O concurso iria começar em cerca de duas semanas e Stiles se controlava para não roer as unhas quando desembarcou no aeroporto internacional. Seu pai o esperava no saguão e não conteve o espanto quando reconheceu o filho se aproximando.

Stiles não era o mesmo.

Aquele tempo na Irlanda, com seus avós, havia lhe mudado consideravelmente. O cabelo havia crescido e seus ombros pareciam mais largos. Continuava magro, no entanto dava a impressão de ter ganhado alguma massa e definição muscular.

As roupas também eram diferentes. Ao contrário dos casacos de moletom sobre as peças xadrez, ele vinha usando uma calça jeans clara, mais justa no corpo, camisa social preta com as mangas dobradas até os cotovelos e sapato escuro.

Ele abraçou o pai com saudade e riu quando viu que o xerife estava sem fala.

– Tudo bem? – ele perguntou ao pai que continuava calado.

– Si-sim! Vamos, Lydia já me ligou 17 vezes, três dessas na delegacia, perguntando sobre você.

– Saudade de casa. – ele comentou, seguindo o pai para o estacionamento – Como estão as coisas por aqui?

– Confusas.

– Ás vésperas do concurso? Nossa, por quê? – a ironia pingava de seus lábios e o xerife riu.

– Mais confusas que o normal. Todas as janelas da escola foram destruídas.

– Destruídas? Houve algum tremor de terra ou algo assim?

– Lydia. – a resposta do xerife foi simples.

– Ela gritou, certo? Quando Jackson a dispensou? – Stiles deduziu.

– Exato.

– Whittemore é um ignorante.

– Também acho. Mas o que é dele está guardado.

– Do que está falando, pai?

– Você vai ver, filho. Você vai ver...

Os dois ficaram em silêncio, Stiles apenas apreciando a estrada da Califórnia, sentindo o “cheiro de casa” a medida que se aproximavam de Beacon Hills. Quando pararam o carro na garagem dos Stilinski, Stiles desceu e sentiu um arrepio correr seu corpo. Tirou os sapatos e deixou o pé sentir a grama do jardim, curvou-se em seguida, traçando o polegar pela terra e trazendo-o junto a nuca, sujando a pele.

– Vejo que aprendeu algumas das manias de sua mãe. – o xerife comentou, observando o filho.

– Acho que aprendi um pouco mais sobre mim mesmo também.

– Vem, vamos entrar. Depois você continua seu ritual. Fiz um jantar para nós dois.

– Você fez um jantar? – Stiles parecia chocado – Me deixe adivinhar, você pediu tacos no restaurante do lado da delegacia.

– Foi para Irlanda e virou vidente?

Eles riram e entraram na casa para comer, conversar e matar as saudades.

Stiles não quis que o pai avisasse ninguém do seu retorno antecipado, apenas Lydia sabia que ele estava na cidade. Como as aulas tinham sido suspensas para a troca dos vidros, a banshee chegou cedo à casa do amigo no dia seguinte, mas não o encontrou dormindo como esperava. Stiles já havia levantado, preparado um café da manhã caprichado com direito a panquecas com calda de frutas vermelhas, leite desnatado aromatizado com baunilha e ovos mexidos com ervas finas.

– Isso tudo é jet lag? – a voz dela era bem humorada, feliz ao rever Stiles depois de tanto tempo.

– Lyds! – ele exclamou, puxando a garota para um abraço apertado – É bom estar com fome. Mas mesmo se não estiver com fome, é bom comer para aguentar o ritmo.

– Ritmo? Que ritmo?

– Do nosso ensaio. Já que você está livre, estou intimando-a a ser meu par na apresentação.

– E o que você tem em mente? – a moça pegou um morango de uma pilha e mordeu enquanto via Stiles sorrir.

– Tenho em mente um verdadeiro espetáculo!

Lydia saiu da casa de Stiles quase as oito da noite. Cansada, sentindo todos os músculos da perna e dos braços doerem absurdamente. Mas ela não conseguia tirar o sorriso do rosto.

Scott só soube da chegada de Stiles uma semana depois, quando encontrou Lydia saindo da lavandeira carregando alguns trajes masculinos. Não é preciso dizer o drama que o adolescente fez ao descobrir que seu melhor amigo não havia lhe informado que estava na cidade.

– Eu fiquei preocupado, ok? – Scott andava de um lado para o outro, na sala de estar de Stiles.

– Sei disso, Scott. Não fiz isso por mal. Tinha planejado permanecer na Irlanda mais quinze dias, mas Lydia precisou de mim. – Stiles respondia de um jeito calmo, completamente incomum a sua natureza.

– Também precisei de você! – o lobisomem ali murmurou, fazendo cara de filhote abandonado.

– Oh céus! – Stiles o puxou para um abraço apertado – Você nunca chorou comigo no Skype. Como eu poderia saber que precisou de mim?

– Verdade... – Scott sorriu, ainda abraçado com Stiles – Mas é sério, precisei muito de você. Especialmente quando Allison quis terminar comigo.

– Allison quis te dispensar? O que está acontecendo nessa cidade que todos os casais eternos estão terminando?

– A tia dela tentou nos colocar um contra o outro.

– Não me espanta. Kate é uma pessoa sem escrúpulos. Ela e Derek se merecem!

– Stiles, você sabe que Derek e ela...

– Terminaram? Foi o que Lydia disse.

– Lydia disse isso? – Scott parecia confuso. Lydia havia sido informada por ele, pelo xerife e depois por Cora que os sentimentos de Derek para Stiles eram sinceros.

– Não com essas palavras. Ela me disse que Kate agora está com Jackson. Se ele não for apenas mais uma fachada, então eles terminaram.

– Derek e Kate nunca estiveram...

– Scott, por favor. Vou lidar com Derek quando me sentir preparado pra isso. Mas no momento prefiro não falar sobre esse assunto.

O rapaz balançou a cabeça, concordando com o amigo, mas estava contrariado. Queria poder sacudir Stiles pelos ombros e gritar algo como “se joga e vai ser feliz”. Mas daria o tempo que o amigo precisava. Cedo ou tarde, sabia que ele e Derek se acertariam.

De noite, olhando pela janela do quarto na direção que ele sabia ficar o apartamento de Derek, Stiles se perguntou se algum dia ia parar de sentir aquela dor sempre que pensava no lobisomem. Mas enquanto ele não tivesse que encarar Derek, enquanto não precisasse ficar frente a frente com ele, tentaria não pensar sobre o assunto. Ainda tinha uma semana antes de se ver obrigado a estar com Derek num mesmo ambiente e esperava que, cercado por toda agitação do concurso, o lobisomem e ele não tivessem tempo de ficarem a sós.

Por isso mesmo ele ficou completamente atordoado quando abriu a porta de casa na manhã seguinte e não encontrou Lydia, como ele esperava:

– Meia hora mais cedo, senhorita Martin. Não sabia que estava tão ansiosa para sentir meu rebolado! – ele foi falando até que se deu conta de quem estava parado a sua porta – Derek?

Seu sorriso sumiu na mesma hora enquanto observava o lobisomem que parecia ter perdido a capacidade de falar. Depois de alguns instantes de silêncio, Stiles recuperou o controle de si mesmo e sorriu, cinicamente:

– Kate Argent comeu a sua língua?

Derek piscou, franzindo a testa diante daquele comentário:

– Você voltou!

– Não. Isso é apenas um holograma. Um novo sistema de segurança que meu pai implantou. No momento eu estou na Irlanda, tomando um porre de uísque em algum pub clandestino

O lobisomem não demonstrou qualquer sinal de ter captado a ironia das palavras de Stiles, apenas se aproximou do rapaz e o puxou para um abraço, respirando fundo para matar a saudade do cheiro dele. Por um instante, o filho do xerife achou que ia derreter, sentindo o coração de Derek junto do seu peito, batendo no mesmo ritmo do seu. Até que se lembrou de tudo o que tinha acontecido e empurrou o lobisomem para longe de si.

– O que pensa que está fazendo? – Stiles gritou com ele.

– Encontrei Scott ontem a noite e o seu cheiro... Seu cheiro estava nele. Mas você só iria voltar semana que vem. Eu só... Precisava ver você.

– Precisava me ver? Para quê? Para saber se os hematomas das balas de tinta haviam sumido? Para ter certeza que eu não morri de vergonha? Ótimo, já me viu. Estou muito bem, por incrível que pareça.

– Stiles, não! Senti sua falta, esses dias todos foram...

– Difíceis de ver sua namorada sem uma fachada para disfarçar para sua mãe? Ou sentiu minha falta agora que ela lhe dispensou para pegar o capitão do time de lacrosse da escola?

– Nunca tive nada com Kate! – Derek esbravejou – Ela foi minha parceira de dança e apenas isso. Não vou negar a você que ela se insinuou, tentou alguma coisa comigo. Mas eu não quis.

– Você espera um minuto, Derek? Preciso pegar uma bacia de pipoca para assistir o resto do seu teatro.

– Estou falando a verdade. – o lobisomem abaixou o tom de voz e olhou Stiles diretamente nos olhos.

O filho do xerife sentiu o coração falhar uma batida com a intensidade do olhar que lhe era destinado. Mas a dor que sentia ao se lembrar da humilhação no parque ainda latejava em sua alma.

– Pra que fazer isso, Derek? – sua voz saiu cansada e ele fechou os olhos, sentindo os ombros pesarem – Qual a graça em manter essa brincadeira? Fazer de conta que se importa comigo. O que você ganha com isso?

– Não estou brincando, Stiles! Pergunte a seu pai, por favor. Fui julgado pela minha alfa, na frente do xerife, de Scott e da mãe dele. Eles sabem o que sinto por você.

– Agora você passou dos limites! – o rapaz vociferou – Usar meu pai e meus amigos para endossar sua mentira?

Derek sentia como se seu coração estivesse rasgando ao meio com as emoções que emanavam de Stiles e suas mãos começaram a tremer e lágrimas escorreram de seus olhos ao mesmo tempo em que o filho do xerife parecia prestes a começar a chorar.

– É verdade, Stiles. – uma voz suave chamou a atenção dos dois.

Lydia mantinha os olhos fechados e a respiração sob controle, como se estivesse tentando controlar suas habilidades.

– Derek não está mentindo. E a aura dele, posso ver agora, tem a mesma cor da sua.

– Lydia, não. Isso não. – Stiles soluçou e sentiu o corpo pesado demais para se manter em pé.

Derek se ajoelhou ao lado dele sem saber o que fazer. Queria abraçar Stiles novamente, mas temia ser rejeitado novamente. Foi a banshee que se aproximou dos dois e sentou ao lado de Stiles, pegando uma de suas mãos. Depois esticou a mão livre para Derek que deixou que ela tocasse seus dedos.

Quando Derek sentiu sua mão ser envolvida pela de Lydia não pôde evitar uma exclamação de espanto. Ele via a cor da aura de Stiles, uma energia mista de azul e dourado e quando abaixou a cabeça, olhando para suas mãos, elas tinham a mesma tonalidade. Stiles abriu os olhos e reparou na mesma similaridade, e sua expressão agora se dividia entre as lágrimas e um sorriso que parecia insistir para brotar em seus lábios e que ele, a todo custo, lutava para evitar.

– Acho que seria melhor se todos nós entrássemos. – Lydia sugeriu e Stiles tratou de se levantar, ajudando a moça a ficar de pé.

Dentro da casa o silêncio de minutos antes tornou a reinar, mas já não era tão incomodo assim. Stiles seguiu para a cozinha pegando um copo de água para si e oferecendo para os outros que também aceitaram.

Não estavam exatamente com sede, mas era bom ter algo entre as mãos, como se segurar algum objeto ajudasse a tornar o momento mais concreto.

– Por que nossas auras brilham da mesma forma? – foi Derek quem perguntou e apontou para Lydia – A sua parecia rosada.

– Você sabe a resposta. – a menina respondeu, enquanto circulava a boca do copo com a ponta do dedo – Pelo mesmo motivo que você perdeu seis quilos enquanto Stiles esteve fora. Que você teve crises de pânico há algumas semanas. Que os seus corações batem no mesmo ritmo.

– Mates. – Derek sussurrou.

Stiles suspirou ouvindo o lobisomem dizer o conceito que ele compreendeu no instante em que Lydia falou sobre as auras. Derek virou seu rosto para Stiles e abriu a boca para falar alguma coisa, mas mudou de ideia e saiu da casa.

O filho do xerife fechou os olhos e deitou a cabeça no balcão da cozinha, sentindo-se estranhamente leve e derrotado ao mesmo tempo. Mas não teve muito tempo para processar seus sentimentos, pois logo Derek voltava para a cozinha.

– Guardei isso para você. – ele colocou o boneco do Mestre Yoda sobre o balcão – Não sabia se ia querer, por causa do aconteceu depois. Mas... Tinha a esperança de que o que aconteceu antes fosse mais importante.

Stiles pegou o boneco, notando que ele parecia mais amassado que o normal e passou a mão pela pelúcia esverdeada, trazendo para perto do peito e notando que ela tinha o cheiro de Derek.

– Tive que mandar lavar duas vezes para tirar as manchas de tinta. – o lobisomem parecia sem graça ao falar aquilo – Por isso ele ficou meio amassado.

– Por causa da lavagem ou de você ter feito ele de travesseiro? – Stiles perguntou, olhando com carinho para Derek.

– Bom, teve isso também. – ele respondeu, sentindo a ponta das orelhas ficando quentes e as bochechas corando.

Os três continuaram na cozinha, conversando mais um pouco sobre assuntos que nada tinham a ver com sentimentos ou com os mal entendidos que haviam sido vítimas. Depois de um tempo, Lydia pediu:

– Derek, sei que você e Stiles têm muita coisa para conversar, muito que resolver. Mas agora, nós precisamos ensaiar. A competição começa em uma semana e nós não somos os melhores dançarinos ainda.

– Oh, eu entendo. Vou pra casa então.

Ele fez um gesto na direção da porta e Stiles seguiu pelo corredor para se despedirem.

– Acredita em mim agora? – Derek perguntou antes de descer os três degraus da varanda.

– Acredito. Mas ainda não quero você por perto.

– Por quê? – o lobisomem agora estava claramente confuso.

– Porque ainda não vão me deixar em paz. Enquanto o concurso não acabar, tudo o que eu fizer será visto com maus olhos. Irão falar de mim, de você, das nossas famílias. Só mais um mês. Menos até... Uma semana para o concurso começar, oito dias para ele finalizar. Depois nós temos todo o tempo do mundo.

Derek olhou Stiles nos olhos e sorriu, o sorriso tímido que, apesar de ser um pequeno movimento com os lábios, fazia Stiles ter certeza da grandiosidade do sentimento que existia entre eles.

– Você mudou, Stiles. – o lobisomem constatou.

– Parece que não sou tão feio assim como antes.

– Você nunca foi feio. Na verdade, você sempre foi a pessoa mais atraente dessa cidade. Você mudou porque agora acredita nisso também. Te vejo no concurso.

Notas finais
Mates? Sim, mates. E só porque eu amo esse conceito...rs...