Leo tremia incontrolavelmente, os olhos arregalados fixos na janela. O suor escorria por sua testa enquanto tentava encontrar forças para se afastar da beirada.

—Leo, olha pra mim,pediu Yusuke, sua voz firme, mas gentil. _Não vamos te machucar.

O garoto, entretanto, não parecia convencido.

—Vocês não são de verdade! São... são...! A palavra morreu em sua garganta.

Shion suspirou. _Querido, se quiséssemos te fazer mal, já teríamos feito isso. Por que esperar até agora?

O ar ardia nos pulmões de Leo. Seus olhos arregalados varriam a sala, buscando alguma explicação para o pesadelo que parecia tão real.
—Leo, você se lembra? Do ataque da rokurokubi? De como desmaiou perdendo muito sangue? Eu chamei o Shion, ele te curou e eu... eu a matei', disse Yusuke, sua voz carregada de preocupação.
Quando Yusuke disse que matou a criatura, fez com que Leo se lembrasse da briga na festa, da facilidade com que o tatuador quebrou o pulso de Daryl, expondo o osso.

Leo olhou para Yusuke, seus olhos marejados, sentindo desconfiança pelo rapaz de quem gostava.

Ele engoliu em seco, seus ombros tremiam levemente. _Eu... eu quero ir para casa', balbuciou, a voz falha. _Por favor, me deixe ir. Eu juro que não falo nada.As lágrimas rolavam pelo seu rosto.

Shion interveio com um tom suave: _Pode ir, querido. Você precisa descansar e refletir sobre tudo o que aconteceu.

Aliviado, Leo saiu correndo do apartamento, direto para o aconchego do lar de sua tia, que ficava a apenas cinco metros de distância.

O garoto entrou no apartamento e foi direto para o seu quarto ,sua tia havia saído para buscar os primos na casa do pai, o que o aliviou, pois não queria explicar o motivo de suas lágrimas.

Leo jogou-se na cama, enterrando o rosto no travesseiro enquanto as lágrimas continuavam a escorregar pelo seu rosto. A sensação de segurança que seu quarto costumava trazer parecia distante, sufocada pelo peso da realidade que acabara de vivenciar. Ele tentava processar tudo—Yusuke e Shion, as revelações, a luta, a rokurokubi.

Ele se virou de lado, olhando para o teto, imaginando o que poderia ter acontecido se não estivesse ali, naquela noite fatídica. As memórias de Yusuke, a força dele, como o tatuador quase parecia brilhar em meio à escuridão, faziam seu coração acelerar. O medo e a atração misturavam-se, formando um turbilhão de emoções que o deixava confuso.

Depois de algum tempo, o cansaço começou a vencer o medo. Leo fechou os olhos, mas os pesadelos não tardaram a chegar. Ele sonhou que estava de volta ao apartamento de Yusuke, cercado por sombras que sussurrava seu nome, cada um mais sedutor que o outro. Ele acordou de repente, ofegante, o coração disparado.

A noite se arrastou, e ao amanhecer, Léo se levantou com o corpo pesado e a alma em frangalhos. As olheiras escuras denunciavam a noite mal dormida, mas teria que ir para a escola e encarar os olhares de julgamento dos colegas. Antes de sair para a escola, ele não resistiu e checou as mídias sociais de Daryl. Para sua surpresa, o pulso do jogador do hóquei parecia estar melhorando rapidamente.

Ao chegar na escola, Leo se forçou a agir normalmente. No entanto, a realidade do que aconteceu ainda estava muito fresca. Ele atravessou o corredor, evitando o olhar dos colegas, especialmente de Virginia e Lisa . As sussurradas especulações sobre o que aconteceu na festa o deixavam mais ansioso.Na aula de História, Leo se sentou no fundo da sala, tentando se concentrar nas palavras do professor, mas sua mente continuava a divagar.

O intervalo trouxe um breve alívio, mas também a inevitabilidade de ter que conversar normalmente com amigos. Robin e Juliette, mas Leo desviou o olhar, fingindo que estava concentrado no celular.

— Ei, Leo! Você está bem? _ Robin perguntou, com um tom de preocupação visível em sua voz.

Leo hesitou antes de responder. _Sim, estou... só cansado. Sua voz soou fraca e ele se sentiu ainda mais inseguro.

—Amigo ,aconteceu alguma coisa? Você falou com o Yusuke? perguntou Juliette

—É... tudo bem. Eu só... preciso de um tempo.Ele se afastou rapidamente, sentindo-se sufocado. Enquanto caminhava pelo pátio, foi atraído para o canto mais quieto do jardim, onde as árvores se moviam suavemente ao vento. Era um lugar onde ele podia pensar.

—Olá, Leonardo. A voz sibilante arrepiou os seus pelos. Virando-se lentamente, seus olhos se arregalaram ao encontrar o mesmo homem estranho, o terno branco impecável contrastando com o verde do jardim. O coração pulsava em suas têmporas, e um suor frio escorria por sua testa. A lembrança do encontro anterior o assombrou, intensificando a sensação de perigo iminente.

—Quem é você? Leo perguntou, o medo quase o sufocando.

O homem sorriu de forma enigmática, seus olhos brilhando de maneira inquietante. _ Sinto muito por não ter me apresentado antes, meu nome é Kirio.

Leo engoliu em seco. _ Seria melhor você ir embora. Não quero nada com você nem com ninguém da sua espécie. Kirio apenas riu, uma risada baixa e ameaçadora. _Temo que seja tarde demais para isso, Leonardo.

O homem deu um passo à frente, e Leo sentiu o chão se afastar sob seus pés. Paralisado pelo terror, o garoto assistia, impotente, enquanto Kirio se aproximava lentamente.

—Leonardo, você não compreende. A sua vida mudou quando ele se mudou para aquele prédio, Kirio continuou, a voz doce como veneno. _E agora você faz parte de um jogo maior do que imagina.

Leo tentou recuar, mas as costas esbarraram em um tronco grosso de árvore, aprisionando-o. _O que você quer de mim?, sua voz saiu tremida, mas ele forçou-se a parecer mais confiante do que realmente estava.

Kirio inclinou a cabeça, analisando-o com um sorriso satisfeito. _Não leve por lado pessoal, disse ele, friamente,_eu só vou te usar para atraí-lo.

Para de falar! Leo gritou, sentindo-se acorralado, como um animal preso em uma armadilha. Eu não tenho nada a ver com isso!

— Fique longe do garoto, lobinho, ou as coisas podem ficar muito ruins para você.

Leo arregalou os olhos ao reconhecer a voz de Asuka, agora com longos cabelos negros que o cobriam seu corpo e ondulavam como tentáculos, envolvendo-a em uma aura sinistra

— Uma kejōrō? Você acha que me intimida?, provocou Kirio.

Asuka sorriu de forma sarcástica. _Eu não sou uma ameaça, Lobinho. Mas uma jorōgumo sim!

Uma figura aterrorizante emergiu de uma grande moita: metade mulher, metade aranha. Leo reconheceu a parte humana como sendo Nanami que parecia a personificação de um pesadelo. Seus olhos multifacetados brilhavam como joias sinistras, e suas oito pernas se moviam com uma agilidade assustadora.

—Você tem dez segundos para desaparecer, cãozinho. Ou será minha próxima refeição. A voz de Nanami era um rosnado profundo, e cada sílaba era como uma garra afiada cravada na carne.

Kirio recuou um passo, a cor drenada de seu rosto. Olhou para Leo, um brilho de medo em seus olhos._Nos veremos de novo, Leonardo!E saiu correndo

Leo tremia incontrolavelmente. Sua visão embaçava, e a última coisa que viu foram os olhos de Nanami e Asuka, fixos nele com uma intensidade que gelava seus ossos.