O clima, os costumes, a comida na Irlanda era totalmente diferente do que Stiles estava acostumado. Apesar de falar um pouco do dialeto da família de sua mãe, o rapaz sentia-se perdido. Seu pai havia passado apenas os dois primeiros dias com ele, para ir atrás de um tutor para aplicação dos exames escolares e de um bom psiquiatra.

Agora ele se via longe do pai, dos amigos e se perguntava onde estava a sensação de solidão que ainda não havia lhe derrubado?

A verdade é que a família de Claudia era grande e calorosa e todos estavam empenhados em fazer Stiles sentir-se em casa. Seu quarto, na casa dos avós, não era muito grande, mas tinha uma TV, um DVD e conexão com a Internet. Além das muitas fotos de sua mãe quando criança e adolescente.

Os primos, que ele nem se lembrava, o arrastavam para todos os lugares: cinema, parques, shopping e casa dos amigos. Stiles conheceu muita gente e mal tinha tempo para falar com o pai e com Lydia e Scott.

E enquanto ele era arrastado para todo tipo de atividade: aula de dança de salão com a avó, aula de muay thai com a prima Brianna ou de yoga com o primo Declan, e recebia aulas sobre a origem de sua família que ele totalmente desconhecia com seu bisavô Donovan, muita coisa acontecia em Beacon Hills.

– Xerife. – o oficial Parrish chamou, dando duas batidas na porta – O senhor tem visita.

Ele abriu a porta e Talia Hale entrou no escritório de John sem demonstrar qualquer emoção.

– Pode sair, Parrish. – John indicou e o esperou o rapaz fechar a porta – A que devo a honra, senhora Hale?

– “Senhora Hale”? Acha necessárias essas formalidades, John?

O xerife não respondeu, apenas encarou a alfa aguardando que ela falasse a que veio.

– Derek tem tentado falar com Stiles há alguns dias, mas não obtém resposta dele. Bem como minhas filhas e meu irmão. Todos foram até sua casa, mas não há sinais de seu filho.

– E o que todos vocês querem com Stiles?

– John...

– Talia, não se faça de desentendida. Se meu filho não está em casa, ou melhor, se meu filho não está no país é por culpa de Derek, da namorada dele e de seus amigos marginais! – o xerife se exaltou.

– Do que está falando?

– Vai me dizer que Derek não lhe contou que a namorada dele armou para humilhar Stiles na frente da cidade inteira?

– John, Derek não tem namorada. Até onde eu sei, o único interesse amoroso do meu filho era por Stiles.

– Ok, você é mais inteligente do que isso. – o xerife levantou a andou pela sala.

– Estou falando sério, John! – Talia levantou atrás dele – Derek não tem nada com sei lá quem você está chamando de namorada dele. Ele também não sabia que aquilo iria acontecer com Stiles.

– Talia, sempre tive você em alta conta, mas não vou acreditar em suas palavras agora.

– Eu o submeto ao Julgamento do Alfa se você achar necessário!

O xerife parou de andar e encarou a mulher, analisando sua postura. Ela parecia se empenhar muito para que ele acreditasse na inocência de Derek. O Julgamento do Alfa era um recurso pouco usado pelos packs em geral porque submetia o beta a uma espécie de tortura. Quando um alfa utilizava desse recurso, o beta que tentasse mentir sentia dores atrozes.

– Você faria isso com seu filho?

– Derek está sofrendo tanto ou mais que Stiles.

– Não acredito que isso seja possível. – John tornou a se sentar.

– Diga-me, John, Stiles sentiu ansiedade, dores agudas no peito, dificuldade para respirar, medo, tremores e suores. Precisou de medicação para dormir e ainda assim teve o sono agitado, acordando meio apático e completamente cansado?

– Você falou com a psiquiatra do meu filho?

– Não, apenas observei o que meu filho sentiu desde a semana passada.

O xerife arqueou as sobrancelhas e esperou que a alfa continuasse:

– Derek sentiu tudo isso. E antes que me pergunte se ele tem crises de pânico, a resposta é não. Mas tenho notado já há algum tempo que Derek tem refletido todas as emoções de Stiles. Ele ainda não percebeu isso e acredito que se tivesse percebido, talvez conseguisse evitar grandes problemas. Essa culpa eu assumo, não ter orientado Derek bem o bastante para reconhecer seu mate.

– Reconhecer seu... seu o quê?

– Seu mate. Companheiro. Alma gêmea. Como preferir chamar.

– Eu sei o que mate significa, Talia. Mas Stiles ser o companheiro do Derek?

– A preocupação do meu filho com o seu é genuína desde o início, John. Depois Derek me disse que ele respira melhor quando está perto de Stiles. E aos poucos eu notei que a emoção de um influenciava a emoção do outro. Os sinais estão todos aí. Seu filho está sofrendo e o meu também.

O xerife cruzou os braços sobre a mesa, descansando a testa sobre eles. Se Derek e Stiles realmente fossem companheiros, mates como os lobisomens costumavam chamar mais frequentemente, isso mudaria muita coisa.

– Acredito em você, Talia. Mas quero o Julgamento do Alfa. É meu único filho, afinal de contas.

– Esteja amanhã a noite em nossa casa, John. Vamos tirar essa história a limpo. Traga suas testemunhas.

John convidou Melissa e Scott. As únicas pessoas que ele considerava como família o bastante para presenciar as explicações de Derek, e quando a noite terminou, ele agradecia por ter os dois a seu lado.

Assistir Derek ficar de joelhos no meio de um círculo formado por toda sua família, semi nu, tendo que encarar a forma Alfa de Talia, um humanoide com pelos por todo o corpo, orelhas pontudas, presas e garras afiadas, rosnando com ele, foi perturbador.

Talia perguntou a Derek tudo sobre seu relacionamento com Stiles, suas intenções com o rapaz e sua participação no ocorrido no parque. Perguntou sobre sua suposta relação com Kate Argent, que ele negou com tanta veemência que foi preciso que Laura, a segunda no comando depois de Talia, intervisse para acalmar o irmão.

Por fim, a última pergunta:

– Derek, você reconhece Stiles como seu companheiro?

Os olhos de Derek se arregalaram com o questionamento. Ele nunca tinha parado para pensar naquela possibilidade. Mas sentiu a resposta em seu coração antes de balançar a cabeça afirmativamente.

– Reconheço. – sua voz saiu mais firme que antes e só então ele se atreveu a desviar o olhar de sua alfa e encarou o xerife que estava posicionado a sua direita – Reconheço, reclamo como meu e me comprometo a cuidar de Stiles, como todo lobisomem faz por seu mate.

John crispou os lábios, tentando impedir a emoção de o dominar. Queria que Stiles visse isso. Queria que Stiles pudesse sentir a verdade das palavras de Derek, mas sabia que não poderia perturbar o filho naquele momento de sua recuperação.

Eles saíram da propriedade dos Hale quase a meia noite. O xerife, Melissa e Scott seguiram o caminho todo sem trocar uma palavra.

No dia seguinte, Scott contou a Allison o que descobriu na casa dos Hale. Enquanto Melissa, que conhecia bem as colegas fofoqueiras que tinha no hospital, deixou um comentário escapar sobre como Derek sofria de saudade de Stiles.

Já o xerife, continuou movendo o processo por bullying, mas tratou de tirar o nome de Derek como envolvido na ação do parque.

Stiles, no entanto, continuava a ignorar todos os e-mails que recebia de qualquer um dos Hale, e sempre que via a menção ao nome de Derek em alguma mensagem que recebia de Lydia ou Scott, ele parava de ler e deletava de sua conta imediatamente.

Estava muito bem na Irlanda. A cada dia se sentia um pouco mais confiante com tudo o que aprendia com sua família e com a atenção que recebia dos amigos de seus primos. Ali, na pequena vila de Tuam, no condado de Galway, ele não era visto como uma aberração. Pelo contrário, ele era visto como novidade e desfrutava de todas as vantagens que isso lhe trazia.

Já fazia um mês que ele estava na Irlanda, suas notas eram as melhores possíveis, levando em conta que ele estudava sozinho e contava com o tutor apenas para aplicação dos testes. Ainda ficaria no país por mais quinze dias antes de voltar para Beacon Hills a tempo do concurso, quando seu celular informou que ele havia recebido uma nova mensagem.

Preciso de você.

O número era de Lydia.

Ele parou o que estava fazendo e ligou o Skype, chamando a amiga no mesmo instante. E assim que ela aceitou a chamada, seu coração se apertou ao perceber que ela estava chorando.

– Lyds, baby, o que foi?

– Jackson!

– O que essa lagartixa marombeira aprontou dessa vez?

– Ele me largou, Stiles!

– De novo?

– Não. Agora é pra valer. Ele me dispensou da vida dele porque disse que sem Derek no concurso, as chances dele são maiores e ele precisa ter certeza de ter alguém ao lado dele que saiba valorizar suas capacidades.

– Ele trocou você por outra garota? Com esse argumento imbecil? Lydia, você é a mulher mais inteligente e linda da escola.

– Ele não me trocou por nenhuma menina da escola, Stiles. Jackson está com Kate Argent.

Stiles sentiu um gosto amargo tomar conta de sua boca. Havia passado quase um mês sem pensar em Kate e no que ela e Derek haviam feito com ele, e mesmo sabendo que seria capaz de superar isso em breve, ouvir o nome daquela vadia e ainda saber que ela tinha prejudicado sua melhor amiga, lhe causavam um tremendo mal estar.

– Eles vão dançar juntos no concurso e há quem diga que já viu os dois aos beijos no estacionamento do shopping.

Ela soluçou mais um pouco e Stiles não sabia o que dizer. Primeiro a angústia da amiga e depois a informação de que Kate não estava mais com Derek era o suficiente para que ele se sentisse, no mínimo, confuso.

– Queria que estivesse aqui, sabia? Para poder deitar no seu colo e dormir enquanto você mexe nos meus cabelos. – ela deu um sorriso triste.

Eles se despediram e terminaram a ligação. Meia hora depois, Stiles ligava para o aeroporto e para seu pai, informando que havia mudado a data de seu retorno.