O maior hobby dele era fotografar. O segundo maior era escrever. De matemático ele tinha muito pouco, eu sempre achei que ele deveria ter sido meu professor de gramática ou redação. Minha mãe também achava isso... Aliás, todos achavam isso. Até minha pequena irmã Alice sabia muito bem que Mr. Dogson era um incrível escritor.

Pelo que sei, papai e mamãe sempre tiveram afinidade com a família Dogson. Meu pai, Mr. Liddel, era o gerente do banco nacional da Inglaterra e mamãe era uma típica senhora de casa que nada fazia além de cuidar dos filhos e procurar bons partidos para as garotas.

Quando fiz 15 anos passei a estudar na St. Eugenius para garotas, onde por um acaso Charles dava aula de... Matemática. Mesmo me conhecendo desde que eu era um bebê ainda dentro da barriga de minha mãe, dentro da sala de aula ele me tratava como Miss Liddel, apenas mais uma de suas alunas pouco interessadas em sua álgebra ou trigonometria.

Naquela noite mamãe nos arrumara cuidadosamente, mas não nos contava o motivo. Adam, meu irmão mais velho, estava vestido em um fraque excelentemente passado. Alice vestia seu lindo babado branco e seu cabelo não tinha um fio fora do lugar. Eu, por outro lado, parecia estar vestida para um casamento, ou quase isso. Meu vestido comprido tinha um leve tom de amarelo e minhas luvas de renda pinicavam.

No meio do caminho percebi para onde estávamos indo. Não era difícil adivinhar já que a casa dos Dogson era a mais afastada do vilarejo. Ao longe via as luzes inconfundíveis da casa velha onde jantávamos costumeiramente.

- Mr. Dogson! – Alice exclamou e em um salto saiu do carro em direção ao velho amigo da família.

Este lhe pegou no colo e a abraçou, lançando seu velho sorriso para meus pais.

- Charles. – Meu pai disse de braços abertos enquanto caminhava até o amigo.

Era fácil ver a diferença de idade entre os dois. Meu pai já era um senhor grisalho com bigode desgrenhado e uma barriga saliente. Charles por outro lado era jovem, cerca de 30 anos, com seus cabelos escuros devidamente penteados e um rosto liso como o de um bebê.

- Arthur. – Mr. Dogson o cumprimentou, em seguida apertando a mão de meu irmão.

Adam parecia ser o único que tinha aversão aos Dogson na minha família. Não sei exatamente o porquê, mas nem tinha curiosidade o suficiente para lhe perguntar.

- Mrs. Liddel. – Charles beijou as costas da mão de minha mãe e em seguida fez o mesmo comigo. – Miss Liddel.

Foi inevitável sorrir diante de seus olhos misteriosos. Ele tinha alguma coisa de diferente, algo que eu mesma não conseguia decifrar e achava que se o fizesse perderia toda a graça de desfrutar da companhia de meu professor favorito.

Quando adentramos a mansão percebi o real motivo pelo qual estávamos lá e porque mamãe me vestiu feito um pavão. Sentados à mesa do jantar estavam mais três cavalheiros, todos provavelmente com a minha idade.

- Venham, — chamou Charles indo na direção dos três. – vou lhes apresentar meus primos de Londres.

Os três rapidamente se levantaram de seus acentos e cumprimentaram um por um de nossa família.

- Este é John, — Charles me apontou o primeiro, o que tinha um cabelo tão loiro que quase parecia branco.

- Prazer em conhecê-la, Miss Liddel. – Então tocou seus lábios finos em minha mão, quer dizer, na minha luva de renda.

- Este é Nicholas.

Um rapaz de cabelos tão escuros quanto Charles, mas de olhos encantadoramente azuis, aproximou-se. E por último o mais comum de todos os três. Não tinha cabelo loiro nem olhos azuis, mas tinha o sorriso mais sincero e foi o que, de longe, me encantou de verdade.

- E por último, Harry.

- É um prazer conhecê-la, Miss Liddel – Harry disse depois de deixar um beijo em minha mão – Charles nos falou muito de você.

Naquela noite não pude evitar lançar olhares repreensivos para meus pais. Sei muito bem que com 15 anos minha mãe já estava casada e já tinha tido o primeiro filho, James. Este, coitado, morreu na guerra. Que Deus o tenha. Mas voltando ao assunto principal: mamãe não parava de comentar o quanto eu era boa tocando piano, que sabia costurar ternos muito bem, que tinha mãos ótimas para bolos, que tinha uma voz encantadora e que de fato seria a esposa perfeita pra qualquer um. Aí eu tive que franzir o cenho e direcionar aquele olhar fulminante para Charles, que em resposta apenas sorriu de canto, tímido, e baixou o olhar para seu prato.

Alice hora ou hora abafava uma risada ao meu lado e eu tinha vontade de beliscar seu bracinho fino, mas ai eu contava até dez mentalmente e lembrava que a culpa daquilo tudo eram de meus pais e não da minha pequenina irmã inocente. Adam se quer abria a boca pra falar alguma coisa, mas eu podia sentir que ele estava tão insatisfeito quanto eu.

Terminado o jantar Charles nos levou até a sala de estar onde fomos servidos de café e chá por suas empregadas. Mamãe ainda continuava com suas frases comprometedoras, tentando fazer de mim um produto no mínimo desejável. Pena que minha educação não permitia levantar e dizer que eu não estou à venda muito menos á procura de marido. Papai me deserdaria caso fizesse isso.

- Mr. Dogson, posso ver suas fotografias? – Alice perguntou em sua vozinha fina.

- Claro, Alice, — Charles se levantou de sua poltrona. Sua expressão em apavorou porque eu sabia o que ele estava prestes a dizer. – Por que não leva os rapazes pra conhecer o jardim enquanto isso, Helena?

O mundo estava conspirando contra mim... Ou melhor, meus pais e o Mr. Dogson. Não tinha a menor chance de eu levar John, Nicholas e Harry por um passeio no jardim da mansão enquanto Charles mostrava suas incríveis fotografias para a minha irmã mais nova.

- Claro, — eu disse enquanto sorria – porque não?

De fato o jardim dos Dogson era o mais lindo de todos que eu já tinha visto. Flores de todas as cores possíveis enfeitavam a fonte de mármore branco. Cerejeiras floridas davam sombra a dois bancos do mesmo mármore da fonte. Um caminho de pedras levava até um bosque que de dia já era escuro, de noite me arrepiava.

O silêncio me irritava. Ninguém arriscava uma só palavra e mesmo eu não sendo nem um pouco tímida – na verdade é exatamente o contrário – eu não tinha vontade de conversar naquele momento. A raiva momentânea por meus pais ainda pulsava em minhas veias.

- Então... – Nicholas arriscou um assunto. – Sua família e meu primo são amigos desde sempre.

Não era um pergunta, ele sabia muito bem a resposta. Só queria que eu dissesse alguma coisa.

- Sim, Charles conhece meus pais antes mesmo de eu nascer – sorri um sorriso falso em sua direção.

Sentei-me num dos bancos ajeitando o saiote e indicando que não queria mais conversas. Uma frase já tinha sido mais do que o suficiente. Porém, de alguma forma, Harry pareceu perceber e concordar. Seu sorriso de canto fez meus olhos não conseguirem desviar enquanto ele arrancava uma flor de um galho baixo de árvore e se aproximava de mim.

- Sabe... – Ele sentou-se ao meu lado. – Eu me sentiria da mesma forma em seu lugar.

E ainda com o sorriso no rosto colocou a flor da cerejeira em meu cabelo, como uma fivela natural. Seus olhos tinham o mesmo mistério que os de Charles tinham e por isso não consegui desviar os meus dos dele.

- Aposto que casar não estava em seus planos, — Ele sorriu e desviou seu olhar, passando a encarar os próprios pés. – Pelo menos não nos próximos cinco, ou seis anos.

Não sei como eu podia estar sem palavras. Eu sempre fora falante, tinha respostas pra tudo na ponta da língua. Estava me perdendo em meus pensamentos confusos, já que tudo passava rodando diante de meus olhos.

- Bom, acho que vamos entrar – John disse puxando o primo, Nicholas, pelo braço. – Se precisarem da gente, é só chamar.

Pude perceber um sorriso mais discreto se formar no rosto de Harry depois que os outros dois sumiram de vista. Foi quando finalmente saí do transe, da hipnose que os olhos castanhos de Harry empunham aos meus.

- Por que ri? – Perguntei com certa curiosidade.

- Por nada... – Ele disse me encarando novamente. – É só que...

- Você ganhou, não é? Quer dizer... Você, Nicholas e John provavelmente decidiram que o primeiro que me deixasse sem falas poderia me levar pro altar e ter uma vida inteira ao meu lado. – Há essa hora já falava tão rápido quanto Alice e meu tom parecia nervoso.

- O quê? – Harry perguntou indignado. – Não!

- Tudo bem que meus pais também não me deram muita escolha... – Eu o interrompi, levantando-me e ajeitando o saiote mais uma vez.

- Combinamos que deixaríamos você escolher – Ele elevou a voz para me fazer ouvir.

Meus insultos pararam na hora. Eu ainda estava de boca aberta quando analisei o que tinha escutado.

- Combinamos também que não a forçaríamos de nada. Quer dizer, sabemos como é ser pressionado pelos pais a casar-se com alguém que acabou de conhecer. Sabemos também que uma garota como você ainda prefere os irmãos aos rapazes e que provavelmente tem alguém muito mais importante que nós lhe esperando em algum lugar.

- E-eu não disse isso. – Desviei de seu olhar.

- Não se sinta pressionada, muito menos culpada. – Harry tocou meu rosto. – Terei um verão inteiro pra te conquistar.

E então seu sorriso tímido passou imediatamente para um desafiador, algo que quase não fui capaz de resistir.