Meu noivo perfeito
1 Primeiro dia: um desafio
Notas iniciais
{A maioria do conteúdo envolvido na trama é fictício, entre eles: personagens, instituições e seus respectivos locais. Sem seguir à risca a realidade.}
(...)
Meu nome é Sakura, sou brasileira e moro em Los Angeles há cinco anos. Vim para cá com o objetivo de estudar em meus recém formados 17 anos, com a companhia de tia Tsunade, minha responsável desde que tornei-me órfã aos doze. Na época em que chegamos a única moradia que conseguimos foi um mini-apartamento em um bairro humilde, era pequenininho, mas era aconchegante. De acordo com nossa condição financeira na época, não podíamos exigir mais que aquilo.
Conseguimos manter uma rotina tranquila até meu aniversário de 18 anos. Eu estava na faculdade quando recebi a trágica notícia de que tia Tsunade havia sido atacada enquanto voltava do trabalho. Como uma reação normal acabei entrando em pânico e fui vê-la no hospital no mesmo instante, mas tudo que os médicos me disseram sobre ela era que estava em coma.
Foi um dos piores momentos da minha vida, ela era a última pessoa que eu ainda tinha nesse mundo. Não podia perdê-la. Foi um tremendo baque durante aquele período, depois daquilo passei semanas refletindo sobre como faria para prosseguir caso alguma mais alguma tragédia acontecesse, meu estado emocional provavelmente nunca esteve tão vulnerável. Eu era um poço de lágrimas e desordem, até mesmo meus estudos foram afetados, minha rotina, tudo.
Então, após longos de três meses de constante espera, ela acordou. Infelizmente com algumas fracas sequelas do coma, como perdas de memórias e falta de atenção, sintomas que continuaram persistindo até os dias de hoje, porém mais levemente. Para retribuir todos os cuidados que recebi da parte de minha tia desde que ganhou minha guarda, daquele tempo em diante vim fazendo de tudo possível para deixá-la confortável e todo o tempo que passo em casa é de extrema dedicação.
Por sorte com o passar dos anos ela melhorou bastante, mas ainda tinha a mesma inconveniente falta de atenção e tendências a sustos mais fáceis que vieram com o tempo. Qualquer coisa que a assuste podia chegar a custar sua vida, devido ao trauma. Não era fácil para mim aquilo, muito menos para ela.
Eu era alguém sem muito apoio, nunca tive amigos de verdade aqui, acredito que não por não ser uma pessoa legal, mas sim porque eu não tinha tempo. Não tinha tempo de sair com um grupo para um lanche, uma balada, nada, mal tinha tempo para mim. Depois de tudo acabei me adaptando a vida corriqueira. Eu era uma pessoa fechada em meus próprios problemas, mas sempre sendo gentil quando necessário. Ser prestativa, mas não gostar de ter pessoas prestando nada para mim, foi nisso que me tornei aos poucos. Minha adolescência foi completamente prejudicada por minhas perdas passadas.
Não cheguei a mencionar que minha universidade era Harvad, e não, eu não era rica nem mesmo em sonhos. Consegui uma bolsa quando ainda estava no Brasil, então você pode ver como eu tive que dar duro para suportar estes últimos cinco anos. Fui uma das melhores alunas, todos sabiam como minha vida era difícil, algumas pessoas até me olhavam com admiração, quem sabe desejando a força de coragem que eu tinha.
E depois de anos de noites mal dormidas, sonos perturbados por pesadelos do passado, vaidade jogada no ralo ao lado dos ratinhos e muitos sacrifícios inoportunos para ajudar minha tia a manter o AP, eu finalmente, graças aos céus, ao meu bom Deus que me mandava um joinha de algum lugar lá de cima, havia recebido um sinal que dizia que tudo havia valido à pena.
Hoje era, enfim, meu primeiro dia de trabalho, podia ser um pouco difícil de se acreditar, mas logo em meu primeiro emprego, fui chamada para trabalhar na empresa em que muitos dariam a vida pelo menos para por os pés. Agora podia-se ter uma vaga impressão da magnitude que e a importância do meu trabalho, pois bem, eu iria trabalhar nada mais e nada menos, na empresa com o maior centro tecnológico do mundo: a CIT.
A CIT era conhecida mundialmente. Pessoas sonhavam apenas com o dia de conseguirem uma entrevista para emprego lá, era muito mais do que uma honra fazer parte daquele grande conjunto de gênios. E para me deixar subindo nas paredes, ontem mesmo, haviam me ligado, avisando sobre a proposta de trabalho, ocupando uma vaga disponível no setor de engenharia.
Eu obviamente não pensei duas vezes antes de aceitar, até porque aquilo era bom demais para ser verdade, nem sei quantas vezes cogitei desligar na cara da mulher pensando que era um trote, muito bem feito por sinal. A última coisa da qual me deixaram a par foi o horário de chegada, alertando-me que atrasos não seriam tolerados. Coisa que eu já esperava.
No final eu só conseguia focar em meu coração batendo forte que nem uma britadeira.
E agora, com a toalha em volta de mim e dos meus braços molhados, a velha perguntinha que assombrou minha noite inteira voltou:
"E se eu estragasse tudo?"
Essa era uma tendência pra lá de velha minha, parecia algum tipo de vudu de tão eficaz que ela era.
Coloquei um vestido azul marinho que chegava até os joelhos e deixava a área acima do meu busto à mostra. Foi um lindo presente que tia Tsunade me deu — com muito trabalho duro — ano passado, nunca perguntei à ela o preço, mas deve ter custado uma fortuna. Coloquei uma delicada sandália de salto baixo preta com detalhes azuis e finalizei prendendo meus longos cachos castanhos em um delicado coque. Todo esse ritual seguido de uma baixa oração.
Olhei-me uma última vez no espelho do meu quarto e fui até a cozinha onde tia Tsunade tomava café tranquilamente lendo sua revista. Desejei-lhe bom dia e comecei a me servir.
– Oh querida, você está tão linda. — sorri, minha tia era como minha mãe de coração pois sempre cuidou de mim com muito afeto.
– Obrigada tia, mas o que você tanto lê? — sentei na cedeira já com saliva na boca.
– Parece estranho... — ela começou dando um gole no café. — Mas você está em uma das páginas mais importantes. — falou entusiasmada.
Eu me engasguei com o pão de queijo.
– Como? — perguntei incrédula.
– Ora, o que você esperava Sakura? Irá trabalhar na empresa mais importante do mundo, sorte sua que não colocaram nenhuma foto nem nada comprometedor.
Internamente eu suspirei aliviada. O importante era que agora pelo menos eu não estava totalmente exposta. Estiquei minha mão por cima da mesa, apressada para ver a matéria.
– E o que diz, o que, o que? — claro que estava curiosa. A matéria falava sobre MIM. Eu, o ser mais sem vida social existente de L.A., do nada, estava em uma revista de famosos, me poupe. Eu havia recebido o telefonema ontem pela manhã, como eles descobriram uma coisa dessas assim e já estavam...
– Vou ler: Ontem a maior empresa tecnológica mundial, CIT, contratou uma nova funcionária e olha que não é sempre que temos isso. A sortuda do semestre foi uma jovem de 22 anos chamada Sakura Haruno, ela é brasileira e recém-formada em Havard. Bom, com certeza os brasileiros devem estar orgulhosos dessa essa bela mulher. Não podemos dar informações comprometedoras sobre Sakura, mas brevemente todos irão conhecê-la, já se ouvem boatos à respeito da recém-empregada e, nossa, esse ano promete. Desejamos um ótimo dia de trabalho para você Sakura e saibam, estamos todos de olho em tudo.
Meu coração batia acelerado e me veio na cabeça um fato bastante importante: Qualquer deslize que eu cometesse seria motivo de fofoca mundial. O pior é que esse era meu primeiro trabalho, ou seja, não tinha muita experiência e as capacidades de cometer uma grande burrada eram enormes. Repetir a mim mesma que pensamentos positivos iriam me ajudar era o mesmo que nada.
– Não se preocupe, querida. Você vai conseguir se sair bem, e sabe como eu sei disso? — perguntou tia Tsunade tentando me acalmar, acenei negativamente com os olhos ainda petrificados na mesa. — Porque eu acredito em você.
Sorri sem um pingo de coragem e fitei-a.
– Obrigada tia, o que seria de mim sem você? — Ri, nenhum pouco confiante ainda. — Preciso ir, não quero me atrasar no meu primeiro dia. Se cuide.
Dei um abraço nela, peguei minha bolça e sai apartamento à fora. Por sorte um táxi estava passando na rua e chamei-o. Melhor ir de táxi do que de metrô, ainda mais com as roupas que eu estava vestida.
Disse para o motorista um endereço próximo à CIT, não queria me comprometer tão indiscretamente assim.
(...)
Dez minutos depois chegamos ao local e desci do carro. Andei devagar nas calçadas, era uma das avenidas mais ricas de Los Angeles, haviam poucas pessoas andando a pé, mas todas bem vestidas e com postura, era a ala empresarial, dos grandes hotéis e lojas das mais variadas grifes.
Ao dar um giro de 180° graus meio que estanquei na calçada mesmo. A mais ou menos cinquenta metros de distância estava a CIT com seus 100 andares compostos do mais puro requinte e luxo da classe dominante. Bastava olhar para aquele prédio gigantesco que já era possível sentir uma atmosfera muito mais pesada e fria ao redor.
O prédio era todo de vidro, algumas partes pareciam ser feitas de ouro pode até ser impressão minha, mas tenho quase 50% de certeza, ou então era apenas adornos dourados muito bem feitos. Fui andando o mais tranquilo que alguém sem coordenação motora podia para uma das plataformas para as pessoas que trabalhavam ali.
Direcionei meus passos em direção ao portão automático, vi uma luz piscando e depois mais outra e outra, quando olhei para o lado algumas pessoas que pareciam jornalistas estavam tirando fotos minhas. Ai meu Deus, tudo menos isso. Tive vontade de por minha bolsa em frente ao rosto e sair correndo logo para dentro, mas não era lá uma reação muito sensata, então foquei apenas nos passos calculados.
A CIT ocupava um quarteirão inteiro, ou mais, não sei bem, mas só sei que parte da avenida era direcionada apenas ao prédio. Uma coisa meio que absurda até, mas o que podia-se fazer? Aquela empresa ia além das fronteiras dos bilhões, muito além. Em frente a entrada dois seguranças me olharam sérios, posturas eretas e mãos unidas em frente aos corpos.
Não me deixei fraquejar e perder a postura e sorri um pouco tímida, cumprimentando-os.
– Bom dia, senhores. — Eles pareceram surpresos por um instante, só que para minha felicidade eles acenaram e sorriram minimamente. Eu tenho um sério problema. Pode parecer ridículo, eu mesma acho, porque quando um desconhecido sorri de maneira gentil pra mim, eu não consigo conter a simpatia pela pessoa. Tia Tsunade sempre diz que eu puxei esse lado carismático de meus pais. O que pode ser ruim, constando que a pessoa na ocasião possa ser um assassino ou pior.
Observei uma câmera que ficava bem em cima ao hall de entrada começar a se mover, e logo as grandes portas automáticas se abrem sozinhas autorizando minha passagem. Entrei meio tímida naquele território novo, que pra falar a verdade era o lugar mais luxuoso que eu poderia imaginar na minha vida.
A recepção era um enorme balcão de alguma pedra desconhecida e várias pessoas super organizadas estavam atrás dele, umas falavam ao telefone e outras mexiam nos computadores. Todos concentrados em seus cargos. Era inacreditável, mas havia uma fonte... uma fonte esplêndida no meio do salão, este para variar era gigantesco. Pessoas circulavam por toda a área, me senti uma intrusa.
Eu nem mesmo sabia onde focar meu olhar, hora nas pessoas que passavam ou hora no piso brilhante que me atraia.
Fiquei olhando para os lados até ver uma figura alegre vindo em minha direção. Era uma mulher muito linda com um sorriso que mal cabia em seu rosto, ela trajava um lindo terninho cinza e o cabelo azulado estava preso em um coque, assim como o meu. Tudo nela irradiava poder, e por algum motivo as pessoas também abriam mais espaço para a passagem dela e ficavam olhando mais do que o normal.
No momento em que parou na minha frente cumprimentou-me com beijinhos nas bochechas. Ela parecia ter minha idade. Olhando de perto eu sentia que já tinha visto o rosto dela.
– Ahh — deu um gritinho discreto, me fazendo levantar as sobrancelhas surpresa, e depois limpou a garganta. — Desculpe a empolgação. Sou Hinata Hyuuga, é um enorme prazer conhecê-la. — Falou em português... o que? Ela também era brasileira? Antes que eu pudesse me presentar formalmente interrompeu-me. — Venha até minha sala, vou lhe explicar tudo. — disse gentil e comecei a segui-la.
Viramos em um corredor, ele era todo decorado com jarros de plantas e lindas lamparinas, tudo isso sem contar as várias portas, no lugar de janelas havia partes das paredes que eram apenas vidro. Alguns detalhes pareciam ser em prata e isso tornava a beleza daquele lugar mais intrigante.
Na metade do corredor paramos, ela falou algo na máquina digital ao lado porta, — todas as portas tinham um ao lado — entrou primeiro e segurou-a me esperando passar. Mesmo um pouco descolada, adentrei a sala e ela era linda, tinha uma mesa mais ao fundo com duas cadeiras de frente pra ela, também tinha algumas plantas e poucos quadros nas paredes, resumindo, a sala dela era muito incrível.
– Sente-se, por favor! — me indicou a cadeira alegre.
Eu não precisava conhecê-la mais do que isso para saber que ela era uma ótima pessoa. Sentei ficando de frente para ela com um sorriso no rosto.
– Esperei tanto para que esse dia chegasse, finalmente outra brasileira trabalhando no mesmo local que o meu. — ela começou a falar mas a interrompi.
– Você também é brasileira? — era evidente a felicidade na minha voz.
– Bom, não totalmente, sou uma mistura de brasileira com alemã. — falou cruzando as mãos em frente ao rosto e deixando à mostra seus acessórios chiques de pulso.
– Certo.
Ela sorriu e pegou uma folha ao lado, voltando a me olhar com mais seriedade.
– Precisamo resolver assuntos importantes. — Ela tomou fôlego. — Sakura, posso chamá-la assim? — sorri. — Ótimo, fui eu quem falei com você por telefone ontem, caso não tenha notado. A sua antiga universidade foi quem nos indicou você, disseram que você era a melhor da turma de engenharia civil. Devia agradecê-los.
– Sim. — falei encabulada.
– Então, é uma profissão de grande valor social e prestígio, isso desde sempre. Como sabe, não aceitamos nada mais que os melhores aqui, por isso ficamos felizes ao receber a indicação da sua universidade. O setor 22, que é a parte responsável por engenharia civil anda precisando muito de pessoas especializadas no assunto. Sabemos que este é seu primeiro emprego — sorriu gentil — mas não precisa ficar nervosa, temos certeza de que você nos orgulhará.
A cada sílaba que ela falava, eu assentia totalmente focada. Não cometeria nenhum erro, era minha função mostrar à eles que mesmo sendo meu primeiro emprego, era capaz de lidar com o cargo.
– Nós já acertamos o seu salário, agora precisamos acertar outro assunto bastante delicado: as regras. — falou pela primeira vez um pouco fria. Assenti sentindo minha nuca suando. — Sakura, fique sabendo que levamos a sério todas as regras e caso alguma seja quebrada, podemos descontar no salário do funcionário ou até mesmo demiti-lo.
Ela estendeu-me o mesmo papel que havia pegado há pouco. Lá estava uma lista de frases, melhor dizendo, regras. Comecei a lê-las:
1- Não se distraia no seu turno, você poderá sair apenas com a permissão do(a) diretor(a) do seu setor.
2- Não crie conversas paralelas com os outros funcionários.
3- Não saia perambulando no prédio ou até mesmo no seu setor sem autorização superior.
4- Não coma no horário de trabalho.
5- Não insulte ou até mesmo brigue com seus colegas.
6- Não leve obrigações para casa.
7- Jamais passe do Septuagésimo andar se não tiver uma autorização de força maior.
8- E nunca, jamais, fale com alguém dos últimos quarenta andares sem ter permissão.
Fiquei curiosa quanto a oitava regra.
– Não podemos falar com ninguém dos últimos quarenta andares?
– Em nenhuma ocasião à não ser que você tenha permissão ou seja diretor(a) de algum setor. — As regras eram bem diferentes aqui na CIT, e eu tenho o problema de ser muito curiosa e não desistir enquanto não souber de alguma coisa. Meu braço coçava com as milhares de insinuações que essas regras me fizeram criar.
– Bem, agora que leu todas, esperam que as cumpra. Não gostaria que você fosse embora, me simpatizei tanto com você. — Poxa, será que depois de tantos anos eu posso ter uma amiga? Gostei tanto da Hinata.
– Não precisa se preocupar Hinata. Vou dar o meu melhor, eu prometo.- minha voz demonstrava tudo aquilo que eu não tinha agora, autoconfiança.
– Seja bem-vinda à empresa, Sakura.
– Obrigada.
(...)
Hinata disse que fazia questão de me acompanhar até meu setor, entramos em um dos três elevadores e esperamos até o vigésimo segundo andar.
– Hinata?
– Sim?
– O que você falou naquele detector ao lado de sua porta?
– Ah, falei que sempre que você quisesse poderia entrar na minha sala, sem precisar da minha autorização. — Explicou alegre.
– Como funciona?
– Você lembra de ter sentido um pequeno choque quando passou pela porta? — Acenei afirmando. — Então, no batente da porta tinha um pequeno Scanner, ele detectou todo seu DNA. O resto você já sabe.
Como eu sou burra, claro que aqui haveria esses tipos de tecnologias, estamos falando da maior empresa tecnológica do mundo. Tem horas que eu me decepciono comigo mesma.
– Entendi. Você faz isso com todos? — ela sorriu com minha pergunta.
– Não, apenas com os que eu confio. — Eu me senti muito contente, acho que pela primeira vez tenho um amiga de verdade além da tia Tsunade.
As portas do elevador se abriram e revelaram um salão enorme. A refrigeração estava ligada e aquele clima fresco servia para acalmar meus meus músculos. Várias cabines estavam perfeitamente alinhadas, cada uma estava ocupada com seu respectivo dono. Algumas pessoas até olharam para ver quem chegava no elevador, as paredes eram quase todas de vidro, com exceção de algumas, onde ficavam o bebedouro, a cafeteira e por ai.
– Te deixarei na sala da sua diretora, boa sorte. — sussurrou as últimas palavras baixinho, mas mesmo assim escutei.
A sala ficava no centro do salão/setor, ela era toda de vidro, mas as cortinas escuras e claras cobriam a maior parte dela. Hinata falou com um funcionário pedindo para ele avisar ela queria falar com a diretora. Ela agradeceu e veio em minha direção.
– Vamos? — perguntou encorajadora e a segui. E entramos na sala.
– Hinata! Que ótimo ver você por aqui. — falou uma mulher esbelta levantando-se de sua cadeira e indo cumprimentar minha mais nova amiga.
– Karin! Como vai? — falou Hinata simpática. A tal de Karin estava com o rosto cheio de maquiagem e vestia um vestido preto justo até a metade das coxas, sem contar com o decote exagerado, calçava saltos de 12 centímetros. O cabelo ruivo estava impecável como se tivesse acabado de sair do salão de beleza e o perfume forte abominava todo o lugar, cheguei a franzir meu nariz. Ela parecia aquelas mulheres que adoram se exibir. — Esta é Sakura Haruno, como já deve saber.
Karin me avaliou com um olhar indecifrável e logo se pronunciou.
– Sim, claro! Quem não lê as revistas e assisti os jornais? Eu já estava a sua espera.
– Tudo bem, vim apenas para acompanhá-la, já vou indo, passar bem. — Hinata disse e se retirou da sala.
Restou apenas eu e Karin que veio até mim e começou a rodear-me olhando tudo em mim, quando acabou foi até sua mesa e sentou-se, fez tudo isso com o rosto sério. Aquela mulher não estava bem, o que tava fazendo? Ela estalou a língua e falou.
– Vou ser bem direta. Não gostei de você assim que vi sua fixa de documentos. — e fez cara de nojo. O quê? Quem ela pensa que é? Oh como gostaria de dizer que também não fui com a cara dela.
Deixei minha boca aberta, em choque com aquilo.
– Vamos deixar algumas coisas bem claras, eu sou a chefe e você deve me respeitar, ou seja, fazer tudo o que eu pedir. Caso cometa alguma atrocidade é rua para você, queridinha. — sorriu maliciosa. — E se ver que você é ineficiente te demitirei, simples assim. — riu com gosto. — Sua cabine é aquela ali — apontou para uma no canto do setor. — Para começar sua diversão, aqui tem alguns papéis que quero prontos até as 12:00 e nenhum segundo a mais. — Continuei parada perplexa ali, só conseguia me ver arranhando a cara daquela cobra. — Tá esperando o que? Xô, xô. — Falou como se eu fosse insignificante.
Ainda atordoada até o último fio de cabelo fiz o que me pediu, ou melhor, ordenou.
Peguei aqueles papéis e sai rapidamente daquela sala. Inexplicavelmente pela primeira vez eu queria bater em uma pessoa, nunca fui violenta, mal conseguia matar uma mosca... mas aquela mulher, ela... argh! Se ela pensa que vai me capturar fácil, estava enganada.
Minha cabine era a última, entre duas paredes, totalmente ocultada do mundo em volta. Eu nem mesmo tive aquela experiência de curtir pela primeira vez o meu local de trabalho. Todas as minhas expectativas foram para os ares. Comecei a trabalhar nos papéis que ela me pediu, quer dizer, obrigou. Quando deu 11:50 estava terminando meu serviço. Caminhei apressadamente até a sala daquela bruxa, bati na porta e sem nenhuma gentileza ela me mandou entrar.
– Aqui estão. — falei enquanto ela terminava de cerrar a última unha. Agora sim eu fiquei fula, quer dizer que ela me deu o seu trabalho? Preferi me manter calada e só travei meu maxilar.
– Demorou. — disse fazendo pouco caso. — Retire-se. — nem ao menos me olhou.
Sai da sala para o meu próprio bem e parei em frente a porta, sem acreditar no pesadelo em que me meti. Era tão novela mexicana que eu tinha vontade de rir. Ainda fantasiando fui pegar minha carteira pra ir almoçar. Apenas eu estava no elevador já que todos saíram antes. Olhei a parede do meu lado e me imaginei nesse mesmo dilema nos próximos dias, suspirei.
Quando pisei no salão da recepção logo vi Hinata me esperando, ela quase correu até mim.
– Por que a demora? — me perguntou.
– A minha diretora me deu um trabalho que provavelmente deveria ser dela. — Ela me olhou espantada.
– Ela fez isso?
– Sim, mas terminei tudo à tempo. — Ela olhou para frente e ficou com uma cara pensativa. — Hinata? — chamei.
– Ah, sim, desculpe. Então, onde quer ir almoçar? — perguntou-me animada.
– Em uma lanchonete qualquer serve. — ela gargalhou alto.
– Sakura, não tem lanchonetes nesta parte da cidade.
– Como não?
– Vem, vou te levar em um restaurante que adoro.
O restaurante em que Hinata me levou não era exatamente o que eu esperava.
– Hinata, acho que não posso pagar nem mesmo um copo de café desse lugar. — Disse incrédula.
– Relaxa, coloco na minha conta. — disse tranquila.
– Não quero incomodar.
– Qué isso, incômodo nenhum.
Nos sentamos em uma mesa. Havia vários talheres, metade eu nunca nem havia visto na minha vida.
– Você sempre almoça nesse restaurante? — Perguntei olhando a decoração luxuosa do ambiente. Parecia um restaurante francês.
– Quase sempre. — respondeu olhando os pedidos.
– Hun. Muitas pessoas da empresa também vem aqui?
– A minoria, sabe, muitos não preferem arriscar tanto o dinheiro, apesar de... Bom, serem um todo da burguesia.
Em uma mesa mais distante estavam cinco homens, todos muito elegantes, em especial um que olhava para mim. Bom, não sei se era para mim ou para Hinata, ele estava muito longe então não conseguia ver e nem falar sua aparência com clareza. Desviei o olhar para o garçom que trazia nossa comida.
– Você tem que experimentar. — Animou-se Hinata apontando para um prato. Dei de ombros, peguei um garfo qualquer e comi.
– Isso é di-vi-no! — gritei abobalhada e só depois percebi o que fiz. Minha amiga gargalhou alto. Meu Deus, que vergonha. Senti minhas bochechas queimando e queimando mais ainda com Hinata rindo daquele jeito. Escondi meu rosto com as mãos, pela fresta entre meus dedos vi que todos do restaurante nos olhavam.
– Isso foi espetacular! — ela entre risos.
– Eu realmente dei um grande espetáculo aqui. — disse sem graça.
Fiquei mexendo sem muita vontade na minha comida, de repente tudo perdeu a graça, até aquela comida. Humpf!
– Perdi o apetite. — disse sem jeito, além do mais aquela prato deve ser muito caro e eu nem ao menos comi. — Deixa que eu pago.
– Não se preocupe Sakura, é sério, realmente não me importo em pagar. Aceite como um pedido de desculpas pela minha crise de riso. — falou gentil.
– Como você é teimosa, Hinata. — ri.
Quando ela terminou de comer saímos do restaurante. Algumas pessoas me olhavam e depois cochichavam, claro, não é todo dia que se encontra uma doida o bastante de gritar em um restaurante tão refinado, como se jamais tivesse comido na vida. Céus, agora estou na boca de todas as pessoas. Sabia que não devia ter aceito o convite da Hyuuga.
– Ai Sakura, não fica triste. Todos cometemos micos. Tipo, até eu já fiz isso.
– E como foi?
– Depois falo para você, é uma longa história. — Assenti. Ela só queria me animar.
(...)
Sai da empresa 19:25, ainda teria que comprar o jantar da tia Tsunade, fui andando devagar pelas ruas olhando tudo ao meu redor. Los Angeles era simplesmente linda à noite, todos os prédios são bastante iluminados, o único problema eram as poucas estrelas que apareciam no céu por causa da iluminação.
Adentrei uma lanchonete estilo asiática muito aconchegante e pedi rámen para levar. Agradeci e paguei a atendente quando me deu a sacolinha. Eu necessitava de um banho, e principalmente da minha cama. Aposto que se eu dormi vou entrar em coma. Vi um táxi e chamei-o.
Na volta para casa, tudo o que eu pensava era em como havia sido meu dia. A bruxa da minha diretora me deu o dobro de trabalho para resolver no computador aquela tarde, o final do meu horário devia ter sido 15:50 para relaxar em casa. Mas não, Karin Uzumaki resolveu fazer da minha vida um inferno. De repente eu me senti eleita o ratinho servente da vilã.
Meu primeiro dia no céu se tornou o primeiro dia de trabalho escravo no inferno. Como isso foi acontecer? Onde foi que eu errei? Isso ainda era tudo tão inacreditável, pensei de verdade que trabalharia com pessoas da mais alta ética e tudo mais. Então, por que?
Minha tia estava assistindo Barchelot — O noivo perfeito na TV. Acho que ela ainda sonha em se casar com ele, ah, como eu odiava acabar com as esperanças dela.
– Sinto muito, titia, mas ele já tem uma noiva. — falei divertida.
– Ele ainda não tem noiva Sakura Haruno. Quer dizer, pelo menos ele ainda não escolheu. — me respondeu séria.
– Isso mesmo, ainda, mas irá em breve. Aceite. — disse maldosa. — Agora se preocupe apenas em comer sua janta. Vou me banhar, não me procure.
– Ei, ei, ei, não me falou como foi seu dia, tem muitos bofes lá no seu trabalho? Encontrou o seu Barchelot da vida? Não me ignore Sakur... — Ocultei a voz da minha tia assim que fechei a porta do banheiro. Aiai, ela nunca mudava, sempre tentando arranjar um macho pra mim.
Já na cama eu pensava como seria meu dia amanhã. Suspirei, torcendo com todo meu ser para que fosse muito melhor do que o fracasso que foi hoje.
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