tempo para fazer qual quer coisa. Escutei Samuel chegando da janela do meu quarto e vi-o beijando Naomi. Não consigo me adaptar a essa esquesitice de “família feliz”. Se você vivesse por treze anos sozinho, passando de um lugar para outro sem ter um fixo me entenderia. Talvez se eu nunca tivesse sabido minha origem e tudo o que aconteceu no meu passado eu visse tudo isso de uma maneira diferente e até gostaria de ter uma família. Mas a questão é que eu não consigo. Eu quero mais que tudo achar o meu lugar nesse caos todo que eu vejo e lutar pelo que eu acho certo.
Estava fazendo alguns objetos levitarem e os arremessava contra minha cama para não fazer barulho, queria ver quanto grande estava minha força. E devo admitir que estava admirável, Naomi não vai gostar do resultado que deixei alguns livros. Escutei a campainha e logo após algumas conversas entusiasmadas. Desci os degraus da escada sem fazer barulho para não ser notado.
Naomi e Samuel estavam conversando com outro casal na porta de casa. A mulher era jovem e bonita, o homem um pouco gordo e barbudo. Estavam convidando-os para entrar, mas eles negaram o pedido e disseram apenas para lhes entregar o que combinaram. Fiquei confuso e um tanto curioso, por isso cheguei mais perto e me escondi próximo a porta.
– Vamos lá, ainda temos algum tempo antes de irmos para Naperville Helena, não faça desfeitas. – Naomi disse para a mulher enquanto Samuel e o outro homem riam de alguma coisa.
– Realmente não vai dar Naomi. – praguejou ela – Eu e Rodolfo estamos com o tempo apertado para fazer você sabe o que.
– OK, tudo bem! – Naomi ficou seria e um tanto perturbada. – Vou buscar o pacote.
Naomi saiu em direção à despensa e quase me viu. Samuel aguardava com o outro casal na entrada da porta.
– E o garoto? Já notou alguma anormalidade? – Os três riram exageradamente.
– Qual é Rodolfo? – Samuel parecia se divertir – Está zoando com meu pobre filhinho?
Continuaram a rir e eu estava os observando e quase não vi Naomi passar pela sala novamente em direção à porta. Carregava um pacote e eu estava decidido a ver o que era. Esquivei-me para frente, e fui atrás da cômoda que era exatos cinco passos diante da porta de entrada, eu conseguia ver ¾ a minha frente, a vantagem era que eles não conseguiam me ver nada.
– Aqui está Helena, mas pelo amor de deus tome cuidado e sejam discretos. – Falou Naomi os encarando fixamente.
– Não precisa se preocupar Naomi, já fizemos isto antes não é?
Helena abriu o pacote para se certificar de que estava tudo certo com o produto. Era exatamente o que eu imaginava: o pote com o liquido espesso vermelho contendo alguma coisa dentro.
– Você esta louca? – vociferou Naomi – Não abra isso aqui, alguém pode ver.
Não sabia o que fazer, mas não podia mais ficar lá, enquanto eles discutiam eu corri para o meu quarto. Literalmente os potes não eram o molho de macarronada. Será que meus novos pais eram um tipo de traficante de alguma nova droga? Talvez fosse apenas uma receita secreta de família que ninguém pudesse ver, pois havia um tipo de concorrência ou algo do tipo. É, com certeza era isso.
Não havia sentindo nenhum eles fazerem alguma coisa ilícita, então tirei novamente essa ideia da minha cabeça e foi quando Naomi entrou no meu quarto.
– Aaron querido, arrume suas malas e faça uma mochila com tudo o que precisar usar lá. – Eu concordei e ela se retirou.
Estava exausto, cansado e sem vontade para nada. Portanto, deitei-me na cama, tranquei a porta e fiz tudo levitar com telecinesia para dentro de minha mochila com uma delicadeza incrível. Depois de algum tempo estava tudo pronto e organizado, então desci para o primeiro andar com as malas e minha mochila sobre os meus ombros.
– Partiremos em alguns minutos. – disse Samuel.
Concordei com a cabeça e quando ia sentar no sofá Samuel interviu:
– Vá carregando as malas para dentro do carro.
Eu realmente não queria fazer isso, mas fiz por não ter intimidade o suficiente para negar alguma coisa.
Tudo em seu devido lugar, eu já estava sentado no banco traseiro do Ford 2006 de Samuel com Barner em meu colo. Naomi apagou todas as luzes da casa, fechou a porta da frente, deu uma ultima olhada e veio em direção ao carro de mãos dadas com Samuel.
Partimos as 08h20min de NY rumo a Naperville. A viajem inteira foi um tédio sem fim, um silencio enlouquecedor e uma tentativa falha de puxar assunto comigo. Barner parecia estar enjoado, por isso queria brincar comigo a todo custo. Finalmente quando ele se acalmou tive paz para descansar, foi quando, mais uma vez os pensamentos de Endelaan invadiram minha mente.
Mais que tudo eu queria conhecer quem era a menina Encantada. Ela deve ser tão linda como era em meus sonhos. Deve chamar a atenção por todos os lugares onde passa. E eu só vejo esse desejo incessante cada vez mais longe.
Uma das únicas lembranças que tenho do meu pai foi quando estávamos na casa de meu avô, todos divertíamo-nos. Até seu adorável bicho de estimação Lathor estava lá, eu brincava muito com ele, era uma espécie chamada Paermor. Ele tinha a incrível capacidade de se transformar em diversos animais, tanto terrestres, aéreos ou aquáticos.
Mas essas lembranças são tão vagas que me deixam sem rumo algum. Eu queria saber o que tenho que fazer e partir sem ter que me importar com nada ou ter que dar satisfação. Isso esta me correndo cada vez mais.
Na carta de minha mãe, ela não sabia explicar direito o porquê de o Chandriano ter feito tudo o que fez com meu planeta. Apenas que eles tinham medo. Medo de o nosso planeta estar formando um grande exército para destruí-los e tomar o seu. Citou que no meio daquele caos todo Mahammed havia comentado que Endelaan era muito rico em minerais, como o carvão, e isso seria bom para o planeta deles, que estava se destruindo aos poucos.
Então eles fizeram tudo isso simplesmente por medo e por busca de recursos minerais. Era enlouquecedor só de pensar. Perdi minha família toda por um causa de um líder que só poderia estar completamente fora de si. Mas um dia, quando eu estiver pronto, almejarei minha vingança e me lavarei perante o sangue dele.
O resto da viajem correu bem, Barner adormeceu e isso era compreensível perante o agito todo que ele estava. Após algumas horas de viajem, finalmente passamos por uma placa onde dizia: Bem vindo a Naperville. População: 140 mil habitantes.
A cidade era linda, fazia calor e havia muitas pessoas pelas ruas. Elas até se familiarizavam com NY, mas havia muito menos prédios, mais arvores e cor. Era um bom lugar para se morar.
Passamos por varias lojas que pareciam incríveis e que teria q visitar uma hora dessas. Passamos pelo centro da cidade que era ainda mais bonito. Era como um circulo ao redor de onde tudo acontecia, e nesse circulo havia um enorme chafariz no centro, rodeado por arvores e gramados onde se encontravam grupos de amigos se divertindo e fazendo as mais diversas atividades.
Nesse momento, e apenas nesse momento tive vontade de ser um menino normal, ter uma vida e amigos para compartilhar momentos bons. Essa ideia sumiu de minha mente com a mesma rapidez que apareceu.
Barner acordou de um susto e eu abri a janela para ele poder ver melhor todo o movimento da cidade, ele parecia extremamente entusiasmado.
Atravessamos o centro da cidade e fomos para a nossa casa. Contei 20 minutos de um local para outro de carro, e então chegamos.
Era uma casa afastada da cidade, não havia outra no mínimo um quilometro dali. Tinha uma grande entrada que a levava direto para garagem do carro, onde Samuel o deixou. Saímos e ficamos olhando o novo “lar”. Era de dois pisos com uma madeira branca, não tão diferente da anterior, porem mais moderna. Estava conservada e parecia ser realmente aconchegante. O quintal era grande e espaçoso, Barner iria se divertir um bocado. Estávamos prontos para entrar na casa quando a porta se abriu sozinha e saiu uma mulher de dentro da casa.
– Ah! Desculpem-me se os assustei. Vocês devem ser o casal Crawano. Prazer sou a Elisabeth, a mulher da imobiliária que vocês negociaram. Tentei ligar mais cedo, mas o celular parecia estar desligado.
– Sim, claro... Prazer, eu sou Naomi, este é Samuel meu marido e este é nosso filho Aaron. Infelizmente, a bateria do celular acabou a caminha daqui. – Explicou Naomi
Nós entramos na casa e enquanto Naomi e Samuel assinam o contrato, ela me pergunta minha idade e conta que tem uma filha mais ou menos da mesma faixa etária, que estuda no colégio local. A mulher é muito simpática, amigável e nitidamente adora conversar. Samuel devolve o contrato e antes de nós nos despedirmos, ela diz para eu procurar a filha dela qual quer dia desses para conversar.
A maioria dos móveis está coberta por lençóis brancos. Os que ficaram de fora ganharam uma camada de poeira densa. Há dois dormitórios, uma cozinha modesta com piso de linóleo verde-limão e um banheiro. A sala de estar é grande e retangular, e fica na frente da casa. Há uma lareira no canto mais afastado. Eu entro no quarto menor, a pintura também é branca como o resto da casa. Há uma cama de solteiro, uma televisão de 32 polegadas, uma cômoda para depositar qual quer coisa que eu queria e um guarda-roupa meio antiquado. Tirei todas minhas roupas e já as depositei dentro dele. Organizei alguns livros que Naomi me dera e limpei o chão que estava empoeirado. Depois disso estava exausto e me joguei na cama dormindo rapidamente, apenas desejando que o próximo dia seja melhor que o de hoje.
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