Meu amigo secreto
1 One Shot - Meu amigo Secreto
Capítulo Único — Meu amigo secreto
O dia estava ensolarado na pacata cidade de Acamar. Faltavam menos de cinco dias para o natal. Frustrado com a falta de ânimo dos seus amigos, um dos homens mais inteligentes da galáxia organizou uma das brincadeiras mais comuns da época, "amigo secreto". O dia de entregar os presentes chegou.
Haru, Yue, Sora, Kin, Arashi, Naomi e Kyoko estavam participando.
Depois de conversar, eles se reuniram em um terreno desconhecido, em uma residência onde nunca estiveram antes. Por fora, a casa era muito bonita, ninguém ousaria dizer que ela estava abandonada, mesmo que por dentro não tivesse imóvel nenhum. A fachada foi escolhida a dedo por alguém com muito bom gosto, os profissionais contratados para o trabalho também. As paredes eram brancas, uma enorme e espessa pilastra separava a entrada principal da garagem, cujo portão era feito de madeira maciça amarronzada.
A porta de entrada também era composta de madeira, media pouco mais de dois metros de altura e seu único enfeite era um pequeno olho mágico. Na estreita cobertura, uma lâmpada era acesa de noite para iluminar um tapete de boas vindas. O piso, do mesmo material da porta, se estendia até os limites da calçada e era cercado por um belo gramado, com plantas muito bem cuidadas e inspecionadas. A sala de estar ficava exposta para o mundo — não aberta para um qualquer entrar quando quisesse, mas fechada por vidros blindados.
Os sete amigos juntaram algumas cadeiras, as arrumaram no meio da sala e sentaram-se em círculo. Antes de começar a trocar presentes, reservaram algumas horas para conversar, comer, brincar e rir. Todos estavam muito bem vestidos. Arashi trajava um caro terno preto e uma camisa social branca, mas não usava gravata; Haru, uma camiseta branca simples e sem estampa, calças jeans azul clara e seus melhores tênis; Sora, por baixo da jaqueta preta, usava uma camisa listrada vermelha e preta, toda abotoada.
As garotas estavam de vestido, longos e sem manga. Naomi optou pelo amarelo, prendeu os cabelos e, por detestar saltos, calçou um par de sandálias vermelhas. Kin escolheu o preto, soltou os cabelos e, como era alta demais pra usar saltos, também foi de sandália. Kyoko preferiu o azul escuro, uma cor que realçava o tom caramelado de sua linda e bem tratada pele. Era a única de sapatos com salto e brincos. Yue, por sua vez, se decidiu pelo azul claro, a cor de seus cabelos e sobrancelhas.
Quando as risadas pararam, Arashi se levantou e disse, sorrindo:
— Muito bem, hora da entrega dos presentes.
Todos aplaudiram.
— Quem vai entregar primeiro? — Kin foi a dona desta pergunta.
Os olhos azuis do moreno de terno circularam a sala duas vezes, até que pararam no mais cabisbaixo:
— Haru. — Sorriu para o ruivo.
Aplausos e assovios. O que ele podia fazer?
— Tá legal. — Sorria sem graça. — Hum... o meu amigo secreto é menina e ela foi minha amiga nas horas mais difíceis. É uma das pessoas mais fortes que eu conheço, e não consigo nem imaginar a minha vida sem ela. Ela é uma garota muito legal e foi minha inspiração pra ser quem eu sou, eu devo muito a você, Yue.
Muito emocionada, Yue se levantou da cadeira e o abraçou com força. Os aplausos se intensificaram. Quando largou Haru, ela enxugou as lágrimas dos olhos e expressou seu mais grato sorriso.
— E eu prometi pra mim mesma que não ia chorar. — Fez todos rirem.
— Abre! Abre! Abre! — Cantaram em coro.
— Tá certo, tá certo, eu abro. — Desembrulhou o presente, revelando um cubo de vidro que comportava uma linda coroa prateada e perolada.
A melhor parte estava por vir:
— Consegui essa coroa lá em Yokkaichi quando o Santsuki me abandonou lá para treinar, o rei me disse que era de uma princesa. Ganhei dele quando eu completei a maratona e cheguei em primeiro lugar, estava planejando te dar no seu aniversário, mas tive medo de perder.
Poucos caras no mundo eram capazes disso por uma garota. Ganhou dela outro abraço, não por causa da beleza do artefato, mas por tê-la feito se sentir especial.
— Vou usar pra sempre. — Deu um beijo na testa dele depois de soltá-lo. — Bom, continuando com o jogo. Meu amigo secreto é uma pessoa que se destaca em tudo o que faz. Ela chama atenção sem precisar apelar e nem faz o menor esforço pra isso. Ela é a pessoa mais linda da Terra inteira...
Sora, o bilionário pegador, levantou.
— Obviamente sou eu. — Disse, com plena convicção do que falava.
Kyoko, a líder de torcida popular, levantou logo depois.
— Quem te iludiu? Vai sentar. É claro que ela está falando de mim, cara... — Disse, mais confiante ainda.
Ele riu.
— Eu não teria tanta certeza. Você é gatinha, mas eu sou o Sora Raikyuu.
— Sentados. Os dois. — Yue deu um basta naquela discussão boba. — Eu só disse isso porque queria ver os dois discutindo, mas o seu ego é maior que a sua fortuna e o seu é maior do que o número de vitórias do time da escola.
Sora arregalou os olhos.
— Isso era pra ofender? — Perguntou, confuso.
— Continuando. Tão grande quanto a auto estima dela só o coração.
— Ah, já sei que não está falando de mim... — O ricaço deu de ombros e virou o rosto.
— Sou grata por tê-la conhecido. É uma amiga pra todas as horas. Kyoko. — Entregou o presente, abrindo os braços para felicitá-la. Os aplausos vieram.
— Obrigada, Yuezinha. Você só errou em uma coisa: nada é maior do que a minha auto estima. — Provocou mais risadas. — Agora, falando sério... eu sei que conheço vocês há pouco tempo, fico até sem graça por estar aqui e por receber presentes, mas também sou grata por tê-los conhecido. É sério, se não fossem vocês, eu estaria treinando coreografias até agora com as meninas da equipe. São o grupo de retalhadores mais divertido que eu já conheci.
Sora levantou a mão.
— Uma pergunta. — Disse. — A entrada de garotos na equipe de torcida é permitida?
— É, mas só garotos da escola. — Respondeu.
— Eu sou rico, pra mim isso é o de menos... — Retrucou.
— Cala a boca, Raikyuu... — Naomi já não aguentava mais ouvir sua voz.
Ele riu.
— Ciúmes?
— Não, isso é só pra eu não te transformar num velho caquético. Sua voz tá me dando dor de cabeça.
— Se quiser, posso deixá-la mais harmoniosa. — Ela olhou sério pra ele, que abaixou a cabeça. — Eu calo.
— Enfim. — Kyoko começou a falar do seu amigo oculto: — O meu amigo oculto é uma pessoa muito querida aqui. Entre a gente e entre todos, acredito. É um cara. Um cara gentil, educado, meigo, romântico, companheiro... e, se eu falar mais, a namorada dele vai me matar. Arashi.
Abraços. Aplausos. Risos. Kyoko sentou, ele continuou de pé.
— Acho que falo por todos aqui quando eu digo que é muito bom ter você por perto, Kyoko. Você, com a sua confiança e o seu jeito de ser, leva luz para onde vai. A sua positividade e a vontade de ajudar são inspiradoras. — Ganhou um coraçãozinho que ela fez com a mão. — Bom, continuando. O que dizer do meu amigo oculto? É um cara. Um que, francamente... age como um... idiota, na maioria das vezes. — Sabendo que era com ele, Sora revirou os olhos. — É como se ele se esforçasse, porque acha que não merece o nosso apreço, mas, embora discorde de mim nisso, ele não é uma pessoa ruim. Não é a primeira vez que digo isso e a Yue sabe. Como o convidamos, ele mesmo deve saber que eu não digo isso da boca pra fora. Sora Raikyuu.
Ele saiu da cadeira mas recusou o abraço, optou por um aperto de mão.
— Obrigado, mas acho que seu presente não pode me surpreender. Eu já tenho tudo. — Desdenhou.
— Eu sabia disso. E pensei nisso enquanto procurava o presente perfeito. "O que dar pra um cara que já tem de tudo?" Aí lembrei que o nosso primeiro ministro, meu sogro, comentou algo sobre você ter se interessado pelo metal que ele usou pra fazer a mão biônica do Haru e perguntei se ele me arranjava uma barra.
— Uou! — Sora ficou até gago. Uma barra de Karidian. — São dois quilos! Só isso aqui já deve tá custando mais do que eu! Obrigado, cara! M-Melhor... o melhor presente de todos! Enfim. — Respirou fundo. Se acalmou. — Chegou a hora mais esperada de todas. Que presente o bilionário mais jovem e bonito de todas as Terras vai dar e quem será o sortudo do amigo secreto dele? Que rufem os tambores! É uma garota. Eu não sou muito bom em falar coisas boas das outras pessoas, só de mim, mas vou me esforçar. Ela é... alta, eu odeio e odeio mesmo admitir, é mais alta do que eu. Ela é uma grande guerreira, uma das mais fortes que eu já conheci na minha vida e olha que eu conheço muitos retalhadores. Kin. Kin Kaminari.
Kin não era muito fã dele, então se limitou a sorrir e a apertar a sua mão. No momento seguinte, ele lhe passou alguns documentos.
— O que é isso? — Não entendeu.
— Bom, esse lugar aqui não vai ser a minha casa de jogos. — Ninguém cria no que ele estava prestes a dizer. — Ela é toda sua... é de vocês dois. Três. — Ele acrescentou, ao lembrar que ela estava grávida.
— Tá brincando, não tá? — Quem, em sã consciência, daria uma casa tão bonita como presente de amigo secreto?
Sora balançou a cabeça.
— Não. Não tô, não. Tem duas coisas com as quais eu nunca brinco: com a cor do iate que eu alugo e com presentes.
— Que loucura! — E no calor do momento, acabou abraçando-o.
— Foi ela, não eu. Ela me agarrou. — Se explicou para Arashi. — Você viu. Essa casa aqui tem três quartos. Um de casal, um pro bebê e o outro pro Haru ali.
Kin ficou boquiaberta.
— Mas isso não é tudo. — Disse Arashi, demonstrando que sabia tudo de antemão.
— Não, não é mesmo não. Corre pro quarto do bebê. Da bebê. Vai rápido. — Disse, e ela, imediatamente, o obedeceu.
O quarto era a coisa mais linda que Kin já tinha visto, o berço, então, não precisava de comentários. Toda tingida de rosa claro, várias nuvens enchiam as paredes que pareciam querer imitar o céu. Duas lâmpadas com o formato de nuvens se encontravam acesas acima do berço, este encostado na parede maior.
Em frente ao berço, que era de moldura branca com lençóis rosados, havia uma cadeira rosa e azul onde ela deveria se sentar quando fosse amamentar a criança ou colocá-la para dormir. Na parede ao lado, uma estantezinha branca segurava um casal de ursos pardos de pelúcia vestindo roupinhas de dormir.
Curiosos, os outros participantes do jogo correram para ver o quarto com ela. Estava incrível. A pintura parecia obra de um artista genuíno.
— Sora e eu que pintamos e enfeitamos. — Revelou Arashi.
— Você disse que não ia falar! Deixei você levar os créditos! — Reclamou.
Kin o abraçou de novo. A loira estava tão feliz que até chorou.
— Obrigada. — Disse. Com a mão na barriga, começou a falar com a sua filha: — Olha aonde você vai dormir. Não é lindo? Agradece o tio Sora.
— O-Oh, nada de tio Sora. Sem "tio Sora"! Era isso que eu temia!
Então eles voltaram para a sala. Era a hora de Kin premiar sua amiga.
— Meu amigo secreto é uma das pessoas mais bondosas que eu conheço. Ela é a minha melhor amiga, sinto que jamais vou poder retribuí-la por tudo o que ela já fez por mim. Ela está sempre comigo. É com ela que eu desabafo, é comigo que ela desabafa. Ela tem o sotaque mais maravilhoso que eu já ouvi, é uma artista genial e já sabe que eu estou falando dela, né, Naomi?
Emocionada, a abraçou e disse:
— Obrigada, loirinha. — Depois a soltou. Assim que Kin se sentou em sua cadeira, fez o que deveria fazer e falou o que sentia: — Eu tive muita sorte ao conhecer você. Todos vocês. Eu me senti em família de novo e eu achei que tinha perdido todas as chances de ter uma no segundo em que... me sujeitei a lutar para o Santsuki. Vocês me acolheram, me... trataram como se eu tivesse mesmo nascido aqui. Me senti uma garota normal. Ainda me sinto assim. Eu... fui feliz de novo. Muito obrigada por tudo.
Salva de palmas. Todos se emocionaram e se reuniram em volta dela pra um abraço em grupo.
— Melhor beijo que eu já experimentei. — Só para provocá-la, Sora não parava de se gabar de já tê-la beijado antes.
— Melhor artista. — Disse Haru.
— Melhor amiga. — Falou Kin.
— Melhor sotaque. — Disse Yue.
Ela riu, ainda emocionada.
— Obrigada. Voltando aqui, o meu amigo secreto... ele dispensa qualquer comentário. É a pessoa mais pura que eu já conheci, o mais fofo, é também o mais corajoso. Ele é um herói. Meu futuro marido. Não preciso nem falar qual é o nome dele. — Abriu os braços para Haru, que não hesitou por um segundo antes de abraçá-la.
Novamente abraço em grupo. Lá fora, os primeiros flocos de neve caíam do céu. O clima estava mudando. A temperatura caiu. Novos tempos vinham por aí e não era preciso ser um meteorologista para saber disso. Estava muito claro que as coisas estavam para mudar.
Fim.
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