Boa noite. Espero que te encontre bem hoje. Se for estranho ler “boa noite” ao ler isso em horários diferentes, entenda que não gosto da presunção de dizer ao meu hipotético leitor bom dia, boa tarde e boa noite, eu escrevo a saudação de acordo com o horário em que eu comecei a escrever. Simples assim.

O que não é tão simples é o motivo pelo qual estou escrevendo isso. Acho que é só para passar o tempo. Ou não. Sempre fui fascinado por máquinas de escrever, processadores de texto, computadores e tudo mais que pode ser usado para facilitar o processo de escrever. Entenda, eu tenho uma letra horrível e só pessoas que convivem comigo há anos conseguem ler com facilidade. Minha voz também não é fácil de compreender. Anos de timidez cobram seu preço.

Mas eu divago novamente, o que é natural, considerando que estou escrevendo para passar o tempo e me distrair. Tudo afinal começou com um processador de textos e pelo visto tudo acabará com um também. Depois de ler tantos livros com escritores falando sobre seus processadores de texto, fiquei curioso para ver como um era de verdade, visto que em meu país eles não são exatamente comuns. Comecei a estudar bastante sobre eles, e decidi que ainda escreveria no meu processador, mesmo com as dificuldades técnicas que eles pareciam apresentar. Mas para um jovem escritor na época, fã de autoridades do mundo literário como Stephen King que dizia o quanto amava escrever no seu.

Meu trabalho me distraia ligeiramente dessa obsessão, mas eu passava as tardes lendo a respeito dessas máquinas dos sonhos quando ninguém estava olhando, e qual foi minha surpresa ao encontrar um processador Brother WP-1400D em um site de leilões digitais, e ainda que não fosse exatamente o melhor que existia, o preço estava razoável e me parecia um bom negócio.

Como leitor de terror constante, eu tive um pequeno calafrio na barriga ao ir ao local marcado (uma estação de metrô) para fazer a troca, aquela chance clássica de encontrar um velhinho de aparência suspeita, que pareceria feliz em se livrar do objeto amaldiçoado e que nunca mais apareceria caso eu tentasse contatá-lo. O que me surpreendeu era que o homem que atravessava a frente das catracas para me cumprimentar, trazendo uma sacola de aniagem grandona onde se via uma caixa de papelão amarelada tinha uma aparência absolutamente normal. Parecia ter uns 28, 30 anos, cabelos curtos com a sugestão de entradas nascendo nas têmporas, vestido com roupas de escritório mas sem a desenvoltura que parece determinar quem nasceu para usá-las ou não.

Ao me reconhecer pela descrição que lhe passei, veio em um passo tranquilo, sem a aparente demonstração de pânico que as histórias que eu lia pareciam passar. Ele me deu um boa tarde tranquilo, explicou que estava vendendo o processador pois a esposa estava encrencando que ele só servia para acumular poeira desde que ele parara de escrever e começara a trabalhar em tempo integral. Por não haver a possibilidade de testar o equipamento ali, o homem me passou seu celular e e-mail para o caso de haver problemas com algo nele, e falou que sabendo o quanto haviam picaretas nesse site, entenderia se eu testasse o número agora. O celular dele tocou de cara e me senti um idiota por levar as coisas para o ramo da superstição boba antes.

Entreguei o dinheiro combinado a ele, e me preparei para ir embora com a minha aquisição, quando ele colocou uma mão em meu ombro e olhou com um olhar saudoso e preocupado para a sacola, e me fez um único pedido, que considerei estranho. Que eu não escrevesse no processador durante o dia, pois mesmo em um quarto fechado, a iluminação do dia poderia queimar a tela e estragar o equipamento. Assenti de forma automática e me fui para um lado e ele para o outro.

Agora seria o momento de contar que nunca mais vi o homem novamente, que ele se suicidou logo depois de me vender sua maldição, ou mesmo que agora ele ficara rico demais pois se livrou de um fardo psíquico como aquele. Mas na verdade eu o vi de novo algumas vezes, e só na terceira foi por causa dos... incidentes. Ele era um cara bem legal e fã de filmes que eu e minha irmã também gostávamos, inclusive houve um breve interesse entre os dois que de forma alguma mudou nossa amizade. Nesses dois primeiros encontros ele só perguntava do processador de passagem, como quem pergunta a um amigo como está sua mãe, de forma automática, e o assunto não passava por nossas cabeças o resto do tempo, ou pelo menos não pela minha.

Naquele primeiro dia, ao receber o processador, só cheguei em casa após as 21h, e decidi que iria deixar para testar a máquina no dia seguinte, para ver se haviam potenciais problemas na fiação ou algo do tipo. Tirei da caixa em que estava junto com o fio e o manual, tudo parecendo apenas empoeirado, mas normal. Comecei a passar um pano para tirar a poeira de forma a deixar apresentável e a superfície impossivelmente branca faiscou para mim. Decidi ligar apenas para testar se funcionava corretamente antes de ir dormir e assim o fiz seguindo as instruções no manual a fim de evitar problemas causados por minha burrice. Ao apertar o botão lateral de “liga”, começou um barulho de mecanismos se ativando, e alguns segundos depois a tela se acendeu com uma luz verde clara, iluminando meu quarto fracamente. Apareceu o logo da empresa, e então uma tela de seleção extremamente simples, com as opções “novo texto,” “textos salvos” e “imprimir trabalho”.

Esperei que ao selecionar “textos salvos” eu encontraria um diário de loucura e terror do antigo dono mas, se havia algo assim, ele havia tido a decência de apagar antes de me vender, pois a memória estava vazia. Selecionei então novo texto apenas para testar as teclas, e comecei teclando várias bobagens e letras sem sentido. As teclas eram mais duras do que as de um teclado de computador antigo, mas gradualmente meus dedos foram se acostumando com a sensação delas. Comecei a brincar de escrever citações de obras que eu gosto muito, e ao clicar em “salvar” (o que gerava um barulho tão alto que parecia que a máquina iria explodir), olhei para meu celular e vi que eram já quase 2h da manhã.

Corri a escovar os dentes e ir dormir pois trabalharia relativamente cedo. Fiquei um pouco assustado em quanto o tempo voara, mas isso não era tão estranho considerando a situação de ter um objeto dos meus sonhos em mãos finalmente. Trabalhei e me distraí dele o dia todo, mas no percurso de volta ao lar, percebi que depois de muitos anos voltei a ter vontade de escrever. E tão logo coloquei o pé em casa, por volta das 20h, o religuei. Percebi que ele se ligou ligeiramente mais rápido do que antes, mas atribui isso ao fato de ter sido usado recentemente.

Comecei a escrever uma fábula urbana boba e despretensiosa sobre um rato, um pombo e uma barata discutindo quem era a pior praga urbana, nada muito genial, mas não foi a qualidade do texto que me surpreendeu, e sim a facilidade com que ele surgia na minha mente e nos meus dedos. Tendo ou não feito um curso de digitação anos antes, o teclado parecia puxar meus dedos para a tecla seguinte sem dificuldade, e só precisei usar o backspace duas vezes, em palavras cuja grafia correta eu estava incerto, e depois de apagar, fez-se luz em minha mente e recuperei o ritmo anterior.

Novamente só fui parar por volta das 2h da manhã com o primeiro rascunho completo e os olhos inchados de olhar para a telinha verde por tantas horas. Desliguei o processador no botão novamente, e dessa vez ele demorou a desligar alguns segundos a mais do que na noite anterior, novamente para mim um reflexo do uso mais frequente e fui dormir, mas até pegar no sono todos os movimentos que fazia com os olhos pelo quarto pareciam ser acompanhados de uma nuvem esverdeada que ia se esmaecendo gradualmente.

O dia seguinte era uma sexta-feira e eu já havia combinado com alguns colegas que iríamos à praia na noite de hoje para aproveitar um feriado prolongado que ocorreria na terça-feira. Por precaução então, ao terminar de equipar minha mochila com meus itens críticos, desliguei o cabo do processador da tomada, e o recobri com um lençol. Senti um pequeno aperto no coração ao fazer isso, mas ele passou ao toque do meu despertador que indicava que se eu não saísse agora mesmo perderia o ônibus.

Trabalhei novamente sem pensar muito no processador, exceto na hora do almoço quando passei por uma lixeira e vi uma ratazana correndo de lá para o esgoto, deixando uma trilha de sangue escuro e viscoso no chão, e sob a caçamba vi uma barata morta (só as patas inferiores para fora, virada de cabeça para baixo). Me senti um pouco mal com a visão, mas continuei o meu caminho e eventualmente deixei para lá. Tudo correu bem com a viagem, consegui finalmente ficar com uma colega de quem estava afim há um tempinho, e tenho uma parcela de gratidão a conferir ao vinho forte que estávamos bebendo que me deu a coragem necessária de beijá-la em um momento no qual nos cruzávamos pelo pequeno corredor da casa que alugamos.

Foi algo bastante impulsivo e fiquei feliz de que tenha dado resultado, e ao fim de tarde da terça-feira enquanto encarávamos o trânsito voltando da praia estávamos de mãos dadas no carro. Durante a semana seguinte eu meio que esqueci o processador de palavras na minha cômoda enquanto trocava mensagens secretas e românticas com ela, e a cada mensagem parecia mais claro que nos tornaríamos namorados. Até que na sexta-feira de manhã eu tropecei no meu lençol ao sair da cama, percebendo que havia perdido a hora devido à bateria do meu celular ter acabado após uma noite longa conversando com Liana, e acabei batendo com força na minha cômoda, quase derrubando o processador. Após arrumá-lo, percebi que não mexia nele fazia tempo, e me cobrei de ir comprar folhas para imprimir meu continho bobo.

Para garantir que não fizesse besteira e comprasse folhas que a estragassem, decidi ligar para o dono anterior, e ele prontamente me explicou qual marca e tamanho de papel eu deveria comprar, e qual tinta ela aceitava. Ele comentou que hoje iria estrear um filme que queria ver a tempos e me convidou a ir também. Foi uma noite agradável e não pensei no processador, como já disse acima. Foi uma noite agradável e acabei esquecendo de comprar os itens que havia me prontificado.

Cheguei em casa e continuei conversando com Liana, marcando um almoço no dia seguinte, e decidi apenas dar uma mexida no processador enquanto conversava com ela, e distraidamente escrevi algumas das frases que falava para ela ao telefone em um novo arquivo.

Fui dormir e acordei com meu celular esmigalhando meus ouvidos com o toque de ligação. Dava para sentir a luz do sol na minha cara, e pela intensidade percebi que não era muito cedo. Me levantei de salto ao ver que restavam apenas 15 minutos para o horário marcado e que Liana havia me ligado várias vezes durante as horas anteriores. Me desculpei mil vezes pelo telefone enquanto separava roupas que estivessem em melhor condição para o banho e, na passagem para o banheiro percebi que não desliguei o processador antes de dormir, sua luz verde muito mais fraca durante o dia. Lembrando-me das instruções do dono anterior, corri para desliga-lo e enquanto ele desligava com a lentidão normal vi que a última frase que eu digitei antes de dormir era “mal posso esperar para te ver de novo”.

Encontrei Liana que brincou sobre não estar acostumada a esperar um homem e que eu deveria me sentir muito especial por isso. Disse a ela que sabia o quanto era especial e ela me bateu de brincadeira, e vi o quanto já gostava dela. Nosso almoço foi ótimo, depois fomos caminhar em um parque da cidade, e no fim do dia ela decidiu ir para casa comigo passar a noite.

Sabíamos pelo olhar do outro o quanto queríamos fazer aquilo, e após o ato nos aninhamos com perfeição um ao outro, e ela curiosa perguntou sobre “aquele computador estranho” na minha cômoda. Eu olhei para o processador desligado e expliquei a ela do que se tratava e que estava brincando de escrever nele, até já havia feito uma obra boba, que ela insistiu em ler. Liguei o processador, que demorou um pouco mais até do que na primeira noite a ligar, mas de resto tudo parecia normal, exceto o fato de que o meu texto desaparecera. Liana me consolou dizendo que se era tão antigo quanto eu afirmara, provavelmente era uma pane de memória dele ou algo do tipo, e aceitei sua palavra. Ela então graciosamente se contorceu para fora do lençol no qual estava enrolada e apertou o botão de desligar, e por um segundo pareceu que nada aconteceria, então com um zumbido estranho, a máquina desligou.

Sinceramente naquele momento minha mente não poderia ter algo mais distante do que problemas técnicos em um processador de texto, e assim o foi até que caí no sono. Na manhã do domingo tomamos café da manhã juntos e a levei à casa da mãe, onde ela almoçaria, e apesar da insistência dela, eu tinha um compromisso com minha irmã e não pude ficar para o almoço.

Encontrei minha irmã no supermercado onde eu a ajudaria a fazer as compras do mês e aproveitaria para fazer as minhas, contei sobre a Liana, a quem ela fez questão de conhecer, e do processador de texto, o qual ela não se interessou nem um pouco. Recebi então uma ligação do antigo dono, que quis marcar de me encontrar, pois encontrara um pacote das folhas e um toner do processador, e queria me passar até como desculpas por termos esquecido. Minha irmã, interessada em saber do que se tratava me acompanhou assim que deixamos as compras em sua casa. No shopping onde havíamos marcado, conversamos pouco sobre o processador e muito sobre seriados e filmes, e deu para ver que minha irmã olhava para ele provavelmente do mesmo jeito que eu olhava para Liana antes de tentar aquele beijo na praia. Trocaram telefones e no caminho de volta ela falou do quanto ele era bonito e legal, do quanto ele parecia ser exatamente como ela esperava de um cara, e por aí.

Levei minhas compras para casa, conversei com Liana um pouco antes de dormir e caí no sono de exaustão. Acordei às 2h da manhã com um brilho esverdeado me irritando os olhos. O processador de textos estava ligado, e parecia emanar uma aura de calor, pois dava para ver que ele parecia levemente borrado. Pulei da cama ainda meio adormecido, pensando que ele havia ficado ligado desde a noite anterior, o que uma máquina antiga assim poderia não aguentar e estava superaquecendo. Cheguei perto com a intenção de desliga-lo, mas vi que ainda estava com as frases que eu ia escrevendo para Liana ao telefone, mas a última aparentemente era “Estou muito feliz em te ver de novo.” Esfreguei os olhos, bocejei longamente e olhei de novo, e eu estava enganado antes, realmente estava escrito “mal posso esperar para te ver de novo.”

Parecia que havia mesmo um problema de memória anteriormente, pois o meu texto havia voltado a aparecer, então não perdi tempo e usei os papeis que o dono anterior havia me dado, apesar de algumas folhas estarem levemente manchadas de tinta em um lado, foi fácil de encaixá-las na reentrância traseira e ao apertar “imprimir” a máquina criou vida, agulhas de tinta começaram a riscar o papel com um barulho tão grande que me assustou. Preocupado com reclamações de vizinhos, estava prestes a desligar quando o barulho se assentou, ficando mais parecido com uma máquina de cartão de crédito mais antiga, um barulho sistemático e ordenado. Demorava uma eternidade para imprimir cada página e eu gradualmente comecei a cochilar sentado. Acordei cerca de uma hora depois com um barulho mais alto da máquina, imagino que cortando o fornecimento de tinta das agulhas e empurrando a última folha.

Dei uma olhada por cima ainda com sono, vi que aparentemente estava tudo ok, dessa vez me certifiquei que tinha desligado o processador e fui dormir.

Fui trabalhar e percebi ao chegar que inconscientemente incluíra na minha pasta algumas folhas do processador junto com documentos da empresa, mas elas estavam completamente em branco. Estava guardando-as quando Liana veio falar comigo e viu as folhas em branco e comentou o quanto elas eram amareladas nas pontas, e era estranho material de escritório tão velho, e quando eu expliquei que na verdade eram apenas folhas do meu processador de palavras ela achou mais estranho ainda. Dobrei elas de qualquer jeito e joguei na minha pasta.

Levei o dia de trabalho normal, e precisei ficar até mais tarde para terminar alguns relatórios, me desculpei com Liana sobre não poder ir com ela para sua casa como havia planejado e me foquei no trabalho, que só fui terminar por volta das 21h. Decidi que voltaria de táxi para casa pois minhas costas estavam me matando e arriscar uma volta de ônibus apertada não me animava. Pedi o táxi corporativo e comecei a organizar meus papeis até que fosse avisado pela recepção que ele estava chegando.

Quando fui colocar tudo na pasta, olhei de relance para as folhas dobradas e vi uma mancha de tinta próximo ao canto da primeira da pilha, e eu tinha quase certeza de que todas estavam perfeitamente em branco, salvo os cantos levemente amarelados. Peguei o maço de papeis tremendo e quando fui abrir quase sofri um ataque cardíaco com o toque estridente do telefone da minha mesa avisando da chegada do táxi. Desci o elevador olhando para as folhas ainda dobradas, com medo de abrir e ver que elas realmente estavam impressas com o meu texto. Passei pela recepção dando um leve aceno de cabeça ao segurança da noite, entrei no banco de trás do táxi e acendi a luz superior para verificar. Se realmente estivesse lá o texto eu pediria para o taxista dar uma olhada e eu poder me convencer que não estava louco.

Estava tudo lá, cada linha, cada parágrafo, cada espaçamento perfeitamente impresso de forma mecânica que ao mesmo tempo deixava claro que não era uma impressora moderna ou uma máquina de escrever. Era quase uma assinatura. Chamou a atenção do motorista e disse que tinha um pedido estranho a fazer. Disse que era escritor e estava meio nervoso com um texto que escrevera, e se o motorista pudesse dar uma olhadinha ele daria uma gorjeta em dobro. O motorista prontamente aceitou e colocou os papeis dobrados no porta-luvas e anotou meu telefone corporativo para me retornar no dia seguinte e comentar suas impressões. Vi pelo olhar que me deu que me achava louco mas uma gorjeta em dobro provavelmente significava um bom jantar para a mulher ou rodadas a mais de cerveja no fim de semana e pareceu que ele levaria a sério.

Me deixou em casa e deu um tapinha no porta-luvas enquanto se afastava. Subi até meu apartamento com um certo medo de entrar, entrei e acendi a luz do corredor, da diminuta cozinha, da sala de estar e do meu quarto sem nem olhar para dentro. Tinha medo de olhar para o processador, e sabia que era um medo irracional. Ele já passara por todos os “testes” que eu conhecia do sobrenatural, mas mesmo assim eu me demorei na sala por muito tempo, realmente não queria entrar e dormir ali tão cedo. Tomei uma cerveja que havia sobrado do dia em que Liana veio passar a noite comigo e liguei para ela para conversarmos um pouco.

Sua voz era sonolenta mas ela não achou ruim que eu ligasse, pois estava preocupada, afinal eu fiquei várias horas sem me pronunciar. Expliquei que estava bem, que sentia a falta dela, coisas assim que a fizessem ficar mais tranquila, para que ela não pensasse que eu estava ficando maluco sobre um processador de palavras velho e problemático.

Decidi que dormiria no sofá mesmo, mas sendo um sofá de dois lugares tem um limite de desconforto que eu conseguiria aguentar em nome do meu medo, e ao ver que eu o atingira eu fui para o quarto e quando eu apaguei a luz de lá, deu para ver o último reflexo na tela verde do processador, quase como se ele piscasse para me desejar boa noite.

Tive um sono agitado e curto, e acordei com os olhos vermelhos e bem mais cedo do que eu precisava, e no fim das contas decidi que não adiantaria nada tentar dormir de novo pois acabaria perdendo a hora. Me barbeei com cautela, escovei os dentes e lavei os olhos o melhor que pude, mas o rosto que me olhava no espelho parecia o de um bêbado vagabundo que passou a noite em uma sarjeta. Voltei para o meu quarto para me vestir e ficava olhando de soslaio para o processador, tão inocente apoiado na cômoda, de uma forma que fazia que ele parecesse mais parte do apartamento do que os livros ao seu redor, do que a minha cama, do que eu mesmo.

Sacudi a cabeça com uma risadinha, afinal de contas isso é o tipo de coisa que se lê em romances de ficção científica, manuais de Feng Shui e... bem, livros de terror. Fui trabalhar com a cabeça trabalhando rápido. Liguei para o antigo dono, com uma pequena desculpa qualquer, brincando que adoraria fazer um encontro de casais para ele conhecer melhor a minha irmã, e comentei que queria conversar com ele. Sua voz não demonstrou estranheza, e parecia realmente que ele tinha também se interessado por minha irmã então concordou de me ver após o expediente no dia seguinte.

Chegando no trabalho, fui à mesa de Liana de forma decidida dizendo que gostaria que ela fosse dormir comigo essa noite, pois fora uma noite solitária e que eu pretendia cozinhar. Ela me olhou levantando uma sobrancelha, como se estivesse avaliando se eu estava sendo grudento demais ou algo do tipo, mas decidiu que um jantar caseiro seria uma boa. Me senti mal em ocultar o real motivo para convidá-la para minha casa, de que estava com medo da máquina em minha cômoda, mas sendo cínico, eu precisava de companhia até o dia seguinte quando conversaria com o antigo dono.

Passei o dia me sentindo mais leve por ter tomado uma atitude, até que meu telefone tocou e atendi quase cantarolando, mas logo mudei meu tom ao ver que era o taxista. Sua voz soava divertida, me dizendo que achou uma boa mágica a que eu fiz com ele ontem. Disse que hoje de manhã quando foi pegar os papeis para ler o meu pretenso texto, os papeis estavam em branco exceto pelo meu telefone. Disse que adoraria perguntar como fiz aquilo mas respeitava a privacidade dos mágicos e jogou os papeis fora para manter o mistério.

Senti um mal súbito ao colocar o telefone no gancho, porém me senti estranhamente calmo. Acho que a gente sempre deve se sentir assim quando algo que antes era considerado paranoia na verdade era verdade. Só fiquei com medo de levar Liana para minha casa ao perceber que no mínimo meu processador de palavras estava dando defeito. Fiquei rodeando minha mente até a hora de ir embora e no fim das contas decidi que não arriscaria a confiança dela por bobagem e mantive o jantar.

Ela foi para casa se arrumar enquanto eu ia para o mercado comprar o jantar. Decidi por fazer algo simples, uma receita de macarrão ao molho branco com pedacinhos de bacon, nada muito elaborado, e comprei um vinho branco para bebermos juntos, apesar do pensamento de encarar aquela máquina bêbado não me era muito consolador.

Quando cheguei, fui direto para a cozinha e tentei manter o foco no preparo dos ingredientes, mas minha mente voltava ao aparelho separado de mim por apenas duas paredes. Será que estava assombrado ou possuído? Não seria isso algum tipo de peça elaborada que o vendedor pregara em mim usando alguma interface feita para confundir o usuário, inclusive usando tinta que só ficaria visível à noite?

Eu queria muito que fosse uma resposta prosaica mas algo no fundo da minha mente me dizia que eu não teria tanta sorte. Aquela porta escura com teias de aranha nas profundezas da minha mente, aquela que ocultava os meus medos infantis, estava começando a ficar entreaberta com um rangido forte o bastante, e seria uma mão apodrecida começando a despontar por ela? Esses pensamentos mórbidos estavam começando a se enraizar, mas fiz força e voltei a picar o bacon em cubinhos para fritar, com minhas mãos tremendo um pouco mas fazendo seu trabalho.

Quando despejei o último cubinho na frigideira e comecei a mexer, a campanhia do prédio tocou, e eu corri a abrir a porta a tempo de voltar e não deixar o bacon queimar. Nos minutos que demoraram para ela chegar, ouvi um barulho eletrônico vindo do meu quarto que por um instante foi mais alto que o chiado da frigideira. Desliguei o fogo e estava a caminho do quarto ainda usando o avental quando Liana entrou pela porta tirando a blusa que estava usando, e fez uma careta divertida me vendo de avental, falando o quanto era bonito ver um homem quebrando paradigmas de “lugar de mulher é na cozinha”.

Me virei para beijá-la e só tive um leve lampejo de luz verde ao olhar do meu quarto em sua direção, mas fiz o possível para bancar o amante perfeito, puxei sua cadeira, servi a comida para ela, deixei que ela escolhesse a quantidade de vinho, e mandei olhares que não indicavam outra coisa senão minha vontade de deitá-la na minha cama e fazer coisas que tenho vergonha de comentar aqui. Ela me retribuía, e claramente pelo seu olhar ela pensava apenas nisso. Não havia pensamentos em uma maldita máquina de escrever glorificada que poderia ou não estar brincando com a cabeça dela.

Quando a tensão sexual se tornou forte demais, e não dava para ficar restrita ao meu pequeno sofá, peguei ela nos meus braços e a levei para meu quarto, depositei-a na cama e tirei a camisa, e a joguei com aparente displicência sobre minha cômoda. Vi que por sob o tecido preto havia uma leve luminescência verde, mas dava para ignorar muito bem com a visão divina que havia na minha frente. Após o ato a combinação da letargia com a bebida a fez pegar no sono, e eu fiz o meu melhor para acompanha-la, mas olhar aquela luz que parecia pulsar com a minha respiração estava me dando um ódio mortal, mas ao mesmo tempo eu tinha medo de ir desligar por não saber o que iria acontecer.

Passei o que pareciam horas encarando aquele olho verde de aparência maligna me encarando de volta. Adormeci sem perceber que o fazia, e meus sonhos foram agitados, apesar de não me lembrar dos detalhes, havia um tom de esmeralda neles que me fez acordar com enjoo, apesar do cheiro de panqueca sendo frita na minha cozinha.

Levantei da cama e corri, literalmente corri passando pela cômoda sem olhar, como quando somos crianças e queremos ir ao banheiro e corremos pelo corredor sem olhar para os lados. Liana estava linda usando uma camisa minha e nada mais enquanto cozinhava, e sorriu para mim enquanto o preparava, e pediu minha ajuda para que desse tempo de comermos, tomar banho e ir trabalhar. Fiz isso em silêncio na maior parte do tempo, apenas respondendo automaticamente às suas perguntas quando necessário com comentários espertinhos vindos sabe-se lá de onde.

Consegui me concentrar nela o bastante no banho para ela sair com um belo sorriso no rosto, mas o que eu pensava é que o dia será muito longo, sabendo que ao final do dia eu conseguiria no mínimo algumas respostas sobre aquela máquina amaldiçoada.

Minha previsão se realizou e às 19h parecia que eu tinha passado por uma vida inteira. Fui encontrar o antigo dono no mesmo shopping de domingo, e ele me parecia ainda enervantemente normal. Nem um fio de cabelo desalinhado, e eu poderia jurar que sua entrada recuara levemente nos últimos dois dias. Ele me recebeu com um sorriso e começou a perguntar da minha irmã quando eu o interrompi perguntando que palhaçada era aquela com o processador. Como ele poderia me vender uma máquina cheia de tretas como aquela? Por que o texto aparecia de noite e de dia não? Por que minha namorada (não parei para pensar que ela ainda não era isso, eu estava muito puto) não conseguira ler o texto? E por que diabos ela ficava se ligando sozinha?

Diante dessa enxurrada de perguntas vi que uma leve sombra passou por seu rosto por um instante, mas ele sorriu de forma franca para mim, tentando me tranquilizar. Ora, afinal de contas por que eu estava tão irritado afinal? De acordo com o engraçadinho, quando eu comprei o processador eu disse que queria usar ele para escrever, não que alguém lesse o que eu escrevi. Vendo que isso só me deixou mais irritado, ele falou de uma forma mais séria que essa máquina não era comum, realmente, mas que não era nada absurdo ou sobrenatural. Ela apenas tinha uma tinta experimental que só poderia ser lida à noite para que o papel fosse conservado mais facilmente, e que provavelmente fora mesmo um glitch que impedira que minha namorada lesse o texto que eu tinha escrito antes. Disse que provavelmente o papel (valiosíssimo, conforme ele dizia) que o taxista jogara fora durante a noite voltara a se preencher com as minhas palavras.

Eu queria acreditar nele, de verdade. Poxa, no domingo anterior eu considerava o cara material de cunhado. Eu bebia suas palavras como um homem que atravessou um deserto bebe água pela primeira vez em abundância. Mas aquela água não matava minha sede, por mais que estivesse gelada e fresca. Por trás eu sentia o gosto amargo da mentira, uma mentira açucarada mas ainda uma mentira.

O que me preocupava mais do que a mentira era o motivo por trás das mentiras. Será que ele tinha medo de que eu devolvesse e a maldição ou o que quer que ela contivesse voltasse a afetá-lo ou ele era o próprio perpetrador do que a máquina escondia e estava me punindo por um desejo como minha formação católica indicava que os demônios faziam no inferno?

Enquanto esses pensamentos ferviam na minha cabeça ele olhou para mim, pela primeira vez encarou meus olhos com firmeza e perguntou de forma absolutamente séria quando foi a última vez em que eu havia escrito alguma coisa, qualquer coisa no processador. A mudança de foco foi tão súbita que respondi sem pensar, desde a ligação em que fiquei brincando de digitar o que eu dizia em alguns momentos. Ele assentiu pesarosamente e disse que quanto mais tempo eu ficasse sem escrever, mais seria difícil mantê-la... normal.

Fiquei em dúvida se o final original da frase seria esse mesmo, e estava prestes a dizer que eu devolveria a máquina para ele enfiar onde o sol não batia mas só de pensar as palavras senti um aperto no coração que parecia muito com a ideia que tenho de um enfarte. Ele coçou a cabeça com um olhar intrigado para mim, me apoiou em uma fonte próxima de onde estávamos e me confidenciou no ouvido que a venda era final, e ou eu aproveitava o que eu tinha ou aguentava as consequências das minhas ações.

Então ele se foi, me deixando em estado de choque e na hora em que foi embora, me deu um último olhar e eu poderia jurar que vi um brilho verde quando ele se virou. Fiquei ainda alguns momentos tentando absorver a enormidade do que acontecia. Meu celular tocou e era Liana querendo saber onde eu estava, dei uma desculpa esfarrapada qualquer e me dirigi até em casa. Me sentia cansado demais para ter medo de alguma coisa, fui até a máquina que, claro, estava ligada, e exibia a mensagem “já estava demorando para entender.”

Claro, finalmente eu fazia parte de uma das histórias das quais eu tanto lera e achava que se participasse não tomaria as decisões idiotas dos protagonistas. Eu era inteligente! Eu não entraria na casa abandonada, eu não me separaria do meu grupo enquanto um assassino está buscando as pessoas uma por uma. Não comeria a líder de torcida no aniversário de trinta anos desde que o antigo dono do motel morrera na cadeira elétrica. Mas eu queria saber mais sobre o meu processador de palavras. Eu queria entender o que estava acontecendo ali, e saber disso me fez dar uma risada para o humor negro ali presente. É claro que os personagens cometem erros, é da nossa natureza falhar e quanto maiores as apostas maiores as chances de que faremos bobagens astronômicas.

E foi assim que perguntei em voz alta o que diabos a máquina na minha frente queria de mim. Ela continuou exibindo o mesmo texto, mas senti que a barra de texto piscava com uma intensidade maior, quase como se dizendo que só me responderia se eu digitasse minhas perguntas. Digitei o mais lentamente que meus dedos tremendo permitiram a mesma pergunta, e tão logo soltei o teclado, apareceu o texto “sou o processador de textos Brother WP-1400D, construído para facilitar a vida de escritores sortudos, como você, e sou como um irmão para você, nunca vou te deixar se sentir solitário, ou fraco, ou sem talento. Você vai escrever?”

Ver aquelas palavras se formando sozinhas provocou uma emoção mais forte do que eu imaginei que veria, e caí para trás, sobre minha cama. E fiquei olhando para o teto assustado. Senti como se tivessem deslizado um bloco de gelo pela minha espinha. Fiquei nessa posição o máximo que pude, mas o processador fez um bip alto como se dissesse para eu largar de frescura e voltasse para lá. O texto ainda estava na tela, e ainda havia a pergunta a responder. Pensei em Liana, no que ela pensaria de mim escrevendo textos que ela nunca leria, pois a verdade clara é que ele só funcionava de verdade para mim. Só eu conseguia escrever e ler o que ele produzia. A minha maldição de verdade era saber exatamente como essas coisas funcionavam nas histórias que eu tanto amava.

Sabia bem que se eu jogasse o equipamento pela janela, quebrasse ele todo com um taco de beisebol, ateasse fogo ou mesmo se tentasse doar para a caridade ele voltaria uma hora ou outra para a cômoda na minha frente, com aquela aparência mais real que a realidade.

E nesse caso, do que adiantava ficar tentando fugir do meu destino? Respirei fundo e digitei uma única palavra. “Sim.” Fui dormir e dessa vez meu sono foi tranquilo e sem sonhos. Meu rosto pela manhã estava até corado e o processador tinha “bom dia” escrito nele. Eu nunca me acostumaria com aquilo em mil anos, mas decidi não comentar nada ali. Sair do meu quarto me deu uma sensação de irrealidade, como se a cada passo para longe da minha casa eu entrasse em uma pintura feita com pontilhismo.

Com dor no coração eu fui até minha empresa e pedi as contas do serviço. Eu poderia viver bem com o quanto eu ainda tinha, e o emprego era mais para passar o tempo do que uma necessidade verdadeira. Mas o que doeu de verdade foi dizer pra Liana que não poderia mais vê-la pois iria entrar em uma jornada de autoconhecimento e infelizmente não poderia leva-la. A cada palavra dolorosa e falsa que a dizia, ela que parecia um farol no meio daquela escuridão pontilhada fora do meu quarto ia se esmaecendo e fazendo parte daquele mundo no qual eu não tinha mais lugar. Fiz minha escolha e aguentaria as consequências.

Posso imaginar você, meu hipotético leitor, se perguntando por que eu desisti tão fácil, por que não tentei procurar alguma solução. A verdade é que eu mesmo não sei. Desde o momento em que vi a máquina escrevendo sozinha algo mudou na minha mente. Eu percebi o quanto a verdade era muito mais simples e enraizada. Aquela porta no meu inconsciente se abriu totalmente e vi que não era uma mão putrefata que queria sair, apenas uma mão suja de lama de um babaca qualquer da escola sujando meu livro emprestado com tanto carinho pelo meu professor da terceira série. Mais ao fundo vejo um livro que me foi roubado junto com minha mochila e respinga uma água preta do córrego poluído onde o sujeito deve tê-lo jogado e vejo que no fim das contas o meu maior medo era nunca mais poder me voltar à literatura como razão de vida.

Percebi que no começo desse texto eu disse que estava escrevendo para passar o tempo. Não era totalmente verdade. Acho que esse texto é mais uma história de libertação, como me soltei das amarras impostas pela sociedade para viver com o meu amor pela literatura e todas as suas vertentes. Nesses dois anos em que venho me dedicando puramente a escrever, já imprimi ensaios sobre a relação entre pais e filhos, um épico sobre uma batalha por Stonehenge, uma peça de teatro satírica inspirada em ...E o Vento Levou, e muitas mais que você, meu caro e imaginário leitor nunca poderá ler, infelizmente mas que posso garantir que eram obras divinas e dignas dos grandes autores da humanidade.

E em uma última tentativa arrogante de prever o que você está pensando, digo que é claro que não vai considerar esse texto bom o bastante, ou sequer passável. E é claro que sim, afinal de contas ele não foi escrito com o meu fiel Brother WP-1400D, ora.

Ah, antes de ir embora, imagino que queira saber o meu nome, ou o do antigo dono da minha máquina dos sonhos. O engraçado é que eu não lembro. Para ser sincero nem tenho mais certeza de que Liana fosse o nome daquela moça com quem quase namorei. Tirei o nome de um dos meus romances, e a personagem pode ou não ter sido inspirada nela.

Enfim, caso um dia veja um desses processadores à venda, eu digo que o compre, se seu coração possui alma de escritor. Garanto que uma luz verde e perene na escuridão é a melhor coisa que pode lhes acontecer. E quem sabe? Seu notebook, seu celular, seu computador de mesa... Um deles pode cumprir o mesmo papel.

Tenha uma boa noite.

Escritor Anônimo

Notas finais
Obrigado pela leitura de história, sei que é um trabalho não necessariamente incrível, mas me diverti muito escrevendo e espero que tenha pelo sido uma distração adequada. E que o processador de palavras esteja com você.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!