Ana Lúcia Guimarães Rosa. Odeio meu nome. Não tanto pelo Rosa, que me trouxe apelidos irritantes na escola. Mas pelo Ana Lúcia. Se fosse Luciana eu nem estaria reclamando. Acho que quando minha mãe me chamou pela primeira vez de Ana Lúcia eu chorei até perder o fôlego. OK, eu exagerei. Mas eu nunca gostei do meu nome. Se eu dissesse que meu nome era apenas Ana, iriam se achar no direito de me chamarem de Aninha, referente aos meus um e sessenta e dois de altura. Se dissesse que eu me chamava Lúcia, fariam cara de “só Lúcia?”. Então acho que Lu é o suficiente. Foi o suficiente para todo mundo, menos para ela.

- Porque Lu?

- Quê?

- Porque te chamam de Lu? – Ela sorria com as mãos apoiando o queixo enquanto esperava uma resposta.

- Não gosto do meu nome. – respondi colocando um pedaço de pizza na boca.

- E qual é o seu nome? – ela continuava sorrindo.

- Não vou lhe dizer. – tentei ser o mais educada possível.

- Hum, que mistério. Não me importo, irei descobrir. – pronunciou a ultima frase sussurrando e finalizou piscando um olho.

Fiquei meio atordoada. Ela achou que eu estava jogando e também entrou no jogo. Mas essa não era minha intenção. Eu não estava fazendo charme. Só não queria dizer meu nome. Logo Patrícia começou outro assunto e eu acabei me esquecendo disso, o que era muito fácil, já que nossa conversa fluía como uma correnteza.

- Não quer ir para minha casa? – perguntei enquanto a acompanhava até a estação do metrô.

- Obrigada, mas não. Tenho aula amanhã cedo.

Eu gostaria que ela tivesse dito sim, mas era perfeitamente compreensível. Ela morava do outro lado da cidade e se passasse a noite em casa não conseguiria chegar à faculdade em tempo.

- Então uma próxima vez?

Ela sorriu. – Claro. – e me beijou. Foi um beijo de despedida demorado. Não nos veríamos até sexta-feira e eu quase a chamei de Patty. Estávamos saindo, mas eu não tinha liberdade para chamá-la por um apelido. E eu havia conhecido-a na sexta, nos beijamos no sábado e no domingo eu já estava chamando ela para dormir comigo! Eu estava surpresa com minha própria rapidez.

Durante a semana, tentei ligar para ela, sem sucesso. Achei que estivesse brava comigo ou tivesse perdido o interesse. Na sexta, ela me ligou.

- Oi Lu. Não estou te atrapalhando, estou? – era muito bom ouvir a voz dela.

- Oi Patrícia. Não, estou em horário de almoço.

- Desculpa não ter atendido suas ligações.

- Tudo bem. Senti saudades. – Eu não ia dizer aquilo... saiu sem querer. E se ela tivesse ligado para dizer que não queria mais me ver?

- Eu também. Podemos nos encontrar hoje as sete naquele barzinho?

Não pude conter um sorriso. — Claro.

Eram sete e quinze e ela não havia chegado.

- Oi, Ana Lúcia.

Fiquei atônita. Primeiro porque ela me assustou. Segundo porque ela pronunciou meu nome muito perto do meu ouvido.

- Não sei porque você não gosta dele. – ela deu a volta e sentou-se na cadeira de frente para mim – Eu sempre achei legal ter nome duplo. – e apoiou a cabeça com a mão direita.

- Só que eu não gosto, Patty. – ela ficou séria – Desculpa.

- Não. Tudo bem. Eu é que devo desculpas. Me deixei levar pela curiosidade e invadi seu espaço. Você tem todo o direito de não falar sobre você se não quiser.

Ficamos em silêncio. Era a primeira vez que ficávamos desconfortáveis uma com a outra. Eu não queria perder essa chance de me aproximar dela.

- Ana Lúcia Guimarães Rosa. Vinte e três anos. Nascida em Sorocaba. Vim para São Paulo aos dezoito anos. Moro sozinha num apartamento na zona sul. Sou operária e gosto de você. Muito.

Aquilo foi inesperado para mim. Ela me olhava surpresa até que sorriu e disse.

- Patrícia de Oliveira Souza. Vinte anos. Nasci aqui mesmo. Divido um apartamento com duas amigas na zona norte. Curso o primeiro ano de jornalismo e também gosto muito de você. Ah, e não me chame de Patty.

Depois disso o clima ficou descontraído. Rimos e tomamos muita cerveja. Íamos para casa quando ela me fez uma pergunta.

- Lu, tem comida na sua casa?

Que tipo de pergunta era aquela? Fiz uma varredura mental em minha geladeira, mas não pude visualizei nada. – Acho que sim, por quê?

- Porque eu acordo com muita fome e não vou deixar você sair para comprar o café da manhã.

Achei aquela frase esquisita, mas fiquei feliz de ouvi-la. De manhã, tive sorte de encontrar meio bolo de chocolate com morango.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!