Meu Lar
9 Capítulo 09
Notas iniciais
Santana caminhou pensativa e com a testa enrugada até sua casa, mas tratou de mudar suas feições ao entrar em seu lar, para que sua mãe não se preocupasse. Mal fechou a porta e sentiu um pequeno corpo se chocar com suas pernas.
– Mamaaa, que bom que ocê chego. Já tava cum sodadi di ocê. – falou Ali dando-lhe os braços para ser pega no colo, o que foi prontamente atendido.
– Ola, mi hijá. A Mama também estava com muitas saudades de você, mi angelito. – disse sorrindo enquanto abraçava a filha e distribuía beijos pelo rostinho angelical.
Era incrível como um ser tão pequeno tinha o poder de fazer-lhe esquecer de tudo. A preocupação que a tomava a pouco foi esquecida por completo ao olhar direto naqueles olhos azuis de uma doçura que somente vira em outras orbes iguais àquela. Espantava-se em como conseguia ver Britt quando olhava a filha daquele jeito.
– A Mamãe Quinnie num veiu com você? – perguntou triste e pegou mais uma vez a latina de surpresa.
– A Quinn estava ocupada, filha. – disse simplesmente. Teria que dar um jeito de conversar com a filha seriamente e explicar que ela não poderia seguir com aquela história. E de onde ela tirara aquele apelido para Quinn?
Entrou na cozinha com Alícia ainda nos braços e aspirou fundo ao sentir o cheiro da comida da mãe, abrindo um largo sorriso.
– Huummm, que cheiro ótimo. – falou se aproximando de Maribel e dando um beijo em sua bochecha – Estou morrendo de fome.
– Vá colocando a mesa que já vai estar pronto.
Ouvindo o que a mãe disse colocou Ali em sua cadeirinha apropriada, dando uma bitoca na ponta do nariz da menina, que riu, e começou a colocar os pratos na mesa. O jantar foi realmente servido em seguida e comeram no clima de descontração de sempre.
– Madre, o que acha de irmos até a cidade na terça?
– Mas você não vai trabalhar? – perguntou duvidosa.
– Como amanhã é domingo e vamos trabalhar a Quinn deixou eu tirar em outro dia da semana a minha folga, mas vou ter que fazer umas coisinhas para ela enquanto deixo vocês no shopping. – inventou para poder ir à delegacia sem ela saber.
– Que ótimo. Já vou aproveitar para comprar uns livros novos, estou terminando de ler o último que comprei. – falou com os olhos brilhando.
– Isso. Vou comprar umas roupas para essa minha menina que não para de crescer. – brincou batendo com o dedo na ponta do nariz de Ali que achou a coisa mais engraçada do mundo.
– E um binquedo novo também. – determinou a pequena, fazendo as duas adultas rirem.
– Vou ver se você está bem comportada até terça. – disse-lhe Santana.
– Tô sim, Mama. – falou solene.
Após o jantar Santana brincou um pouco com Alícia e quando esta passou a dar visíveis sinais de sono a colocou para dormir. Maribel também se recolheu para o quarto para ler um livro antes de dormir.
Santana ainda não tinha sono, apesar do dia ter sido agitado. O que Quinn lhe dissera a respeito da sabotagem de sua caminhonete não saía de sua cabeça. Será que já haviam a descoberto ali e se deram ao trabalho de vir de Ohio para atentar contra sua vida?
Ainda com aqueles pensamentos tomando conta de sua cabeça fez um café e foi para a varanda olhar para as estrelas. Admirar o céu, mesmo que à noite, a acalmava e sempre a fazia refletir com sensatez.
Viu algo se movimentar no escuro a sua frente e em meio a penumbra enxergou os cabelos loiros e uma camisa branca, andando vagarosamente. Quinn também havia ficado preocupada e resolvera sair para dar uma caminhada antes de se deitar. Tinha que extravasar de alguma forma a preocupação que lhe tomara.
Já voltava distraída para sua casa quando avistou Santana sentada à varanda, com uma caneca provavelmente de café em mãos. Ela estava meio no escuro, mas aquela penumbra não era o suficiente para ocultar os traços fortes e perfeitos daquela latina que vinha lhe tirando o sono.
Sem nem ao menos pensar no que fazia se dirigiu para onde ela estava, encantada com aquela visão. Santana agora também a olhava, mas permanecia séria, como se não entendesse porque ela estava vindo em sua direção.
– Olá. – falou simplesmente ao entrar na varanda e sentar-se ao seu lado sem ao menos ser convidada.
Santana ficou a encarando quase que boquiaberta. Estava começando a achar que não entendia Quinn. A mulher simplesmente a ignorara por dois dias completos e agora vinha como se aquela ação fosse a coisa mais normal do mundo.
Depois de instantes estagnada resolveu que não iria discutir com ela sobre aquilo. Estava com a cabeça sobrecarregada de problemas e não queria acrescentar mais aquela loucura a ela.
– Olá. – disse e voltou a mirar as estrelas.
– Você não vai me oferecer um café? – perguntou e logo se puniu mentalmente. “Que diabos você pensa que está fazendo, Quinn? Você não havia decidido ficar longe dela e agora está aqui se oferecendo para tomar café com ela?”.
– Huuum, claro. – falou espantada com aquela atitude da outra – Espera só um pouco que já volto.
Dito isso se levantou e dirigiu-se até a cozinha para buscar a caneca de Quinn. Quem sabe ela repensou seus atos e tenha decidido voltar atrás com a atitude estranha que vinha tendo.
– Aqui está. – falou estendendo o café e sentando em seu lugar anterior.
Aquela proximidade definitivamente não era boa para a sanidade de nenhuma delas. Mesmo sem estarem encostadas conseguiam sentir o calor que o corpo da outra emanava e aquilo fazia com que suas imaginações voassem.
Ficaram um bom tempo em silêncio, apenas apreciando a linda noite que as rodeava. Ouviam apenas o som distante de algum animal no campo e dos grilos que cantavam sem parar para a noite de verão. A lua estava tão clara que podiam enxergar longe e as estrelas brilhavam no céu como se tivessem algo a lhes revelar.
– Nunca tinha visto um céu tão estrelado. – comentou Santana distraída.
– As noites de verão daqui são lindas. – respondeu no mesmo tom.
– São mesmo. – disse simplesmente sem saber o que dizer. O que queria falar provavelmente afastaria a loira mais uma vez.
– Você está bem com relação ao que descobrimos hoje? – disse de repente, mostrando preocupação enquanto olhava direto para Santana pela primeira vez naquela noite.
– Para falar a verdade não consigo tirar isso da cabeça. – declarou, preocupada.
– Não deixarei que nada de mal aconteça a você. – falou em um rompante olhando diretamente no mar negro que eram os olhos de Santana a sua frente.
As duas ficaram perdidas naquele olhar e quando se deram conta seus lábios já estavam se tocando calidamente. Permaneceram alguns segundos assim, até que a língua de Quinn pediu passagem e invadiu a boca de Santana, a beijando de forma sedenta, como se há muito tempo desejasse aquele contato.
O beijo foi intenso. Uma degustava o gosto de café que a outra tinha e a excitação crescia entre elas a níveis vertiginosos. Num lampejo de lucidez Quinn se afastou abruptamente e se levantou.
– Me desculpe. Isso não poderia ter acontecido. – falou e num rompante deu as costas para uma latina boquiaberta e se afastou quase correndo.
Os lábios de ambas ainda latejavam, como uma recordação do recente contato. O efeito de apenas um beijo foi tão absurdo para elas que todo seu corpo tremia.
Santana ficou observando Quinn se afastando em direção à própria casa, sem conseguir esboçar qualquer reação. Nunca apenas um beijo a havia afetado tanto na vida. Custava a entender o efeito que aquela mulher estava causando sobre ela.
Quinn quase tropeçava nos próprios pés, segurando-se para simplesmente não sair correndo descontrolada, murmurando consigo mesma.
– Que porcaria eu fiz? Que porcaria eu fiz? Agora ela vai querer ir embora, não vai mais nem querer trabalhar aqui. – penalizava-se.
Entrou em casa como um raio e nem enxergou Emma que saia da cozinha para lhe dar boa noite. Subiu as escadas e entrou desesperada em seu quarto.
– Burra! Burra! Mantenha distância. Você quer se machucar de novo? – dizia com raiva de si mesma.
Não podia se deixar levar pelo jeito sedutor e encantador de Santana. A latina transbordava sensualidade pelos poros sem nem ao menos se dar conta de como a afetava. Se seguisse se perdendo na cadência daqueles quadris ao caminhar acabaria louca e totalmente perdida. Mas o que mais a assustava é que com certeza sofreria novamente e pressentia que dessa vez poderia ser ainda pior.
Ainda naquele estado tomou um banho quente e enfiou-se embaixo das cobertas. Custou a dormir e quando finalmente pegou no sono foi assolada por sonhos conturbados onde procurava por alguém que fugia e se escondia dela.
Santana, por sua vez, ficou um tempo com o olhar perdido para a direção onde Quinn sumira. Estava cada vez menos entendendo aquelas reações da loira e o jeito como ela a tratava. Uma hora era rude e fria, na outra simplesmente a beijava e fugia como uma louca, levando consigo o melhor beijo que já experimentara em toda a sua vida. Tentando desvendar aquele comportamento insano dirigiu-se a seu quarto e se deitou, acabou adormecendo em seguida, vencida pelo cansaço.
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