Meu Melhor Amigo

15 Eu não posso perdê-lo


Notas iniciais
Eu realmente demorei para escrever esse capítulo, duas semanas para ser exato, mas foi necessário. Foi o capítulo mais difícil de fazer até agora porque tem muito sentimento envolvido, sentimentos que eu não tinha explorado antes. Mas espero que me perdoem pela demora e que apreciem o capitulo. Boa leitura.

Minhas mãos tremem mais a cada passo que dou em direção à base. A porta de vidro se abre com o seu rangido familiar. Eu achava que dessa vez ele estaria em uma sala diferente, não uma que lembraria nossos momentos juntos. Então, vasculho o primeiro andar procurando por ele.

No hall da entrada havia um balcão onde antes era a recepção do hospital, algumas cadeiras encontram-se jogadas e viradas no chão sujo e poeirento. Abro algumas portas no decorrer de alguns corredores e só passo por algumas. O hospital era realmente grande antes, não sei como não compraram esse prédio para fazer algo melhor do que ruínas.

Quando estou desistindo do primeiro andar e quase subindo para o segundo, enxergo Eduardo em um corredor sem saída, apenas com algumas salas em seu interior. Ele está sentado no chão e encostado à parede, parece infeliz e distante, como se estivesse tendo um momento só seu, mas mesmo assim me aproximo e fico em pé de frente para ele.

Sua cabeça está abaixada e apoiada em seus joelhos. Ele veste uma camisa toda preta e uma calça jeans azul com tênis que o fazem quase desaparecer na escuridão da noite. Logo na parede em que ele se encosta há uma janela, pela qual uma pequena luminosidade da lua entra. Eu me agacho e espero o tempo dele para poder me olhar, eu não tenho ideia do que poderia ter acontecido para ele mandar aquela mensagem, mas a apreensão agora me corrói por dentro, como se eu realmente tivesse feito algo muito ruim.

–Dale estava com você?-ele pergunta de repente após alguns minutos. Ele levanta sua cabeça e vejo o quão triste sua expressão realmente está.

Seu cabelo loiro encontra-se bagunçado e um pouco estufado em alguns pontos, como se tivesse passado algum tempo puxando-o, seus olhos verdes estavam em um tom mais obscuro e encontravam-se vermelhos nos pontos que antes de um choro deveriam ser brancos. Sua pele parece mais pálida que o normal, só ainda não descobri se é por causa da luz lunar.

–Não. Eu estava com outro amigo. –digo. –Por quê?

–Eu descobri sobre a investigação de vocês. Sobre a possibilidade de o meu pai ter matado o Lucas. Sobre vocês terem escondido tudo de mim, mesmo isso tudo sendo apenas sobre mim. –sua boca treme de raiva enquanto ele fala e suas mãos fecham-se em punhos cerrados, como se ele estivesse prestes a me bater.

Minha expressão muda de apreensiva para desmantelada. Eu não estava preparado para ele ter descoberto sobre toda a suposta investigação minha e de Dale, assim como eu sabia que ele não estava preparado para saber, estava tudo muito recente. Mas como ele descobrira? Além de Dale, Connor e eu, quem poderia saber da investigação?

–Eduardo, me perdoe. Por favor. –eu começo e ele já não olha diretamente para mim, já estava disposto a não me perdoar. –Eu sabia que estava arriscando demais escondendo isso de você, mas era necessário. Você seria afetado demais se soubesse da ameaça à vida do Lucas, não conseguiria raciocinar sobre... Afinal, ele ainda é seu pai.

–Ou que tal você pensar que eu poderia ter impedido a morte do meu irmão?-ele está completamente irritado agora. –Não percebe que eu poderia ter posto meu pai na prisão antes que ele matasse meu irmão? O meu irmão!

Ele grita tudo e acaba chorando, suas lágrimas não são reprimidas e ele leva as mãos ao rosto. Ele se encolhe contra a parede e parece querer sumir do mundo para não ter que suportar essa dor, a dor da perda, da traição e do arrependimento. Mesmo eu sabendo que não fora o pai dele, ainda não tinha como explicar a ele que ele estava errado, que ele não salvaria seu irmão, porque seu pai poderia até ser entregue, mas não fora ele quem matou seu irmão. Ele amava demais a mãe. Não poderia entregá-la. A sua mãe não.

–Eu sei. Eu sei que é muito para processar. Que você esta se agarrando a qualquer outra dor para suportar a dor da perda, mas pense como eu. Eu não poderia te falar algo dessa gravidade antes que eu tivesse certeza. –eu falo e ele soluça um pouco. –Me desculpa. Sei que isso tinha mais a ver com você do que com qualquer outro, mas isso era grave, muito grave se eu tivesse errado.

E eu estava errado, penso. Espero ele se acalmar e sento do lado direito dele. Mas não toco nele, não antes dele dizer que me perdoa, não posso arriscar fazê-lo ficar irritado, não agora. Então olho para a parede do outro lado do corredor, que é vazia e branca como todas as outras nesse prédio, e me perco no vazio da minha mente até Eduardo tomar sua decisão.

Os minutos passam e eu não me importo que a noite decorra até ele querer falar, meus pais ficariam preocupados, mas com uma boa razão. Olho para o relógio e ele marca quinze minutos para as dez horas da noite. Minha boca seca várias vezes e sou obrigado a passar minha língua pelos lábios de vez em quando. Entrelaço meus dedos e depois de mais algum tempo a espera já parece tortura. Contudo, ele começa a falar.

–Eu te perdoo, Luke. Mas estou decepcionado. O máximo que você pode fazer agora é me dizer se isso já foi confirmado. Meu pai realmente matou Lucas?-ele pergunta e olha para mim, não consigo sustentar seu olhar por motivos de saber que mentirei. Eu mentirei. –Sem mentiras, não há mais espaço para isso entre nós.

Meu coração aperta tanto que tenho vontade de colocar minha mão sobre o peito e arrancá-lo de uma vez. Eu não posso mais mentir, não mais, mas o farei. Eu tenho que mentir. Se Eduardo descobrir agora que sua mãe é a assassina, ele pode não se recuperar nunca mais. Eu o perderia, de uma forma ou de outra. E apesar de todo o meu corpo me impedir nesse momento de mentir, eu o faço:

–Ainda não sei.

As palavras saem baixas e engasgadas, mas tenho certeza que ele ouviu. Sua expressão se torna vazia e ele olha para o horizonte, que seria a parede à frente. Eu acabara de colocar todo o nosso relacionamento na beira de um abismo e qualquer vento agora poderia derrubá-lo. E no meio de toda a confusão de sentimentos e arrependimentos eu tenho um vislumbre, um pequeno detalhe que eu estava esquecendo. Um nome, nome de quem provocou tudo isso, quem disse tudo para o Eduardo.

–Celeste. –digo quase jogando as palavras nele, a raiva já me consumindo por dentro.

–Quem?-ele pergunta.

–Celeste. Foi ela. Ela lhe disse tudo. –falo e ele parece confuso.

–Eu não conheço nenhuma Celeste. Quem me contou foi uma menina, ela deveria ter no máximo treze anos. –ele diz e agora tenho certeza.

–Olhos azuis, pele clara, cabelo moreno. –falo e ele confirma, mas logo seu rosto muda, para algo quase raivoso.

–Não importa quem contou. –ele fala e não sabe quem aquela cobra realmente é, eu tinha que dar um jeito nela assim que possível, mas antes tenho que descobrir por que Eduardo está com essa expressão de ira, que provavelmente é para mim.

–Ela contou alguma coisa mais, não foi? –eu pergunto, tenho certeza que ela inventou alguma conversa para ele ficar com raiva de mim, algo mentiroso, é claro.

–Sim. –ele diz. Suas mãos se fecham em punhos novamente e tenho medo do que ele pode dizer a seguir. –Ela disse que você beijou o Dale.

Suas palavras parecem me socar no meio do estômago e fazê-lo revirar-se, pois estou prestes a vomitar. Não foi o fato de ele saber que me fez sentir-me mal, mas o fato de ser verdade. Eu não podia mentir, não sobre isso, e sei que ele não aceitará com facilidade, porque tenho certeza que Celeste contou tudo da pior maneira possível.

–É verdade não é?-ele pergunta e eu sou obrigado a ser verdadeiro.

–Sim, eu o beijei. –digo e sua face é um enigma para mim.

–Nós já estávamos namorando, não estávamos?-ele pergunta e sei que falarei a verdade, porque não tenho por que esconder. Eu não me arrependia de ter beijado Dale, não importa o quão ruim isso pareça.

–Sim, nós estávamos. –é a única coisa que consigo dizer. Se ele quiser explicações, ele terá que pedir. Se ele quiser terminar, eu serei obrigado a aceitar, porque a culpa é exclusivamente minha.

–Luke, eu te amo e você sabe disso. –ele começa. –Eu não vou julgar o seu sentimento por mim apenas por um ato que eu nem sei a razão de ter acontecido, mas tem outra coisa. Nós não podemos ficar juntos. E isso não tem nada a ver com esse beijo, apesar de eu ter ficado realmente abalado por isso, mas o motivo de eu estar terminando o nosso relacionamento é outro. Eu preciso de um tempo. Tenho que pensar em tudo isso e me recuperar. Por isso, eu vou viajar. Preciso me distanciar disso tudo, da perda, da dúvida. Eu vou para Londres, apenas eu e a minha mãe. Minha avó mora lá. Ainda não sei quando voltarei. Então, essa pode ser nossa última conversa em bastante tempo.

Eu não sei se é o fato de eu ter acabado de descobrir que a pessoa que amo está terminando comigo ou se é porque percebo que isso é um plano de fuga da mãe dele, mas eu me desespero. As lágrimas escorrem pelo meu rosto incontrolavelmente e pulo a cada soluço engasgado pela onda de sofrimento e raiva que passa por mim nesse momento. Eu quero me agarrar em alguém e ser sustentado para aguentar o que eu estou passando, mas também quero bater em alguém, quero destruir alguma coisa, para descontar a raiva que sinto pela mãe do Eduardo nesse momento.

Minhas mãos tremem e agarram meus joelhos enquanto me encolho e choro, sem vergonha de ter ele ao meu lado. Ele deve estar achando que é tudo por conta do término, mas está longe de ser apenas isso. Eu não quero sofrer, não aqui, na frente dele, eu preciso de alguém. Então, eu me controlo e paro de chorar, ajeito mina postura e me sento normalmente. Seu olhar beira o desespero ao me ver daquele modo, eu não podia fazê-lo achar que tinha feito algo horrível a mim.

–Me desculpa. –digo e passo a mão nos olhos para enxugar as lágrimas. –Tudo bem, eu entendo. Entendo porque quer terminar comigo. Mas pode me dizer quando irá?

–Amanhã, bem cedo. As malas já estão prontas. –sua voz soa tremida e nervosa, ele está arrependido.

–Eu não queria fazer você repensar sua decisão, me desculpa. Só era muita informação para processar, eu estou bem. –digo e levanto, ele parece não acreditar na minha mudança repentina de comportamento. Eu estendo a mão para ajudá-lo a levantar. –Então, isso é um até logo?

–Sim. –ele diz. –Eu não perderei o contato. Eu acho... Eu acho que podemos repensar sobre tudo isso quando eu voltar.

–Tudo bem. –eu falo e nós apertamos as mãos um do outro. Há tanto sentimento incrustado naquele simples ato que sua mão pesa na minha, então nós dois não conseguimos resistir.

Ele segura a minha cintura e acaba com o espaço que existe entre nós. Seus lábios encostam-se aos meus em uma despedida desesperada; eu percebo, não quero perdê-lo, não posso perdê-lo. Passo minha mão por debaixo da camisa dele e sinto a pele das suas costas, não posso perdê-lo, não quero perdê-lo. Sua mão passa pelo meu cabelo e sua língua encosta na minha delicadamente. Eu o jogo contra a parede e não vou soltá-lo, não vou perdê-lo. Suas mãos puxam a minha camisa para cima e ele as move sobre a minha pele nua, provocando arrepios em todo o meu corpo. Não posso perdê-lo, não vou perdê-lo. Ele ofega por um momento e um segundo depois já não sinto seus lábios nos meus, ele me empurra vagarosamente e sai da minha frente.

–Eu tenho que ir. –ele diz, posso ver uma lágrima escorrendo por sua bochecha e ele simplesmente se vai.

Eu vou impedir essa viagem. Quando dou conta de mim já estou correndo e tentando ligar para Connor. Eu tenho que impedir essa viagem. Eu não quero perder o Eduardo, eu não posso perdê-lo. Não vou perdê-lo!

Notas finais
O que acharam? Eu já sei o que vai acontecer, mas deixarei o suspense, é claro, para o próximo capítulo, que não deve demorar tanto quanto esse. Desculpa mesmo pela demora. Espero por comentários e até o próximo capítulo.