Meu Novo Crepúsculo

1 Bem Vindas à Neblina


O tom de azul vibrante no céu de Phoenix era o perfeito adeus. De acordo com os termômetros de rua, os 28 graus marcavam, possivelmente, as horas mais quentes daquele verão. Pensei que seria a última vez, em muito tempo, que vestiria minha combinação favorita: regata branca, macacão vermelho cor de vinho e meus All Star pretos. Meus cabelos estavam presos em um coque perfeitamente elaborado, mas a perfeição parava por aí.

Enquanto meu coração se alegrava, dominado pela sensação de um novo começo, Bella parecia carregar o peso do mundo nas costas. Da cabeça aos pés, ela era um protesto ambulante: suas roupas pretas, de tecidos rígidos, contrastavam de forma gritante com a leveza e as cores do verão do Arizona. Ela amava tudo ali: o sol espiando pela janela, o clube de xadrez, os amigos e, acima de tudo, a mamãe. Para Bella, mudar para Forks era um sacrifício nobre, um ato de amor desinteressado.

— Vocês não precisam fazer isso — Mamãe repetiu pela milésima vez, enquanto despachamos as malas.

Fisicamente, mamãe e Bella eram quase idênticas, mas suas almas eram opostas. Renée era espontânea, expressiva e alegre; minha irmã, silenciosa e reservada. Mamãe, com seu coração grande e sua forma insegura de amar, sentia a necessidade gritante de nos lembrar que o caminho de volta estaria sempre aberto.

Nossos pais haviam se separado quando eu tinha uns seis meses e Bella, dois anos e meio. Nenhuma de nós se lembra de quando éramos uma família completa, mas a história era bem conhecida: a incompatibilidade foi o motivo do divórcio. Renée odiava Forks, a vida pacata, as fofocas e, principalmente, a chuva constante. Já Charlie, nosso pai, encontrou sua felicidade vivendo em uma casa pequena, com uma família amável e em um lugar tão seguro que parecia isolado do mundo.

— Nós queremos ir — disse Bella, mas sua voz soou sem nenhuma convicção. Ela sempre foi uma péssima mentirosa. — Eu quero ir.

Nos últimos cinco verões, desde que Isabella decidiu que Charlie deveria nos visitar em Phoenix em vez de irmos até ele, ela não parava de dizer o quanto Forks era deprimente. A surpresa foi enorme quando, durante um jantar com mamãe e Phil, ela simplesmente soltou a ideia de passar uma temporada com o papai. Até falou em terminar o ensino médio por lá, o que significava dois anos para ela e três para mim. Para alguém que não aguentava nem quatorze dias seguidos na cidade, aquilo parecia uma eternidade.

— Tudo bem! Apenas saibam que podem retornar para casa quando quiserem. Sem motivos ou avisos prévios — orientou mamãe, com os olhos cheios de lágrimas. — Vamos nos ver logo, não é?

Renée tinha esse jeito, um comportamento quase infantil que, por vezes, me fazia enxergar Bella como algo mais próximo de uma figura materna do que minha própria genitora. Era minha irmã mais velha quem consolava nossa matriarca. Até o último minuto, os papéis seguiam invertidos.

— Nós te amamos, mãe — declarei, pouco antes de embarcar. — Se mantenha segura e mande notícias.

Após o longo e inevitável abraço de despedida de Renée, encaramos quatro horas suspensas no ar, rumo a Seattle – a única cidade próxima com um aeroporto que recebia voos diretos de Phoenix. Voar sempre foi meu calcanhar de Aquiles: a cabine pequena e claustrofóbica, a sensação de ter a liberdade de ir e vir suspensa... Era quase uma experiência humana de ser cozida numa panela de pressão, com sobreviventes apenas por sorte. Não contive o profundo suspiro de alívio ao me atirar nos braços acolhedores de Charlie, bem no meio do saguão movimentado.

Meu pai é uma figura ímpar. Desde que surgiu a ideia dessa mudança, sua felicidade era genuína, quase infantil, por trocar o silêncio de sua casa pelo barulho revigorante de uma rotina adolescente. Ele não hesitou em organizar toda a papelada da escola e pequenas reformas, garantindo que Forks pudesse, de fato, se parecer com um lar.

Estar na presença de Charlie e Renée no mesmo dia (ainda que separados por horas e quilômetros) tornava gritante a incompatibilidade do relacionamento amoroso que viveram. Se você visualiza a persona de um pai, enxerga o xerife: calmo, amoroso, com rugas de riso nos cantos dos olhos e uma explosão de carinho. Já mamãe, Renée, é a figura alternativa, alguém que tenta resgatar a adolescência perdida tardiamente, mesmo com filhos. Ambos ocupavam um espaço de amor incondicional na minha vida, mas, apesar dos anos sob o mesmo teto que mamãe, era com Charlie que eu compartilhava a maior afinidade.

— Vocês estão enormes — disse papai, afrouxando o abraço. — É bom ter minhas garotas em casa de novo.

Bella engoliu em seco.

Meu lado analítico e observador notou o momento exato em que ela relaxou sua expressão dentro da aeronave, permitindo-se sofrer. E, com essa mesma habilidade, vi o instante em que seus olhos castanhos-achocolatados se sombreiam, num prenúncio silencioso de que, apesar de toda a força de vontade de Charlie, aquele lugar não seria o lar dela.

A velha viatura de meu pai nos esperava no estacionamento. O jogo de luzes vermelho-sangue e azul-royal era exatamente como eu me lembrava. A frota de Forks tinha apenas um ou dois carros desses, mas este estava com o Xerife Swan desde que ele entrou na corporação.

— Ei! O Urso ainda está aqui! — Apontei para o pequeno urso de pelúcia que carreguei na infância. Assim que desapeguei do brinquedo, meu pai o adotou como mascote de seu carro de trabalho. — Senti sua falta, Pai.

— Eu sempre carrego vocês comigo, filha. Não houve um único dia em que a saudade não fosse esmagadora — declarou ele, com a voz embargada. — Olhe, Bels! Sua correntinha fica sempre pendurada no retrovisor. Um pouquinho de cada uma.

Minha irmã se limitou a um sorriso tenso enquanto se ajeitava no banco traseiro.

De Seattle a Forks, enfrentamos uma hora de estrada, longa e silenciosa. Isabella rejeitou toda e qualquer tentativa de interação iniciada por Charlie, não de forma grosseira, mas com uma energia social esgotada. Respeitei seu momento e fixei toda a atenção no caminho de volta para casa. A chuva constante e impiedosa configurava um tom sombrio e misterioso na floresta ao nosso redor.

Ao pararmos em frente à casa, Papai fez questão de explicar a logística: ele havia adicionado um cômodo no andar térreo, que seria seu novo quarto, e um banheiro exclusivo para ele e eventuais visitas. Assim, Bella e eu ficamos com o andar superior inteiro. Ele frisou a importância de que, nesta fase da vida, cada uma de nós tivesse seu próprio espaço para decorar e imprimir nosso toque pessoal.

Em uma única viagem, descarregamos a pouca bagagem que trouxemos de Phoenix. Nossos guarda-roupas haviam sido projetados para o clima árido e seco, e a maior parte dos itens simplesmente não fazia sentido no clima úmido e constante de Forks, limitando drasticamente o que podíamos carregar.

Bella optou por ocupar o antigo quarto que dividíamos na infância, enquanto eu me instalei no que costumava ser o quarto de Charlie. Seu esforço em criar um ambiente acolhedor era palpável: novos jogos de roupa de cama, móveis recém-montados e até um leve cheiro de tinta fresca, tudo para que pudéssemos desfrutar da estadia.

O Xerife nos deu espaço; ele sabia que precisávamos de tempo para processar a mudança. E, honestamente, eu não tinha energia para sondar minha irmã e esmiuçar seus sentimentos naquele momento. Exausta da viagem, concentrei-me no conforto imediato: um banho de banheira com água fumegante e um pijama quentinho, ansiosa apenas por preparar um chocolate quente e planejar o cardápio do nosso primeiro jantar com Charlie.

Através da minha janela, observei a chegada de uma caminhonete vermelha desbotada ao nosso pátio. Era uma Chevrolet com data de fabricação próxima dos anos 60, quase uma relíquia que deveria estar aposentada. O mais impressionante era o ronco contido do motor, que não negava uma mecânica impecável e, arrisco dizer, recém-feita.

De lá de dentro, saiu um rapaz corpulento, com a pele de um tom quente, avermelhado, e cabelos longos e escuros que não consegui identificar. Ele pegou uma cadeira de rodas na carroceria, ajustou-a e ajudou a descer um senhor mais velho, que compartilhava a mesma cor de pele e o cabelo escuro. Eles se dirigiram diretamente à porta de entrada e logo escutei as boas-vindas calorosas de Charlie.

Enquanto isso, Isabella se manteve trancada no banheiro, em sua oposição habitual. Já eu, estava pronta para entender o que estava acontecendo. Papai não havia comentado nada sobre visitas para o jantar, ou sobre qualquer evento importante, mas a curiosidade falou mais alto. Não me preocupei em trocar de roupa, nem em desembaraçar meus cabelos cacheados. Eu desci as escadas de carvalho sem hesitar.

A sala de estar cheirava a madeira velha e musgo, um aroma que me remetia aos verões da minha infância. A cena era um encontro de velhos amigos: Charlie, com sua caneca de café cheia, acomodado no sofá, gesticulava animadamente para o senhor de pele escura e cabelos grisalhos que, após uma breve avaliação, identifiquei como Billy Black, nativo Quileute e companheiro de toda uma vida de meu pai.

Ao descer o último degrau, notei que Charlie interrompeu sua fala e me observou com um sorriso orgulhoso, que contrastava com seu melhor amigo. Billy Black me encarou com uma intensidade que me fez questionar se meu pijama, recém-saído do plástico, estava de fato sujo ou do avesso.

— Ei, Nessie! Lembra-se de Billy e seu filho Jacob, não é? — Interrogou meu pai, gesticulando para que eu me juntasse ao grupo.

Pela primeira vez, notei o rapaz. Ele estava posicionado ao lado da lareira apagada, imóvel, quase como uma coluna pertencente à construção. Definitivamente, ele era a atração do lugar. Não apenas pela beleza física que se destacava, mas havia algo na forma como ele se posicionava, com uma força bruta e contida. Seus olhos castanhos exalavam um calor que ia além de hospitalidade; era algo terrivelmente familiar.

O som da chuva lá fora e o estrondoso chiado do aquecedor preenchiam o ambiente, mas meu foco sensorial estava inteiramente no rapaz. O som da respiração dele me paralisou, e me senti envergonhada por notar isso.

— Renesmee? — Charlie tornou a me chamar, sem entender a pausa.

— Claro! É um prazer ver vocês novamente — Falei, atordoada, sem conseguir formular uma frase realmente coerente.

Forcei um passo à frente e me coloquei ao lado do meu pai, acenando tanto para o velho Billy quanto para Jacob. Diferente do grisalho, que sorriu, o rapaz não mostrou os dentes, apenas acenou com a cabeça e ajeitou a postura, deixando ainda mais em evidência seus ombros largos.

— Onde está sua irmã? — Questionou o chefe Swan.

— Tomando banho, eu acho — Menti com a maior inocência que pude. Não seria cortês dedurar Bella e confessar que ela estava se escondendo. — A viagem para cá deve ter esgotado ela.

— Entendo — disse Billy com sabedoria. — Ela vai perder toda a diversão.

Olhei confusa para Charlie, repassando em minha mente se, em algum momento, ele havia pontuado algum tipo de evento. Tão analítico quanto eu, meu pai se apressou em responder, com um brilho de entusiasmo nos olhos:

— Comprei de Billy a caminhonete que está lá fora. Um presente de "boas-vindas" para você e Bella. Pensei que ir para a escola de carona na viatura não seria tão legal.

Um sorriso rasgou meus lábios de ponta a ponta. Em parte pelo cuidado de meu pai, e em grande parte pelo meu entusiasmo com o universo automobilístico. Toda a minha atenção, que estava estranhamente focada em Jacob, agora migrou para a informação técnica.

— Isso é incrível, pai! Uma Chevrolet C-10 de 63... Como conseguiu? — Verbalizei minha animação. — Eu ouvi o ronco quando vocês chegaram, e o motor está incrível! Quem foi o mecânico responsável?

Billy olhou pelo canto dos olhos em direção ao filho e apontou para ele com a cabeça. Jacob parecia estranhamente orgulhoso, adotando uma expressão mais relaxada, como se a barreira do primeiro contato tivesse sido quebrada pela afinidade.

— Deu um pouco de trabalho, mas, como pode constatar, o resultado foi excelente — O brilho de seus dentes perfeitamente brancos e polidos me atingiu com a força de um soco. A face iluminada do Quileute tornava sua beleza ainda mais chamativa. — O motor original estava morto. Apostamos todo o trabalho do novo motor em força e potência. Ele vai aguentar bem as estradas de Forks.

— Vai ser perfeito para Bella e eu — Comentei, me voltando para Charlie e tentando sair da hipnose daquele sorriso. — Obrigada, pai.

— Não por isso, querida — Falou em seu tom afetuoso. — Bill e Jake, ficam para jantar conosco, certo?

— Acho que deveríamos voltar antes que a chuva piore, Swan.

— Nada disso! Eu faço questão. Levo vocês dois após a refeição.

— Pensei em chili para hoje — Soltei a informação apressadamente. — É a minha especialidade e, acredito que todos aqui gostam, certo?

Ao menor sinal de confirmação dos homens, saltei em direção à cozinha. Cozinhar era quase uma terapia relaxante, e me ajudaria a fugir da tensão energética que Jacob havia levado para a sala de estar.

Apesar de não ter memórias tão nítidas da localização dos mantimentos e panelas, me virei bem na busca, orquestrando com facilidade a preparação do cardápio. Entre um ingrediente e outro, tentei me manter atenta às conversas que ocorriam no cômodo ao lado, mas, para a minha decepção, não fui capaz de ouvir a voz de Jacob em nenhum momento.

O forte e picante aroma de meu preparo já se espalhava pela casa, quando os homens adentraram a cozinha. Entretanto, foi o cheiro de pinho e fumaça de lenha que Billy e seu filho carregavam consigo que melhor se acomodou em minhas narinas. Com os três devidamente acomodados, a mesa de jantar, limpa com esmero minutos antes, parecia subitamente pequena.

Bella foi a última pessoa a se juntar ao grupo, alcançando nosso campo de visão quando eu já me direcionava para servir a refeição. Com seu moletom cinza escuro e os cabelos ainda molhados, se sentou na ponta da mesa logo após ter uma conversa cortês com os convidados e fingir entusiasmo sobre nosso presente. No segundo seguinte, se manteve o mais afastada possível de qualquer assunto e se pôs na mesa como um observador forçado.

Charlie e Billy tagarelavam sem parar, passando por assuntos como a temporada de pesca e as viaturas da delegacia em um átomo de segundo. Serviu como uma ancoragem perfeita; o som de fundo e as atenções desviadas me permitiram observar Jacob de canto, capturando detalhes antes despercebidos como alguns penugens de barba querendo aparecer e seu cabelo comprido de um brilho intenso.

— E os preparativos para o primeiro dia de aula, Renesmee? — Foi Billy quem questionou, prendendo uma risada. — Soube que meu amigo aqui colocou até um mapa dos corredores fixados na parede do seu quarto. Já decorou todos os cantos?

O humor entre meu pai e seu amigo era algo peculiar, voltado à irritação, como quando você ama tanto alguém que não consegue deixa-la em paz por um único momento. A piada da vez era o excesso de zelo que o chefe Swan tinha com as filhas. Sorri, logo após engolir um pouco do meu chili.

— Confesso que não tive muito tempo de me atentar ao mapa. Mas, estou animada para o primeiro dia. Uma das coisas que mais me afetaram foi deixar meus amigos em Phoenix, então a possibilidade de fazer novos me deixa muito satisfeita.

Jacob parou seu garfo sobre o prato e se inclinou em minha direção com ar de curiosidade.

— Você vai frequentar a Forks High School?

— Essa é a única possibilidade da região, não? — Fui pega de surpresa pelo questionamento e pela interação repentina. — Confesso que estou um pouco por fora, mas, sim, vou pra Forks High School.

— Na verdade, nós temos a escola da Reserva, onde eu frequento — Deu de ombros. — Temos um ou dois forasteiros da cidade por lá.

Tentei capturar se essa informação teria sido apenas para fins de conhecimento, ou uma chamada silenciosa e interesse velado em nos ter no corpo estudantil dele. Na dúvida, optei por me silenciar.

— Forks High School é uma escola decente — Ele não estava tentando me convencer, parecia apenas querendo engajar a conversa. — Apesar de todos os esquisitões.

— Esquisitões? — Mesmo voltada para Jacob, notei o olhar de reprovação do velho Billy queimando no filho.

— E alguém consegue ser completamente normal nesse lugar? — A voz de Bella soou desanimada, cortando pela primeira vez seu voto de silêncio. — Noventa por cento desses alunos nasceu aqui com todo esse verde e essa chuva. Quem fica está preso num planeta alienígena.

Todos sabíamos que a chegada e a adaptação de Isabella seriam um capítulo difícil em nossas vidas, mas acredito que meu pai não esperava tamanha rispidez e distúrbio de comportamento logo nas horas iniciais, o que ficou perceptível com o semblante desanimado que tomou conta de seu rosto.

— Essa é justamente a melhor parte — Brandei, forçando mais animação que o necessário.

— Renesmee, você ainda nem lidou com o inverno em Forks — Grunhiu Bella.

Seu comentário foi o bastante para direcionar o foco de Jacob para ela. Ele a olhou com curiosidade, mas sem interesse. Ele parecia estar analisando a sua fúria, sem entendimento real do que se passava dentro da cabeça de minha irmã mais velha.

— Tanto faz — Disse Isabella, sem esperar qualquer outra resposta. A essa altura, já se levantando da cadeira. — Se me derem licença, vou me recolher. Estou extremamente cansada da viagem.

Novamente, não houve espaço para nenhum de nós falar. Com seus olhos achocolatados voltados para o chão, se retirou em direção ao andar superior com a pressa de quem foge de algum tipo de ameaça iminente.

Charlie soltou um longo e cansado suspiro, mas em momento algum cogitou repreendê-la. Aceitar o isolamento social fazia parte da técnica dele em lidar com a truculenta adaptação de Isabella.

— Desculpem! — Pediu sem jeito, direcionado aos visitantes. — Isabella sempre foi assim. Ela lida melhor com as mudanças presa no próprio mundo.

— Ela é parecida com a mãe. Em todos os aspectos — Comentou Billy, com seu tom de sabedoria e conhecimento de causa. — Da cor do cabelo, ao ódio pela cidade.

Jacob, que estava parado observando a fuga de minha irmã mais velha, finalmente desviou seu olhar e tornou a se voltar em minha direção.

— Vocês duas parecem muito diferentes — A energia do seu olhar se voltava para mim. Sentados lado a lado, o calor excessivo de seu corpo vinha em minha direção de maneira reconfortante. — Você parece gostar daqui.

— O cheiro de terra molhada e a promessa de uma picape que não vai me dar trabalho me deixaram animada — Respondi sorrindo.

O restante do jantar foi mais silencioso, todos absorvendo o clima tenso e palpável deixado por Isabella. A expressão do “elefante branco no meio da sala” parecia caber bem no momento. Ninguém mais tocou no assunto, mas todos os presentes tinham suas próprias e internas opiniões.

Comecei a me ensaiar para puxar um novo assunto com Jacob no mesmo instante em que Charlie sugeriu levar nossos convidados de volta para a reserva antes que a chuva, que há pouco havia cessado, retornasse com maior força. Meu pai foi o responsável por pilotar a cadeira de Billy até o carro, logo após eu me despedir de seu melhor amigo, mas, diferente dos outros dois, o rapaz mais jovem se demorou na entrada, casualmente encostado no batente da porta, me observando.

Dei um passo à frente, tentando avaliar se havia algo que ele gostaria de me dizer, ou se só estava observando meu comportamento. Nesse momento, ele abriu a boca.

— Sabe, seria legal se você fosse até a Reserva, qualquer dia desses. Posso te mostrar a oficina onde trabalhei no motor da picape ou, quem sabe, podemos trabalhar juntos em alguma coisa.

A proposta inesperada abria uma porta para o, até então, desconhecido mundo do filho mais novo da família Black. Não encarei como um convite para um encontro, porém, compreendi que poderíamos ter uma troca baseada em afinidades em comum e me animei.

— Eu adoraria. Quem sabe, depois da escola, algum dia dessa semana — Retive a animação fervilhante em meu tom. — Que tal sexta?

— Vou estar te esperando.

Jacob me lançou um sorriso completo e cheio de dentes perfeitamente alinhados, antes de se jogar porta a fora, seguindo nossos pais. Eu apenas fiquei parada, olhando ele ir embora, como se sua imagem ainda estivesse projetada em minha frente; minha mente pregando uma peça tão bem feita que tanto sua forma física, quanto seu calor e seu cheiro ainda pareciam presentes no ambiente, contrastando com a atmosfera fria da sala.

A comida chegou ao fim, nossas visitas se foram, a louça estava limpa e organizada, e minha cabeça estava, de certa forma, presa em Jacob Black.

Subi as escadas de carvalho, me deparando com a porta fechada de Isabella. Não me preocupei em tentar ouvir qualquer barulho, ou adentrar e questionar sobre seu humor. Romper seu casulo, naquele momento, não era uma decisão acertada.

Em meu quarto, cuidei de separar e ajeitar as roupas que seriam utilizadas no dia seguinte. Um primeiro dia de aula gélido e úmido pedia blusa de lã, casaco reforçado, calça jeans, meias felpudas e uma capa de chuva de boa qualidade. Aproveitei também para dar uma espiada no mapa da Forks High School, me certificando de que não ficaria tão perdida.

Deitada sob meu cobertor grosso, meu corpo se relaxou de imediato, sendo dominado pelo cansaço de um dia intenso e cheio de mudanças, mas minha mente não acompanhou. Dominada por pensamentos hiperativos, repassei os últimos acontecimentos, me focando em especial no rapaz que me havia convidado para sua oficina. Talvez Jacob tenha sido a última imagem que eu tive, antes de cair num sono profundo, meia hora mais tarde