Notas iniciais
Olá,

essa história foi escrita por mim e por DaniVi em homenagem a nossa querida SBFernanda.

Ela é originalmente postada no Spirit e Wattpad e, agora, aqui também. Esperamos que vocês curtam!

A capa é da UzuKitsune do Narutos Shippers Designers. Obrigada por sempre nos ajudar com essas artes maravilhosas!

“Uma definição não encontrada no dicionário: ‘Não ir embora’
— ato de confiança e amor.” (A Menina Que Roubava Livros)

Hinata se encontrava mais uma vez no hospital de Konoha. Não, ela não estava doente, porém não podia dizer o mesmo da sua irmãzinha. Ao seu lado estava seu pai. Ela apertava a mão dele, em uma tentativa de confortá-lo. Todo inverno, essa cena se repetia. Hanabi sofria de bronquite aguda, que lhe causava dores no peito e falta de ar. Se já era difícil para um adulto, imagina para uma criança de sete anos? Quando a crise começava e a nebulização em casa não era o suficiente, corriam para a emergência para que a menina fosse medicada.

Levantaram-se rapidamente com a chegada do médico.

— Ela está dormindo agora. Preciso que ela fique essa noite em observação, tudo bem? – questionou o médico.

Os dois assentiram para, em seguida, entrarem no quarto em que Hanabi estava. Momento em que Hiashi aproveitou para afagar os cabelos de sua caçula, em uma demonstração de carinho e afeto.

— Queria trocar de lugar com ela.

— Eu também. – disse Hinata, sentando ao lado da irmã.

— Você deve ir pra casa, tem aula amanhã, precisa descansar... – Hiashi disse, sem olhar para Hinata.

— O senhor que deveria ir para casa, afinal, trabalha pesado amanhã e necessita de descanso. – ela levantou e abraçou o pai pelas costas. Hiashi colocou uma das mãos sobre a da filha mais velha.

— Filha, você está no último ano, precisa ir a escola.

Hinata sorriu e o virou para encará-lo.

— Pai, já consegui bolsa para duas faculdades. Tenho certeza que matar uma aula não vai me fazer mal. — ela beijou o rosto do pai.

Ele olhou para Hanabi dormindo tranquila, confiava na filha mais velha, sabia que ela iria cuidar bem da pequena. Suspirou cansado. Trabalhava na própria oficina localizada no Centro da cidade e não demoraria chegar a hora em que precisaria levantar para começar a sua labuta.

Hinata e Hanabi eram seus maiores tesouros. A morte de sua esposa foi prematura, durante o parto da filha caçula. Olhando para o rosto de quem tanto amava, descansando em seu leito, Hiashi prometeu que se dedicaria em criar suas meninas para crescerem mulheres fortes, que não se curvassem à ninguém, que lutariam pelos seus sonhos e ideais. Promessa que se cumpria.

Embora fosse tímida, Hinata, mostrava a cada dia possuir pulso forte para tomar suas decisões e uma mulher que não se deixava intimidar ou humilhar. Foi com essas lembranças e constatações, que ele deu um beijo na testa da mais nova e abraçou a mais velha.

— Qualquer coisa me avisa, amanhã vou ligar para escola.

Ela sorriu.

— Tudo bem, pai. Agora vá descansar!

Hiashi se dirigiu à porta e olhou mais uma vez para as filhas antes de sair.

Hinata sentou em uma poltrona e pegou um livro para ler, ação que se seguiu até que o sono chegasse, sem que ela pudesse lutar contra ou ao mesmo se dar conta das horas.

Ela se deu conta de que estava jogada na poltrona e com o livro ainda sobre o rosto, apenas ao sentir leves mãozinhas puxando a sua calça e tomando-lhe dos braços de Morfeu. Com certa relutância, buscou abrir os olhos, tendo uma imagem um pouco distorcida de um sorriso travesso sendo desenhado nos lábios de Hanabi.

— Você está bem? – Hinata disse se aproximando da irmã.

— Agora sim, Hina. Não precisa de preocupar...

— Claro que precisa! – a fala saiu mais esganiçada do que gostaria, mas a preocupação e atenção de Hinata para com sua caçula eram quase palpáveis, mas ela fez questão de materializá-los em palavras, ao sentar-se na cama onde se encontrava sua irmã. — Eu te amo!

Hanabi riu da irmã.

— Você fica muito melosa nesses momentos.

A mais velha ensaiou um bico e empurrou a mais nova para que ela voltasse a deitar-se na cama. Tal ato arrancou uma nova risada de Hanabi, em um tom um pouco mais alto, mas também rendeu uma tosse imediata, deixando Hinata preocupada.

— Me desculpe…

— Para com isso, eu estou bem, Hina. — a menina disse meio emburrada, odiava preocupar a irmã e o pai dessa forma. — O papai foi descansar, né?

Hinata suspirou, não queria irritar a irmã, mas não conseguia deixar de se preocupar.

— Deveria, né?! Mas, você sabe que ele é teimoso, não vai pegar no sono totalmente.

Hanabi olhou para o lado tentando conter as lágrimas

— Eu sinto muito...

Hinata se adiantou e abraçou a irmãzinha.

— Nem pense nisso! A culpa não é sua.

Deixou que Hanabi chorasse um pouco, abafando os soluços em seu peito, enquanto com o calor do corpo tentava acalmá-la e passar todo seu sentimento de gratidão por tê-la como irmã. Foi nesse momento único para as duas, que Hinata acabou por olhar o outro leito que existia naquele espaço, e viu uma mãe olhando para seu filho. Imediatamente ela soube o que essa mulher estava passando.

— Eu vou lá fora ligar para o papai, avisar que está tudo bem e que você já acordou, assim ele pode descansar. – Hanabi assentiu.

— Traz água para mim, Hina? Se puder, é claro! — Hanabi desfez o abraço olhando para a irmã.

Hinata sorriu e beijou seu rosto.

— Pode deixar!

Alguns minutos se passaram desde que ligou para Hiashi, passando todas as informações sobre o estado de Hanabi, enquanto admirava o jardim local. Ao entrar novamente no hospital, Hinata cruzou os corredores até encontrar o médico responsável pela irmã, já que não tinha certeza se poderia levar água para ela.

Nem precisou procurar muito, já que o doutor Lee saiu de um dos quartos, sendo surpreendido com a presença de Hinata e acabando por deixar o quarto meio aberto.

— Oi, doutor…

— Hinata, já nos conhecemos há um tempo, acho que pode deixar o doutor de lado. – Lee sorriu, anotou algumas coisas na prancheta e já fechava a porta do quarto, quando ela se deixou vencer pela curiosidade e deu uma espiada pela fresta ainda existente.

Dentro do quarto, em uma cama central, um rapaz encontrava-se desacordado. Não durou muito o tempo em que se permitiu ser indiscreta, mas foi o suficiente para quem reparasse na cor de seus cabelos: loiro.

— Quem é ele?

Lee levantou uma das grossas sobrancelhas demonstrando sua surpresa com a curiosidade da garota. Hinata não era de perguntar sobre outros pacientes e nem ser tão impulsiva assim.

Ela, por sua vez, corou, ao se dar conta de sua atitude. Sentia-se como se tivesse cometido um crime. Mas sabia que não era correto perguntar para um médico sobre um paciente, ainda mais essa pessoa não sendo sua conhecida. Mas, quando o viu deitado desacordado, sentiu um desconforto no peito que não sabia explicar.

— Me desculpe eu..

Lee sorriu, sabia que Hinata não tinha feito por mal.

— Tudo bem, vem aqui. – chamou a menina com a mão e com a outra abriu a porta do quarto.

Ainda do corredor, Hinata pode ter um vislumbre daquele paciente e constatou que se tratava de um rapaz jovem, não mais velho que ela, ligado a aparelhos. Muitos.

Não sentiu pena, mas seus olhos refletiram a sua compaixão para a situação daquele moço. Voltou-se para Lee, que assentiu, dando permissão para que ela vencesse a barreira da porta, deixando-a aberta atrás de si.

— O que houve com ele? – chegou perto do rapaz, tendo a sensação de que já o conhecia, embora não soubesse explicar como ou da onde.

— Um acidente de carro. – Lee suspirou pesado. — Perdeu pai e mãe.

A informação atingiu Hinata em cheio, que levou as mãos à boca em puro instinto, a fim de abafar o som que saiu da sua garganta, enquanto os seus olhos marejaram.

Sentou-se ao lado do rapaz e segurou em sua mão, num ato inconsciente e quis saber mais sobre ele.

— Alguém vem visitá-lo?

— Um padrinho, mas nem sempre consegue. Parece que a família paterna dele não ficou satisfeita com o casamento do pai e, agora, estão fazendo de tudo para desligaram os aparelhos. — Lee suspirou mais uma vez.

O coração aflito refletiu no aperto que Hinata deu na mão do rapaz.

— Que horror! E o padrinho? Está tentando impedir?

— Sim, só que Naruto não reage, e o acidente já foi há meses. Temo que…

— Naruto... — ela quase sussurrou, mastigando a palavra, que por algum motivo aqueceu seu interior e lhe pareceu sonoro além da conta. O olhar para aquele rosto sereno e impassível a denunciou.

— Esse é o nome dele.

Hinata deu um sorriso tímido. Não sabia porque estava tão curiosa sobre o rapaz, mas seu coração dizia que ali era o seu lugar. Ao lado dele e segurando a sua mão.

— Oi, Naruto, eu sou a Hinata… — ela acariciou a testa do rapaz. — Espero que você possa me ouvir. — ela deu um suspiro, sentindo o coração superaquecido por algum motivo desconhecido. — De hoje em diante, eu estarei aqui com você sempre e prometo a ajudá-lo a sair dessa. De que cor devem ser seus olhos? Me ajuda a descobrir? — ela deu um risinho anasalado, com a ideia boba que teve para dizer-lhe que precisava abrir os olhos. Mas, de imediato, essa havia se tornado uma real curiosidade. Possivelmente, poderia ser uma de suas favoritas agora. — Bom, eu peço desculpas, agora eu tenho que voltar para a minha irmã a alguns quartos daqui. Mas, amanhã nos vemos, tudo bem?? — ela pegou a mão que segurava e deu um beijo ali.

Saíram da sala e foram caminhando lado a lado. Hinata lembrou-se de perguntar se poderia levar água para a irmã e Lee assentiu. Ele aproveitou, para examinar Hanabi e percebeu que a menina poderia voltar para casa pela manhã, para alívio da irmã mais velha.

Antes de sair do quarto Hinata o chamou.

— Doutor... quer dizer, Lee, será que eu posso fazer visitas ao Naruto regularmente? Quer dizer, pelos menos quando o padrinho dele não vier? Quero ler para ele.

— Quer ajudar o rapaz, Hinata? – ela assentiu. — Tenho medo de permitir isso e você se decepcionar caso ele não venha acordar.

— Eu juro que isso não acontecerá, eu sei qual a condição do Naruto, mas quero poder fazer alguma coisa.

Lee olhava para a menina, não queria permitir aquilo. Tinha medo do que poderia acontecer a Hinata caso não desse certo. Porém, ele sentia que aquela era a última oportunidade do Naruto.

— Tudo bem, venha depois da escola. Eu deixo você entrar.

Hinata sorriu feliz e abraçou o doutor. Seu olhar determinado fazia com que Lee, em seu íntimo, acreditasse que, talvez, tenha tomado a decisão correta.

—xx—

No dia seguinte, Hanabi fora liberada como o médico dissera. Hinata aproveitou para contar ao pai sobre o rapaz que pretendia visitar. De início, Hiashi relutou, mas acabou cedendo diante dos motivos que levaram a sua filha a tomar tal decisão. A história de Naruto tocou Hiashi Hyuuga. Ele sabia a dor de perder quem se ama e sabia melhor do que ninguém que Hinata, com seu enorme coração e dedicação, seria a melhor companhia para alguém com um presente tão delicado — e um destino quase incerto.

Para que pudesse vê-lo, Hinata programou toda sua tarde: buscaria Hanabi na escola, iriam almoçar juntas e, depois, a irmã caçula ficaria com a vizinha Kurenai que se dispôs a cuidar dela. Concluída essa parte, poderia seguir para o hospital.

E foi assim que aconteceu. Hinata foi a escola e cumpriu o cronograma à risca. Tão pontualmente que, quando deu por si, já estava no hospital recebendo autorização de Lee para entrar.

Dada a permissão de ingresso, o médico a guiou até o quarto de Naruto. E lá estava ele: imóvel, inabalável, exatamente como o dia anterior; exatamente como as últimas semanas, desde que dera entrada naquele hospital.

Lee gastou alguns minutos pensativo, mas convenceu-se a sair silenciosamente, a fim de deixá-la sozinha com seu paciente, enquanto travava uma guerra interna sobre a validade daquele gesto, que reconhecia ser nobre.

Assim como no dia anterior, Hinata segurou na mão de Naruto e sorriu.

— Boa tarde, Naruto-Kun! – não conseguia entender o porquê do seu coração bater tão rápido, mas, ao mesmo tempo que a assustava, aquela era uma sensação muito boa. — Espero que esteja me reconhecendo, sou eu, a Hinata que esteve aqui ontem. Lembra que lhe falei que viria? — sorriu. — Hoje vou ler um pouquinho, apesar de achar que você não é muito de ler. – um risinho anasalado tomou conta do ambiente. — Você parece ser um atleta. O que você joga?

Ela sabia que não obteria resposta alguma, mas acreditava que de alguma forma, aquilo poderia estimular uma vontade subconsciente dele em responder. Embora não soubesse nada sobre Naruto, embora fosse um laço recém-criado de uma forma inesperada, Hinata acreditava que ele conseguia ouvi-la e que ao lhe causar estímulos, ele poderia acordar. Sempre que se deparava com histórias de coma, ela acreditava que as pessoas nessa condição não estão fora da realidade.

— Bom, eu passei na livraria e comprei um livro. Acho que você não gosta muito de romances e isso de certa forma é triste, porque são os meus favoritos. Mas, comprei esse. – Hinata levantou, foi até a mochila, tirando um livro mostrando a Naruto. — Confie em Mim, do Harlan Coben. Confesso que desconheço a obra desse autor, nunca o li, a parte boa é que muita gente fala bem dele. Então, não me ache controversa. — sorriu. — É um suspense policial, você tem cara de que gosta desse tipo de coisa.

Ela puxou a cadeira para mais perto dele e começou a ler.

Já estava quase escurecendo quando Hinata conseguiu parar a leitura.

— Nossa, Naruto, eu estou amando, e você?

O questionamento veio enquanto Hinata fechava o livro, marcando a página em que parou a leitura com um marcador na cor lavanda. Foi inevitável que ela o imaginasse assentindo.

— Bom, eu tenho que ir, amanhã eu venho sem falta, estou ansiosa para saber o que acontece.

A menina chegou perto e beijou a testa do rapaz.

— Até amanhã, Naruto.

—xx—

Assim, se sucedeu por todas as tardes: Naruto era uma agenda inadiável e uma questão quase urgente para ela. Estar com ele tinha se tornado uma tarefa tão natural quanto acordar, respirar ou algo do tipo que, embora parecesse uma ação simples e pequena, era essencial e vital para a sobrevivência. Manter Naruto com alguma chance de não ter o fim que os parentes do seus pais desejavam, a mantinha viva, ao mesmo tempo que a desafiava. Quando Hinata não lia um livro, contava seu dia na escola ou fazia seu dever de casa fingindo que o rapaz a ajudava.

Em uma determinada tarde, ela entrou no quarto empolgada, já que seu amigo Kiba tinha conseguido uma bolsa para a mesma faculdade que ela. Mas, sua empolgação morreu quando viu um homem de cabelos brancos no quarto, assustado com a sua entrada repentina.

— Menina do céu, quase morri de susto agora! – dizia o homem com a mão no peito. — Ainda bem que estamos em um hospital.

— Me desculpe, senhor, eu não queria… — Hinata ia saindo do quarto, mas Jiraiya a parou.

— Espera! Você é a menina que o Lee falou?

Hinata corou, abaixando a cabeça.

— Lee fa-falou de mim? – droga odiava gaguejar.

Ele sorriu.

— Sente-se, é Hinata não é?

Hinata sentou e assentiu.

— Bom, eu sou o Jiraiya, padrinho do Naruto. – ele olhou para o afilhado e deu suspiro cansado, chamando atenção de Hinata. — Obrigado pelo o que tem feito por ele, Naruto é uma pessoa tão boa, sinto falta dele.

— Não precisa agradecer e tenho certeza que logo ele acorda. – ela sorriu, tentando ser otimista.

— Eu não sei...- ele suspirou mais uma vez. — Espero que tenha razão.

Hinata olhou para Naruto e, mais uma vez, se pegou imaginando qual seria a cor de seus olhos. Teria ele uma voz mais grave? Que tipo de pessoa ele costumava ser? Alguém discreto ou alguém cheio de vida? Poderia perguntar tudo isso a Jiraiya, mas resolveu que queria descobrir quando ele acordasse. Por ora, saber que ele era uma pessoa boa, já era bastante.

— Posso te perguntar uma coisa, Hinata?

O pedido a tirou de seus devaneios e ela apenas assentiu para Jiraiya.

— Por que está fazendo isso? Quer dizer, você tem o que... dezessete anos? – Hinata assentiu mais uma vez e ele sorriu. — A mesma idade do Naruto... mas, enfim, você tem uma vida. Não pode passar todas as tardes aqui.

Ela tirou os olhos de Jiraiya, direcionando lhes mais uma vez a Naruto, repetindo o gesto que já estava virando a marca dos dois: as mãos unidas.

— Eu não sei, só sinto que ele precisa de mim. E aqui é o meu lugar, segurando a mão dele.

Ele sorriu, vendo o carinho que a jovem tinha com seu afilhado. Hinata não pode ver, mas os olhos de Jiraiya adquiriram um brilho diferente, acentuado pelas lágrimas que se formavam. Talvez, o seu garoto tivesse, ao fim de tudo, alguma sorte por ter aquela garota olhando por si.

—xx—

Não demorou para que o tempo passasse, transformando dias em semanas e meses. Os avanços não eram visíveis e, mesmo diante de tantos obstáculos, Hinata se agarrava a um fio mínimo de luz, que ela enxergava passar pela fresta das duras paredes que insistiam em isolar Naruto da realidade à sua volta.

No entanto, nem sempre era fácil manter a esperança de dias melhores. Não quando Naruto ainda era assombrado pelo fantasma de ter os aparelhos desligados pela família paterna. Hinata não permitiria e sequer consideraria tal hipótese viável. Nos dias em que esses pensamentos cruzavam a sua mente, o desespero tomava conta de si. E foi assim que veio a tentativa quase infantil de acordá-lo por meio de técnicas lidas nos livros de romance que ela tanto amava: Hinata jogou a própria timidez para escanteio e lançou a sorte de um beijo nos lábios daquele rapaz pelo qual havia despertado um carinho sem medidas. Um ato impensado, em que o corpo se moveu devido à adrenalina produzida pelo medo, e fez capaz de ignorar até mesmo o tubo respiratório que permitia a Naruto aspirar alguma quantia de oxigênio.

Mas esse foi um ato que não deixou de ser apreciável: seu beijo tímido e desajeitado capturou apenas o lábio inferior, devido ao aparelho, mesmo assim, pode constatar que eram grossos e, mesmo que estivessem ressecados e frios pelos dias seguidos naquele ar-condicionado, a textura da pele era boa. O coração aqueceu e Hinata viu crescer em si a curiosidade em descobrir como seria beijá-lo de verdade.

Era errado? Quem poderia dizer? Ela não era ninguém para ele. E isso tornava-se verdade apenas se o ponto de vista fosse simplista: eles não se conheciam de fato, ele nunca havia a visto; mas para ela, naqueles meses, aquele rapaz já era alguém para si. Beijá-lo sem seu consentimento poderia ser quase um crime, mas ela tinha esperanças que ele acordasse com um toque mais quente, porém Naruto não acordou.

—xx—

O tempo pode ser um vilão. E, nesse caso, começava mesmo a jogar contra. Com a mudança de estação e a chegada do verão, Hinata teria que se despedir de Naruto. Seu pai conseguiu umas férias e queria viajar com as filhas, antes que a mais velha ingressasse na faculdade de Medicina.

O engraçado é que Hinata começava a viver o que sempre lera em seus romances: você não escolhe por quem vai criar um afeto; quem vai te cativar; quem vai chamar sua atenção; quem será aquele a merecer sua dedicação. As pessoas, às vezes, simplesmente entram em nossas vidas sem pedir licença, passagem, ou entram em um pedido mudo de ajuda. E é essa junção que faz o seu coração bater mais forte e também se apertar em momentos como o de agora.

Encerrado seu último dia de escola, Hinata correu até o hospital. O coração parecia haver diminuído a um grão e não era apenas por saudades antecipada, mas pelo que ela mais temia: um pressentimento ruim e uma necessidade incessante de vê-lo.

Entrou no hospital de uma só vez e se deparou com um homem de terno e gravata mostrando alguns papéis para Jiraiya. A cena que se seguiu fez com que ela temesse ainda mais as próximas cenas: o velho padrinho de Naruto pegou o que pareciam ser documentos, rasgando-o com visível raiva.

Tal atitude hostil exigiu que alguns homens, aparentando serem seguranças, avançassem sobre Jiraiya, imobilizando-o. Era hora de agir.

— O que está acontecendo aqui? – não conseguiu contar o desespero.

Não estavam sozinhos, o doutor Lee também chegava à recepção do hospital.

— Parece que os parentes paternos do Naruto conseguiram a autorização judicial para desligarem os aparelhos.

Hinata arregalou os olhos.

— Mas por que isso? O pai dele já não está deserdado? — lembrou-se da história que Jiraiya havia lhe contado sobre o controverso casamento de Minato e Kushina, os falecidos pais de Naruto.

Lee respirou fundo.

— Parece que o avô dele se arrependeu do que fez com o filho antes de morrer, por isso, deixou tudo o que tinha para seu neto, no caso, Naruto.

Hinata o olhou surpresa, aquelas pessoas iriam matá-lo por dinheiro.

— QUE HORROR! — o grito ecoou pela sala, avançando pelos corredores. A dor extravasando daquele pequeno corpo.

— Horror ou não, estou aqui como advogado da família para que seja cumprida a sentença. – o homem de terno se manifestou pegando outro documento e entregando ao médico. — O garoto não reage, o acidente foi há quase um ano.

Lee pegou os documentos e olhou de canto para Hinata, queria ao menos que a menina se despedisse. Ela captou a mensagem, olhou para Jiraiya que estava se afundando em lágrimas, e percebeu que os seguranças estavam ocupados demais com ele, portanto, não teriam chances de lhe impedir do que faria.

Ela correu pelos corredores, abriu a porta do quarto do rapaz aos prantos e nem se importou em fechá-la.

— Naruto, por favor, reaja! — gritou. — Você precisa dar um sinal, alguma coisa. – ela segurou a mão dele e com a outra acariciava o rosto do rapaz. — Por favor, vamos, por favor, por favor....

As palavras estavam sendo difíceis de serem pronunciadas, por conta do choro, mas Hinata não desistia de sua súplica. Chegou até a sacudir o rapaz e nada. Os seguranças, alguns médicos e enfermeiros chegaram até o quarto.

— Não! Por favor... – ela se jogou sobre o corpo dele, ainda segurando a sua mão. — Naruto-kun, por favor… — as lágrimas já banhavam todo o rosto pálido.

Os seguranças tiraram Hinata de cima dele, mas algo a impediu de se afastar por completo. Quando olhou, sentiu a força da outra mão apertando a sua e todos foram testemunhas.

— Viram? Ele está reagindo. — apontou, mas era difícil até mesmo para ela acreditar nas próprias palavras.

Os seguranças a soltaram e ela se aproximou dele, ainda sentindo a força da sua mão. Naruto não queria soltá-la.

— Isso, reaja. Por favor, eu estou aqui!

Naruto mexeu um pouco o rosto, em uma distorção que não era fácil de se ler, mas que foi o suficiente para que um sorriso se desenhasse no rosto de Hinata, ora banhado de lágrimas. Jiraiya se aproximou ainda incrédulo.

Aos poucos, Naruto piscava até finalmente abrir os olhos.

Hinata passou a mão em seu rosto e ele a encarava. Ela pode, finalmente, ver a cor dos seus olhos. Era um tom tão intenso de azul, que ela acreditava estar observando o mar.

Sentiu ser puxada por um enfermeiro e o doutor Lee correu para examiná-lo.

Hinata saiu do quarto e se deu conta de que sua missão estava cumprida. Com a respiração um tanto acelerada e percebendo as mãos um pouco suadas, olhou por cima dos ombros na direção de onde Naruto se encontrava, em uma despedida silenciosa. Colocou-se a andar até que ela atravessasse aquele corredor, indo embora para sempre daquele hospital com o coração em chamas e um sorriso no rosto.

Notas finais
E, aí, o que acharam?

O que será que vai acontecer?

Cenas dos próximos capítulos........