Meu, Meu
1 Capítulo Único: Meu, Meu
Aquilo só podia ser brincadeira.
Eu não conseguia acreditar que Vicente havia conseguido me arrastar até aquela joalheria. Quem nos ver agora, vão pensar que somos namorados! Eram essas as palavras – misturadas com uma certa dose de pânico — que ecoavam em minha mente em alto e bom som. Vi Vicente entrar na loja descontraído com uma das mãos no bolso da calça, indo até uma consultora. Eu permaneci plantada no mesmo lugar, ou seja, na porta do estabelecimento. Eu não queria entrar naquela loja. Nós não somos namorados. Eu chegava a ter cada vez mais certeza de que a ideia de meu amigo era, no mínimo, inusitada. Como estávamos no Shopping Jardim Vitória, eu poderia simplesmente sair de fininho. Com tantas pessoas circulando por aqui nesse horário, ele não conseguiria me achar. Infelizmente – ou não – quando iria por esse plano A em ação, Vicente percebeu que eu não estava ao seu lado.
Seus olhos verdes-folha se encontraram com os meus. E eu perdi o ar por alguns segundos. Não pude deixar de notar, mais uma vez, o quanto seus olhos me afetavam. Eles combinavam perfeitamente com seu cabelo cor de areia, cortado de acordo com a última moda masculina adolescente. Ele pareceu dizer algo a consultora e veio ao meu encontro. Naquele instante, bolei um plano B, que consistia em sair correndo sem rumo. E eu quase cheguei a executá-lo. Só que Vicente já estava lado de fora, uma de suas mãos envolvendo delicadamente um de meus pulsos.
— Você não vai fugir, Alê. – Vicente proferia essas palavras ao mesmo tempo em que me levava para o interior da loja. — Eu preciso da sua ajuda.
— Mas, Vicente... Isso não faz sentido! – eu tentava trazer lucidez para aquela cabecinha oca.
— Você sabe que isso é importante para mim. – e ele aproveitava para tocar no meu ponto fraco. Meu coração mole. – E você é minha melhor amiga, a pessoa em quem mais confio.
Melhor amiga. E você é minha melhor amiga. Doía escutar essas palavras. Eu que queria mais do que a amizade de Vicente. No entanto, me encontrava naquela roubada, o ajudando a dar um anel de compromisso para uma garota especial. E a menção a essa “garota especial” revirava meu estômago de forma involuntária. E de brinde, fazia meu coração se apertar até ele ficar do tamanho de um grão de arroz. Já havia tentado todos os artifícios que conhecia para dissuadi-lo a revelar o nome da tal garota – levando com consideração que nos conhecemos há mais de cinco anos -, mas de nada adiantou. Ele me diria quem era a garota, mas no momento certo. E era esse o problema. Eu não sabia o que Vicente queria me dizer com “momento certo”. Para aumentar minha paranoia, eu me via ansiosa, pensando em todas as garotas que conhecíamos. Eu só queria que essa outra garota não existisse. Que ela fosse como um amigo invisível. Intocável e fruto da sua imaginação.
— Você já pensou que meus dedos podem ser maiores do que os dela? – perguntei com o objetivo de fazê-lo repensar nessa ideia mais sem fundamento.
— Vocês têm mais ou menos o mesmo biotipo, então a chance de erro é pequena. – concluiu o “Einstein” – De toda forma, se for o caso, é só vir trocar.
Ele não iria desistir mesmo. Eu detestava quando Vicente enfiava uma ideia fixa na cabeça. Muitas vezes eu o comprava com uma mula empacada, de tão cabeça dura e teimoso. Como eu deixei isso acontecer? Eu me pegava pensando e repensando nessa pergunta. Eu poderia muito bem me contentar com nossa amizade. Só que havia a forma como Vicente me protegia de algum perigo; quando conversávamos sobre tudo ou até mesmo curtíamos o silêncio um do outro; ou seriam as covinhas que se formavam em sua face quando sorria que me encantaram? Eu não sabia muito bem quando havia começado, mas de uma coisa eu sabia. Era fácil se apaixonar por Vicente Passos. Foi quando lembrei que ainda estava com raiva dele. Fiz a melhor cara de emburrada que pude. Foca, Alessandra, você ainda tá com raiva.
— Camila. – chamou Vicente pela consultora que o atendia. – Esta será minha modelo, Alessandra. Poderia retirar a medida do dedo de Alê, por favor?
A tal Camila – uma morena muito bonita, alias – pegou a minha mão direita. Senti o calor de suas mãos passar para as minhas, que são quase sempre geladas. A observei tirar minhas medidas, olhando vez ou outra para Vicente. Quando isso vai ter fim? Mas eu tinha a forte impressão de que ainda passaríamos um bom tempo ali. Após retirar a medida, Vicente as anotou em um pedaço de papel que pediu a Camila. Vencida essa primeira etapa, estava na hora de ver os modelos e qual poderia se encaixar no orçamento de Vicente. Só de sacanagem, eu poderia escolher um modelo horrível. No entanto, meu coração mole me fez lembrar de que Vicente me odiaria por isso. E essa era a última coisa que eu queria. Enquanto passávamos de um anel para outro – com Camila entusiasmada, mostrando desde o mais em conta até o mais caro -, Vicente perguntava minha opinião. Por sim, com o modelo escolhido, eu não tinha mais utilidade ali. Avisei que o esperaria do lado de fora. Enquanto esperava Vicente pagar, abri a mochila e procurei por meu celular. Naveguei pelo Twitter alguns minutos antes de sentir a mão de Vicente em meu ombro.
Ao fitá-lo, meu coração encolheu ainda mais, como se fosse possível. Ele sorria satisfeito, com a delicada sacola de presentes da joalheira nas mãos.
*
Ao chegar em casa, fui direto para o quarto. Deitada de barriga para baixo, agarrada a uma almofada, eu deixei algumas lágrimas rolarem pela minha face. Naquele horário, ainda estaria sozinha em casa, de forma que ninguém me pegaria naquela situação. E estava doendo. Pela milionésima vez, me perguntei por que havia deixado isso acontecer. Eu não poderia amar Vicente. Isso estava totalmente errado, ainda mais agora que ele havia encontrado a tal “garota especial”. Escondi a face na almofada, a apertando com toda a minha força. Quando me acalmei, fui até o banheiro jogar um pouco da água na face. No entanto, meus olhos vermelhos denunciavam que eu havia chorado. E de nada adiantaria ficar ali sentindo pena de mim mesma. Eu tinha trabalhos e dever de casa para fazer. Após vestir uma roupa mais confortável, abri a mochila que estava em cima da cadeira de mesa de estudos. Enquanto procurava pela agenda, cheguei à conclusão de que Vicente tivesse razão sobre minha mochila ser um buraco negro. Pare de pensar nele, caramba Alê! Você não se ajuda!
E novamente, me repreendi. Isso já estava ficando repetitivo e um tanto cansativo. Quando finalmente encontrei minha agenda, a abri no dia 30 de novembro de 2022. Foi quando me dei conta de que o Natal estava chegando. Realmente aquele ano havia passado rápido demais. E ainda não havia comprado presentes para os meus pais ou para você-sabe-quem. Eu precisava ver se minhas economias dariam para comprar presentes para todos. Alê, foco! Se lembre para que procurou a agenda! Eu tinha essa mania de atropelar meus atos e pensamentos. Voltei minha atenção para as tarefas do dia. Português, ciências, geografia e um resumo sobre a Segunda Guerra Mundial. Pelo visto, a tarde seria longa. Concentrei-me nos estudos, para assim terminar as minhas atividades o mais cedo possível. Percebi que o dia terminava, dando lugar ao crepúsculo. Como se estivesse comprovando minha percepção, a luz aos poucos dava lugar a escuridão. Acendi a luz do quarto e meu abajur. Quando parei para descansar um pouco, me assustei por ser quase 19 horas. Eu devo ter começado por volta de 15:00, calculei. Estava indo me levantar para pegar um copo d’água quando escutei uma batida em minha porta.
— Filha? – a voz melodiosa de minha mãe preencheu o silêncio do quarto. Logo a porta do aposento estava totalmente aberta. – Está ocupada?
— Um pouco. Precisa de mim para alguma coisa? – perguntei me levantando da cadeira para ir lhe dar um abraço.
Carina Sampaio, minha mãe, chegava por volta deste horário em casa. E quase sempre trazia trabalho do escritório de advocacia que dividia com dois amigos como serviço extra. Eu dizia a ela para maneirar, mas então vinha a fatídica frase “A vida dos adultos é assim, Alê”. Eu me formaria no ensino médio em pouco tempo, mas já tinha minhas reservas sobre essa “vida de adulto”. Parecia tão exaustiva e atribulada. Muitas vezes, ao acordar de madrugada para ir ao banheiro, eu via a luz do quarto de minha mãe acessa. Eu já imaginava que ela poderia estar trabalhando em algum caso ou se preparando para alguma audiência. Como mãe solteira, apenas nós duas sabíamos o duro que era ter algum dinheiro. Meu pai não era exatamente uma pessoa presente, mas eu não sentia tanto a sua falta. Carina fazia de tudo para ser minha mãe e meu pai. Por enquanto, isso bastava para mim.
— Vou fazer alguns pasteis como lanche. – respondeu Carina enquanto me abraçava, envolvendo meu corpo com o seu. Carina sempre foi tão quentinha. Me aconcheguei em seu abraço. Senti seus lábios tocarem meu cabelo. – Por que não vem me ajudar?
— Claro, só me dê um minuto.
Senti Carina desfazer nosso contato. A observei atravessar o corredor até as escadas. O cabelo castanho-escuro ondulado batia na altura dos ombros e balançava de um lado para o outro. Voltei para mesa de estudos para organizá-la. Pelo que pude ver, só faltaria o resumo. Isso eu poderia fazer depois do lanche. Como iriamos manipular alimentos, fui até meu armário, abrindo a porta onde tinha um espelho. Dentro de uma das minhas caixinhas de apetrechos para cabelo, encontrei uma gominha. Com os próprios dedos, juntei o cabelo em um rabo de cavalo alto e o prendi com a gominha. Passei alguns minutos encarando meu próprio reflexo. Rosto em formato de coração, cabelo castanho liso até o pescoço, olhos tão pretos quanto uma jabuticaba, pele levemente bronzeada. Procurei ver alguma beleza ali. Algo que despertasse a atenção do sexo oposto. Balancei a cabeça levemente para o lado, sem nada encontrar. Não adiantaria passar mais tempo ali. Não havia nada de especial. Nada que Vicente também poderia encontrar. Fechei a porta do armário e desci logo até a cozinha.
Carina já estava com o recheio dos pasteis no fogo e as massas dispostas a sua frente na bancada, além de uma travessa de alumínio próxima. De acordo com a morena, bastaria apenas esquentar um pouco o recheio, já que colocaríamos os pasteis para assar no forno. Fiquei ao seu lado, perguntando como havia sido seu dia. Esperei que ela não perguntasse pelo meu. Mas, conhecendo minha mãe, eu deveria saber que isso não iria acontecer. Enquanto contava meu martírio na joalheira, a observei desliguei a boca do fogo onde o recheio há pouco esquentava. Após pegar um descanso, colocou a panela quente sobre ele. Em seguida, pediu que eu pegasse um garfo para fechar as bordas dos pasteis. Ao final de meu relato, enquanto ela recheava mais um pastel, a vi soltar uma pequena risada. Isso me deixou deveras irritada. Só eu sabia o quanto aquilo havia me machucado.
— Por favor, mãe, não ria. – pedi fechando as bordas do pastel para em seguida deixá-lo na travessa de alumínio. – Não foi exatamente a minha ideia de diversão.
— Eu imagino, querida. Vê-lo comprar algo tão importante que não era para você. – Carina soltou essas palavras de forma tão natural, que me assustei. Estava tão óbvio assim meu amor por Vicente?
— Não é por isso, mãe. É só que... – eu tinha que inventar uma boa desculpa agora para reparar a minha má nota.
— Querida, você gosta dele.
E essa “revelação” me atingiu como um soco.
— Alê, presta atenção no que vou lhe dizer. – Carina parou o que fazia, deu dois passos e tomou minhas mãos nas suas. – Se realmente gosta de Vicente, deixe-o ser feliz, mesmo que não seja com você. Afinal, você quer vê-lo feliz, não quer?
Assenti mesmo que a contragosto. Era verdade. Eu não poderia apontar uma arma na cabeça de Vicente e fazê-lo se apaixonar por mim. Por fim, acabei por chorar novamente. De repente, me sentia cansada. Cansada por carregar aquele sentimento que me custava e pesava tanto. E por mais eu me empenhe, ele não se deixava acabar. Todas as vezes em Vicente era ele mesmo, eu me via perdida em seus olhos, em seus gestos sempre tão carinhosos. Esse era problema. Por que ele não podia ser diferente?! Escondi a face no peito de minha mãe, que novamente me abraçou. Seria difícil lidar com essa realidade, mas era o certo. E eu deveria me acostumar logo com isso. Quando consegui conter a angústia que me dominava, desfiz o abraço de Carina. A vi levantar seu dedo indicador até meus olhos, enxugando as lágrimas remanescentes.
— Eu sei que não é fácil, meu amor. – ela me dizia docemente, como estivesse falando com uma criança. – Mas o que pode fazer agora é apoiá-lo. E como falei antes, vê-lo feliz.
Mesmo que eu sacrificasse por isso, eu não tinha outra escolher a não ser ver Vicente feliz.
*
O Natal havia, enfim, chegado.
Alguns dias antes, eu e Carina havíamos terminado de montar nossa arvore. Eu me divertia, sentindo o coração se aquecer, coisa que sempre acontecia nessa época do ano. O que o fazia esfriar era lembrar que você-sabe-quem não havia dito uma palavra sobre quem era a tal “garota especial”. E eu não conseguia evitar, mas rolava os olhos. Tornou-se um reflexo natural. Eu havia tentado dissuadi-lo novamente, mas meus planos estavam fadados ao fracasso. Vicente apenas me dizia para esperar, pois iria me surpreender. Essa garota estava cercada por tanto mistério que esperava mesmo ser surpreendida.
No início do anoitecer do dia 24 de dezembro, me arrumei para ir até a casa Vicente e lhe dar seu presente. Não era nada demais, até porque minhas economias não davam para tanto. Eu comprei um dos números do mangá que ele tanto falava. Eu tentei me interessar pela cultura asiática, mas não havia nada que me atraísse nesse assunto. Mas, como Vicente gostava desse tipo de coisa, imaginei que havia acertado em cheio. Após colocar um casaco mais quente e pagar o embrulho em cima da minha cama, fui até o quarto de Carina. Minha mãe estava descansando um pouco antes de começar a preparar alguns lanchinhos e o jantar propriamente dito para nossos amigos que viram mais tarde passar o Natal conosco. Na parte da tarde, eu a ajudei a adiantar alguns pratos. Minha expertise na arte da culinária era perto de zero, tanto que Carina me designou atividades mais simples. Antes que me pergunte, eu havia enviado pelo menos uma mensagem para meu pai. Não esperava uma resposta, então nem mesmo voltei na nossa conversa no WhatsApp.
— Já volto, mãe. – Avisei na soleira da porta, segurando o presente do garoto contra o peito. – Só irei até a casa de Vicente.
— Tudo bem. – Respondeu Carina ainda de olhos fechados, o corpo estirado na cama de qualquer jeito. – Apenas não demore muito, temos algumas coisas para preparar ainda.
— Claro. Pode esperar pela sua ajudante são e salva. – Disse em tom de brincadeira.
Após me despedir de minha mãe com um beijo em sua bochecha, enfrentei as ruas geladas daquele mês de dezembro. Ainda bem que Vicente não morava assim tão longe. Demorei por volta de quarenta minutos para fazer o caminho que eu conhecia com a palma da minha mão. Eu observava as pessoas a minha volta. Algumas ainda compravam seus presentes muito atrasados, outras estava com muitas sacolas de supermercado nas mãos. Quando cheguei na porta de Vicente, após subir os dois pequenos degraus, me senti inquieta. Era como se meus dedos não quisessem tocar a campainha. Será que a tal “garota especial” está aqui? Essa mera suposição poderia ser um bom motivo para me ver assim. O meu melhor presente de Natal não seria vê-lo de mãos dadas e só sorrisos com outra garota. Me forcei a tocar a campainha, sendo atendida alguns minutos depois. Pela vez que ouvi lá de dentro, deveria ser Laura que viria me receber.
E eu estava certa.
Laura Passos veio me receber com um sorriso caloroso e um desejo de Feliz Natal. Por um momento, me xinguei mentalmente por não ter comprado nem mesmo uma lembrancinha para os pais de Vicente. Prometi a mim mesma que os compensaria no próximo ano. Eu gostava muito Laura e Diego, pais de Vicente. Eles sempre me trataram bem, assim como minha mãe, sendo educados e afetuosos. Eu logo identifiquei de onde Vicente havia herdado seu jeito amoroso e solícito para com todos. Após perguntas triviais, perguntei por Vicente. Laura me avisou que ele estava no quarto lendo, mas que não iria se incomodar se eu fosse lá. Fiz o caminho até o quarto de meu amigo, batendo na porta. Perguntei se poderia entrar, abrindo um pouco mais a porta. Vicente abaixou o livro que lia, levantando-se da cama. Terminei de entrar em seu quarto com um sorriso. Quando estávamos apenas um passo um do outro, tomei o primeiro passo. O abracei, ainda com seu presente em mãos.
— Feliz Natal, Vicente... – sussurrei.
Não pude deixar de notar a fragrância gostosa que exalava do corpo de Vicente. Enquanto meu queixo descasava em seu ombro, senti seus braços rodearem minha cintura, retribuindo o gesto. Se pudesse, eu ficaria em seus braços para sempre, mas isso era no mínimo estranho. Pelo menos do ponto de vista dele. Então desfiz nosso contato, me afastando novamente. Estendi o braço e lhe mostrei o embrulho dourado, com fitas verdes e vermelhas, adornados por um adesivo natalino. Um pouco sem jeito – pude perceber pela forma como Vicente passou a mão no cabelo -, Vicente pegou o presente de minhas mãos. Nossas peles se tocaram por segundos, mas foi suficiente para me esquentar. Ao ver sua expressão feliz com o presente, vi que havia atirado no alvo.
— Obrigado, Alê. – Disse Vicente caminhando até sua mesa de estudos, onde depositou o mangá que havia acabado de ganhar. – Mas eu também tenho um presente para você. Preciso que feche os olhos.
— Fechar os olhos? – Perguntei já desconfiada. Que brincadeira ele estava planejando em plano Natal? – Para quê?
— Apenas faça o que estou pedindo, Alê, por favor.
Sem opções, fechei os olhos como Vicente me pediu. Ele não poderia estar planejando nenhuma traquinagem. Em seguida, escutei o barulho de uma gaveta sendo aberta e, em seguida, fechada. Vicente então se aproximou e pediu que eu abrisse as mãos. Minhas sobrancelhas provavelmente se arquearam, mas o obedeci. Queria entender onde Vicente queria chegar. Senti algo veludado em minhas mãos. Parecia ser uma caixinha, como aquelas de anéis ou brincos. Ao que parece, ele havia me dado brincos esse ano. Já iria abrir os olhos para ver meu presente, mas Vicente me pediu mais um minuto. Senti a leve pressão de Vicente sobre a caixinha, abrindo-a para mim.
— Agora pode abrir os olhos.
Abaixei os olhos para o que havia dentro da caixinha, já esperando pelos brincos. No entanto, o que havia ali quase me fez cair para trás. Era um anel. Mas não qualquer anel. Era o anel que ele havia escolhido para a tal “garota especial”. Então isso queria dizer que essa garota era eu? Era de mim que Vicente gostava? Eu precisava me beliscar para ter certeza de aquilo não era uma bizarrice da minha mente me pregando peças. Fechei novamente os olhos, os apertando com força. Ao abri-los, tudo ainda permanecia igual. Inclusive o anel. E Vicente que agora tirava a caixinha de veludo das minhas mãos. Eu tentava falar algo, mas simplesmente não conseguia fazer nada além de abrir e fechar os olhos. Vi Vicente deixar a caixinha em sua mesa, pegar o anel e voltar sua atenção para mim. Estávamos novamente a apenas um passo um do outro. Eu permiti que uma de suas mãos pegasse a minha. Na realidade, eu me sentia como gelatina.
— Posso colocar em seu dedo, Alê? – seus olhos verdes encaravam os meus, procurando por uma resposta ou algo indício de “sim”.
— P-pode. M-mas Vicente, o que tá acontecendo?
Ele não dava respostas, apenas o vi encaixar o anel em meu dedo.
— O que está acontecendo é que agora você descobriu meu segredo. – Seus lábios beijaram o dedo em que ele havia acabado de depositar o anel. – Sempre foi você, Alessandra. Eu não sei dizer quando começou, mas quando dei por mim, eu estava apaixonado por você.
Dei uma risada abafada, terminando com a distância entre nós. Levei a mão direita até sua bochecha. Enquanto acariciava o local, eu podia sentir a maciez da pele de Vicente.
— Eu sempre te amei, Vicente Passos.
Atrevida – e internamente feliz por ter quase a mesma altura de Vicente – avancei o sinal, capturando seus lábios. Se isso tudo fosse apenas fruto da minha imaginação, eu já não queria saber. Eu havia ganhado o melhor de todos os Natais. O amor de Vicente Passos.
“I'm going to open my, my wishlist
Don't be surprised
My Christmas wishlist is you
I want you, your heart, your love
Only one thing this winter, it's you
You're my only wishlist”
(Purple Kiss — My My)
Fale com o autor