Sete anos. Há sete anos que não volto para Cheshire. As coisas por aqui ainda estavam da mesma maneira quando fui embora para Londres. Tudo ainda parecia intacto, esperando pela minha volta. Talvez tenha sentido que a forma com a que fui deixara cicatrizes imensas em mim. Respirei fundo. Harry e eu pretendíamos voltar mais cedo, mas a vida foi parecendo não nos dar oportunidades.

Logo depois do casamento nos mudamos para uma casa nos arredores de Londres, o mais longe possível da casa da família do meu recém-marido. Um ano depois, quando mamãe já estava ficando impaciente com nossas faltas de visita, eu fiquei grávida, mas por um fatal destino, acabei perdendo meu filho antes de completar seis semanas. No entanto fiquei doente por mais dois anos até me recuperar de uma severa anemia. No ano seguinte, quando planejávamos novamente visitar meus pais em Cheshire, Harry fora promovido a um cargo de destaque dentro do banco, e acabamos por ter que esperar mais um ano.

Eis que nesse ano eu fiquei grávida mais uma vez, e depois de nove longos meses de cama, nasceu Edgar, um garotinho de cabelos castanhos e olhos escuros, a imagem cuspida de Harry. O pequeno já tinha um ano quando resolvemos visitar mamãe e papai, até porque ambos agora tinham um neto.

Desci do carro com a ajuda de meu marido, enquanto cuidadosamente carregava Edgar no outro braço. Ele dormira em meu ombro, e nem fazia sinal de que ia despertar. Mamãe veio correndo em minha direção e, ignorando completamente a presença de Harry, segurou meu rosto fortemente, dando-me um beijo caloroso.

- Oh, Helena, — ela choramingou de felicidade. – Que menino mais lindo.

Ele estendeu os braços para que eu lhe entregasse Edgar e assim o fiz. Havia cansado de carregar o menino durante toda a viagem de Londres a Cheshire e tinha para mim que uma avó nunca deve ser negada de um colo.

Ela mal cumprimentou a mim e Harry, sumindo atrás da porta de minha velha casa com meu filho. Papai apareceu logo em seguida, ajudando-nos com as malas e tralhas. Alice nos esperava do lado de dentro, tão crescida que mal pude reconhecê-la. Seu cabelo escuro, antes curto, agora beirava o final de suas costas e seus olhos tinham deixado de lado a máscara infantil e adotado agora um olhar de mulher.

- Alice, — eu chamei enquanto corria em sua direção e abraçava-lhe fortemente.

Ela não negou o abraço. Pelo contrário, envolveu os braços, ainda finos, por volta da minha cintura e apertou-os forte. Sua cabeça deitou-se em meu ombro, como minutos antes Edgar fazia. Senti a saudade apertar no peito... Eu mal podia acreditar que aquela era minha irmãzinha.

- Helena, — ela disse.

Nem Harry nem papai ousaram interferir naquele momento. Permanecemos daquele jeito mais tempo do que consigo me lembrar e só me arrependo de não ter ficado daquele jeito por mais tempo. De repente todos os sete anos em que passei longe de minha irmã passaram a não fazer sentido algum. Era como se deixa-la pra trás tivesse sido o maior erro de minha vida. Um erro da qual me arrependo profundamente.

Quando finalmente nos soltamos, passei a mão por seus cabelos negros e sorri-lhe. Mal podia acreditar que aquela mulher ali em minha frente era Alice, a protagonista de uma história sem pé nem cabeça. Ela sorriu de volta.

- Quero que me conte as novidades, tudo... – Disse-lhe entusiasmada. – Quero saber da vida aqui em Cheshire. Depois lhe conto sobre Londres.

E as horas seguintes foram gastas com fofocas e histórias que deixamos de contar uma para outra durante muito tempo. Histórias ouvidas na cama de dossel de minha irmã, onde ficamos horas sentadas, tão confortáveis... Como nos velhos tempos. Contei-lhe tudo também, como fora dar a luz, como Edgar era, como foi nos primeiros anos de casada. Nada que ela não soubesse... Mantive o contato através de cartas, mas parecia que nós duas sentíamos a necessidade de ouvir tudo de novo, dessa vez só para confirmar.

No entanto a última novidade de Alice me deixara apreensiva, um tanto amedrontada.

- E agora ele me dá aulas de matemática... – Ela disse alegremente. – E você precisa ver o livro, Helena. – Sorria, sem perceber meu desconforto. – Ele realmente escreveu o livro. Oh, eu tenho gastado tanto tempo com ele, Lena; ouvindo as histórias, conversando... Ele é meu melhor amigo.

Engoli em seco.

- Charles... – Disse com a voz falha.

- Ele assinou com um pseudônimo, sabe... – Ela continuou, como se eu não tivesse dito nada. – Lewis Carroll. Não é engraçado?

De repente meu estômago começou a embrulhar. Sentia que a comida que havia comida há mais de oito horas estava pra voltar por minha garganta. Minha respiração vacilou. Não era possível que depois de sete anos, eu ainda reagisse assim diante da menção do nome de Charles.

- Helena? – Alice perguntou preocupada.

- Co-mo... como ele está? – Gaguejei, queria parecer normal, mas tinha quase certeza de que perdera a cor de meu rosto.

- Bem, eu acho?! – Alice respondeu confusa, — não o vi ainda hoje. Quer ir até a casa dele?

Queria dizer não, queria demonstrar o quão longe queria ficar daquela casa, mas nada saiu de minha boca. Nenhuma resposta negativa, nem se quer um aceno com a cabeça. Alice então supôs que talvez eu quisesse rever meu antigo professor de matemática e tratou de nos levar até a mansão Dogson. Durante todo o caminho me sentia tão aflita que mal conseguia pensar, raciocinar...

“Você mente”.

Era a única coisa que se repetia em minha mente. Suas últimas falas para mim, há sete anos.

Quando voltei do transe... Estávamos em frente à mansão. Charles estava sentado na varanda, tomando chá e lendo um livro quando percebeu nossa aproximação. Percebi ele começar a pronunciar o nome de minha irmã e então parar brutalmente. Ele se levantou surpreso, um tanto ressentido e olhava atônito em nossa direção.

- Helena? – O ouvi dizer meu nome.

- Eu não contei a ele que você e Harry estavam vindo. Aposto que Harry nem se importou em avisá-lo também. – Alice disse baixinho para mim, achando tudo muito divertido.

Charles permaneceu estático, onde estava, até Alice me arrastar até ele. Ela largou-me para abraçá-lo e depois dar espaço para que eu fizesse o mesmo, mas eu não o fiz. Permaneci tão rígida quanto ele, esperando o mínimo movimento para tomar qualquer atitude.

- O que há de errado com vocês? – Alice perguntou, tão inocente.

Sentia minha cabeça começar a girar até que Charles se movimentou. No entanto, ele nos deixou sozinhas na varanda, entrando na mansão e fechando a porta atrás de si. Eu, por outro lado, corri em direção ao gramado, por onde viemos até a mansão. Queria ir embora dali... Alice veio atrás de mim.

- Helena, mas o que está acontecendo?

- Você não devia ter me trazido aqui, Alice... – Chorei. Minhas lágrimas escorriam insanas por minhas bochechas, mas eu não deixaria que minha irmã as visse. – Vamos embora.

Quando chegamos de volta à casa de meus pais, o Sol já havia se posto e minha família jantava reunida na mesa do salão principal. Mamãe tentou me convencer a me juntar a eles, mas dei a desculpa de que estava cansada da viagem e queria dormir. Fui até o quarto onde Edgar dormia tranquilamente e deitei-me ao seu lado, dividindo uma cama de dossel pequena.

Naquele momento tudo que consegui fazer foi abraçar meu pequeno filho e chorar em seu pijama de linho. Mal conseguia acreditar que Cheshire ainda tinha pedaços de meu passado. Pedaços do que um dia fui eu. Chorei por minutos, até eles se transformarem em horas... Chorei até minhas energias se esgotarem e mesmo assim só consegui realmente parar de chorar quando, ainda dormindo, Edgar se virou para mim, revelando aquele rosto calmo, tranquilo e sereno, adormecido. Finalmente dormi... com o frescor da última lágrima ainda refrescando minha bochecha.