Meu Melhor Amigo
4 Eu não me importaria de passar por isso se estivesse com você
Notas iniciais
O sol está se pondo, quando eu finalmente decido parar de andar. Sento em um banco qualquer na calçada e deixo o tempo passar. Não tenho para onde ir, não tenho ninguém para pedir ajuda. Meu pai iria demorar um pouco para esfriar a cabeça, então eu não podia voltar para casa hoje. Eduardo provavelmente estava em casa e seu pai estava lá, então não.
Tudo tinha dado errado em tão pouco tempo e eu não tinha reação nenhuma. Minha vida mudara tão drasticamente e o pior era que dependendo do ponto de vista, eu também não sabia se era para pior ou para melhor.
–Luke?-ouço uma voz familiar me chamando e eu viro para ver quem é. Victoria sorri e senta do meu lado. -O que você faz aqui?
–Eu só queria sair um pouco.-digo. Seus cabelos ruivos estão mais longos e cacheados que antes. Seus olhos castanhos pareciam brilhar um pouco, ela poderia ter acabado de chorar.
–Acho que você sabe o que aconteceu. -ela fala e tira um papel da sua bolsa.
–Sim, eu sei. Como ele contou pra você?-pergunto e parece tentada a abrir o papel, mas dobra-o.
–Da melhor forma possível. Acho que ainda seremos amigos, só estou absorvendo o que aconteceu. Mas não é fácil terminar um relacionamento. ela responde e me entrega o papel para mim. Ele pediu para entregar isso pra você. Eu confesso que não ia entregar, mas como você apareceu na minha frente, acho que era para eu entregar mesmo.
–Obrigado.-eu digo e ela sorri.
–Sabe, ele me disse tudo o que está sentindo. ela fala e eu olho para ela. Vocês realmente dariam muito bem juntos.
–Você acha?-eu pergunto.
–Não há uma pessoa a mais nesse mundo que conheça o Eduardo melhor do que você. -ela diz e levanta. -Nem ninguém que o proteja tão bem. Eu tenho que ir. Boa sorte na conversa de vocês.
Eu a vejo indo e não consigo abrir o papel. O que ele poderia ter escrito? Eu deveria ter pedido para ele ler para mim. Pode ser um pedido, algo para me avisar sobre o pai dele, mas agora já é um pouco tarde para isso. Abro o papel e leio:
Eu não falei antes, me desculpe. Mas agora que você sabe eu preciso saber a resposta. O que você realmente sente por mim? Porque eu acho que te amo e não quero sofrer tanto. Preciso saber. Estarei às 19:00h, na base.
Olho para o relógio no meu pulso e vejo que já são 18:40h. Se eu fosse correndo ainda dava para chegar a tempo, mas o que eu falaria quando eu chegasse? Eu não sei, mas também precisava da resposta. Não posso ficar me martirizando a vida toda. Se eu o amo, preciso aceitar, não importa se eu seja gay ou não.
Eu corro. O mais rápido que posso sem criar suspeitas por parte das pessoas, já que já havia anoitecido. Eduardo morava duas ruas depois da minha casa e a nossa base ficava em um prédio abandonado na mesma rua que a casa dele. Ao passar pela minha casa, eu diminuo a velocidade. Eu queria parar e falar com eles, mas isso tem que esperar. Volto a correr.
O prédio abandonado que eu e Eduardo chamávamos de base tinha 5 andares e estava completamente vazio, sem móveis nem energia ou água. Antes era um hospital particular, segundo minha mãe, mas depois que a empresa faliu, ele foi abandonado e ninguém mais quis comprá-lo. Eu e Eduardo já havíamos explorado toda a extensão de todos os andares e não achamos nada de muito interessante, porém era um ótimo lugar para conversarmos sozinhos.
Chego à base e subo o muro de pouco mais de 2 metros para poder entrar. A porta da entrada era uma porta dupla de vidro e abria com um som meio metálico e enferrujado. No hall de entrada havia uma bancada e mais ou menos sete salas vazias. O lugar onde eu e Eduardo geralmente ficávamos era no segundo andar. Tudo está muito escuro, mas já conheço tão bem aquele lugar que não encontro dificuldades para achar as escadas e subir.
A sala onde ficamos está com a porta aberta e posso ver claridade saindo de lá. Tento ver que horas são, mas a escuridão não permite. Conto os meus passos enquanto ando até a sala. Ainda não sei o que vou dizer, nem o que vou fazer. Só sei que tenho que entrar lá e buscar as respostas para todas essas dúvidas.
Ao ficar na frente da entrada, vejo Eduardo sentado no colchão que trouxemos para cá. Algumas velas rodeiam os cantos e muitos pacotes de salgadinhos com refrigerante e coisas do tipo preenchem um dos lados de Eduardo. Ele está lendo algum livro, não consigo identificar qual. Ando até ele e me sento na sua frente. Ele não dá atenção para mim, mas sei que está apreensivo pelo modo como amassa a capa do livro com as mãos. Pego uma lata de refrigerante e abro. Bebo um pouco e deixo no chão novamente.
–Oi?-pergunto e depois vejo o quão idiota isso soou.
Ele larga o livro e olha para mim. Seus cabelos loiros estavam meio bagunçados como se ele tivesse passado por uma briga com travesseiros, sua pele branca parece um pouco pálida e seus olhos verdes brilham um pouco à luz das velas. Uma lágrima escorre pelo seu olho esquerdo e meu coração aperta um pouco, ele estava triste.
–Eu não queria ser assim. -ele fala e eu me sinto o pior amigo que ele poderia ter. Por que eu só me preocupei comigo e não com ele? Ele precisava de mim o tempo todo e eu não o ajudei. Com uma das mãos enxugo a lágrima que já escorria pela bochecha e ele sorri.-Quantas vezes você vai ter que fazer isso?
Era meio que verdade, eu sempre enxugava as lágrimas dele. Toda vez que ele chorou pelas brigas do irmão com a mãe, pelos socos que o irmão lhe dava quando ele não o obedecia, ou quando seu pai lhe deu um tapa por ele não querer ir a uma boate no dia do aniversário. Eu sempre enxuguei as lágrimas dele, menos quando ele se abrindo para mim, menos quando ele mais precisou.
–Eu não me importo. Contanto que eu possa lhe consolar e vê-lo sorrir novamente, eu não me importo em ver você chorando. -eu digo. Acho que vendo ele ali, chorando na minha frente, eu não tinha como não dizer que meus sentimentos por ele eram maiores que o normal.
–Acho que você nunca percebeu, mas não importa que tipo de toque seja, se for seu, eu sempre irei sorrir. -ele diz e seus olhos criam uma sensação calorosa dentro de mim. Agora eu posso ver, com que olhos ele sempre me olhou, eu só não queria enxergar.
–Eu sou um idiota mesmo.-digo e olho para as estrelas através da janela. Eu penso agora, em todas as vezes que eu procurei por alguém que realmente gostasse de mim, alguém que me fizesse sorrir pelo simples fato de estar do meu lado. Sou um perfeito idiota por não querer perceber que ele sempre esteve ao meu lado.
–Nós dois somos. -ele fala e eu sorrio. Ele pega na minha mão, isso causa um choque meio estranho em mim, como se qualquer toque dele agora pudesse ter outro sentido. Mas eu não puxo a minha mão, porque depois do choque inicial a sensação da mão dele ao redor da minha se torna quente e reconfortante, e a ideia de soltá-la amedrontadora. Eu realmente gosto dele.
–Meu pai quer me bater, ou me expulsar. Não sei ao certo, ele gritou comigo de um jeito muito ruim e eu não sei o que ele realmente queria fazer, porque eu corri.-digo e ele expira fortemente.
–Meu pai me trancou no quarto, mas isso nunca me impediu de sair mesmo. Ele disse que ia acabar com essa história. Agora eu sei o que ele foi fazer. -ele fala e aperta a minha mão ainda mais forte. Ele sempre foi mais alto e mais forte que eu, mas aquilo não me não me fazia me sentir menor, apenas protegido.
–Eu ainda não sei muito bem o que quero, Eduardo. -falo e ele olha para mim esperançoso. -Eu já sei que gosto muito de você. Eu acabei de perceber que realmente gosto de você, mas não sei se quero passar por tudo isso.
–Tudo isso o quê?-ele pergunta meio desesperado, como se ele já estivesse me perdendo.
–Eu não quero ter que encarar meus pais quando eu chegar e me sentir culpado. Não quero ter que aguentar todos os olhares acusadores na rua. Não quero ser humilhado na escola. Você fez a sua decisão e sei que não foi fácil, mas tudo ainda é muito novo para mim. Não sei se estou preparado para enfrentar tudo isso e aceitar o fato de estar gostando de você. meus olhos se enchem enquanto eu falo, mas eu não quero chorar. Não quero...
–Eu ainda não passei por tudo isso, Luke. A ideia de passar por isso também me amedronta muito. Eu já aceitei o fato de gostar de você e cada vez que penso nisso tenho mais certeza disso. Mas eu não falei para mais ninguém depois de você e da Victoria, mas quando eu estava falando com ela, meu pai ouviu e... Ele me assustou muito. -a voz dele parece trêmula e eu acho que ele realmente apanhou.
–O que ele fez?-pergunto e coloco a minha outra mão sobre a dele.
–Ele me deu dois socos na barriga. Eu jurava que ia morrer naquela hora, porque eu não conseguia respirar. Eu caí no chão e me encolhi como uma criança assustada. Minha mãe não chegou em casa e Lucas não fazia nada. Eu podia jurar que o meu próprio irmão estava com nojo de mim, como se eu fosse um animal a ser abatido por estar doente. -as lágrimas escorrem deliberadamente pelo rosto dele e eu não aguento vê-lo assim. Uma mistura de raiva e angústia me atinge, mas eu não posso fazer nada além de abraçá-lo o mais forte que podia.
–Você não é nenhum doente. digo.
–Eu sei que não sou, mas eles são a minha família e isso me abalou muito. -ele fala com o queixo apoiado no meu ombro. Seu cabelo tem um cheiro suave de lavanda e sinto-me tentado a passar minhas mãos por ele. Ele se afasta um pouco e segura minha mão novamente, dessa vez parecia decidido a não soltá-la.
–Eu... Eu sinto muito. -falo só para não ficar calado, porque eu não tinha ideia do que dizer.
–Eu também tenho muito medo de ter que enfrentá-los, Luke. Você nãos sabe quanto... Mas eu não me importaria nem um pouco de passar por isso se estivesse com você. -ele diz e meu coração acelera, parecia querer sair. Aquilo foi tão... Lindo. Meio estranho falar isso. Eu não consigo segurar dessa vez e lágrimas — que definitivamente não eram de tristeza- escorrem pelo meu rosto.
–Eu não sei o que dizer. -falo meio sorrindo, meio chorando.
–Você não precisa dizer nada. -ele fala e levanta para ficar na janela. -Nós não precisamos apressar as coisas. Só o fato de dizer que gosta de mim, já faz meu coração pulsar de alegria. Mas eu também não quero fazer você tomar nenhuma decisão precipitada.
–Então, por enquanto amigos?-pergunto ainda sentado, mas meio ansioso pela resposta.
–Melhores amigos. -ele responde e eu sorrio. Agora, temos que voltar e resolver a situação com as nossas famílias.
–Sim. eu digo mesmo estando aterrorizado com a ideia de encarar os meus pais. -Eu já vou indo.
Ele sorri e vem para mais perto, não sei se iria impedi-lo se ele me beijasse, mas isso não é necessário. Porque ele me abraça fortemente. Depois que nos separamos, nós dois sorrimos um para o outro e eu me dirijo até a saída. Para o bem ou para o mal, eu falaria com o meu pai.
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