Meu Mestre Parte 2
2 Capítulo 2 - Falta de Ar
Notas iniciais
Eu travei. Não consegui dizer nada. Senti o choro formar em minha garganta. Meus olhos fixos nos seus. A maquina de batimento cardíaco bipando cada vez mais rápido. O ar desaparecendo de meus pulmões. Minha cabeça queimando, como antes. Não ouvia nada, mas Logan gritava alguma coisa, e fazia gestos. Meus olhos se fecharam. Por um minuto tinha me esquecido de como se respirava, como se ouvia, como se falava e muito menos como pensava. Com uma forte queimação no nariz até os pulmões respirei fundo. “mais uma vez” pensei. Respirei e expirei. “isso garota, muito bem, continua” repeti o processo umas três vezes até voltar respirar normal. A queimação estava acabando e pude ouvir a voz de Logan. Meus olhos se abriram e ele repetia.
–Inspira e expira, inspira e expira...
–Logan? –Perguntei com a voz pouco fraca.
–Sim meu amor. –Sua voz era de quem chorava.
–Estou bem, não chore. –Ele assentiu prendendo os lábios. Lembrei-me do motivo que meu mundo parou. Meu peito se encheu em dor. –O que você tem? -Ele se sentou novamente na cadeira.
–Já disse que não é comum um Mestre desistir de seus poderes? Ou melhor, já disse que nunca aconteceu? Apenas com meus avos.
–Ah. –Pensei. –Não.
–Então, meus avos morreram um ano após desistir de seus poderes... Com uma doença... Não identificada e incurável. –Ele deu uma longa pausa para continuar, ele respirava fundo e cada vez mais rápido, por um momento pensei que ele estivesse passando mal, mas ele continuou. – Meu pai e alguns médicos amigos da família, concluíram que essa doença é gerada apenas nos bruxos... é como uma punição por ter desistido de sua “benção” (ele utilizou aspas na palavra). Além de sermos perseguidos, temos que enfrentar essa doença.
–Mas como ela funciona? Como sabe que esta doente? O que esta sentindo?
–Vou te explicar como funciona. – pensou por um momento e continuou – funciona como um câncer. Um câncer não conhecido, mas que existe. Existe em mim, agora. –Sua voz ficou cada vez mais rouca e as lagrima mais correntes em seu rosto, sua testa começou a soar e o percebi tremulo. Percebi que eu também chorava, meu rosto quente e molhado. Meu coração doía a cada batida. Como se uma parte dele estivesse doente.
–Vo-você esta bem meu amor? –Minha voz saiu abafada. Ele abaixou o rosto e levantou a palma da mão, para mim esperar algo, com a outra mão esfregou o dedo indicador e o polegar nos olhos. Um minuto se foi e ele na mesma posição. Comecei a ouvir que ele sentia dificuldade para respirar.
–Logan, você precisa de ajuda? Meu amor fala comigo. –Ele não respondeu e abaixou a mão estendida a colocando na garganta. –Enfermeira. –Gritei apertando o botão de emergência. Duas enfermeiras chegaram correndo em minha porta. –Ajude ele, por favor! –Exclamei.
Elas correram em direção a ele, uma com o estetoscópio e a outra com o aparelho de medir pressão. Logo chegou um medico de cabelos pretos, empurrando uma cadeira de rodas vazia para leva-lo da sala.
–Cuidem dele! –Meu coração implorou. Lagrimas não contida escorreram meu rosto. Ele saiu desmaiado por desoxigenação. Meu pulmão quis parar junto com o dele, mas eu não permiti e permaneci forte. Por ele. Pra cuidar dele.
Recebi alta no mesmo dia, me liberaram com um cilindro de oxigênio que era ligado a um cateter que fazia cocegas no meu nariz, eu teria que usa-lo sempre que sentisse falta de ar, meu pulmão estava debilitado. Mas ainda assim consegui que me desse alta, não para mim sair do hospital, mas para mim ver Logan.
Cheguei a seu quarto, ele estava deitado dormindo. Após de uma crise de falta de ar. Eu ainda estava com roupa de hospital e de cabelo bagunçado, mas não pude deixar de vê-lo. Luna tinha trago uma mala, com roupas, perfumes, desodorantes, escova e pasta de dente. Pedi que ela ficasse com ele enquanto eu tomava um banho, para tirar cheiro de remédios e arrumar meu cabelo. Após ficar cheirosa e arrumada, fui ver Logan. Entrei no quarto que ele estava, mas não o encontrei, outro paciente já estava ali, um alivio e um medo surgiu em meu peito, provocando duas hipóteses. Uma, ele pode ter melhorado e ido pra sala de espera me esperar para sairmos juntos. Outra, ele pode ter piorado e ido pra UTI, ou ate mesmo... não queria pensar nisso. Queria acreditar na primeira hipótese. “Ele esta bem, esta bem” pensei comigo.
Passei correndo para o corredor, chegando na sala de espera, que estava cheia, andei procurando por ele no meio das pessoas que estavam em pé, observei as sentadas, e conclui que ele não estava ali. Passei correndo para o rumo dos banheiros quando ouvi alguém me chamando:
–Sra. Jiovana Black? –Uma mulher sentada na recepção que tinha me chamado seus cabelos loiros presos em um coque com redinha atrás na nuca, sua roupa branca típica de recepcionistas de hospitais, ela estava com um batom vermelho vibrante. Sua expressão não parecia muito feliz. Meu corpo vibrou e meu coração gelou, precisei colocar o cateter. Caminhei vagarosamente ate me apoiar no balcão da recepção.
–Sim. –Minha voz falhou. Engoli a seco.
–Procura por seu noivo? –Ela me perguntou com uma voz mansa e calma. Assenti com a cabeça. –Ele se encontra na UTI no momento. – Minhas pernas ficaram bambas e quase cai, mas me apoiei no balcão, mulher de lábios ruivos segurou minha mão para me ajudar, ela me olhava preocupada, assim como as pessoas que nos rodeavam. –Você quer que eu chame uma enfermeira?
–Não, eu estou bem, não se preocupe. –Respirei fundo pelo cateter e expirei pela boca. Senti-me forte para ir até Logan onde ele estivesse. –Pode-me dizer onde fica a UTI? –Ele apontou para mim, agradeci e segui a direção. Passei de porta em porta olhando os nomes dos pacientes.
“Claudius Lemer... Denet River ... Felicios Watters… Helmet Porens… Jamilye Voraz … Logan Black!”
Retirei o cateter, para não assustar Logan. Respirei fundo e tentei manter meus pulmões de acordo. Bati na porta duas vezes antes de abrir. Quando entrei vi Logan deitado em uma marca com vários tubos em vários lugares, vi soros, sangue, muito sangue, vi seu rosto fraco. Não consegui ser forte, cambaleei para trás quando senti mãos gentis em meus cotovelos me segurando. Era Luna, ela me ajudou a sentar enquanto eu colocava o cateter. Ela fez gestos para mim inspirar e espirar, eu a acompanhei, até conseguir respirar normal.
–Tudo bem?- Ela perguntou preocupada, sua voz era baixa para que só eu ouvisse. Pude ouvir minha respiração forte.
–Estou bem! ham, como ele esta? O que aconteceu? – Minha respiração falhou e precisei ir de vagar. Meu cilindro já estava acabando, ela pediu para enfermeira pegar outro. Quando estávamos a sós, ela pediu que eu chegasse pro lado e sentou ao meu lado e começou a sussurrar em meu ouvido.
–Ji, o caso dele se agravou um pouco, seus pulmões estão se enchendo de água. Parece que toda a agua de seu corpo esta indo para os pulmões. –Ela fez uma breve pausa, para conter as lagrimas que se formavam em seus olhos – Estão retirando a água dos pulmões e repondo em seu corpo. Digamos que seja apenas uma fase. Vai passar. O sangue dele ainda é forte. – Ela respirou fundo – Ele talvez consiga sobreviver.
Suas palavras foram como se eu tivesse caindo de um avião a 100 km por hora e uma manada de pássaros passando e batendo em mim, me ferindo. Não consegui conter minhas lagrimas, apoiei meus cotovelos nos joelhos segurando a cabeça, deixando o cabelo cobrir meu rosto, para que ninguém me vesse chorar.
A enfermeira entrou e conectou meu cateter no cilindro cheio. Será quando vou deixar de andar com esse troco?
–Ji, também queria falar com você sobre isso. –Começou Luna – Meu pai andou olhando uns exames seus antes e depois de Petra em seu corpo, e os comparou com de seus pais. – Ela segurou minha mão – Seu pai morreu por causa de desoxigenação, quando o carro capotou, ele já estava morto. Sua mãe tinha Asma. Meu pai disse que você tem o mesmo problema que eles, só que o susto que você levou nesse acidente fez com que piorasse. Seu pulmão esta fraco, e o certo agora seria você andar sempre com o cilindro e o cateter, não apenas quando sentir falta de ar. –Isso ajudou com que eu sentisse novamente dificuldade para respirar.
Agora, pensando... eu me lembro de alguns relances, de meus pais reclamando de falta de ar, são apenas vultos, e vozes distantes... E lembro-me de sentir falta de ar muitas vezes depois de Petra e também antes de Petra... Sempre desmaiando... Falta de ar... Isso justificava tudo... Digamos que eu seja uma... Menina problemática.
–Não, você não é problemática Ji. É quase perfeita. Logan esta ouvindo a gente conversando. Ele esta preocupado contigo. – Ela concluiu com um sorriso torto sem felicidade.
–Hmm, Oi meu amor. Te amo! Não se preocupe comigo. Estou bem. –Disse olhando para ele na cama. Luna assentiu pra mim.
– Ele quer que você se aproxime. –Ela apontou para cama. Assenti e cambaleei pra perto dele. Luna levou uma cadeira para mim me sentar a seu lado. Ele virou sua cabeça pra minha direção. Acariciei seus cabelos macios e lindos.
–Estou aqui meu amor! Tudo vai ficar bem! –Tentei manter-me firme ate terminar a frase, para me desmanchar em lagrimas. Era horrível ver aquele menino lindo e musculoso, sempre forte e saudável, naquele estado, doente, deitado, debilitado, e tudo por minha causa. Ele desistiu por mim, agora esta morrendo. Por minha causa... Minha culpa.
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