Meu Querido Cunhado
16 Capítulo 16 - Teimosia
Notas iniciais
Acordei da minha divagação, me levantando da areia. Meu celular vibrou, era uma mensagem de Alexandre, avisando que chegaria dali a dois dias de viagem. Ele estava passando as férias naquele mesmo hotel onde nos conhecemos. Alexandre e eu viramos bem amigos, só amigos. Eu deveria ser a única amiga de verdade dele e bem. As outras era amigas com ‘benefícios.’ Alexandre tinha algo que atraia mulheres, era super galinha, mas comigo ele era um amor. Se tornara meu melhor amigo, alguém com quem sair, que me apresentara a colegas que me chamavam pra um passeio de vez em quando, me tirando da minha apatia e solidão. Embora nenhum desses colegas fosse considerado meu amigo, só colegas. Eu não conseguia confiar em ninguém. Alexandre era a única exceção, masculina e humana do meu verdadeiro horror a pessoas. Na medida do possível, vivíamos por aí, implicando um com o outro desde que bem... Desde que eu mudei para a casa de minha mãe.
Claro que me acostumar com a nova rotina e o modo mais controlador da minha mãe não foi fácil, ela sempre vigiava meus passos e tentava ser participativa, o que meu eu antigo tinha horror, mas eu acabei superando. Meu pai tem um novo filho, um menino, de alguns meses. David, eu acho. Cristina parece ter amadurecido, porque na última vez que eu a vi ela acabou sendo gentil comigo, embora eu ainda ache que foi para impressionar meu pai. Sobre as férias do ano passado, só Alexandre sabia delas. Para minha mãe e colegas, eu tinha sofrido uma decepção amorosa e só. O fato de ser estranha me afastar das pessoas não era justificado por causa de férias e um garoto idiota. Bem, era isso que eu dizia a eles. Querendo, ou não, o conhecer me mudou. Mas eu já tinha superado isso também. Ou era isso que eu gostaria. Era isso que tentava me convencer.
Chequei minhas mensagens no celular mais uma vez, havia algumas de minhas ‘colegas’, mas nada específico. Coisas sobre a escola. Entediada e ainda meio melindrada com a conversa com Igor, resolvi voltar para casa e além do mais eu estava com fome e nem tinha dinheiro no momento. O céu escurecia ainda por cima, um belo lembrete que eu devia chegar em breve em casa antes que começasse a chover. Mas nessa altura, ao relembrar tudo, de maneira quase apática, já chovia dentro de mim.
**
Entrei em casa, avistando os pés de Ceci no sofá. Respirei fundo, já me preparando. Ela estava assistindo televisão, alguma série provavelmente, parecia entretida, mas olhou para mim enquanto eu passava.
– Já almoçamos. – Ela avisou, quando eu estava prestes a ir para meu quarto.
– É, eu percebi. São quase 4 horas.
– Não vai comer nada? Posso fazer algo para nós...
– Não. Não estou com fome. – Na verdade, eu estava com fome, mas eu sabia o que significava esse convite de Ceci. Significava que ela queria conversar comigo, algo sério. Por isso ela cozinharia, como para compensar. Minha irmã podia ser bem previsível. E além do mais, ela estava parecendo mais com ‘ nova namorada de Igor’ do que ‘minha irmã mais velha’. Estar ciente disso me deixava angustiada e talvez um pouco irritada, mas procurei deixar pra lá. Tudo isso não tinha nada a ver comigo agora.
– Eu faço questão. Vai Malu, me deixa fazer algo pra nós, por favor? – implorou ela, os olhos castanhos parecendo ainda maiores. Suspirei, vencida. Sabendo que não poderia escapar disso de qualquer maneira.
– Ta bom, então. – Ela levantou do sofá em um pulo e eu a segui para a cozinha. Sentando no balcão e vendo-a preparar as coisas.
– Malu... O que você achou do Igor? – revirei os olhos, já esperando algo assim.
– É obrigatório responder essa?
– Essa e todas que virão. – gemi contrafeita. Ela me olhou, esperando a resposta. Respirei fundo, procurando um adjetivo chegasse a condizer com Igor. Tentando passar longe de coisas negativa,s que a deixariam irritada e blá blá.
– Ele é... Normal.
– Normal?
– É, ele é normal.
– Você odiou ele, não é? Nem adianta negar, eu vi como você ficou distante, como se ele fosse indesejável. Como se você quisesse nunca tê-lo conhecido. – Ela tagarelou, parecendo um pouco irritada. – E isso só na primeira vez que ele veio aqui. E eu me pergunto... Porque você odiou ele? O que ele tem de errado? O que há de errado com você? Com nós? O que ele fez?
– São muitas perguntas.
– Porque tratou ele como indesejável? – Ela disse, fazendo a pergunta mais difícil, e pegando os ingredientes para um super sanduiche á lá Ceci e começou a cortar o pão.
– Talvez porque ele seja indesejável. – sussurrei baixinho, totalmente irônica. Fiz cara de paisagem ao me deparar com o olhar bravo de Ceci. Respirei fundo, a encarando. – Certo. Eu não tratei ele mal, eu só... Não tratei ele bem. Foi meio termo, normal ué.
– Você o ignorou totalmente! – Ela acusou. Só podia ser brincadeira isso. – Ele tentou fazer amizade com você.
– Ponto pra ele! Causou boa impressão em você. O que mais importa?– olhei para a lâmpada, tentando me concentrar em qualquer outra coisa e não nas qualidades que eu conhecia dele.
– Você poderia ter sido mais legal com ele. Bem mais legal!
– Coitadinho... Tendo que lidar com a cunhada problemática. Tadinho, tadinho.– ironizei. Ela passou maionese nos sanduíches com força demais.
– Não é questão de você ser problemática. Isso todo mundo sabe que você é.
– Obrigada pela parte que me toca. – coloquei a mão no coração, me curvando em agradecimento. Isso pareceu a irritar ainda mais.
– É só que... Ele não merecia isso. Você poderia ter sido mais legal. – olhei para ela indignada. Já estava sendo extremamente difícil não quebrar a cara dos dois e ainda tenho que ouvir isso?
– Você tem sorte de eu falar com ele. Então... Não enche. – pulei do balcão, chateada e morrendo de raiva.
– Os sanduíches! – Ceci gritou. Quando eu já estava na porta do meu quarto.
– Guarde para o bom garoto que é seu namorado! A irmã problemática e malvada não merece! – bati a porta com força, sentando na cama e abrindo meu livro com violência. Completamente indignada com toda essa situação.
Ouvi uma batida de leve na porta, ignorei. A cara de Ceci apareceu na porta e ela acabou entrando. Com o prato de sanduíches e um copo de refrigerante numa bandeja. Ela se sentou na cama.
– Olhe, desculpe. Eu exagerei. – continuei a ignorando, querendo encerrar essa conversa de vez. – É que eu gosto dele! E queria que ele gostasse de você e você dele também. – A olhei por cima do livro. Tolinha, não fazia ideia do que estava falando. – Eu quero que dê certo e fico preocupada.
– Ceci, eu sou sua irmã, ele é um namorado. Você terminou com milhares de namorados. Mas a mim você não pode se livrar, nem jogar no lixo.
– Tecnicamente, jogar no lixo eu posso. – Ela sorriu. – Te joguei dentro de uma lixeira quando você tinha 6 anos.
– Ok. Aí está a prova que minha irmã é uma psicopata. – Ela soltou uma risadinha.
– Certo. Voltando... – revirei os olhos. – Eu gosto dele.
– Você já disse isso... – cantarolei.
– Ele é perfeito.
– Não é não. O nariz dele é meio tortinho... – apontei para meu nariz, querendo explicar melhor. Ela fez uma careta.
– Malu! Você nem ao menos se esforça pra gostar dele.
– Me desculpe, mas se espera que eu saia por aí dizendo o quão meu ‘cunhado’, você nem faz ideia do quão estranho é dizer isso, é maravilhoso... Desista.
– Tudo bem, não estou esperando que virem super amigos... agora. – fiz uma careta ante essa possibilidade. – Mas você pode tentar conhecê-lo melhor.
– Não tem como conhecer ele melhor. Eu já conheço. – Bem demais até.
– Como não?
– Oras... Hãn... – procurei pensar numa boa resposta, estava difícil. – O nariz dele é torto, já sei tudo que me interessa saber em um garoto.
– Quer dizer que Alexandre é seu amigo porque o nariz dele é retinho?
– Óbvio. Eu me relacionar com gente de nariz torto? – ironizei, fazendo graça. – Aff, que espécie de pessoa eu seria?
– Me diz que você ta brincando.
– Mas é claro que não! – tentei ocultar meu sorriso debochado por trás do livro.
– Maluu! – Ceci chioou.
– Ai Ceci. Vamos parar com essa conversa? – Estava cansada disso.
– Amanhã é o encontro entre namorado, namorada e irmãs chatinhas. E eu estou preocupada.
– Não se preocupe. Serei uma dama.
– É disso que tenho medo. Você não vai ser uma dama. – Ceci me conhecer bem demais, na maioria das vezes era um saco. Ela era um saco. Teimosa, insistente e chata. – A última coisa que você vai ser é uma ‘dama’.
– Eu estou com fome e ficando irritada com essa conversa. – Decidi cortar o assunto, que estava se estendendo demais. A opção suicídio parecia cada vez mais agradável. Tudo pra não precisar ouvir as insistências de Ceci. – Depois nos falamos.
– Não, vamos continuar agora.
– Maria Cecília. Se continuarmos essa conversa, amanhã vai ser o pior encontro da sua vida! – ameacei. – E você sabe que sou mesmo capaz disso.
– Tuudo bem. To saindo! Bom apetite.
– Obrigada.– Ela se levantou da cama e foi para a porta. Antes de sair ela se virou para mim.
– O nariz dele não é torto!
– Continue se iludindo... – Ela mostrou a língua antes de sair. Eu ri baixo antes de morder meu sanduiche. Começando a pensar nele. Tomei um gole de coca. Irritada comigo mesmo. Não conseguindo impedir os pensamentos e aquela constatação. – Droga! Ela tem razão... O nariz dele não é torto.
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