Meu Novo Crepúsculo
5 Antigos acordos, novos medos
Quando a caminhonete de Jacob alcançou o pátio da casa de Charlie, a residência já se encontrava em completa escuridão. Considerando os hábitos noturnos de meu pai e minha irmã, havia uma certeza absoluta de que ambos já estavam em sono profundo. Papai confiava sua vida a Billy e Jacob; logo, saber que eu estava na companhia de ambos conferia a ele a tranquilidade necessária para dormir antes mesmo do meu retorno.
— Obrigada por hoje, Jake — agradeci, depositando um beijo em sua bochecha. O breve contato entre meus lábios e sua pele quente fez meu corpo formigar, um eco do calor que ele emanava. — Foi completamente diferente do que eu imaginava, mas foi incrível.
— Agora que já conhece o caminho, venha me ver mais vezes — disse ele, com um sorriso gentil. — Mande mensagem sempre que puder. Nos vemos na casa do Harry, certo?
Concordei com um aceno, sentindo uma pontada de relutância ao deixar o conforto da cabine. Desci do veículo e me despedi com um último "boa noite". Jacob permaneceu imóvel até que eu trancasse a porta pelo lado de dentro; ele parecia vigiar, garantindo minha segurança até o último segundo. Seus modos zelosos me traziam uma onda imensa de felicidade. Minhas amizades em Phoenix nunca chegaram perto da conexão e sintonia que ele e eu vínhamos desenvolvendo naquela curta semana.
Tentei não fazer barulho ao caminhar. Eu andava nas pontas dos pés, certificando-me de que o único som no ambiente fosse o tique-taque metódico do relógio de parede. As madeiras gastas do piso rangiam sob meu peso, mas acreditei que não seria o suficiente para despertar Charlie. Antes de subir, retirei a televisão da tomada e me encaminhei ao andar superior.
No meu quarto, separei um pijama grosso e estiquei a jaqueta de Jacob sobre a poltrona lilás; eu a devolveria no domingo. Antes de seguir para o banho, enviei uma última mensagem para ele: “Você foi um ótimo anfitrião. Espero poder retribuir tamanha hospitalidade no próximo jogo de futebol. Tenha uma boa noite!”
A água quente relaxou meus músculos instantaneamente. O vapor tornava tudo acolhedor, criando uma barreira temporária contra o frio noturno. Mas o cansaço era soberano e não me demorei. Eu ainda processava as histórias de Billy quando alcancei o corredor em direção aos quartos, mas meus devaneios foram interrompidos por um barulho seco que me fez estacar.
Era um som estranho, abafado, vindo do quarto de Isabella.
— Bella? — sussurrei, abrindo a porta com cautela.
Um frio gélido percorreu minha espinha ao analisar a cena: a janela estava escancarada, permitindo que o vento noturno invadisse o cômodo com violência. Meus próprios batimentos cardíacos ecoaram em meus ouvidos quando, por um breve e aterrador segundo, acreditei ter visualizado uma silhueta — pálida e fluida demais para ser humana — saltar para a escuridão da floresta com uma agilidade inimaginável.
Disparei até a janela, com a respiração ofegante. Debrucei-me sobre o parapeito, vasculhando as linhas das árvores em busca de qualquer sinal de um invasor. Não havia nada. O silêncio da mata era absoluto.
— Foi só impressão sua, Renesmee — repeti para mim mesma, tentando conter o tremor nas mãos.
Fechei a janela e conferi a tranca duas vezes. Isabella seguia em seu sono imaculado, envolta em cobertores, com o rosto sereno e alheio ao perigo. Recuei para o meu quarto, sentindo uma inquietação que nenhuma lógica conseguia aplacar.
Quando o sono finalmente me alcançou, não trouxe descanso. Fui arrastada para um mar de sonhos disformes. No primeiro ato, eu estava de volta à fogueira em First Beach, mas as chamas não possuíam calor; eram de um azul gélido. Billy apontava para a floresta, mas sua voz agora era cortante como o gelo, ferindo meus ouvidos. Tentei correr em busca de Jacob e sua temperatura febril, mas o chão se transformava em vidro estilhaçado sob meus pés.
De repente, a cena mudou. Eu estava novamente no quarto de minha irmã. A janela estava aberta e uma figura masculina, cujas feições eu não conseguia distinguir, permanecia estática ao lado da cama dela. Uma reviravolta no estômago me avisou que nada ali era seguro. Tentei gritar, mas minha voz estava congelada. Jacob surgiu atrás de mim e pude sentir seu calor crescente; ele não sorria, seus dentes estavam trincados e um rosnado baixo, como o de um animal selvagem, escapava por entre seus lábios.
Acordei em um sobressalto, sentindo o suor frio escorrer por minhas costas. A claridade da manhã já começava a invadir as frestas da cortina e a casa jazia em um silêncio profundo. Suspirei pesadamente antes de descer as escadas em busca de água, tentando discernir onde terminava o pesadelo e onde começava a realidade de Forks.
O copo de água gelada não foi suficiente para dissipar a inquietação que me consumia. Pela janela da cozinha, observei que o céu de sábado prometia manter a trégua da chuva, mantendo-se em um cinza estático. Fosse pelos eventos da noite anterior ou pelo medo que se transformava em um gosto metálico e persistente em minha boca, a floresta agora parecia uma muralha onde segredos se acumulavam de forma sombria. Senti uma necessidade urgente de separar a paranoia do sono da realidade palpável.
Calcei minhas botas forradas e vesti o primeiro casaco que encontrei no andar de baixo. Optei por sair pela porta dos fundos para evitar qualquer ruído que pudesse despertar meu pai; a grama alta e encharcada chicoteou minhas canelas conforme eu avançava. O aroma predominante era o de terra úmida, mas, ainda assim, eu poderia jurar que havia uma nota adocicada pairando no ar, tão intensa que fazia minhas narinas arderem.
Contornei a casa em uma meia-lua estratégica até alcançar a área sob a janela de Bella. Ali, precisei redobrar a atenção; o terreno era irregular e uma camada espessa de musgo formava um tapete denso de alguns centímetros. Para onde quer que eu olhasse, havia folhas em decomposição espalhadas pelo solo úmido.
Iniciei uma análise minuciosa, buscando qualquer forma que destoasse do caos natural da vegetação. De início, tudo parecia em ordem, até que finalmente fixei o olhar no ponto exato que serviria de pouso para alguém que saltasse do segundo andar.
As marcas eram profundas, rasgando violentamente a camada de limo. A impressão era de que algo extremamente pesado havia atingido o solo com uma força desproporcional. Tamanha era a profundidade dos sulcos que a terra escura, oculta sob a vegetação, estava exposta. Mas o detalhe mais intrigante — e aterrorizante — era a distância entre os pontos de impacto.
Senti meu coração acelerar, batendo contra as costelas com mais força do que na noite anterior.
Recuei alguns passos, tentando realizar uma medição mental. Se meus cálculos estivessem corretos, o salto fora de aproximadamente cinco metros. Uma queda alta o suficiente para quebrar ossos humanos e deixar marcas de desequilíbrio na lama; contudo, aquelas impressões eram limpas, de uma precisão quase cirúrgica.
A poucos metros dali, um tronco jovem apresentava ranhuras similares às de mãos que buscam impulso. Aproximei-me para uma análise mais detalhada e me agachei, levando o rosto rente à marca. Nenhuma criatura humana seria capaz de imprimir o desenho de seus dedos em um material tão resistente quanto aquela casca de árvore.
Então, o cheiro me atingiu novamente. Era gélido. Não o frio da neve, mas algo químico e estático, como o interior de um necrotério ou o aroma de ozônio que antecede uma tempestade.
— Renesmee?
O grito de meu pai me fez saltar. Meus pés escorregaram no musgo e eu quase fui ao chão.
— Filha, não acho que você deveria se enfiar no meio dessa umidade — disse ele, o tom carregado de cuidado. — O que está procurando?
— Ontem, quando cheguei, a janela do meu quarto estava aberta e o vento carregou uma foto do meu quadro magnético. Achei que pudesse ter caído por aqui — menti, sentindo o peso da falsidade em minha voz.
— Cuidado para não se machucar, o chão está muito escorregadio — ele advertiu. Forcei um sorriso e assenti. — Entre, vamos tomar café juntos antes de eu ir para a delegacia. Hoje farei plantão, lembra?
Charlie virou-se e retornou para o interior da casa. Olhei uma última vez para as marcas antes de segui-lo. Minha cabeça martelava. Senti uma vontade desesperada de compartilhar com ele o que havia acontecido e minhas recentes descobertas, mas a história parecia tão irreal que senti vergonha apenas de me imaginar narrando aquela sequência de fatos. Charlie era um homem de leis e lógica; eu, agora, era uma garota cercada por relatos de um conto de terror.
Em qualquer outra ocasião, o aroma do café recém-passado e dos ovos com bacon teria sido um alento. Mas, naquele momento, o cheiro de ozônio parecia impregnado em minhas narinas, provocando-me um enjoo persistente. Quando me acomodei à mesa, minhas mãos ainda permaneciam gélidas, fosse pela umidade externa ou pelo choque da descoberta em minha breve investigação no quintal. Observei meu pai por um instante; ele lia o jornal local com sua habitual e invejável serenidade.
Isabella juntou-se a nós pouco depois. Notei que ela já não se movia com a mesma lentidão apática do início da semana; o fato era que os raros dias sem chuva traziam à minha irmã um sopro renovado de vida. Analisei sua aparência minuciosamente e não identifiquei qualquer vestígio de uma noite mal dormida; não havia olheiras ou sinais de exaustão. O silêncio parecia ter se tornado parte intrínseca de sua personalidade.
— Você dormiu bem, Bella? — indaguei, esforçando-me para soar casual.
Ela serviu-se de uma xícara de café antes de erguer o olhar em minha direção.
— Sim — respondeu de forma monossilábica. — Mas houve um momento da noite em que senti um pouco de frio. Acho que o aquecedor central estava em uma potência muito baixa.
Troquei um olhar rápido com Charlie, que apenas deu de ombros, indiferente.
— Esta é uma casa velha — comentou ele, despreocupado. — Às vezes, as trancas das janelas falham com a pressão do vento e o ar acaba entrando; nem sempre a culpa é do aquecimento. Vou dar uma olhada nisso quando voltar da delegacia.
Fixei novamente meus olhos em Isabella, buscando qualquer faísca de inquietação. Ela não parecia assustada; tudo em seu comportamento estava perfeitamente normal. Recusei-me a acreditar que ela estaria em tamanho estado de plenitude se tivesse captado o menor sinal de uma invasão em seu santuário.
— Você ouviu algum barulho? — insisti, inclinando-me em sua direção enquanto aguardava a resposta. — Sabe... alguma coisa vindo da floresta?
— Nada além do vento, Renesmee. Por quê? — Ela me encarou com uma curiosidade genuína, que me fez recuar.
Encostei-me novamente na cadeira, sentindo o nó na garganta apertar. Antes que eu tivesse a chance de formular uma explicação plausível, Charlie levantou-se, ajustando o coldre no cinto e anunciando sua partida. Ele depositou um beijo carinhoso no alto da minha cabeça e na de Bella.
— Se precisarem de alguma coisa, me liguem. — disse ele com um meio sorriso, antes de desaparecer em direção à saída.
A cozinha foi imediatamente tomada por um silêncio sepulcral e desconfortável. Minha mente vagou até Jacob; questionei-me até que ponto ele seria capaz de acreditar em minha história, ou se ele também acharia que o clima de Forks estava finalmente afetando minha sanidade. Busquei o celular e apressei-me em digitar uma mensagem, buscando um porto seguro.
“Bom dia, Jake! Acho que você ainda está dormindo. Quando acordar, posso te ligar?”
Mal a notificação de “entregue” surgiu na tela e meu celular já começou a vibrar freneticamente. O nome de Jake brilhava no visor; ele não respondeu por texto, optou por ligar quase imediatamente. Lancei um olhar rápido para Bella, certificando-me de que ela estava absorta o suficiente em seus próprios pensamentos para não notar minha saída. Segui em direção ao segundo andar, buscando a privacidade do meu quarto como um refúgio.
— Jake? — Atendi com um fio de voz; minha fala não passava de um sussurro trêmulo.
— Renesmee? — Jacob estava em alerta total. O tom era de pura preocupação, sem qualquer sinal de sonolência, apesar da hora precoce. — O que aconteceu? Você está bem? O Charlie está com você?
— Jake, me desculpa, eu não queria te assustar. Achei que você ainda estivesse dormindo — confessei, tomada por um súbito sentimento de culpa. — Eu estou bem. Estamos bem. Papai acabou de sair para o plantão.
Um suspiro aliviado ressoou do outro lado da linha antes que ele voltasse a falar:
— Eu fiquei preocupado! O que aconteceu, afinal?
Houve um minuto de silêncio na chamada. Dentro da minha cabeça, eu repassava os acontecimentos recentes, tentando encontrar uma forma de compartilhar o que se passara sem parecer um completo delírio.
— Ontem, quando cheguei em casa, fui tomar banho e, ao passar pelo corredor, ouvi um barulho vindo do quarto de Bella — contei, baixando ainda mais o tom. Mesmo acreditando que minha irmã permanecia na cozinha, eu queria garantir que seríamos os únicos a partilhar aquela informação. — Quando entrei, a janela estava aberta e posso jurar que vi um vulto se atirar para fora.
— Como um fantasma?
— Não, Jake! Era humano, ou algo perto disso — meus pés batiam contra o chão ritmicamente, uma tentativa impensada de me acalmar. — Hoje de manhã, fui até o quintal e encontrei marcas no solo e em um tronco caído.
O silêncio se fez presente mais uma vez, mas agora carregado pelo peso das minhas palavras. A tensão era quase palpável. Senti que Jacob processava meu relato com uma seriedade que me trouxe um alívio imediato; eu não era louca aos olhos dele.
— Que tipo de marcas? — Perguntou ele, a voz agora grave e baixa, acompanhando a minha. — Você falou sobre isso com o Charlie ou com a Bella?
— Não — admiti. — As marcas estavam logo abaixo da janela dela. O musgo fora arrancado e havia buracos profundos. É um salto muito alto para alguém pousar com tanta precisão nas pontas dos pés. E o cheiro, Jake… o cheiro era horrível.
— Cheiro?
— Sim. Algo forte, uma composição química... gelada.
Ouvi o som de metal se chocando contra metal; muito provavelmente, ele estava na oficina e largou uma ferramenta com uma brutalidade desnecessária.
— Renesmee, me escuta com atenção, está bem? — Havia uma intensidade febril na fala dele. — Arrume uma mochila com roupas suficientes para passar a noite aqui na Reserva. Convença a Bella a vir junto; diga que vocês vão ficar com a Emily para uma noite das garotas. Vou pedir ao meu pai para convidar o Charlie para se juntar a nós esta noite. Os outros rapazes vão até ai averiguar o que aconteceu, mas eu preciso me certificar de que vocês três fiquem seguros aqui.
— Tudo bem. — Senti meu coração acelerar novamente. — Obrigada, Jake! Vou desligar e cuidar de tudo, ok?
— Chego em meia hora para buscar vocês duas — informou ele, o tom de voz transbordando uma urgência protetora. — Se cuida, por favor.
Finalizei a chamada e, imediatamente, comecei a organizar minhas coisas. Na mala de mão, coloquei roupas suficientes para duas noites, selecionando as peças mais quentes que encontrei; a incerteza sobre quando seria seguro retornar me obrigava a ser precavida. Juntei meus itens de higiene e toalhas, além de fazer uma anotação mental para não esquecer os livros da escola; precisaria terminar a lição de fim de semana em algum momento.
Com tudo pronto, desci as escadas apressada em busca de Bella. Encontrei-a ainda na cozinha, terminando de guardar a louça do café com aquela sua habitual lentidão distraída.
— Ei, Bells! — Chamei sua atenção, tentando forçar uma animação que eu não sentia. — Ontem, lá na Reserva, eu participei de uma fogueira na praia e conheci algumas pessoas incríveis. Tem uma moça, a Emily, ela é um pouco mais velha que nós, mas é uma pessoa maravilhosa. Estava falando com ela agora e recebemos um convite.
— Que tipo de convite? — Bella desviou o olhar para mim, desconfiada.
— Ela vai fazer uma noite das garotas — menti, focada em soar o mais convincente possível. — A Emily me convidou e fez questão de estender o convite a você também. Seria ótimo para nós duas.
— Renesmee, eu não conheço ninguém e você mal falou com elas — respondeu Bella, com a voz carregada de incerteza e relutância. — Vai você, divirta-se.
— Não faz sentido você ficar aqui sozinha, Bella — contra-argumentei rapidamente, aproximando-me dela. — O Jacob me disse que o papai vai passar a noite na casa do Billy para eles assistirem ao jogo. Além disso, eu não vou sem você, e eu queria muito ir.
Ela hesitou por um segundo, parecendo avaliar as possibilidades enquanto seus dedos tamborilavam nervosamente no tampo da bancada.
— Vai ser bom sair um pouco, Bells! Conhecer gente nova — insisti, aproveitando a guarda baixa dela. — Você está há uma semana trancada nesse quarto. Ou você começa a se ocupar, ou sua estadia em Forks vai ser muito mais difícil do que o necessário.
— Tudo bem, Renesmee — ela cedeu, enfim, dando-se por vencida. Por dentro, soltei um suspiro pesado de alívio. — Que horas nós vamos?
— O Jacob vem nos buscar daqui a pouco.
— Vou subir para organizar minhas coisas.
Enquanto Isabella subia para preparar sua mochila, corri até o quarto de Charlie e montei uma bolsa para ele também. Escolhi itens básicos, considerando o mesmo período de duas noites. Meu corpo inteiro estava em estado de alerta, meus sentidos aguçados como nunca. A cada minuto, eu encarava as janelas e espiava por cima do corrimão da escada, certificando-me de que nenhuma presença havia atravessado o umbral de nossa casa.
Juntei e arrastei todas as bolsas para o sofá da sala. Se Jacob seguisse sua pontualidade habitual, teríamos apenas dez minutos até sua chegada. Os segundos pareciam levar horas para passar, e eu me sentia estranhamente sufocada, como se o ar dentro daquela casa tivesse ficado rarefeito. Bella desceu logo em seguida; ela claramente não seria a pessoa mais animada daquele sábado na Reserva, mas, ainda assim, senti um imenso alívio pelo seu esforço. Saber que logo estaríamos em segurança era a única coisa que me mantinha sã.
Antes de sair, verifiquei minuciosamente cada tranca e fechadura. Demorei um pouco mais na porta dos fundos; era inevitável não fixar o olhar na floresta densa. Uma sensação incômoda de estar sendo observada subia pela minha nuca, eriçando cada pelo do meu corpo.
Nossa carona chegou exatamente no prazo. Jake dirigia um VW Rabbit que parecia ter saído diretamente de 1986. Ele estacionou junto ao meio-fio e manteve o motor ligado — um recado silencioso da nossa urgência. Saí de casa o mais rápido que pude, sentindo o peso do mundo diminuir um pouco ao vê-lo.
— Oi, Jacob — quebrei a distância entre nós, depositando um beijo em sua bochecha. — Obrigada por vir.
Sussurrei a última parte baixo o suficiente para garantir que apenas ele captasse a mensagem.
— Estarei aqui sempre que você precisar — respondeu ele, a voz firme e protetora.
Enquanto eu acomodava nossas coisas no pequeno porta-malas, Bella se aproximava com passos arrastados. Ela trocou poucas palavras com Jacob e logo se acomodou no banco traseiro, deixando-me o lugar do carona. Munida dos AirPods que ganhara de Phil, marido de Renée, ela deixou claro que seria uma companhia silenciosa durante o trajeto. Com tudo organizado, o Rabbit arrancou em direção à estrada principal.
— Vamos passar primeiro na casa da Emily e deixar as malas — informou Jake, pouco antes de Bella isolar-se com sua música. — Ainda é cedo e temos o sábado inteiro pela frente. Podemos dar um passeio pela Reserva, quem sabe visitar os gêmeos.
Jacob era um ator muito melhor do que eu; ele fazia parecer que tudo estava perfeitamente normal. Se eu estivesse no lugar de Isabella, mergulhada na mesma ignorância sobre os fatos, seria facilmente convencida por aquele tom casual. Ela esboçou um sorriso mínimo em resposta.
— Ei, Renesmee — sussurrou ele, aproveitando que a música de Bella estava alta o suficiente para nos dar privacidade. — Como você está se sentindo?
— Um pouco assustada — confessei, baixando o olhar. — Dentro de casa, tive a sensação de estar sufocando, Jake. Como se houvesse olhos em todos os cantos.
— Vai ficar tudo bem, ok? Eu prometo.
— O que você acha que é? — Perguntei, descontando o nervosismo nas cutículas dos dedos. — Ou quem você acha que é?
— Meu pai pareceu muito tenso quando falei com ele — Jake soltou um longo suspiro, os olhos fixos na estrada. — O Sam também estava estranho. Nenhum deles me deu detalhes, mas parecem ter um palpite. Acho que isso entra naquela categoria de coisas que eu ainda não tenho permissão para saber.
— Eu estou com medo, Jake. — Admitir aquilo em voz alta tornou a situação real de uma forma que eu tentava evitar.
— Vocês vão estar seguros conosco em La Push — sua voz rouca soou suave, exercendo um efeito calmante quase imediato. — Meu pai quer falar em particular com você. Pensei em distrair a Bella com os muffins da Emily enquanto vocês conversavam. Ele quer entender melhor o que você viu.
— Claro — concordei. — Espero que a Emily não se importe com a nossa estadia repentina.
— "Elas podem ficar o tempo que for necessário". Essas foram as palavras dela — garantiu ele.
Pela primeira vez desde que acordei, o peso no meu peito cedeu um pouco. Estávamos indo para o refúgio.
— O Billy já conversou com o Charlie?
— Sim. Ele relutou, mas concordou. Vai se juntar a nós após o turno.
— Você acha que existe algum risco para ele na delegacia? — Perguntei, embora parecesse bobagem imaginar um perigo dentro de uma delegacia. Mas eu sabia que o que quer que estivesse nos rondando não seria detido por armas ou autoridades comuns.
— Ele estará seguro — Jacob afirmou com convicção. — O Harry está ciente de tudo e vai ficar por lá com ele, atento a qualquer sinal estranho.
Me afundei no banco do carona; por um momento, foi como se o estofado surrado me abraçasse. Segui em silêncio em parte considerável do trajeto. Quando alcançamos a fronteira entre Forks e a Reserva Quileute, eu me sentia estranhamente mais segura. O ar parecia ter um peso diferente desse lado da linha invisível que cruzava os dois pontos.
Jacob estacionou o Rabbit em frente a uma grande casa de madeira em tons de cinza claro. Havia fumaça saindo da chaminé, anunciando que o fogão a lenha estava sendo usado. O cheiro de comida alcançava nossos narizes antes mesmo que colocássemos o pé na varanda. Emilly nos aguardava na porta, dando as boas vindas; pelo canto do olho, vi quando Bella recuou um passo, ao se deparar com a enorme cicatriz da outra, numa atitude pouco cortês que Emilly pareceu não notar, ou se importar.
— Olá, Em. — Cumprimentei a abraçando com força. — Obrigada!
Emilly sabia que o agradecimento não se referia a uma festa do pijama. Ela me deu um aperto como quem diz que vai ficar tudo bem e logo se voltou para Bella, se apresentando. Minha irmã estava longe de ser uma pessoa calorosa; pedi mentalmente que seu jeito mais calado não ofendesse ninguém.
Conforme previamente combinado, Isabella seguiu com Emilly para cozinha, enquanto Jacob me guiava para a parte dos fundos da casa. Lá estavam Sam, namorado de Emilly que eu havia conhecido na outra noite, e Billy.
— Bom dia, Renesmee — cumprimentou Billy. Seus olhos, profundos e carregados de uma sabedoria antiga, avaliavam meu estado com um instinto quase paternal. — Você está bem, menina?
— Sim! — Tentei forçar um sorriso, embora o tremor em minhas mãos me traísse. — Estou assustada, Billy. Mas, fisicamente, estou bem.
O patriarca dos Black assentiu e fez um gesto discreto, um convite silencioso para que eu me aproximasse. Inclinando-me em sua direção para manter a conversa em um tom privado, comecei a detalhar cada fragmento da noite anterior, desde o vulto na janela até os vestígios perturbadores que a luz da manhã revelara na floresta. Ele me ouvia em um silêncio absoluto, seus olhos parecendo ler as entrelinhas do meu pânico.
— Você fez bem em vir para cá — ele sentenciou ao fim do meu relato. — Vocês três estão seguros aqui conosco.
Antes que eu pudesse formular qualquer pergunta sobre o que ele suspeitava ser, Sam se pronunciou. Sua voz, direcionada especialmente aos Black, era grave e autoritária, ressoando como um trovão distante.
— Solicitei que Jared e Paul me acompanhassem até a residência dos Swan. Vamos averiguar o perímetro e nos atentar especificamente aos pontos que Renesmee descreveu.
Meu olhar disparou em direção a Jacob, buscando algum sinal ou explicação, mas ele permanecia estático. Havia uma comunicação silenciosa e impenetrável acontecendo entre os três, uma sintonia que eu não me atrevia a interromper. Apenas presumi que teria minhas respostas com Jacob mais tarde.
— Leve-a para dentro e fique por perto — orientou Sam. — Conversamos quando voltarmos da inspeção.
Jacob apenas assentiu. Senti a pressão reconfortante de seu braço esquerdo sobre meu ombro, guiando-me de volta à entrada da casa. Não conseguimos avançar dez passos antes que a porta dos fundos fosse aberta num solavanco, revelando uma Isabella de braços cruzados e expressão gélida. Seu olhar oscilava entre os presentes, detendo-se com uma intensidade incômoda na proximidade entre Jacob e eu.
— Qual de vocês vai me falar o que de fato está acontecendo aqui? — Sua voz era baixa, mas carregava a eletricidade de uma tempestade iminente. Por trás de sua fachada calma, vi a ansiedade e o desastre correndo de mãos dadas. — Por que tenho a impressão de que este é o conselho de uma guerra que ninguém me avisou que começaria?
— Bella, você está enxergando coisas e criando teorias onde não existe nada — retruquei, esforçando-me para sustentar mais uma mentira necessária. — Eu vim apenas cumprimentar Billy. E este é Sam, noivo da Emily. Eu o conheci ontem à noite.
Minha irmã parecia um detetive analisando cada microexpressão nossa, buscando a ponta solta que desvendaria o caso. Sentindo que ela não estava nem um pouco convencida, soltei-me do abraço de Jacob e caminhei em sua direção, conduzindo-a para o interior da cozinha. Antes de fechar a porta, lancei um último olhar sugestivo aos três homens; a tensão neles era quase palpável.
— Eu sei que você está mentindo e tentando me distrair, Renesmee — ela sussurrou, acomodando-se em uma das cadeiras com uma rigidez defensiva. — Se não começar a me contar a verdade agora, eu juro que volto para casa a pé.
Um nó se apertou em minha garganta. Mentalmente, tentei filtrar quais informações eram seguras. Havia uma parcela surrealista em tudo aquilo que colidia com os segredos da tribo — segredos que eu nem mesmo compreendia totalmente, quanto mais possuía permissão para revelar. Incluir Bella nessa loucura parecia um erro estratégico; as reações possíveis dela eram todas desastrosas.
— Sei que soa estranho, mas na noite passada vi algo se mexer na floresta e o medo me dominou — confessei, optando por uma meia-verdade. — Acordei me sentindo insegura e liguei para o Jacob. Ele sugeriu passarmos o dia aqui para eu espairecer, enquanto os rapazes, que conhecem bem a região, verificam se foi apenas um urso ou algo do tipo.
— Em resumo: toda essa mobilização porque você teve um surto de paranoia — Isabella soltou uma risada carregada de irritação. — Não estamos mais em Phoenix, Renesmee. É uma floresta; animais habitam nela. Não é como se um leopardo fosse invadir nossa sala para o chá das cinco.
Soltei um longo suspiro. Lidar com o sarcasmo dela era exaustivo, mas ainda preferível ao alvoroço da verdade completa.
— Você poderia ter falado com o papai — insistiu ela, seus olhos fixos nos meus. — Era mais simples do que acionar um bando de desconhecidos.
— Billy é um dos melhores amigos de Charlie, Bella. Jacob e ele são como família.
— Certo. E quanto aos outros?
— Todos querem ajudar para que tenhamos uma transição tranquila nessa mudança — respondi, sentindo minhas pernas vacilarem. O tremor em meu corpo estava ficando difícil de esconder, então me sentei ao lado dela para manter a postura. — Eu não quis preocupar o papai. Ele já tem problemas demais na delegacia e... tem se sentido mal com a sua apatia. Eu não queria ser mais um fardo para ele carregar.
As palavras saíram mais rudes do que eu pretendia, mas serviram como um golpe de misericórdia na discussão. Os ombros de Isabella cederam sob o peso daquela sentença. O silêncio voltou a reinar até que Jacob adentrou o cômodo minutos depois. Ele me encarou com um questionamento mudo sobre o clima entre nós; eu apenas forcei um meio sorriso, esperando que o dia passasse antes que minhas mentiras ou meus medos nos sufocassem de vez.
O tempo parecia ter se tornado elástico, distorcendo-se entre a urgência do meu medo e a quietude da casa. O aroma da comida de Emily flutuava pelo ambiente, tentando forçar uma normalidade que a situação não comportava, enquanto o silêncio denso e a tensão latente entre Bella e eu me ancoravam na realidade — lembrando-me, a cada segundo, do verdadeiro motivo de estarmos ali. Jacob postou-se ao meu lado, e seu calor emanava como um porto seguro, um aconchego físico em meio ao caos. Ele respeitou nosso silêncio, mas notei que seus olhos estavam muito mais atentos que os nossos, vigiando cada fresta de luz. Fiz uma nota mental para agradecer por todo o seu esforço; ele estava sendo o pilar que eu ainda não sabia se merecia.
Por volta das dez horas, a atmosfera na casa mudou drasticamente. Sam retornou, acompanhado por dois homens cujas fisionomias eram tão similares à dele que a presença do trio parecia preencher todo o espaço. Assumi que seriam Paul e Jared. Eles mantinham uma postura rígida, com expressões tão severas que, por um instante, meu estômago revirou ao questionar se haviam encontrado vestígios ainda mais perturbadores do que os que avistei no quintal. Ninguém se dirigiu a mim de imediato. Houve apenas uma troca de olhares rápida e carregada entre Jacob e Sam, uma comunicação muda que resultou na saída abrupta de ambos pela porta dos fundos. Na sala, Bella parecia absorta na televisão, alheia à movimentação ou talvez fingindo não notar a ausência do grupo. Emily aproximou-se e deslizou a mão pelo meu braço esquerdo, um gesto de conforto que, embora gentil, apenas confirmava que eu tinha razões para temer.
Pela janela do corredor, a agitação externa era inegável. O círculo que inicialmente contava apenas com Billy, Jake e Sam, agora integrava também Quill e Embry. Apesar da distância impedir que as palavras chegassem até mim, a linguagem corporal deles era explícita: havia um conflito iminente. Gestos bruscos e semblantes fechados pintavam um quadro de alerta que eu nunca vira antes. Senti um queimor súbito na boca do estômago, o sinal físico e inevitável de que o medo que eu vinha carregando nas últimas horas estava prestes a se transformar em algo muito mais real e perigoso.
Após longos minutos, que se arrastaram em uma eternidade de incertezas, Jacob finalmente cruzou a soleira da porta de entrada. Seus olhos encontraram os meus de imediato; ele lançou um olhar breve a Bella, sentada no sofá, e me direcionou um gesto mudo, pedindo que eu o acompanhasse até outro cômodo. Emily, percebendo a urgência, sentou-se ao lado de minha irmã e iniciou uma conversa trivial, garantindo astutamente que as atenções de Isabella fossem desviadas da movimentação silenciosa que ocorria entre nós.
Jacob segurava minha mão com uma firmeza que beirava o desespero. Ele me conduziu a um dos quartos da casa, um cômodo pequeno, decorado com um toque feminino delicado e de um bom gosto sereno. Acomodei-me na ponta da cama, sentindo o estofado macio sob minhas mãos trêmulas, enquanto Jake se postava junto ao batente da porta, como se guardasse a entrada de um santuário.
— Você não estava errada sobre os rastros — iniciou ele, a voz soando mais grave do que o normal. — Sam e os outros validaram cada marca; estavam exatamente do jeito que você descreveu.
— Certo. E qual a conclusão? — Meus pés batiam ritmadamente sobre o assoalho, um tique nervoso que eu não conseguia conter. — O que, afinal, esteve em nossa casa ontem à noite?
— É mais sobre quem e não sobre o quê — Jacob admitiu, mordendo o lábio inferior em um sinal claro de conflito interno. — Sam afirmou que é um rastro conhecido. Muito conhecido.
— Vocês sabem quem é? — Senti um frio súbito atravessar meu peito.
— Bom, eles sabem. — Um suspiro pesado escapou por suas narinas. — Renesmee, eu preciso que você entenda: o que aconteceu na sua casa envolve outras pessoas e antigos acordos. Existe uma limitação severa sobre o que temos permissão de te contar agora... o que diz respeito a nós e o que diz respeito a eles.
— Quem são "eles", Jacob?
Ele não respondeu de imediato. Deu um passo em minha direção, seus olhos buscando nos meus uma âncora que eu não sabia se era capaz de oferecer.
— Você confia em mim?
— Jacob, você foi a primeira pessoa para quem eu liguei. Acho que isso já responde à sua pergunta — retruquei, a voz embargada pela urgência da verdade.
— Renesmee, por hora, o que você precisa saber é que está segura aqui, e voltará a estar em casa também. — Jake se aproximou o suficiente para que eu sentisse o calor que dele emanava. Sua mão tocou o lado direito da minha face em um carinho que, em outra situação, teria sido o meu refúgio absoluto, mas que agora parecia uma tentativa de silenciar meu medo. — O conselho vai se reunir daqui a pouco para discutir como vamos proceder e quais informações vocês podem receber. Eu só preciso que você confie em mim. Não vamos permitir que nada — absolutamente nada — ameace a integridade de qualquer um de vocês.
Ele se afastou lentamente, deixando o vazio do toque em minha pele. Antes de sairmos do quarto, olhei para a janela que dava para a mata densa de La Push. Do lado de fora, o conselho se reunia em sombras Agora, o silêncio da Reserva não era de paz, mas de espera.
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