Notas iniciais
Agora que o Lucas sabe o que sente podemos voltar para o que importa!

Brenno

Ok, o que foi tudo isso? Ele só pode estar muito alcoolizado e onde eu estou com a cabeça em retribuir? Não deveria ter trazido ele aqui, muito menos beijado ele, e para ajudar me deixei envolver. Não posso estar gostando desse garoto depois de tudo o que passei, preciso me afastar enquanto é tempo!

Já fazia algum tempo que ele estava no quarto, quando ele veio até a sala com passos suaves e vasculhou a escuridão a minha procura. Fiz um barulho para ele me localizar então ele me disse que sua mãe, ao telefone, queria falar comigo!

— Alô — disse com minha voz levemente alta e mais grossa.

— Quem é? — A mãe dele estava com uma voz agitada e parecia nervosa.

— Brenno! Você ligou para saber de seu filho? Vai vir buscá-lo? — Não tentei ser delicado ou parecer menos aborrecido do que estava.

— E se eu for, como chego aí? Como você dá álcool pra ele? Seus pais estão aí?

— Se você quiser o endereço, eu passarei com maior prazer — nesse momento, ele se sentou no sofá com uma cara de derrotado e perdido em pensamentos, cheguei a ficar com um pouco de pena dele e, ao mesmo tempo, com vontade de abraçar ele apertado e protegê-lo. — Ele já é maior de idade, bebeu por conta própria, não o obriguei!

Houve uma pausa para ela respirar fundo e para ele recomeçar a chorar baixinho.

— E não, meus pais não estão — disse após a breve pausa.

— Pra onde eles foram? Demoram a voltar? Vou pegar uma caneta!

— Minha mãe está na casa dela e meu pai no cemitério há alguns anos — silêncio completo, não ouvi nem respiração do outro lado da linha, nem a dele mas, quando me viro, ele está pálido, sentado ereto no sofá.

— Desculpe, quantos anos você tem?

— 25 anos, senhora. Já trabalho, dirijo e tenho minha casa própria, sei me cuidar sozinho há bastante tempo, trouxe seu filho até aqui para estudar, fizemos boa parte do nosso trabalho, posso mandar por ele as pesquisas e o progresso e, se quiser, o levo aí ainda hoje. Não quero incomodar.

— Achei que você fosse um garoto como ele! Ele está bem? — A pergunta era carregada de preocupação.

— Acho que não muito, ele pode dormir aqui, levo ele cedo amanhã — disse sem nenhuma malícia, com a voz mais controlada.

— Prefiro, não estou em condições de dirigir nervosa assim e prefiro que você não dirija se bebeu com ele!

— Pode ficar tranquila, vou cuidar dele.

— Obrigado, é um favor que você me faz. Posso falar com ele? — Me despedi e passei o telefone para ele. Depois recostei-me na poltrona, entrelacei os dedos e fiquei pensando.

Depois de alguns minutos, ele desligou. Foi até o escritório guardar o celular e notei que guardou a corrente e a provável aliança. Ele voltou e se sentou, ficamos em silêncio ao que pareceu uma eternidade.

— Podemos conversar?

— Não! — Não tinha muito o que falar e também não queria.

— Eu preciso te explicar...

— Vamos fazer assim, na geladeira tem frios e no armário ao lado pão. Faça um lanche, vou te arrumar uma toalha e uma roupa pra dormir, temos quase o mesmo tamanho, ache algo para ver na TV. Vou trazer uma coberta e um travesseiro para a sala.

— Ok — ele não disse mais nada, só abaixou a cabeça e foi para a cozinha.

Enquanto ele está lá, separei uma toalha e uma bermuda, camiseta e uma cueca para ele e levei ao banheiro. Fui até a cozinha, o avisei como usar o chuveiro com duas temperaturas e voltei para o escritório. Ele terminou de comer e foi para o banho, aproveitei para me livrar das garrafinhas vazias e montar o sofá cama. Levei um edredom e um travesseiro para a sala e voltei para o escritório. Ele terminou o banho e foi até lá.

— Já me alimentei e tomei banho, pendurei a toalha no banheiro mesmo, obrigado pelas roupas — tinha deixado uma camiseta preta com um cubo do jogo Super Mario e uma bermuda simples que, confesso, deixou ele muito lindo e fofo. Me contive para não puxá-lo para perto e para não demonstrar isso.

— Montei sua cama na sala.

— Não vai deixar eu me explicar?

— Não tem o que ser explicado, além do fato de você ser um garotinho mimado. Agora, se não for muito incômodo, quero ficar sozinho — vi toda a dor de minha palavras afetarem ele, seus olhos brilharam por um momento e pensei que ele ia começar a chorar de novo. Mas ele assentiu e saiu.

A noite se arrastou, sai do escritório tarde depois de desligar tudo, tomei um banho rápido e fiz um lanche simples. Fui até a sala e me sentei na poltrona ao canto, a TV estava ligada aleatoriamente e não dei atenção para ela, fiquei apenas ali olhando ele dormir, vi que esteve chorando de novo. Tive vontade de abraçá-lo e deitar com ele, mas me levantei depois de algum tempo e fui para meu quarto. A noite seria longa ali!

...

Na manhã seguinte, estava com uma leve dor de cabeça. Levantei, lavei o rosto, meus olhos ainda estavam vermelhos da noite anterior e a dor ainda estava presente. Decidi que ia me afastar assim que entregasse o trabalho. Fui até a sala e o encontrei assistindo desenho. Já estava com sua roupa, a que eu emprestei estava dobrada em cima da coberta e do travesseiro, ele já havia desmontado a cama improvisada e havia uma xícara de café ao seu lado com um prato com migalhas.

— Já tomou café?

— Sim! — Ele disse com a cabeça baixa.

— Então pegue suas coisas, vou te levar em casa, tenho muita coisa pra fazer.

— Tudo bem.

Ele pegou a parte dele do trabalho que precisava ser digitada e seus materiais e me encontrou na porta. Depois de trancar a casa, fomos até a garagem e saímos. Da minha casa a dele eram 30 minutos de carro e esse tempo passou sem que trocássemos uma única palavra! Deixei ele na porta de casa, sua mãe estava esperando ansiosa.

— Bom dia! — Sento o tom amargo em sua voz.

— Aqui está como o combinado, se me permite, estou indo.

— Obrigado por trazer ele em segurança.

— Não há de que!

Depois disso, saí do condomínio sem olhar para trás, deixei o cartão e fui para casa com o rádio ligado alto e as lágrimas silenciosas. O meu domingo ia ser muito longo, então fui para casa.

Fim

Notas finais
No céu tem pão? Bjs e muito obrigado a todos que já leram ate aqui vocês moram no meu coração =D