Meu Sonho
2 Superação
Notas iniciais
"– Claro que está acontecendo em sua mente, Harry,
mas por que isto significa que não é real?"
_ Harry Potter e as Relíquias da Morte (cap. 35, pág. 562)
A mente humana é, deveras, curiosa. Ainda não se sabe bem como funcionam certas coisas. Até mesmo a Medicina diverge sobre o que acontece em um estado de coma. Há quem diga que ela fica em total off, um grande breu, como se a pessoa desligasse realmente do mundo; outros neurologistas já apostam que há, sim, a possibilidade de contato direto com o mundo externo, com as coisas à sua volta, por mais que seu corpo não responda a isso. Seria algo semelhante àquelas noites em que você dorme-acordado, mas não consegue se mexer nem no sonho, muito menos na vida real.
Naruto poderia dizer que ele se encontrava nessa última situação.
Uma luz forte, um impacto e dor muita dor era o que sentia. Somente essas sensações tomavam conta da mente de Naruto.
Passado algum tempo, o que começava a se desenhar era um local escuro, em tons de verde e já quase sem luz. De repente, estava caído em uma enorme poça, o que pode ver por meio de seus olhos semicerrados.
Naruto não sabia bem o que estava acontecendo, mas sabia que não tinha forças para se levantar ou para reagir. De vez em quando, ele ouvia a voz do padrinho, mas não conseguia discernir bem as palavras. O som parecia-lhe longínquo demais e, por isso, acreditava ser apenas sonho.
Há quanto tempo se encontrava naquela situação? Ele não sabia. Mas, sentia ser agoniante, de tal forma que a sensação que tinha era que deveria ter morrido. Talvez, até o tenha, ele não saberia dizer.
Já fazia algum tempo, talvez horas ou dias, que não ouvia Jiraiya. Desde então, permanecia ali naquela poça d’água, sem conseguir abrir seus olhos. Porém, alguma coisa mudou de repente, um segundo ou um pouco mais.
Sentiu um calor na sua mão e aquilo o fez tentar abrir mais os olhos. Dessa vez, conseguiu ouvir bem as vozes que conversavam.
“Oi, Naruto, eu sou a Hinata! Espero que você possa me ouvir.”
Aquela voz pareceu lhe dar forças para se mover minimamente. Assim, levantou a cabeça, buscando por quem o chamava.
“De hoje em diante, eu estarei aqui com você sempre e prometo a ajudá-lo a sair dessa. De que cor devem ser seus olhos? Me ajuda a descobrir?”. Uma pausa breve. “Bom, eu peço desculpas, agora eu tenho que voltar para a minha irmã a alguns quartos daqui. Mas, amanhã nos vemos, tudo bem?”.
Sentiu em sua mão mais calor, dessa vez numa intensidade diferente, o que fez ele olhar em direção aquela voz.
Olhou ao redor, como foi parar ali? E o que tudo aquilo significava? Tinha apenas uma certeza: aquela voz o ajudaria a entender.
—xx—
Naquele dia, suas tentativas de compreender o que estava acontecendo consigo renderam algum progresso: ouviu duas enfermeiras conversando e constatou que estava em coma havia um tempo considerável.
A sensação era estranha: estar preso dentro de si mesmo, de sua própria mente. Era como estar enclausurado em um quartinho escuro, sem nenhuma fresta, amarrado e vendado. Era como gritar e a voz não sair. Era como tentar correr e não sair do lugar.
As coisas pareceram ainda mais difíceis quando, após as enfermeiras, o médico veio. Naruto não pode ver, mas pode sentir que ele mexia algo preso a si. Enquanto mexia nos aparelhos, o Dr. Lee conversava consigo em uma quase súplica para que ele reagisse. Mas do que ele estava falando?
Ele não compreendia aquelas palavras, mas algo a mais chamou a sua atenção: o doutor havia mencionado o nome dos seus pais, tentou seguir aquela voz.
“Naruto, você precisa acordar! Seus pais ficariam tristes em saber que seu único filho não conseguiu sobreviver para dar continuidade ao que deixaram…”
Deixaram.
A conjugação desse verbo trouxe para Naruto um estado profundo de tristeza. Embora fosse difícil, ele conseguiu compreender que, no acidente que as enfermeiras haviam mencionado, os pais dele se foram deixando-o para trás. Sentiu a garganta arranhar e pode ter certeza que iria chorar, mas as lágrimas não vieram. Era impossível para ele fazer qualquer coisa naquele estado.
Ocorreu-lhe, então, que aquele espaço escuro e aquela poça d’água era a materialização de sua mente, seu subconsciente. Tentou fazer seu corpo se mover, mas tudo era em vão. A única coisa que sentia realmente era o calor que aquela doce voz lhe trazia. E ele questionava se tratar de um anjo, fazendo-lhe a guarda, enquanto aguardava a sua hora chegar.
Naruto não tinha noção de tempo. Dia ou noite, horas, dias, semanas ou meses. Eram apenas hipóteses formuladas por ele, que decidiu tentar calculá-los por meio das visitas do padrinho.
Enquanto refletia sobre isso, algo lhe despertou: doce e sonora, aquela voz tomou todo o quarto.
“Boa tarde, Naruto-Kun”.
Pela primeira vez, conseguiu expressar emoção e, para sua surpresa, conseguiu também sentar.
“Espero que esteja me reconhecendo, sou eu, a Hinata que esteve aqui ontem. Lembra que lhe falei que viria?”, veio uma breve pausa. “Hoje vou ler um pouquinho, apesar de achar que você não é muito de ler”.
Esboçou um novo sorriso e, em sua vontade imensa de responder aquela voz que lhe trazia tanta calma, aquele som mudo veio.
— Oi, Hinata! – conseguiu falar e ficou surpreso com a própria voz. – Muito pelo contrário, adoro ler.
“Você parece ser um atleta. O que você joga?”
Ele coçou a nuca envergonhado.
— Não jogo nada, no máximo, videogame. Porém, pratico Taekwondo com meu amigo Sasuke.
O silêncio que se fez, por um momento, o sufocou. Não imaginou que pudesse sentir-se desesperado dentro de sua própria mente, mas sentiu-se. Naruto achou que o seu anjo tinha ido embora.
“Bom, eu passei na livraria e comprei um livro. Acho que você não gosta muito de romances e isso de certa forma é triste, porque são os meus favoritos”.
Naruto fez uma careta em claro sinal de protesto. — É verdade, não gosto muito de romances, mas leio de vez em quando, meu estilo são os de aventura.
Ele imaginou que o seu anjo estaria sorrindo depois de respondê-la, antes de ouvir...
“Mas, comprei esse: Confie em Mim, do Harlan Coben. Confesso que desconheço a obra desse autor, nunca o li, a parte boa é que muita gente fala bem dele. Então, não me ache controversa. É um suspense policial, você tem cara de que gosta desse tipo de coisa”.
Naruto colocou a mão no queixo pensando.
— Não lembro de ter lido nada desse autor, mas sempre é bom conhecer novos autores.
Ele fixou o olhar à sua frente e esperou até que pudesse ouvir a melodiosa voz de Hinata lhe narrando aquela história.
— XX -
O tempo passou, que ele nem percebeu, quer dizer nunca perceberia na verdade. Mas estava tão concentrado na leitura que nem imaginou que ela poderia ir embora.
“ Nossa Naruto, eu estou amando, e você?”
— Estou muito curioso, continua Hina! – se atreveu a chamá-la por um apelido.
Ele a imaginou sorrindo.
“Bom eu tenho que ir, amanhã eu venho sem falta, estou ansiosa para saber o que acontece.”
O desespero o abateu mais uma vez e Naruto só queria que Hinata continuasse ali com ele.
— Não vá, Hinata, eu preciso de você!
Mas, ele sentiu um calor em sua testa, o que o fez colocar a mão ali. Sentiu que aquilo poderia ser um beijo e corou.
“Até amanhã Naruto.”
Ele sorriu e se prendeu na promessa que ele a ouviria dali algumas horas.
— Até amanhã, Hinata!
—_ XX __
Depois daquele dia, a voz de Hinata tornou-se uma constante nos dias escuros de Naruto e ele, então, pode entender que aquela garota estava o visitando todos os dias. Não sabia em qual momento do dia, mas ela sempre estava lá.
Em um desses dias, a voz de Hinata e de Jiraiya se fizeram presentes ao mesmo tempo. E foi um dia curioso.
Apenas pelo tom da voz da menina, Naruto percebeu que ela estava com vergonha e com medo por encontrar o seu padrinho ali.
Quis ter a possibilidade de levantar e dizer a ela que estava tudo bem, que Jiraiya era tranquilo, mas sabia que não conseguia fazê-lo. E isso era deveras frustrante.
Mas a tranquilidade veio quando percebeu que, aos poucos, ela conseguiu se soltar e ficou feliz em saber que não perderia a companhia dela em seus dias.
“Posso te perguntar uma coisa, Hinata?” – seu padrinho perguntou e Naruto ficou atento.
“Por que está fazendo isso? Quer dizer, você tem o que... dezessete anos?” – Naruto levantou uma das sobrancelhas não entendendo o rumo daquela conversa.
“A mesma idade do Naruto... mas enfim, você tem uma vida. Não pode passar todas as tardes aqui.”
Naruto entendeu que Hinata também tinha dezessete anos, mas não conseguiu se concentrar nisso visto que o padrinho queria que Hinata parasse de visitá-lo. Bem, não queria, mas sabia que padrinho queria evitar que moça se prendesse a falsas esperanças.
— Para de falar isso Ero-senin! – sentiu um pouco de raiva naquele momento, mas no fundo sabia que o padrinho estava certo.
Sentiu o calor de Hinata mais uma vez em sua mão, já sabia reconhecer quando era ela que o tocava e aquilo o tranquilizou.
“Eu não sei, só sinto que ele precisa de mim. E aqui é o meu lugar, segurando a mão dele.”
Ele sorriu e ali ele soube que estava apaixonado por Hinata. Seria estranho se apaixonar por alguém que nunca viu? Seria possível se apaixonar em um estado de coma? Como seria se algum dia ele saísse daquele estado? E se ele nunca mais saísse?
Todas essas perguntas tomaram-lhe os pensamentos. Mas, Naruto sentia que nada importava, desde que pudesse continuar sentindo esse calor inundando toda a sua alma. O calor de um simples toque, a alegria de palavras simples, da preocupação genuína de uma menina que poderia estar fazendo qualquer coisa, mas escolheu estar ali por ele.
Não era somente pela voz que Naruto havia se apaixonado, mas pelo jeito único de Hinata que o encantava e, da mesma forma que ela sentia que seu lugar era ao lado dele, ele também sentia que deveria estar ao lado dela sempre e assim o faria quando acordasse.
—__ X X ___
Desde o encontro de Hinata com o Ero-Senin, algo vinha incomodando Naruto: Hinata não parava de falar em um tal Kiba. Naquele dia, depois que seu padrinho foi embora, ela já tinha contado sobre o fato dele ter conseguido uma bolsa em uma faculdade para ela. Quanto a este fato, ele ficou muito feliz.
No entanto, ele começava a se irritar com a constância em que o nome daquele rapaz era dito. E, principalmente, o carinho com o qual Hinata falava dele.
A irritação era tanta, que Naruto passou a imitar a voz da menina em claro tom de deboche, enquanto tentava andar de um lado para o outro em meio àquele espaço escuro, algo que havia progredido há alguns dias.
— Kiba me deu chocolates hoje. Kiba ajudou meu pai na oficina hoje. Kiba isso, Kiba aquilo. Kiba. Kiba. Kiba. – Naruto bufou e rolou os olhos. — Ah, Hinata! Que cara mais chato!
Estava morrendo de ciúmes. O tal Kiba tinha sido namorado da garota, conforme ela já tinha lhe contado. No entanto, findado o relacionamento amoroso, ficou o carinho e prevaleceu a amizade. A melhor amizade, no caso. E essa história estava intrigando o Uzumaki. Ah, qual é? Quem vira melhor amigo da ex? E que atual namorada não ligaria para isso, como a menina que estava agora com o tal Kiba?
Hinata falava com tanto carinho do amigo, que Naruto achava que ela ainda gostava dele. E, nesse momento, sentiu raiva de si mesmo por estar naquela situação. Como poderia competir com esse tal de Kiba? Ele estava lá acordado e ao lado dela. Enquanto ele, por mais que tentasse, não conseguia acordar.
Sentiu uma tristeza preencher seu coração e, pela primeira vez, depois de muito tempo, quis voltar a não reconhecer nada, voltar ao estado que se encontrava antes das visitas de Hinata. A escuridão.
Seu corpo começou a pesar e Naruto se viu cair de joelhos, enquanto seus olhos teimavam em querer fechar novamente.
“Quando você acordar, vou te apresentar a todos eles!" – Hinata disse e, automaticamente, seus olhos se abriram novamente.
Mas, ele pode notar que algo estava estranho e a voz já não era tão melodiosa. Havia temor na fala de Hinata.
“Você vai acordar, não vai, Naruto? Eu preciso que você acorde, Naruto. Por favor!”
O tom era quase desesperado. Ela não gritava, as palavras estavam quase esganiçadas, como se algo lhe impedisse até mesmo de respirar.
“Eu não posso deixar que façam aquilo com você”, e ele pode perceber a oscilação e o medo. “Você não pode deixar que façam aquilo com você. Então, por favor, acorde!”
Do que ela estava falando?
“Seus olhos. Lembra? Eu ainda quero saber como são seus olhos. Você não quer mostrá-los para mim?”
Ah, como queria! Só Deus sabia a imensidão da vontade de Naruto de poder realmente abrir os olhos e conhecer finalmente a dona daquela voz, a dona dos seus pensamentos mais profundos e, agora também, a dona do seu coração. O seu anjo da guarda.
Enquanto estava perdido, tentando absorver todas aquelas palavras e entender o que se passava com Hinata, sentiu a aproximação e, quando deu por si, seus lábios estavam tomados por um calor diferente. Levou a mão até eles.
Seu coração bateu mais forte, ele conseguiu sentir. E não lhe restavam dúvidas: Hinata estava o beijando. E somente essa constatação o ver corar.
Quando o calor se afastou, depois de alguns segundos, sentiu algo quente cair em seu rosto e o fiozinho de barulho, agudo e baixinho veio: Hinata estava chorando, para seu desespero.
“Isso também não deu certo”, um soluço. “Me desculpe, Naruto-Kun, acho que não sou sua princesa!"
Aquelas palavras partiram seu coração. Ela era sim sua princesa, não podia deixar que ela pensasse que não era importante para ele. Naquele momento, Naruto decidiu que se dedicaria ao máximo em acordar e provar que ela estava errada. Dizer que a amava, antes mesma de conhecê-la.
—___ X X ______
Depois daquele dia, ele tinha conseguido mexer a sua mão algumas vezes, porém, em nenhuma das vezes Hinata estava presente e, para sua desgraça, a equipe médica também não. Ele queria mostrar a ela que estava reagindo, mas não conseguia em sua presença.
As conversas que sucederam o dia do beijo não estavam sendo apreciáveis para Naruto, simplesmente porque elas levavam a crer que Hinata estava cada vez mais próxima de ir embora.
Havia conseguido a tão sonhada bolsa na faculdade de Medicina e tinha a viagem que o pai queria realizar, antes que a filha saísse de casa para ingressar na faculdade.
Ele precisava acordar e logo. Mas o tempo era seu maior adversário nessa tarefa.
Se dedicou ainda mais naquela manhã, seu corpo estava mais agitado que o normal, conseguiu sentir isso. Parecia que toda a sua circulação tinha aumentado e seus batimentos que antes eram bem fracos, agora pareciam bem mais audíveis. O Dr. Lee em sua visita havia reparado e comentado que o coração de Naruto estava cada vez mais próximo da normalidade.
E no meio dos seus devaneios, o baque veio. Parecia ser o choque de uma porta sendo aberta com força e batendo contra a parede.
Ouviu gritos ao longe e o ambiente parecia inquieto ao seu redor.
O que estava acontecendo?
Sentiu o toque de Hinata em sua mão, mas dessa vez parecia mais apertado, mais desesperado.
“Naruto, por favor, reaja! Você precisa dar um sinal, alguma coisa”. Ele sentiu as lágrimas da menina caírem sobre o seu rosto. “Por favor, vamos, por favor, por favor....”
Ele conseguiu sentir o desespero dela, algo tinha acontecido, ele precisava reagir, precisava ajudá-la.
Sentiu seu corpo ser sacudido levemente e aquilo o deixou um pouco sem ar. Seus batimentos aumentaram junto com o desespero da jovem.
Ouviu passos.
“Não! Por favor...”
Ele sentiu um peso sobre si e, ao mesmo tempo, sentiu o coração de Hinata bater descompassado.
“Naruto- Kun...”- gritou seu anjo.
Sentir o coração de Hinata lhe deu mais forças para reagir e com isso olhou para sua mão que estava um pouco mais pesada e apertou.
Hinata estava sendo forçada a sair de cima dele, porém, ele não ia deixar, segurou com mais força a sua mão.
Silêncio. Alguns segundos, minutos, não sabia. Mas, sentia que segurava a mão da mulher que amava e não iria soltar.
“Viram? Ele está reagindo.”
Ele a segurou com mais força, sua respiração ficava cada vez mais forte, algo que não estava acostumado nos últimos tempos.
Tudo foi virando um clarão e ele tinha certeza que acordaria e, finalmente, poderia encontrar a garota por quem se apaixonou, a quem chamava de anjo.
“Isso, reaja, eu estou aqui!”
Ouviu sua voz bem fraca, como um eco e, com um grande esforço, abriu os olhos, querendo encontrá-la. No entanto, a forte luz daquele lugar o cegou. Os meses e mais meses de escuridão fizeram com que seus olhos ficassem sensíveis a luz. Tudo que pode ver, diante de uma imagem embaçada, foi uma pele branca e longos cabelos pretos.
Depois, foi acometido por um novo clarão e tudo na sua mente se apagou, ficando apenas as cenas do acidente. Que se repetiam sem parar e, nesse momento, Naruto chorou, berrou sem entender onde estava e como estava e, principalmente, acabou esquecendo da garota que ia visitá-lo todos os dias.
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