Meu marido é uma maldição
5 Capítulo 5 fim.
O coração martelava em meu peito como um tambor de guerra. Cada batida ecoava em meus ouvidos, misturando-se ao som da minha respiração ofegante. As mãos tremiam, mas não de medo – de convicção.
Tem que ser agora.
A casa silenciosa parecia observar meus movimentos, como se soubesse o que eu planejava. As paredes, testemunhas de décadas de histórias, agora seriam reduzidas a cinzas. E eu seria o culpado.
—Tudo pelo Thomas.
A frase escapou dos meus lábios antes que eu pudesse pensar. Congelei.
Essas não eram minhas palavras.
Eram dele.
Do Andrew original.
Do homem cujo sangue corria nas minhas veias.
Um sorriso lento se formou no meu rosto, involuntário, como se outra força puxasse os cantos da minha boca para cima.
—É… Eu não falaria isso.
Mas ele falaria.
Era a voz dele que sussurrava na minha mente, guiando meus passos.
××
O porão estava mais frio do que o normal, o ar pesado como se estivesse carregado de presságios. Os galões de gasolina estavam exatamente onde eu os vira antes, encostados na parede de tijolos, como se tivessem sido deixados ali de propósito – como se o destino os tivesse colocado lá *para isso*.
Abri o primeiro galão com um movimento brusco. O cheiro acre invadiu minhas narinas, queimando como um aviso.
"Cuidado."
Mas eu não tinha tempo para cautela.
Despejei o líquido âmbar pelo chão, pelas paredes, pelos móveis antigos. Cada respingo era um passo mais perto da liberdade – a dele e a minha.
—Você não pode fazer isso!
A voz de Thomas cortou o ar como uma faca, gelada e desesperada. Ele apareceu diante de mim, materializando-se da escuridão, os olhos azuis brilhando com uma mistura de fúria e pânico.
—Tudo o que eu vivi com o meu Andy está aqui!
Segurei o galão com mais força, sentindo a gasolina escorrer pelos meus dedos.
—Você não entende, Thomas!—Minha voz saiu rouca, quase estranha para meus próprios ouvidos.—Essa é a vontade do Andrew!
—MENTIRA!—Ele avançou, as mãos tentando agarrar o galão, mas seus dedos fantasmagóricos passaram por mim como névoa.—Ele nunca faria isso! Ele me amava!
—E é por isso que ele quer que você seja livre!—Gritei, jogando mais gasolina nas escadas.—Você acha que ele queria isso pra você? Ficar preso aqui pra sempre, assistindo cada reencarnação dele morrer?
Thomas parou, o rosto contraído em dor.
O fantasma estremeceu como se eu tivesse cravado uma faca em seu peito.
××
O segundo andar estava envolto em sombras, mas eu não precisei de luz para saber onde pisava.
A gasolina escorria pelo corrimão, pingando nos degraus como lágrimas inflamáveis.
Thomas tentou me impedir de novo. Objetos voaram em minha direção – um vaso, um quadro, uma cadeira – mas nada me atingiu. Era como se a própria casa hesitasse em me machucar.
—Por que você está fazendo isso?!—Sua voz estava quebrada, quase infantil em seu desespero.
Parei no topo das escadas, o galão vazio pendurado em meus dedos.
—Porque ele nunca quis que você ficasse aqui.
E então, como se algo dentro de mim tivesse se rompido, as palavras saíram como uma enxurrada.
—Ele não morreu na guerra, Thomas. O trem atrasou. Quando ele finalmente chegou, você já estava morto. Ele te colocou naquele caixão. Ele construiu aquele santuário. E o último desejo dele…
Thomas flutuou para trás, os olhos arregalados.
—Não…
—…foi que você fosse livre.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer grito.
Subi para o telhado.Era o lugar perfeito.
O vento soprava forte lá em cima, carregando o cheiro de gasolina e o peso de um segredo centenário.
Thomas apareceu diante de mim, mas agora não havia mais raiva em seu rosto. Apenas uma tristeza profunda, resignada.
—Você tem certeza?— Sua voz era um fiozinho, quase perdido no vento.
Acendi o fósforo.
A chama dançou entre meus dedos, frágil e poderosa ao mesmo tempo.
—Ele nunca te esqueceu.
Thomas fechou os olhos.
—Promete que você também não vai.
A chama caiu e rapidamente desci pelas escadas que haviam do lado de fora.
Do lado de fora, assisti as primeiras labaredas subirem, pintando o céu noturno de laranja e vermelho. O calor atingiu meu rosto, mas não me afastei.
Algumas coisas precisam ser destruídas para renascer.
E então, no meio do fogo, vi ele.
Thomas, ele sorria.
Pela primeira vez em um século, ele parecia em paz.
E então, como fumaça ao vento, ele se dissipou.
Observando a cena sentindo meu corpo perder um peso que eu nunca reparei que havia, escutei um barulho de buzina atrás de mim.
—O que foi que a gente perdeu?—Os motoristas do caminhão olhavam pra mim pela janela.
—Puta que pariu.
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04/01/2090
—Ei, garotinha, o que tá fazendo aqui sozinha?—A garota de longos cabelos claros sorri pegando minha a mão da de cabelos escuros
—Eu não sou boa fazendo amizades...—A mais alta diz timidamente.—Não tenho amigo nenhum.
—Então agora eu serei sua amiga! Meu nome é Tammara, e o seu?—Ela sorri.
—Angela.
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