Meu Sonho
5 Sentimentos
Notas iniciais
“Mas era eu que estava morto e
você me trouxe de volta.
Você me salvou.
E agora é a minha vez de salvar você."
— David para Elizabeth. "E se fosse verdade..."
Naruto e Hinata ainda ficaram um tempo no mar. Aquela tensão inicial não mais existia e a conversa entre os dois fluía com mais facilidade. Entretanto, a ansiedade ainda tomava conta de Naruto, que a todo custo tentava controlar a vontade de perguntar a Hinata se era ela quem o visitava quando estava em coma. Não conseguia ter uma brecha e tinha medo que ela se assustasse. A cena dela chorando naquela manhã voltou à sua mente e ele se deu conta de que não suportaria vê-la naquele estado novamente.
As brincadeiras com a água foram inevitáveis e contribuíram para que eles começassem a se sentir à vontade na presença um do outro. Mesmo depois de saírem do mar, continuaram a conversar. Andavam pela beira da água como se já se conhecessem há muito tempo, o que não deixava de ser verdade.
Hinata queria saber mais sobre o rapaz. E essa curiosidade era igual ou ainda maior do que a da época em que Naruto se encontrava em coma. Não cansava de apreciar a beleza daquele rosto e não conseguia deixar de pensar em como a voz dele massageava os seus ouvidos. Sempre tentava imaginar como era, mas aquela rouquidão foi uma surpresa e a fazia vibrar de uma forma diferente. Sentia que suas bochechas ficavam vermelhas só de pensar nisso.
Outra nota mental importante para Hinata naquele dia era sobre como o sorriso dele aquecia qualquer pessoa. Iluminado seria a palavra correta. Ela não conseguia esconder como estava amando conhecer aquele sorriso, ao ponto de sempre devolver o maior que conseguia dar a ele.
Mas, ela não deixava de achar estranho algumas coisas. Primeiro, toda vez que ela começava a falar, Naruto fechava os olhos durante alguns segundos como se estivesse tentando guardar na mente o som da sua voz. Segundo, ele não perguntava nada. Era como se ele soubesse das coisas. Um exemplo foi quando eles pararam em uma barraquinha que vendia sorvete, estava muito cheia, então eles tiveram que esperar um pouco para serem atendidos. Hinata se distraiu com algumas crianças e ele sorriu dizendo que ela seria uma excelente pediatra. Na hora ela apenas assentiu, mas pensando bem, ela não tinha dito a ele que queria ser pediatra. Na verdade, disse uma vez, mas só quando ele estava em coma. O que aquilo significava? Será que ele lembrava mesmo?
Resolveu afastar esses pensamentos porque Sakura podia ter dito a ele, não é mesmo?
Mas aí, o fato se repetiu. Enquanto avaliava a situação anterior, não ouviu Naruto lhe perguntar qual o sabor de sorvete ela queria. Acordou dos seus pensamentos com o potinho de sorvete à sua frente.
— Já que você estava tão distraída com as crianças, eu pedi seu sabor favorito.
Foi o que ele disse. E realmente o sorvete era de flocos, seu sabor favorito. Só que ela nunca havia mencionado isso durante aquele tempo que conversavam.
Enquanto voltavam para onde estava os amigos, Hinata permaneceu pensativa a ponto de dar apenas respostas curtas a Naruto. O rapaz ficou intrigado com aquela mudança repentina, mas conseguiu perceber que ela não estava chateada. No que ela estaria pensando? Hinata não conseguia parar de pensar nas últimas falas do rapaz.
Tratava-se de uma estratégia de Naruto. Ele arriscou ir soltando bom jogar coisas que ele julgava saber sobre ela. Acreditava que assim, mostrando lembrar das “conversas” que eles tinham, passaria a segurança necessária para ela contar sobre a época que o visitava. Ele tinha certeza que era ela, não poderia estar errado.
Enquanto conversavam, Hinata não tocou em assuntos do passado. Evitava a todo custo que ele falasse da época do coma. Já Naruto sabia, no fundo, que ela não estava preparada para aquilo, então deixou fluir a conversa entre eles, mas quis deixar claro que de alguma maneira a conhecia, lembrava dela.
Quando chegaram até aos amigos, Naruto deu a notícia de que Hinata iria morar com eles.
Sakura amou. Sasuke nem tanto.
E Kiba, bem, deu um meio sorriso, mas estava feliz pela amiga. Olhou para Naruto e ele sorria aberto demais. De alguma maneira, Kiba sabia que aquele cara tinha sentimentos pela sua amiga.
— Você bem que podia passar essa noite com a gente, né Hina? Quero dizer, para já ir se acostumando. — Sakura sorriu empolgada.
— Excelente ideia, Sakura-chan. — Naruto correspondeu à empolgação da amiga.
— Vocês vão acabar sufocando a menina. — disse Sasuke, com um tom pesado, destoando totalmente de Naruto e Sakura.
Hinata sentiu que ele não havia gostado da novidade. Muito menos da ideia que a amiga, namorada dele, acabara de ter.
— Não precisa, gente! Eu também não vim preparada dormir fora.
— Ah deixa disso, Hina! Tem algumas coisas suas no meu carro esqueceu? E a Sakura pode te emprestar outras coisas. — disse Kiba.
Aquela frase mexeu com Naruto. Como assim Hinata deixava coisas no carro de Kiba? Não tinha jeito, ele tinha ciúmes daquele garoto.
Percebendo que Naruto fechou a cara, Hinata sentiu vontade de justificar, apesar de saber que não precisava. Mas Naruto já tinha achado que eles eram namorados e agora, com Kiba falando aquilo, parecia mesmo que eles tinham algo a mais.
— É que o Kiba, às vezes, me salva quando estou no corredor da faculdade, eu acabo ficando no carro e levo umas coisas para lá.
Naruto relaxou um pouco, mas não por completo. Algo o incomodava, não era mais o ciumes e sim impotência por não estar presente nesses momentos em que Hinata precisou dele.
— Diz que sim, Hina! — disse Sakura empolgada segurando as mãos da amiga.
Hinata olhou para Sasuke, que deu de ombros. Olhou para Naruto, ele ainda parecia incomodado, mas deu um sorriso que a fez sorrir também.
— Tá bom, já que insistem, eu vou. — disse ela sorrindo. Sakura a abraçou apertado.
— Sakura, assim você vai matar minha amiga sufocada. — disse, Kiba brincando.
Ela desfez o abraço e Hinata fingiu tossir como se estivesse sufocando. Todos riram e mais uma vez os olhares de Naruto e Hinata se cruzaram. Era chegada a hora dela finalmente conhecer o rapaz pelo qual se apaixonou há um ano.
Sakura adentrou o apartamento arrastando Hinata casa afora até que chegassem no quarto dela. Estava tão entretida, que se quer percebeu que Sasuke havia amarrado ainda mais o semblante. Naruto encontrava-se em êxtase por tudo que acontecera até ali, por isso, também estava alheio às reações de Sasuke. Foi para o seu quarto tomar um banho, enquanto o amigo se jogava no sofá da sala com ares de derrota.
Enquanto a água do chuveiro caía sobre sua pele, Naruto se perguntava se o destino estava lhe pregando uma peça. Não era possível que sua garota-anjo era amiga justamente da sua melhor amiga; que ela havia se materializado bem em sua frente no momento em que estava decidido a encontrá-la a qualquer custo; e que ela é a pessoa que estava prestes a morar na sua casa.
O mundo parecia estar girando mais rápido naquele momento em que pensava sobre essa grande confusão. Mas ele sorriu ao se concentrar na imagem de Hinata. Como ela era linda!
Desde que tomou ciência de que ela existia, tentava desenhar o rosto dela usando como base a voz com a qual sonhava, mas nem mesmo em seus sonhos ele poderia imaginar algo tão perfeito quanto o seu rosto real.
Em sua concepção, Hinata era uma perfeita boneca de porcelana, daquelas raras e valiosas. Agora, mais do que nunca, queria estar com ela para sempre, mesmo que fosse apenas como amigo. Sabia que tinha sentimentos fortes pela jovem, só não sabia nomear ainda o que era e tinha receio de Hinata não sentir o mesmo.
Parecia estranho que ele a tivesse visto apenas naquele dia, mas soubesse qual é a sua cor favorita ou sobre seu hábito em ler, mas ela não saber nada sobre ele. Havia curiosidade no olhar de Hinata, mas também a confusão. Ele sentia reciprocidade de sentimentos, mas conseguia praticamente tatear o receio e creditava aquilo justamente ao dela não saber nada sobre ele.
Por isso, ainda na praia, havia resolvido criar um elo entre eles, uma relação de confiança, para só então poder tocar no assunto sobre as visitas e, finalmente, o que ele seria para Hinata: um grande amigo ou um grande amor.
Encerrou seu banho sorrindo largo e verdadeiro, como há muito tempo não fazia. Diferente de todos os outros dias pós-coma, agora tinha grandes motivos para ser o antigo Naruto.
Enrolou a toalha na cintura e, assim que pisou no quarto, deu de cara com Sasuke sentado em sua cama.
— Que merda Sasuke! Que susto!
— Nem sou tão feio assim. — provocou. — Vou precisar usar o banheiro. Sakura deixou Hinata tomar banho primeiro, a coitada não demorou muito para sair. Porém, Sakura entrou logo em seguida e sabe que quando ela entra no banheiro só um milagre tira ela de lá rápido, né?
— E a Hinata está onde agora? — perguntou Naruto, um pouco ansioso.
— Está no quarto terminando de se ajeitar. Antes de sair do banheiro, peguei minhas coisas e vim para o seu quarto. — disse, sacudindo suas roupas e a toalha para mostrar para o amigo. — Não quero deixar a menina sem graça, já que dá para perceber que ela é bem tímida.
Naruto riu mas não deixou de perceber a cara de poucos amigos de Sasuke.
— Que bicho te mordeu, Sasuke?
Sasuke levantou.
— Ainda pergunta? Você decide as coisas sem nos consultar.
— Se você está se referindo ao fato de Hinata vir morar aqui, Sakura estava totalmente a favor e eu achei bom ajudar a menina. Então são dois votos contra um. — disse Naruto, fazendo os gestos com as mãos.
O Uchiha bufou, não estava acreditando que iria perder a oportunidade de dormir com a namorada. Em trocar o cheiro de flor de cerejeira pelos roncos do Naruto.
— Você ronca sabia? Não vou conseguir dormir no mesmo quarto que você.
Naruto rolou os olhos e deu as costas para o amigo, andando em direção ao seu guarda-roupa. Porém, Sasuke foi atrás.
— Como eu e Sakura vamos…? Você sabe…
Naruto fez uma careta.
— Existe uma coisa chamada motel e vocês podem fazer isso o quanto quiserem. Você combina com ela, sei lá, mas Hinata vai morar aqui. — disse Naruto, encerrando o assunto e pegando suas roupas.
Sasuke entrou no banheiro e bateu a porta.
Naruto bufou. Não estava acreditando que o amigo estava sendo egoísta a esse ponto. Mesmo que Hinata não fosse sua garota-anjo, teria que ajudar a menina de algum jeito. Era perigoso para ela ficar sozinha a noite nos corredores da faculdade. Pensou em Sakura na mesma situação, então porque Sasuke não poderia ceder um pouco?
Naruto saiu do quarto contrariado e foi até a cozinha. Lá, seu coração encheu- se de felicidade quando viu Hinata preparando alguma coisa para comer. Ele ficou parado um tempo, apenas a observando de longe. Estava preparando alguns sanduíches e ela ia de um lado para o outro. Sorriu ao vê-la tão à vontade em sua casa.
Suspirou e qualquer um que visse aquela cena julgaria que era o de um apaixonado. Poderia ficar assim para sempre, apenas a observando.
Resolveu sair de onde estava e foi até ela, sentando em frente ao balcão da cozinha.
— Oi, Hinata!
Ela virou e encontrou as duas safiras lhe encarando com um brilho diferente. Ao mesmo tempo que lhe fez corar, não deixou de sorrir. Naruto era tão contagiante que era impossível não sentir ao menos alegria perto dele.
— Olá, Naruto- kun! Espero que não se incomode de eu estar preparando algo para comermos. — Naruto negou sorrindo. — Sakura me mostrou onde estava tudo, eu queria retribuir a boa vontade de vocês por me receber aqui.
— Não precisa retribuir nada, Hinata. Mas confesso que estou morrendo de fome. — ele olhou para a bandeja de sanduíches. — Posso pegar um?
Como negar alguma coisa a ele com aquele sorriso? Impossível.
— Pode sim! Claro.
Ele pegou o sanduíche e o saboreou. Não sabia se era fome ou o recheio que estava muito bom — ou o fato de ele ter sido feito por Hinata -, mas aquele sanduíche realmente apetitoso, apesar de parecer simples. Não aguentou e comeu mais um arrancando um grande sorriso de Hinata.
— Está muito bom, Hinata. — Naruto falou ainda de boca cheia.
Ela riu.
— Obrigada, Naruto- Kun.
Ele terminou de mastigar e voltou a falar.
— Hoje você dorme no meu quarto, Hina. — Hinata corou, pelo apelido, mas Naruto entendeu errado. — Eu vou dormir no sofá, não se preocupe.
— Até parece que eu vou deixar você dormir no sofá por minha causa. — Hinata disse colocando a bandeja no balcão com o suco e dando a volta para ficar em frente a Naruto.
— Eu insisto!
Ela sentou-se ao seu lado e pegou um sanduíche também.
— Eu que insisto, senão não dormirei aqui hoje. — ela disse antes de morder o sanduíche.
Era uma ameaça idiota, porém ela não poderia deixar Naruto abrir mão do seu conforto por ela. Logo, lhe veio à mente a época em que ele estava deitado naquela cama fria do hospital e seu coração se apertou.
— Você é bem teimosa, né?!
Ela apenas deu um sorriso de lado, pois não queria olhar para ele naquele momento, sabia que iria chorar.
Naruto chegou um pouco mais perto a fim de olhá-la e Hinata se encolheu um pouco, mas logo foram despertados pelos som das vozes de Sasuke e Sakura. Fora salva no último minuto.
— Uma despedida, por favor, Sakura!
Os dois chegaram na sala e sentaram ao lado dos amigos.
— E onde Hinata vai dormir, Sasuke?
— No quarto do Naruto. — Hinata arregalou os olhos e corou. — É só hoje.
Naruto percebendo o constrangimento da menina, resolveu intervir.
— Hinata não vai dormir no meu quarto, Sasuke.
Sakura deu um tapa na cabeça do Sasuke.
— Mas é claro que não, parece doido.
Sasuke não ligou, foi até Hinata e pegou em suas mãos.
— Hina, posso te chamar assim, né?- Hinata assentiu corada. — Eu vou ter que aturar o Naruto roncando todas as noites. — Naruto bufou e Hinata deu uma risadinha. — Por isso, te peço, só uma despedida.
Hinata riu, até parecia que Sasuke nunca mais iria dormir com a Sakura.
Tomou a decisão e sabia que a amiga não iria gostar nada.
— Bom, era sobre isso mesmo que eu estava conversando com o Naruto-kun, eu vou dormir no sofá hoje.
Sasuke sorriu, mas ao mesmo tempo franziu a testa olhando para o amigo.
— Por que não ofereceu seu quarto a ela?
— Eu ofereci, mas ela não quer. Teimosa igual a Sakura-chan.
Os dois riram, Sakura bufou e olhou para a amiga.
— Hina, era para nós dormirmos no mesmo quarto, você não pode dormir nesse sofá duro.
Hinata rolou os olhos.
— Eu não vou quebrar, Sakura. Nem era para eu estar aqui hoje, né? Foi improvisado. Acho importante vocês terem essa despedida, não quero ser o motivo da briga de vocês.
Sakura andou até o sofá e se jogou com raiva. Hinata mais uma vez rolou os olhos, às vezes a amiga era bem mimada.
O fim da tarde ainda tinha aquela tensão de mais cedo sobre quem iria dormir onde. Naruto insistia para Hinata dormir no quarto dele e não no sofá, e Sakura ainda falava aos quatro ventos que não tinha clima para despedidas e que não acreditava que Sasuke tinha sido tão inconveniente com Hinata.
Mas a Hyuuga não cedeu. E Naruto e Sakura se deram por vencidos quando a noite chegou.
Inclusive, a noite estava bem mais agradável quando um filme começou a rodar sem que ninguém realmente prestasse atenção no que passava na tela, uma vez que fluía entre os quatro um bate-papo descontraído em que Naruto começava a descobrir um pouco mais sobre Hinata, enquanto Sasuke se sentia ainda mais sem graça por ter reagido tão mal com a vinda da amiga de sua namorada, que se mostrava uma menina reservada, porém dedicada aos estudos, à família e aos amigos.
Como toda boa noite entre amigos, pediram uma pizza e se divertiram com jogos. Logo a madrugada chegou e o casal foi para o quarto dormir, ou não.
Por outro lado, Naruto e Hinata decidiram por continuar na sala. A menina ficaria por ali mesmo, já o garoto acreditava que ainda poderia convencê-la a ficar com o quarto, enquanto ele poderia perfeitamente permanecer por ali.
— Sono? — questionou o menino.
— Não muito. Mas, olha, se estiver querendo dormir, fique a vontade, Naruto. Estou ótima!
— Não sinto sono. Bom, mas pelo andar das horas, vou pegar algumas roupas de cama já que sua cabeça dura não muda de ideia sobre dormir em um colchão fofinho de molas ensacadas. — sorriu.
— Achei que esse assunto já estava encerrado. — fez uma careta.
— Se fizer essa cara de emburrada novamente, acho que vou continuar tocando no assunto… — nesse momento, as bochechas de Hinata coraram e ela arregalou um pouco os olhos ao encará-lo, desviando logo seu foco. Naruto entendeu que havia falado demais e que talvez tivesse ultrapassado uma barreira indevida. Coçou a nuca e tentou consertar. — Desculpa, é que você fica fofa desse jeito. — disse um pouco sem graça. E Hinata se encolheu um pouco no sofá.
O desconforto dela não era por ele ter sido inconveniente e sim um traço de sua timidez. Ouvir o cara pelo qual havia se apaixonado enquanto ainda estava em coma dizer aquelas palavras, despertava-lhes sensações que nunca tinha sentido. Talvez aquele calafrio no estômago fosse as tais borboletas que sempre ouvira Shion ou Sakura falar, mas que ninguém havia feito florescer nela. Até conhecer Naruto.
— Bom, vou dar um pulo lá no quarto para pegar as coisas.
— Naruto, espere. — interveio. — Mais cedo usei o banheiro da Sakura. Onde fica o social?
— É aquela porta mais ao meio do corredor, em frente ao nosso escritório improvisado. — sorriu abertamente.
— Obrigada.
Os dois acabaram se esbarrando quando tentaram entrar no corredor e ambos sentiram as bochechas arderem, mas continuaram em seus caminhos. O quarto do Naruto ficava ao final dele. Uma suíte grande, composta por um closet espaçoso e um banheiro, além de varanda. A porta do quarto de Sakura ficava a direita para quem estava de frente para o quarto do garoto. Era um quarto com um banheiro menor e sem closet, apenas um bom armário, cama, um sofá e uma escrivaninha.
Um pouco atrás, à esquerda, havia outra porta quase no meio do corredor, era o banheiro social que mais parecia um lavabo. E em frente a ele, havia uma espécie de cômodo aberto, com uma estante na parede ao fundo e uma mesa de escritório.
Assim que saiu do banheiro, Hinata se deparou com aquele local. Se aproximou, acendeu a luz e analisou. Não era nada muito grande, mas avaliando com cuidado, caberia perfeitamente uma cama, um armário menor apenas para guardar suas roupas e uma mesinha de estudos. Ela poderia usar o banheiro social tranquilamente e, com alguma sorte, nunca mais precisaria se preocupar com a cara de poucos amigos de Sasuke.
Hinata voltou para sala pensativa e se deparou com Naruto ajeitando a roupa de cama na poltrona para em seguida abrir o sofá para ficar mais aconchegante. Devido a seus pensamentos, a menina não conseguiu reparar que o rapaz havia lhe trazido pelo menos três travesseiros e uma manta grossa para uma época do ano que nem era tão fria assim, muito pelo contrário.
— Está tudo bem, Hinata? — questionou ao vê-la aérea.
— Ah, sim. Está tudo bem.
Naruto, então, continuou a encarando como se pedisse que ela falasse o que se passava em seus pensamentos. Naquela posição em que estavam, era notória a diferença de altura entre os dois, o Uzumaki deveria ser pelo menos uns 20 centímetros mais alto que a Hyuuga.
— Naruto?
— Sim! — se inclinou um pouco mais à frente sem que percebesse. Desde que saíra do banho e encontrara com Hinata na cozinha, ele havia notado que o cheiro dela o atraía feito imã. Lutava há algumas horas para disfarçar a vontade enlouquecedora de se aproximar cada vez mais dela.
— Aquele vão ali no corredor… digo, aquele espaço que vocês usam como escritório...
— O que tem ele?
— Algum dia aquilo já foi realmente um cômodo?
Naruto ficou um pouco pensativo, tentava entender onde a menina queria chegar. Forçou um pouco o pensamento e lembrou que o dono anterior informou, durante a compra do móvel, que a planta do apartamento previa que aquele espaço fosse um quarto reversível.
— Não sei dizer ao certo. Mas, pela planta da casa, ele pode ser utilizado como um quarto reversível. — coçava o queixo tentando encaixar as peças.
— Então é isso. — ela concluiu e Naruto a olhou questionador.
— Isso o que?
— Posso ficar com o escritório? Podemos colocar uma divisória ou algo do tipo, assim o Sasuke não precisa sair do quarto da Sakura. Digo, isso se não for atrapalhar vocês, é claro. Eu não quero ser um incômodo para nenhum de vocês. — finalizou com a voz quase baixa.
— Ei, Hinata. Mas o que é isso? — disse, levantando suavemente o queixo da menina com os dedos. — Você nunca será um incômodo para qualquer um de nós. Faço super gosto em poder te ajudar. Sakura também. Jamais poderíamos permitir que você continue passando pelo que está passando. Tê-la correndo perigo não é uma opção, nem que para isso eu tenha que acordar todos os dias com o mau humor insuportável daquele Uchiha maldito.
Hinata riu com os olhos marejados. Se Naruto soubesse como aquelas palavras significavam tanto para ela porque eram justamente pronunciadas por ele. Mas o Uzumaki não tinha a mínima noção e ela não tinha coragem para revelar.
— Eu acho que será um quarto muito pequeno, Hinata. Meu único receio é que fique desconfortável para você. Mas se faz questão, é claro que pode ficar com o escritório. Só que tem uma condição.
— Que seria…
— Vai me prometer que se ficar muito pequeno ou muito desconfortável você irá me avisar e iremos trocar de quarto. Se não me avisar e eu perceber, também está valendo. Combinado?
Hinata rolou os olhos. — Você está rolando os olhos para mim, Hyuuga Hinata?
Ela sorriu abertamente. — Se eu for levar a sério essas preocupações de vocês, fico mal acostumada. Eu me ajeito em qualquer canto, precisam parar com isso. — deu risinho anasalado. — Mas está combinado, Uzumaki Naruto.
Os dois se abraçaram e ambos, em pensamento, desejavam que aquele momento durasse muito tempo. Podiam ficar naquela posição para sempre, julgaram. Mas os muitos questionamentos silenciosos foram responsáveis pelo ato ser desfeito.
Nos minutos que se passaram, zapearam a tevê a cabo e pararam no canal que passava o filme “E se fosse verdade...”. Hinata havia perdido as contas de quantas vezes havia lido o livro “Et si c'était vrai” de Marc Levy que baseou esse filme e o quanto de lágrimas havia despejado por eles, em meio às gargalhadas por conta das trapalhadas que envolviam David e Elizabeth.
Ali, ao lado de Naruto, o filme que falava sobre o amor superando qualquer barreira, inclusive a doença e um coma, ganhava um novo sentido, afinal o sentimento que ela nutria em segredo pelo rapaz começou justamente durante um período de enfermidade, o mesmo vivido por Elizabeth. E será que ela também venceria as barreiras impostas por toda aquela situação?
Naruto ficou dividido entre prestar atenção na história e prestar atenção nas reações de Hinata. A verdade é que ele também estava se identificando com os protagonistas, sabia que alguém o visitava, ainda ouvia a voz em seus sonhos e era exatamente a da menina ao seu lado. Ou sua mente estaria lhe pregando uma grande peça?
Aproximou-se um pouco mais de Hinata, que acabou por deitar a cabeça no ombro do rapaz. A ação fez com o que o cheiro de lavanda que saía de seus longos cabelos invadisse as narinas de Naruto. E ele queria muito aproveitar mais daquela companhia, mas foi vencido pelo cansaço e o sono, assim que o ato final do filme se deu, e ele adormeceu desejando que o mesmo acontecesse com ele e a Hyuuga.
Hinata sorriu ao vê-lo dormir e, puxando a coberta para eles, apenas se aconchegou ainda mais em seu ombro, segurando a mão do rapaz ao seu lado discretamente. Ela pensava que se tudo aquilo fosse um sonho, não gostaria de acordar tão cedo.
E a noite seguiria tranquila, se o sono da garota não começasse a ficar agitado demais. Era quase de manhã, quando Hinata começou a se remexer no sofá inquieta e seu corpo começou a suar. Tais movimentos fizeram com que Naruto sentisse o peso da garota contra si e despertasse lentamente.
Julgou que, talvez, ela estivesse incomodada com a posição em que adormecera. Abriu os olhos e decidiu por deita-la da forma correta no sofá, ligar o ar condicionado e ir para o seu quarto, para que ela ficasse confortável.
Quando saía devagar, percebeu que ela segurava a sua mão. O sorriso já formava em seu rosto, encantado por aquele gesto, quando o aperto se tornou mais forte.
— Acorda, Naruto-kun… — Hinata disse bem baixinho.
Naruto riu, a menina estava falando dormindo.
— Eu estou acordado, você é que esta dormindo. — ele disse ainda rindo, brincando com a menina como se esperasse uma resposta.
Porém, Hinata franziu a testa e ficou ainda mais agitada.
— Por favor, acorda Naruto-Kun, por favor. Fica comigo.
Naruto franziu a sobrancelha e poderia jurar que seu coração falhou três batidas. Aquilo parecia muito familiar.
— Naruto, por favor, reaja! — falou um pouco mais alto. — Você precisa dar um sinal, alguma coisa. — a dor desenhada em seu rosto. — Por favor, vamos.... eu estou aqui!
Os olhos de Naruto se arregalaram e ele então entendeu: Hinata estava sonhando com ele no coma.
Seu olhos marejaram e ele não pôde impedir que as lágrimas caíssem. Ela realmente era a sua garota-anjo. Ao mesmo tempo em que se sentia feliz por essa constatação, o sinal que ele precisava, a tristeza se abatia sobre ele. Vendo-a ali, com o semblante em angústia devido a lembrança que estava tendo em sonho, se questionava até que ponto o que aconteceu com ele atingiu Hinata. Ele a fez sofrer?
Ele limpou as lágrimas e segurou com força a mão de Hinata, levando-a aos lábios, deixando ali um beijo.
— Eu estou com você agora, Hinata. Sempre estarei aqui!
E ali permaneceu, acabou por dormir no chão de frente para o sofá, ainda de mãos dadas com a sua garota-anjo.
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