Meu Melhor Amigo
18 A única exceção
Notas iniciais
A manhã passara tão rápido que eu não tinha percebido quão perto estava de chegar a hora de me encontrar com Dale na casa dele. Uma semana havia se passado desde a noite da chuva de meteoros, uma semana para o meu relacionamento com Dale ter crescido. Já éramos quase namorados, embora minha dor tenha apenas aumentado a cada dia.
Mas eu não podia deixar a minha vida acabar por causa do Eduardo, não sem saber se ele voltaria algum dia. Se ele voltasse, eu estaria realmente perdido. No entanto, sei que posso pelo menos ser feliz em alguns momentos com Dale. Na verdade, ele é o único que me faz suportar a dor que me assola.
De manhã, depois de acordar, conversei com a minha família sobre o Eduardo e o que havia acontecido. Menti sobre o porquê de ele ter ido embora, mesmo sabendo que descobririam uma hora ou outra. Eles ficaram meio perplexos com a notícia. Mas não era algo que meus pais achariam tão ruim, afinal, ainda era um namorado. Lilly pareceu muito triste, mas eu disse que não havia com que se preocupar.
Ando até a casa de Dale tranquilamente, apesar da imensidão de dor que agora é a minha companheira permanente. Não sei se posso superar a ida de Eduardo, mas sei que posso fingir que sim, para o bem de todos aqueles que se preocupam comigo. Esperava realmente não ver a Celeste, teria que me controlar para não dar um tapa na cara da pequena vadia.
Chego à casa e espero por Dale na frente. Ele não demora muito pra sair. Ele usa uma camisa vermelha com calça jeans e tênis, algo parecido comigo, mas eu usava uma camisa branca estampada. Engraçado como estávamos arrumados para apenas um passeio até o parque.
–Olá. –ele diz e seu sorriso que eu tanto amava aparece.
–Pronto?-pergunto.
–Claro. –ele responde e começamos a caminhar.
Não demora muito para chegarmos lá, o mesmo lugar em que tivemos nosso primeiro beijo juntos. Debaixo da mesma árvore, sentados na mesma grama, me faz pensar o quão diferente nós éramos para o que somos agora; seja na nossa relação, seja em nossas experiências.
Agora, eu já não era alguém descobrindo o que é ou o que quer ser, eu sei exatamente o que sou e o que quero ser. Tenho certeza que Dale sente a mesma diferença, porém com mudanças diferentes. Eu também já aprendera o sentimento de ver aquilo com o que você mais se importa ir embora, algo que eu não gostaria de ter aprendido.
Dale olha para mim esperando que eu comece a conversa, mas eu não sabia o que dizer.
–Então... Você me chamou aqui. –ele diz ainda sorrindo.
–Sim. –digo, apesar de ainda não saber o que falar. –Eu só queria perguntar...
O real motivo de eu ter chamado Dale aqui era para oficializar o namoro perguntando se ele queria namorar comigo. Mas eu simplesmente não conseguia, parecia que eu estava substituindo Eduardo. E se ele voltasse? Eu não queria magoar Dale, não mais do que eu já havia.
–Primeiro, o que ele te falou naquele dia? Do enterro. –pergunto. Eu nunca mencionava o nome do Eduardo em voz alta, Dale também não, ele sabia que era ruim para mim.
–Eu acho que evitei isso por tempo demais. –ele diz.
–Sim.
–Ok. Eu vou te contar. –ele diz e respira fundo.
Naquele dia, eu havia ficado bastante tempo pensando em você. Eu finalmente tinha percebido que as chances de você me amar do jeito que eu te amo eram mínimas. Então, eu decidi falar com a pessoa que era amada por você do modo que eu queria que fosse. Era necessário deixar claro que a única coisa que eu queria era ter você feliz. Logo, eu fui ao cemitério para encontrá-los.
“Eu só queria que você soubesse que não vou lutar pelo Luke.”, eu disse. Naquele momento, Eduardo olhou para mim com uma compaixão que eu nunca pensaria que ele teria.
“Obrigado.”, ele respondeu.
“Só quero pedir uma coisa. Você poderia, por favor, cuidar dele?”, eu pergunto com uma lágrima caindo pela minha bochecha.
“Eu prometo, Dale.”, ele me respondeu e completou: “E se algum dia, por qualquer razão, eu magoar e deixar Luke, você promete que irá protegê-lo para mim? Não deixe que ele sofra demais por minha causa.”
“É claro. Eu o farei, se acontecer, algum dia.”, eu respondi.
Ele olhou para mim com aqueles incríveis olhos azuis e me passou uma confiança tão grande que eu sorri, apesar de toda a dor que deixar você para ele me trazia. Então, ele mostrou sua mão para que eu a apartasse, como um trato. Um acordo que eu com todas as minhas forças cumpriria.
–Então, foi isso. Era o que você esperava?-ele diz, mas ainda não consegue olhar para mim.
–Eu não sei o que dizer, Dale. –digo e as lágrimas jorram como se eu fosse uma criança indefesa.
Eduardo pensara em mim, até mesmo antes de partir. Dale sempre esteve do meu lado e estava disposto a esperar por mim. Eu não merecia ter esses dois me amando, eu não sabia como retribuir e não tinha como.
–Eu te amo, Luke. – fala Dale levantando a cabeça para olhar para mim.
–Eu sei. –digo e o puxo para beijar seus lábios. Sua boca é calma e quente, como se não estivesse com pressa alguma, mas ao mesmo tempo ansiasse por esse momento.
–Dale. –digo seu nome e ele permanece a cinco centímetros de mim. Nossas respirações rápidas e alternadas são tudo que eu posso ouvir. –Você aceita namorar comigo?
Era o mínimo que eu poderia fazer. Quando Eduardo voltasse, se voltasse, eu não sabia o que aconteceria. Mas eu não podia ficar esperando esse se a vida toda, porque eu não tinha a vida toda. Dale estava ali comigo, e ele me ama de uma maneira que eu nem entendia , é mais do que eu poderia merecer.
–É claro. –ele diz e não consegue esconder a felicidade. Seu sorriso é tão lindo. Passo a minha mão sobre seus lábios e sinto-os molhados nos meus dedos.
–Vamos. Como tradição, eu preciso apresentar você aos meus pais. –eu digo e levanto. Estendo a mão para ajudá-lo a se erguer.
–Eu não sei se estou preparado. E se eles não gostarem de mim?-ele pergunta parecendo uma criança assustada.
–Eles já te conhecem, seu bobo. Todos já gostam de você, é só questão de oficialização. –eu falo e seguimos pelo parque lado a lado.
Em algum momento do caminho de volta, Dale segura a minha mão e eu acabo sorrindo. Não é algo que se vê todo dia. Eu já aprendi a ignorar todos os olhares repugnantes em minha direção pelo fato do que eu sou. Eles não gostarem de quem eu sou não faz de mim menos eu, por que eu deveria me importar?
Chegamos na minha casa e eu abro a porta para ele passar primeiro. Entro logo após e fecho a porta. Dirijo-me até a sala de estar onde certamente minha estaria e lá ela se encontra, Dale vem logo ao meu lado. Minha mãe está deitada no sofá, quando percebe nossa presença ela tira a sua atenção do livro e olha para nós.
–Mãe, tenho uma coisa para falar pra você. –digo. – Papai já chegou?
–Sim, ele está lá cima. –ela responde.
–Então vou esperar ele descer. –falo e sento ao lado dela no sofá, Dale senta também.
Esperamos alguns minutos até meu pai chegar. Antes dele, Lilly se junta a nós sentando no colo da minha mãe, fingindo ser uma criança de cinco anos. Quando meu pai chega, ele senta na poltrona ao lado do sofá. Assim, para que todos me vejam, eu levanto e fico de frente para todos. Dale sorri para me encorajar.
–Bem, eu vim aqui para dar uma notícia. –começo. –Como vocês sabem, eu recentemente perdi alguém muito importante para mim e a dor que sinto por isso nunca passará totalmente. Mas eu acabei descobrindo que há mais alguém com quem me importo, sempre houve esse alguém. E ele é o Dale. Então, eu os chamei aqui para informá-los que agora, Dale é meu namorado.
Lilly sorri e minha mãe também, apesar de parecer um pouco apreensiva. Meu pai não sorri, mas faz um sinal de concordância com a cabeça e levanta. Eu tinha medo, o que ele poderia fazer agora? Eu só queria que eles parassem de fingir que não sabem quem eu sou.
–Estou muito feliz por você, filho. –ele diz e meu coração parece se livrar de um peso imenso. –A única coisa que eu quero para você é que seja feliz. E, aliás, faltam duas semanas para o seu aniversário, é tempo de festa.
–Você tem razão. –eu falo sorrindo para ele. Mas havia esquecido completamente do meu aniversário. –Agora nós vamos subir. Tudo bem?
–Claro, eu, seu pai e sua irmã iremos até o shopping. Vocês querem nos acompanhar? –minha mãe pergunta e eu penso por um momento.
–Acho que eu e Dale ficaremos aqui. Eu espero vocês chegarem para combinarmos melhor o aniversário, já vi que teremos uma festa. –eu digo e todos eles sorriem. Depois que eles saem e eu tranco a porta, eu e Dale subimos para o meu quarto.
Minha cabeça girava a mil enquanto estávamos no quarto. Eu fiquei na cadeira do computador de frente para ele, que se encontrava deitado na cama olhando para o teto. Qualquer palavra que ele pronunciava vinha com uma alegria que agora emanava dele. Não tinha como eu não me sentir feliz por ele, mas será que eu realmente estava feliz comigo mesmo? Difícil de dizer sim.
–Você acha que ele vai voltar?-ele pergunta sentando e ficando frente a frente para mim. Pelo jeito, ele não estava completamente despreocupado. –É óbvio que você sente falta dele e que nunca passará, mas sei que ficou comigo porque sabe que não pode esperar a vida toda por uma coisa que pode nunca acontecer. Mas e se ele voltar?
–Eu não sei, Dale. –digo e vou me sentar ao lado dele na cama. –Mas eu prefiro me preocupar com que está acontecendo aqui e agora. Ou seja, você.
Ele não olhava para mim, então coloco minha mão no seu rosto e o viro para ficar de frente para mim. Seus olhos são profundos e fazem com que eu me sinta meio nauseado. Eu o aproximo lentamente de mim e toco seus lábios com os meus. Dale era a única pessoa certa para me fazer esquecer o Eduardo. Ele era a exceção boa de toda a situação. A única exceção.
–Eu te amo. –digo e percebo que foi a primeira vez que falei isso em voz alta para ele.
Eu me entregaria a Dale e ele seria meu, porque nós nos completávamos, ele com o seu amor desconhecido e eu com a minha dor interminável. Porque por mais distantes que pareçam, a dor sempre vem junto com o amor, caminhando em uma trilha para um destino que só os dois juntos poderiam determinar. Dale agora é meu amor e Eduardo é minha dor, e eu seguirei com os dois dentro de mim, caminhando para a trilha chamada de meu futuro.
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