A manhã seguinte surgiu como uma faca cortando minhas pálpebras. Edgar já não estava mais do meu lado, no entanto eu ainda dormia na cama de dossel. Levantei-me só para perceber que estava com a maior dor de cabeça do mundo. Queria voltar a dormir, mas o sono já não existia mais.

Vesti um roupão e desci as escadas cuidadosamente. Queria fazia o mínimo de barulho possível. Fui até a cozinha só para encontrar Alice com Edgar no colo, alimentando-o com bolachas e mel. Sorri... Aquela era a cena mais bonita que já havia visto. Permaneci quieta, não queria interromper, mas mesmo assim minha irmã me vira.

- Pelo jeito ele gosta de mel, — Alice riu vendo Edgar lambuzado até o nariz.

Eu ri. Caminhei até os dois. Edgar estendeu seus braços finos em minha direção. Ele queria o meu colo. Peguei-o sem dificuldade alguma e sentei-me na cadeira ao lado de Alice. Edgar encarava sem vergonha sua tia, que ainda entregava bolachas em suas mãos.

- Ele é um doce, — Ela riu quando meu filho colocou a bolacha inteira na boca. – Mal posso esperar para ter meu próprio filho.

Olhei-a um pouco repreensiva. Sabia que toda mulher tinha instinto maternal, mas talvez o meu fosse não só para com Edgar como também com Alice. Não conseguia imaginar minha irmã mais nova sendo mãe de uma criança.

- Não é fácil, — eu comentei. – Passei noites em claro por causa de Edgar. Não é uma coisa da qual me arrependo, aliás, é algo do qual sinto o maior orgulho. Eu o amo mais do que a minha própria vida...

“Eu o amo mais do que a minha própria vida...” Essa frase ecoou em minha cabeça. De repente eu a estava ouvindo a sete anos atrás.

Um silêncio reconfortante se instalou na cozinha. Edgar balançava os bracinhos cada vez que via Alice se aproximar com uma nova bolacha, e minha irmã sorria toda vez que seu sobrinho colocava uma na boca. Até que ela tomou coragem para perguntar aquilo... Algo que provavelmente esteve em sua cabeça a noite toda.

- Helena, — ela me chamou, estava um tanto cautelosa. – O que exatamente aconteceu ontem, entre você e Charles?

Só a menção de seu nome foi capaz de me deixar com dor de cabeça, mas eu creio que devia uma explicação para Alice... Ou no mínimo uma desculpa. Acariciei os cabelos de Edgar, tentando encontrar em meu filho a coragem que eu precisava para contar tudo a minha irmã.

- Não é algo para se discutir agora, — eu respondi. – Muito menos aqui.

- Mas... – Ela tentou me convencer de me abrir.

- Confie em mim quando eu digo que este não é um assunto trivial, — desviei o olhar.

Ela se calou. Estava claro em seu rosto que surgiu um medo inexplicável dentro de si. Queria me abrir com ela, queria que ela soubesse de tudo o que acontecia comigo, tudo o que eu sentia e como meu passado tinha um peso delicado. Queria que ela soubesse que nada era como antigamente, como quando nós duas gastávamos nossas tardes colhendo flores no jardim da mansão Dogson. Mas era simplesmente impossível me abrir com ela daquela maneira. Sete anos, afinal, é muito tempo.

Naquela tarde Harry queria visitar seu primo. Eu devia esperar por isso. Logo vesti Edgar em sua melhor roupa, fiz o mesmo comigo mesma e acompanhei meu marido até a mansão Dogson. Era claro que eu não estava nada bem, no entanto eu fingia com veracidade de que tudo não passava do normal. Éramos só um casal de velhos amigos de Charles Dogson.

Meu antigo professor nos recebeu na porta. Pareceu nem me notar ao lado de Harry, no entanto me cumprimentou cordialmente quando lhe ofereci minha mão coberta por uma luva rendada. Ao subir o olhar para meu colo, dando de cara com uma criança de um ano, Charles pareceu prender a respiração... Harry comentou sorridente:

- Este é meu filho, Edgar, — Harry tirou então o menino de meus braços e entregou-o nos braços e Charles. – Um menino forte, este Edgar. Tem a vitalidade da mãe.

- É uma criança encantadora, Miss Kingsley, — Charles comentou enquanto Edgar brincava com seu dedo indicador.

Sorri em resposta. Com o tempo em Londres, aprendi a ser o mais reservada o possível. Era uma característica marcante das irmãs de Harry. Adentramos a mansão, onde Charles nos guiou até a velha sala de música. O piano ainda descansava encostado na parede.

- Então, primo – Harry começou. – Fiquei sabendo que publicou um livro.

- Sim, — Ele disse, devolvendo Edgar para mim. – Alice no País das Maravilhas. Uma bela história, em minha opinião humilde. A mesma que vocês ouviram anos atrás.

- Lewis Carroll, han?! – Harry brincou. – De onde tirou esse nome?

Charles não respondeu. Apenas abafou uma risada com o nariz. Ele sentou-se na poltrona. De repente um raio de lembranças passou diante de meus olhos. Era como se tudo naquela sala ainda permanecesse igual, inclusive ele, ali sentado na poltrona. Mas alguma coisa estava diferente: o porta-retratos na mesinha ao lado. Antes inexistente, agora portava uma linda foto de uma garota de cabelos escuros. Era quase impossível não reconhecer minha irmã mais nova ali. Suspirei, quase que inaudível.

Ele e Harry conversaram por mais três horas. Charles sempre se mantendo reservado, às vezes até expressando uma espécie de medo. Eu, no entanto, permanecia extremamente silenciosa, tentando fugir a atenção do rosto rígido de Charles para os cabelos macios de Edgar.

Quando finalmente pareciam ir se despedir, Harry se levantou, pedindo orgulhoso para ver o livro de Charles. Este, no entanto, teve de ir até a biblioteca, no piso superior da mansão, para buscar o livro. Sugeri que Harry o acompanhasse, pois ficaria aqui em baixo, carregando um Edgar, agora adormecido em meus braços.

Os dois deixaram a sala de música. O local todo no mais absoluto silêncio, exceto pela respiração pausada de meu filho. Queria ver aquela foto mais de perto, queria ver todos os seus detalhes. Era uma foto recente, Alice não devia ter menos de treze anos quando tirada. Peguei o porta-retratos dourado com meus dedos finos. Sentia os adornos e detalhes da moldura gelando na palma da mão. A fotografia em si estava em perfeito estado e Alice estava no jardim da mansão Dogson. Ostentava o mais belo sorriso que eu já vira. No entanto a fotografia parecia mal posicionada no retrato, como se houvesse algo entre ela e a moldura. Retirei o fundo de madeira, deixando cair outro pedaço de papel no chão. Estava dobrado em milhões de partes, como se quem tivesse feito aquilo quisesse esconder seu conteúdo.

Desdobrei, ansiosa, o papel. Espera encontrar um bilhete ou até mesmo uma carta, mas ao invés disso me deparei com outra fotografia. Essa, no entanto, era velha e tinha se desgastado com o tempo. As marcas das dobras comprometendo toda a sua beleza. Mesmo assim ainda consegui reconhece-la.

A jovem, cabelos castanhos presos num coque mal feito. Uma camisola de linho. Ela estava em frente ao piano, com os dedos finos repousando nas teclas amareladas do instrumento. Era eu... Há sete anos, quando numa noite de insônia toquei a canção de ninar de Alice no piano de Charles. E ele ainda guardava aquilo.

Ouvi passos e vozes se aproximando da sala de música. Devolvi o porta-retratos à mesinha, mas guardando comigo a minha foto. Harry e Charles entraram logo em seguida. Meu marido andou até mim trazendo um livro em mãos. Depositou um beijo em minha testa e, ao perceber Edgar dormindo em meus braços, sugeriu que fossemos embora.

Ainda pude ver Charles nos observando da porta até sumirmos com o carro pela estrada que levava de volta ao centro de Cheshire. Tive a sensação de que ele permaneceria ali por muito mais tempo, como se estivesse esperando que nós voltássemos...

Naquela noite, depois de colocar Edgar para dormir, me deitei com Harry no quarto de hóspedes.

- Ah, Charles, Charles... – Harry riu. – Aquele velho Charles. Escrevendo um livro. – Ele comentou enquanto olhava a capa de Alice no País das Maravilhas. – Você podia imaginar que ele publicaria essa história, Helena?

Sim, no fundo sempre tive essa certeza.

- Não, — eu ri. – Charles é cheio de surpresas.

- De fato, — Harry concordou. Depois se virou para beijar meus lábios e dormir. – Boa noite, querida esposa.

- Boa noite, — respondi.

Naquela noite, antes de cair no sono, li Alice no País das Maravilhas.