Meu confuso diário
1 O Começo
Notas iniciais
Minha mente tempestuosa limita o alcance do meu pensamento. Álcool, drogas, mulheres... Existem pensamentos mais vazios que os meus? Eu sei que no fundo eles não passam de um pedido de ajuda, o ecoar desesperado da última gota de humanidade.
Essa vontade imensa de me desligar da realidade só me trouxe problemas. Perdi minha saúde, o respeito dos amigos, e, por final, minha sanidade. Escrevo porque é o que me resta. Poderia estar remoendo minhas dores (que de certo modo eu estou), mas venho por meio dessas linhas descarregar todo esse meu pensamento roto e desgraçado, para que meus sonhos não fiquem tão assombrosos.
Sim, já pensei em suicídio. É uma saída rápida para fugir das dores que te acompanham, mas a incerteza do que há por vir é o que mais me assusta. E não só a mim. Toda humanidade teme a morte, e essa é uma das poucas constatações que tenho. Antes que me perguntem, eu considero que tenho mais direito de discorrer sobre a morte do que esses filósofos “meia-tigelas”, afinal, já estou morto por dentro faz um tempo.
Não quero e nem posso me gabar disso, pois chega a ser triste você tentar sentir algo e os estímulos vivos não fazerem efeito. Estou aqui para chorar em seu ombro, amigo. Estou aqui para esvaziar meu coração e minha cabeça. Tentar linearizar meus pensamentos, para que meu próximo passo não seja em falso e eu acabe caindo, ou pior, errando o curso natural das coisas. Falhando com meu destino. Acreditar nisso é um dos piores pecados, pois mostra a incompetência sua, enquanto homem, de trilhar seu próprio caminho. Melhor, não chamaria de um “pecado capital”, mas de um crime capital. Desmerecer todos os seres humanos com uma ideologia torpe e sem sentido, dizendo que você ter batido seu dedinho na quina da mesa tem algum significado maior, que se conecta com vários outros fatores e que seguem um curso imutável e racional, é, no mínimo, indecente. Talvez meu destino seja explicar isso para vocês.
Ah, como eu queria colocar a cabeça em meu travesseiro e ter um sono leve e tranquilo. Invejo aqueles que o fazem, porém invejo mais aqueles que não dormem, que brigam ferozmente para seus olhos não fecharem. Imagina um mundo sem sono: mais livros para ler, mais material para estudar, mais coisas para aprender, e, finalmente, menos pesadelos para ter. O medo constante dessas visitas inexplicáveis de sonhos ruins está me tornando uma pessoa fragilizada nesse mundo cruel. Sinto-me como uma muralha de vidro no meio de um tiroteio: inútil, fraco e desnecessário. Isso não se deve exclusivamente à privação de sono, lógico. Temos que levar em consideração meus pensamentos podres que corroeram toda sustentação da minha alma. Outro fator que também atribui esse fator fragilizador é a exposição direta e constante à violência. Outro dia eu vi um morador de rua pedindo dinheiro, pois estava com fome e queria algo para comer. Senti uma imensa vontade de doar 50 centavos de meu trabalho para esse pobre ser. Estava com a moeda no meu bolso, segurando-a com a minha mão, apertando-a com força. Encarei-o e com a maior naturalidade e disse: Não tenho nada, desculpa. Eu sabia que essa pessoa estava faminta e que provavelmente esses 50 centavos fariam a dor da fome desaparecer por alguns instantes, mas mesmo assim eu não larguei a moeda. Fiquei péssimo depois, queria voltar chorando e abraçar o necessitado, dando não só 50 centavos, mas todo o dinheiro que eu tivesse, para que o sofrimento sumisse, mas me lembrei de que ninguém faria isso por mim. Fechei a cara e continuei meu caminho.
Minha cabeça bate no teclado e apago.
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