Meu Impossível
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu estava com muita vontade de escrever algo Supercorp, então escrevi essa One-shot. Espero que gostem. É minha primeira vez escrevendo sobre Kara e Lena, então tenham paciência comigo.
Quero dedicar essa One à três pessoas.
Layla, você sabe o quanto é importante pra mim e como foi lindo te obrigar a assistir Supergirl. Obrigada por me mostrar os detalhes a serem trabalhos. Obrigada por fazer parte da minha vida.
Tarsila...Como te admiro, tivemos várias conversas sobre isso. Ter o prazer de falar com você é algo que ainda me parece tão distante. Obrigada por gostar desse pequeno texto, por me incentivar e por me inspirar em cada frase que escreve.
Vince, que amor você fazer essa capa maravilhosa e por gostar de Meu Impossível, preciso agradecer por ter cedido seu tempo a essa pequena obra.
Desculpe qualquer erro.
Boa leitura.
O quão impossível pode ser um amor?
Em um mundo cheio de falsos “Certos”, pessoas “Perfeitas”, opções “Ideais”. Qual a probabilidade do “Impossível”?
Impossível.
A terra se tornou um lar confortável, me trouxe amigos, trabalho, família. Um carinho que me preenche sempre que visto o brasão da família em krypton. Trouxe-me a necessidade de existir, me mostrou meu lugar. Não estamos sempre em busca do nosso lugar? Sou vista e amada pela roupa azul e vermelha. Sou despercebida atrás dos óculos e com meu novo bloco. Escondo-me como repórter, como assistente.
Pode parecer ridículo o disfarce composto por cabelos presos e óculos de grau. Mas quem suspeitaria que por trás de uma garota comum demais, habita o “Salvar o dia”? Habita a Supergirl?
Ninguém repara no comum, como veriam o extraordinário?
Tenho a sensação que ela viu o comum, o simples, a mulher sem poderes por trás do esconderijo de lentes. Seus olhos percorreram os meus com toda a curiosidade ou intensidade existente em alguém.
Impossível.
Essa palavra me atormentou por meses a fio. O impossível começou a incomodar após uma simples entrevista, após seus olhos ganharem as linhas dos meus olhos. Aqueles verdes me invadiram sem pudor, sem licença. Ela me olhava adentrado cada vez mais fundo nos meus segredos. Segredos que sequer imaginava.
A cada encontro, a morena de olhos verdes ignorava qualquer ser. Sua atenção girava em torno de mim. Via seus olhos brilharem ao longe, via seu sorriso se abrir e o suspirar aliviado. Quando eu surgia, via seus olhos se fechando e sua pele se abrindo. Cada gesto era feito para a garota Kara, não para a mulher Supergirl. Meu receio e preocupação gritaram. Não estava lidando com qualquer CEO. Não estava me fechando para qualquer mulher encantadora. Não estava revendo cada pergunta apenas para alguém que tenta me conhecer.
Estamos falando de Lena Luthor, irmã de Lex Luthor. Não conheço um ódio maior que o dele.
Passei noites procurando detalhes que revelassem sua real intenção. Sobrevoando o prédio com os dizeres, L-Corp. Eu precisava ver o motivo para ela me enxergar. Eu ansiava a vingança daquela família que me abomina sem ao menos me conhecer.
A palavra Super sempre foi um bom motivo para a família Luthor.
Tornei-me paranoica com o saber, até perceber o real motivo.
Foi em uma manhã qualquer e tranquila. Estava impecavelmente no horário. Afinal, a super velocidade tem seus benefícios. Entrei contente por meu momento, sorrindo, cumprimentando, preparada para meus vários turnos. Foi então que vi pernas cruzadas e sorrisos floridos saindo da sala do novo editor chefe, James Olsen. Lena estava em uma conversa descontraída com meu novo chefe e amigo.
— O que está acontecendo? – Perguntei com minha curiosidade estranha ao Winn.
— Não faço a mínima ideia, mas ela está planejando algo. – Confesso que aquele pré-julgamento me fez enrijecer.
Ajeitei meu suéter bege, meus óculos pretos. Bati na porta de vidro – Sinto falta da Srta. Grant,- mostrei meu melhor sorriso gentil.
— Bom dia!
Ela se virou e o mundo se abriu, o resto foi esquecido. Sua abertura e invasão presentes como sempre.
— Kara! – Não sei se Jimmy ficou ofendido com a rejeição de ambas.
— Srta. Luthor – Seu sobrenome sempre me estremece.
— Lena, por favor. – Sorri e ajeitei meus óculos mais uma vez. Mania adquirida que entrega meu constrangimento.
Naquele dia, ela me convidou para tomar café da manhã. Foi delicado da parte dela, não posso negar. James aprovou minha fuga com recomendações de descobertas. Winn congelou com o passar e os trejeitos fortes da Luthor. Eu sorri pela preocupação de todos.
Recebi inúmeras recomendações de cuidados que acreditavam precisar. Eu acreditei precisar. Nós nos sentamos em um café delicado perto de prédio. Ofereci-me para fazer os pedidos. Foi quando aconteceu. Gritos, correrias, nada diferente do meu dia-a-dia, mas hoje...
“Lena”
Eu pude ver uma bola de fogo sair das mãos de uma mulher que creio nunca ter visto.
“Lena”
Volto a agradecer pela velocidade. Em um segundo eu estava à frente da CEO, ajoelhada a cobrindo com minha capa. Ali, naquele casulo vermelho, eu pude ver o pavor emanando de mim. E se eu não chegasse a tempo? O pensamento me fez congelar. A possibilidade da perda me rasgou. Meu peito agitado se dirigia a seu bem-estar.
Então eu entendi que existia importância. Considerava Lena alguém diferente, alguém único. Eu me importava, e isso não me trouxe alívio.
Ela me olhou, posso jurar que ouvi o silêncio em meio ao caos. Seus verdes nunca estiveram tão verdes. Esqueci meus segredos, esqueci a diferença entre Supergirl e Danvers. Eu era apenas Kara Zor-El, sem cortinas, sem recuos. Esqueci-me do universo em que estava. Todos os segundos do tempo eram vistos, os detalhes no instante eram tocados. Consegui ver os grãos que a envolviam por um sol claro. Vi sua mão mover e se aproximar. Lena estava vendo o que não deveria ver. Acordei do transe com seus dedos a centímetros de mim.
Tudo voltou, a confusão, os estilhaços, as pessoas desesperadas esperando um desfecho feliz. Senti uma onda de choque e a tal mulher cair estremecendo pela descarga elétrica. Minha irmã com seu exército encapuzado apareceu, não consigo deixar de pensar em meus amigos preocupados por minha companhia. Eu deveria imaginar que eles correriam para avisar os defensores do planeta.
Alex me olha assentindo. Minha deixa para sumir, para deixar a capa e vestir o bege. Voo fingindo uma partida. Apareço no caos como a ex-assistente. Lena ainda encara o céu a procura da heroína. Senti um desconforto com a cena. Todos sempre vão enxergar a Supergirl, isso nunca realmente me incomodou, mas ver a executiva com seus olhos brilhantes esperando um retorno me fez questionar até que ponto não me perturbo com o carinho direcionado à segunda parte de mim.
Naquela manhã, eu vi o brilho claro em seus olhos, vi sua mão tremer, vi o enrubescer de olhares cruzados. Lena não tinha medo de se mostrar e eu, bem, eu era a própria definição de segredo. Me senti confusa ao ver seu deslumbre pela super-heroína, vi seu semblante a chamar com admiração. Passei horas descobrindo e mais horas lamentando.
Por incrível que pareça, estava apavorada com a possibilidade de seu sorriso ser do meu eu distante. Eu passei noites pensando se algum dia alguém me enxergaria, veria a mulher que posso ser, a mulher que sou. A pessoa simples que gosta de chocolate quente e dias de ação de graça com a família.
Não quero delírios pelos olhos vestidos de cores. Quero delírios por olhos engarrafados por lentes.
Minha confusão mudou de trajeto. Antes, me sentia confusa pela proximidade da mulher com sobrenome pesado. Hoje, me sinto confusa pelo incomodo em procurar seus olhos nos meus.
Não posso negar que esse descontrole me afastou. Eu a evitei por medo de sentir o que já estava sentindo. Eu sumia de suas procuras e me escondia nas sombras da noite. Sobrevoava alimentando uma necessidade só minha. A via de longe fingindo que tudo aquilo não era nada demais. Fingindo que não estava apaixonada por uma Luthor. Fingindo que o meu impossível não estava batendo em meu peito
Quando exatamente isso aconteceu? Quando eu comecei a sentir falta dos seus sorrisos? Quando eu comecei a pensar e ansiar sua chegada? Qual foi o exato instante que me derreti com seu jeito encantador de inclinar ao falar meu nome?
Acho que deste a primeira vez. Desde sua chegada a National City. Desde minha visita investigativa. Naquele momento em que meu primo olhava suas expressões procurando a cumplicidade com a irmão, enquanto eu me desconcertava com sua invasão. Enquanto ela ignorava o homem de aço e mostrava interesse em minha timidez.
Desde que sorriu ao falar meu nome.
“Droga! ” Pensei quando entendi. Não foi divertido entender. Foi penoso e torturante. Me sentia sozinha enquanto gritavam: Supergirl! Me sentia sozinha ao me ver estampada nas capas de revistas e jornais. Minha felicidade foi partida e meu corpo dividido. Me alegrava por salvar vidas e me perdia ao não me sentir salva.
Carregar a segurança sempre foi o suficiente, até não me sentir segura em alguém.
Aceitei a solidão acompanhada enquanto sorria, acenava, salvava, lutava. Quando voava, eu subia, subia, subia até me sentir abraçada às nuvens e lá, lá eu sofria por não aceitar ceder uma impulsão, uma vontade e um desejo.
Kara se escondia, enquanto Supergirl sorria.
Exaustivo.
Em uma sexta-feira à noite, senti meu corpo se partir. Me lembro das correntes dolorosas passando por meu corpo inquebrável. Vilões não me feriam com suas armas. Lena me esmagou com frases simples.
Meu trabalho secreto, noturno ou não, me intimou a comparecer a um evento. Uma apresentação para ser mais especifica. Seria uma noite comum, em um dia comum se não fosse um evento da corporação Luthor, apresentada por Lena Luthor.
Seu nome foi anunciado e eu precisei de todo o controle do mundo para não tremer. Os holofotes seguindo seus passos. O terno, o cabelo, os olhos, o sorriso. Senti o ranger dos dentes pela raiva. Sentia raiva por sentir. Sentia impotência por não conseguir.
Ela discursou como uma verdadeira CEO, competente, segura, decidida. Tudo que eu não era. Tudo que eu fingia ser. Lena me viu e sorriu. Seria tão fácil fugir, voar, correr.
Tão fácil.
Ela desfilava em minha direção com aquele velho sorriso aberto, com aquela segurança apenas dela. Desfilava sem medo dos olhares questionadores, e eram muitos. Senti o cheiro conhecido. Poderia sentir a quilômetros de distância.
E disse as frases que quebraram a mulher indestrutível.
— Supergirl! Que bom que veio. – Aquele maldito sorriso.
— Preciso assegurar que ficará bem.
— Eu agradeço por isso. Desculpe ser tão direta. – Cruzei os braços dando minha atenção que sempre fora dela. – Eu sei que é amiga da Kara. Você sabe dela? Ela não retorna minhas ligações, visitei a CatCo e não a encontrei. Ela sumiu.
Lena Luthor não ajudava meu esquecimento.
— Eu...Eu... – Me senti tão estarrecida e afogada que palavras não se formaram. – Eu tentarei encontrá-la.
Foi o máximo que consegui responder.
— Obrigada! Te agradeço por isso e por estar aqui.
Lena se despediu me deixando mergulhada em mais questões. Deixando-me debruçada em um precipício que implorava pela queda. Eu queria me jogar, mas temia o impacto da chegada. Temia a decepção do engano. Temia o terror da impossibilidade.
Impossível. Essa palavra me consumia cada dia mais.
Uma El e uma Luthor.
Não!
Não!
Admitir o sentimento, não o torna palpável. Eu entendi essa frase pelos labirintos que me perdi.
Os dias se passaram e a procura dela por Kara me cedia aos poucos. Minhas certezas não eram tão certas. Minhas convicções perderam o tom e as possibilidades começaram a crepitar em meu peito.
Chances.
Opções.
Fantasias.
Sim.
Não!
Quebrei a barreira do som em uma fuga desesperada.
Sim!
Droga!
Sim!
O sim foi escancarado em uma noite calma. Eu estava comendo pipoca e ouvindo o encantamento de Alex por uma certa detetive. Era encantador ver sua empolgação ao falar de Maggie. Eu queria que Alex soubesse e conhecesse minha própria empolgação.
Batidas foram ouvidas e por inocência, ingenuidade ou despreocupação, não questionei o teor de uma silhueta, não transpassei a porta com minha visão a procura da imagem responsável por interromper minha irmã. Levantei para abrir a segunda garrafa de vinho, sorrindo por tudo que a noite representava.
Alex abriu a porta enquanto declamava o poema vivo chamado Sawyer. Nossa percepção estava perdida pela felicidade compartilhada. Estávamos dispersas pelas gargalhadas satisfeitas. Cada sorriso sumiu. Alex se engasgou e eu congelei.
Lena Luthor, Ceo da L-Corp, irmã de Lex Luthor estava no nosso apartamento tarde da noite, procurando sem lá o que. Milésimos de segundo se passaram e a surpresa deu lugar a preocupação.
Esperei a notícia alarmante, aquela que me faria voar e derrotar o que a estivesse incomodando. Preparei minha saída e ouvi.
— A Kara está?
Eu saí do esconderijo da cozinha procurando traços de problemas escondidos em palavras comuns. Então ela me olhou e sorriu.
Como explicar a explosão?
Senti meu corpo flutuar enquanto pisava no chão amadeirado. Vi o céu brilhar em plena noite. Senti a correnteza me abraçar. Senti o vulcão me acalmar e a tempestade falar ao meu ouvido. Senti o instante na pele. Senti o dia se mover e o mundo acabar.
Naquele momento, eu esqueci a razão. Não sei o quanto foi visto. A porta dividia nossas dimensões. Vi o alívio pela minha segurança por um suspiro longo. Um respirar que revelou todas as horas em busca de explicação para o meu sumiço.
Srta. Luthor esperou até o último instante. Meu apartamento foi a alternativa mais absurda de todas as centenas de ideias e probabilidades de encontro. Ela cansou de esperar uma chegada e buscou seu próprio fim. Caminhou até sua resposta em um prédio suburbano.
— Existe algum motivo para me evitar, Kara? – Fui sugada do meu segundo.
— Não, claro que não. Não estou te evitando. – Minto.
— Sim, você está. Como eu te considero minha única amiga na cidade, quero me retratar por qualquer desconforto que tenha lhe causado. – Amiga...Novamente a dor que só ela me causa. – Qualquer coisa que justifique o sumiço.
— Não é nada, Srta. Luthor. Só muito trabalho na revista.
Ela odeia quando a chamo de Srta. Luthor.
— Então me deixe te levar para um jantar, Srta. Danvers. Assim posso compensar qualquer questão.
“Sim, ela me chamou para jantar. ”
Eu não conseguia responder. Me senti sufocada no suéter listrado. Meus óculos pesaram e minha fala sumiu.
“Ela me chamou mesmo para jantar.”
Eu não podia responder essa pergunta, não lembrava meu lugar. Eu estava vagando por mundos procurando lugar para apoiar. Minha respiração parou.
— Ela vai! Kara está um pouco...dispersa pela correria do trabalho. – Alex me salva ou me afunda mais. Ainda estou na dúvida.
— Então posso mandar te buscar às 19hs?
— Claro. – Eu ainda não sei o porquê de eu ter aceitado. Estava cega pela visita, por ser ela.
— Até amanhã, Kara. Boa noite, Alex. Foi bom te ver. – Lena nunca teve medo.
Eu estava imóvel, petrificada, assustada, radiante. Estava misturada em minhas páginas em branco. A humanidade percorria as ruas do meu corpo e eu não sabia o que fazer.
— Lena Luthor? Você está apaixonada pela Lena Luthor? De todas as pessoas nessa cidade, você precisava se apaixonar por uma Luthor?
“O que?”
— Não! Claro que não! – Franzi a testa, bufei e sorri. Não sei mentir.
— O Clark vai enlouquecer.
— Alex!
Minha irmã virou a taça de vinho bebendo a credulidade. Ela andava pelo apartamento procurando explicação nos cantos limpos. Eu a observava digerir sua percepção. Ela me olhava sorria, negava. Eu apenas esperava seu momento.
— Kara, o J’onn vai ficar louco. Ele vai achar que ela te seduziu ou algo assim, vai achar que Lena descobriu que é a Supergirl, e quer te destruir por dentro. – Sua ansiedade a cegava para as palavras cuspidas. Não percebia as feridas que abria por cada letra.
Andava passando a mão nos cabelos quase desesperada.
— Lena não pode me enxergar? Ela não pode ter visto a Kara? Precisa ser pela Supergirl, Alex?
Eu estava cansada de justificarem olhares usando a capa vermelha e o brasão. Ela para, se vira devagar, inclina a cabeça estreitando os olhos. Ela enxerga o que tanto me atormenta nos meses que escondi e neguei.
— Você acha que eu concordaria se não tivesse visto algo? Eu nunca vou deixar que lhe façam mal. Se eu tivesse visto qualquer traço de manipulação, eu a teria expulsado daqui. – Alex pega minha mão. – Eu vi, Kara. Vi nos olhos dela o que vi nos seus.
Eu não sei o que tem nos meus olhos.
— Ela é uma Luthor, Alex. – Olho o chão procurando meu buraco acolhedor.
— Ela é uma mulher maravilhosa que te olha como se nada mais existisse. Não importa o nome dela, não importa quem é sua família.
Lembro da pressão ao me soltar da gaiola que me aprisionei. Lembro de desmoronar nos braços da minha família. Lembro de puxar o ar com força tentando acreditar no apoio que pensei nunca ter. Lembro de sentir mãos acarinharem meus cabelos dizendo “Estou aqui”. Lembro da aceitação escorrer pelo meu rosto em forma de lágrimas.
Eu chorei por conseguir arrebentar as cordas do Não.
Eu me senti voar entre frases que me negava enxergar e esse foi meu melhor voo.
Naquela noite, jogada nos braços da minha irmã, chorando como uma criança amedrontada. Eu me senti livre. Adormeci com o rosto inchado de Sim.
O dia seguinte foi diferente, eu trabalhei com sorrisos verdadeiros, não aqueles que mostramos para evitar perguntas. Eu sorria por me sentir viva. A conversa com Alex me desabrochou, me preencheu e me esvaziou. Não me irritei por assaltos, gritos, fumaça ou chefes implicantes. Atendi cada chamado importante ou não com um prazer ímpar.
Olhava o relógio com uma frequência desnecessária. Estava nervosa e ansiosa por um encontro que criei em minha mente. Eu não queria chamar de encontro um jantar de desculpas inexistentes, mas gostava da forma que soava.
Eu tenho um encontro. Tenho um encontro com ela.
O quão impossível isso pode ser?
Aproveitei a lentidão do tempo. Observei o passar teimoso. Me aprontei com aquela antecedência adolescente. Deixei minhas dúvidas na gaveta e esperei.
Eu estava animada.
O apartamento se abre mostrando Alex com suas sacolas de compras e sua paixão ao lado.
Eu gosto da Maggie. Ela faz minha irmã sorrir em olhos brilhantes e isso já me basta. Cumprimento nervosa, a detetive me olhava procurando explicações para meus trajes inusitados.
Não me apego a qualquer coisa que Alex possa ter dito. Estou perdida nos vários caminhos que criei para o desfecho. Não nego a falta que senti de nossas poucas conversas comuns. Falávamos de nossas rotinas mecânica e isso me fazia esquecer das responsabilidades que tanto amo.
Lena me fazia esquecer a segunda pele. Trazia a minha humanidade à tona e eu não importava. Nossas conversas miúdas eram enormes.
Ouvimos batidas na porta, abaixo meus óculos com a discrição ensaiada. Um homem com terno elegante espera ser atendido. Eu estou feliz e ansiosa. Alex me abraça, sorri e diz que ficará tudo bem.
As vezes só precisamos de frases, abraços e calor. Nada mais.
Entro em uma limusine chique e observo as luzes da cidade que prometi proteger. Hoje não estou sobrevoando em busca de confusões. Hoje estou buscando minhas próprias resoluções
O carro atravessa o portão intimidador, passa por um jardim florido, impecável, verde, iluminado demais para o horário. Ele para na porta de uma mansão clara, minha respiração de agita.
Assim que saio do carro gigante, agradeço tímida, a porta da casa se abre e vejo o sorriso. Ela sempre sorri ao me ver. Ao ver meus olhos constrangidos e meu rosto vermelho. Não consigo sustentar aquela abertura, nunca consegui.
— Kara!
Tenho medo de errar toda a transparência que vejo. Tenho medo de me esconder demais. Tenho medo de me mostrar demais.
Eu não pretendo explanar cada detalhe daquela noite que guardo com carinho no lugar mais claro da minha mente, posso explicar como foi glorioso observa-la cozinhar, algo que não esperava ou imaginava em muitos sonhos, mas posso falar sobre Lena gargalhando e meu peito se contraindo pelo desespero. Eu conseguia distinguir sua animação por me ver ali, em sua sala, sentada em um sofá escuro. Posso falar sobre os longos minutos de silêncio em que ela me olhou sem desviar a atenção um segundo sequer, posso falar das várias vezes que cortei sua admiração por vergonha ou medo de me mostrar demais.
Dobrei minhas esquinas procurando o entendimento em mim.
Posso passar dias contando a mesma história em lembranças e perspectivas diferentes, mas um detalhe não muda.
As horas voaram e a necessidade de partir nos entristeceu. Estávamos mergulhadas em histórias antigas. Eu adorava cada jogada de cabelo que me enrubescia. Sorria distraída de qualquer medo que me assolou por tempos. Ajeitava os óculos e tenho certeza que ela via a vergonha que sentia das suas diretas.
Olhei meu relógio no pulso não vendo qualquer hora. Finji com uma dica da partida. Me levantei e ela não parou de olhar. Me encarava procurando, mostrando.
— Por que se afastou, Kara? – Lena não guarda perguntas, ela joga sem medo da réplica. Ela mostra seus pensamentos sem pudor ou consequência.
— Eu andei muito ocupada com o trabalho, e... – Ela levanta e chega perto demais. Prendo a respiração pelos poucos centímetros.
— Não minta pra mim. – Sua voz era doce. Srta. Luthor não exige uma resposta, apenas implora uma verdade que não posso soltar. Mais um passo foi dado e eu esqueci os motivos de estarmos nos olhando. Ela tira alguns fios de cabelo do meu rosto, analisando meus tremores. – Por que eu vejo tanto medo em você?
Perto demais.
— Eu tenho medo de me enganar. – Eu não sei o porquê dessa sinceridade ter saído de mim. Não sei se por sua proximidade, seu perfume, seus olhos ou seu desejo de ouvir.
— Você não vai.
Sua certeza em sussurros verdes me tirou do ar. Meus pés não moveram os centímetros que deveriam mover. Eu não evitei, corri, impedi. Eu apenas parei de pensar nos vários amanhãs. Cansei de criar desculpas para cada palpitação. Rasguei meus disfarces e me tornei Kara. Esqueci de qualquer planeta, esqueci da intrusa que sinto ser. Esqueci as dúvidas e os questionamentos. Cansei de ser menos que sou. Naquele segundo, eu me via de verdade nos olhos verdes que tanto entregavam.
Acredito que Lena tenha visto toda essa claridade. Ela sorriu aliviada por ver minhas cortinas caírem, tocou meu rosto e me beijou.
Eu queria flutuar, eu me sentia flutuar, eu podia flutuar. Srta. Luthor mostrou um estado que não conhecia, mostrou a realização da calmaria agitada, aquela vontade crescente. O tocar na linha que sonhamos uma vida, mas escondemos ou não tentamos por medo de não alcançar.
Sentia o tempo nos envolver, nos abraçar. Sentia a palavra impossível ser quebrada, esse foi meu melhor som.
Ela me soltou e meus olhos ainda estavam fechados, não por medo de enxergar qualquer arrependimento, eu só queria continuar a absorver minhas partes. Senti sua mão em meu rosto. Então percebo que eu a segurei todo o tempo. Não queria soltá-la.
Difícil descrever seus olhos verdes gritando para mim. Difícil descrever sua respiração ansiosa, seus suspiros pausados e seu leve sorriso admirado. Ela via todos os meus esconderijos. Encontrava minhas sombras em qualquer fenda, abstraia minha timidez.
Lena Luthor me tinha completa.
Não sei ao certo quanto demorou para perceber o mundo, para meu constrangimento constante voltar e entender o que permiti acontecer. Ajeitei os óculos olhando um quadro qualquer na parede. Eu ouvi seu sorriso, uma parte de mim parou.
— Nos vemos depois? – Ela perguntou percebendo minha necessidade em fugir. Lena não só me enxerga, ela repara, conhece minhas saídas e entende cada uma delas.
— Nos vemos depois. Boa noite, Lena.
— Boa noite, Kara.
Foi uma noite de encontros. Eu encontrei a mim, acreditei que posso ter mais e ser mais. Voltei encantada com os novos sabores, com o sorriso encravado. Tudo pareceu belo, mais belo. Vi as estrelas da noite de maneira nova. Hoje eu entendia o significado dos arrepios de felicidade.
Começamos a nos encontrar com uma frequência quase alarmante. Sentia-me bem com nossas horas. Depois de cada encontro, eu fugia para meu refúgio entre as nuvens, fechava os olhos e sentia o sol quente me tocar, sentia a respiração fluir por uma soltura evitada. Olhava o horizonte e sorria mais, apenas sorria. Rasgava o ar gritando pela realização.
Eu gritava.
Lena me viu como Supergirl algumas vezes, mas seus sorrisos nunca tiveram a verdade encantada. Seus olhos estavam lá, repleto de admiração. Sua admiração era por uma imagem, por uma super-heroína. Pra Kara, seus olhos admirados vinham com a vontade de uma companhia, pelo desejo de estar, e apenas estar. Aprendi a diferenciar seus olhos carregados.
Por várias vezes, senti sua porta se escancarar e seus segredos adentrarem sem chance para voltas. Ela contou cada assunto obscuro, contou seus medos, seus receios, sua caixa preta. Suas relações, suas vontades e como era olhar para mim. Lena era o abismo que eu adorava me jogar.
Tudo desmoronou em uma noite no seu escritório. Conversávamos as banalidades convencionais, descobrindo características nos detalhes escondidos. Nos mostramos em assuntos bobos demais para quem não sabe escutar, só é preciso entender e nos entendíamos.
Ela parou em frente à sua estante, estava procurando uma foto de infância e sorrindo pela falsa vergonha. Escutei o baque forte, vi a poeira subir e a parede se inclinar em câmera lenta. Não pensei, era ela, eu só via ela. Meus óculos tapados pela poeira, meu corpo pequeno, esguio, comum, vestido por um suéter listrado. Meus cabelos presos, agora desgrenhados, meus braços finos erguidos segurando uma parede sobre cabeça. Repórter, aspirante de repórter, assistente ou ex-assistente, não deveria fazer isso, não deveria chegar em milésimos, não deveria erguer paredes como espuma grossa, não deveria mentir ou esconder. Lena no chão, esperava o desabar das peças de concreto.
Estava agachada trêmula com o fim certo. Percebeu o ar sujo entrar em seus pulmões e a vida se mostrar, ergueu os olhos esperando o azul e vermelho, ela encontrou o listrado. A admiração foi afogada e em seus olhos só haviam espanto e decepção.
Ela viu.
Eu vi.
Outro baque, outra parede. Eu não podia pensar nas consequências da revelação desastrada. Prefiro seus olhos vivos e afogados, que límpidos e apagados. A tirei do prédio em meio segundo, eu sei exatamente quanto durou, eu podia contar o tempo que me olhou de forma escura. Toda dor estava lenta demais para meu tempo.
Quando a soltei, vi seus quatro passos recuados. Cada um me feriu de forma nova. Ouvia os destroços de um prédio e as rachaduras do seu peito. Meu desejo em leva-la para casa, tentaram rasgar meu uniforme escondido.
Eu tenho responsabilidades e vidas.
Respirei fundo sentindo as rajadas da decisão.
— Eu preciso ir. – Eu disse e ela sabia que eu era a mulher pronta para salvar o dia.
Sempre seria.
Ela assentiu, se virou e foi embora, rendida pelo fracasso.
Minha vida se resumia em me esconder e salvar, em sorrir e chorar. A cidade precisava de mim e eu precisa do sorriso que me cegava, eu precisava das horas que tiravam qualquer incomodo, e todas eram com ela. Eu vi a pessoa que me transformou em dias coloridos, caminhar para o canto cinza de mim. Foi a última vez que trocamos olhares. Minha última lembrança é cheia de decepção e desapontamento. Eu a vi de longe por várias vezes. Eu ainda protegia a irmã de Lex Luthor, a mulher que me descobriu, que viu a singularidade em meio ao plural.
Em cada tentativa, em cada ataque, eu estava lá. Não haviam mais olhos ou sorrisos. Ela agradecia a Supergirl e me ignorava. Nunca discutimos ou debatemos o assunto, ela apenas se afastou e eu podia ver a magoa pelo segredo que era meu, podia ver a falta de reciprocidade. Ela se abriu em todas as páginas e eu me tranquei. Não sei se é justo ou não sua falta de entendimento em meus motivos, isso não importa, o que importa é a falta que sinto de sua pele.
Hoje eu decidi sair da inercia que me coloquei. Estou olhando a porta do seu escritório, — eu mesma ajudei a reconstruir — criando coragem para tentar. Preciso tentar. Respiro fundo.
Uma...Duas..três vezes.
Bato e abro a porta.
Depois de mais tempo que o necessário, vejo seus olhos surpresos e assustados. Ela não espera, nem eu. Faço o que poucos já viram, tiro meus óculos e a encaro com certeza.
— O que você... – Eu não podia deixar ela terminar.
— Eu sou Kara Zor-El. Filha de Zor-El e Alura. Na terra me chamam Supergirl, meus pais adotivos me chamam de Kara Danvers. Eu sei que escondi esse...detalhe de você, mas estar apaixonada por uma Luthor não é algo comum para um El. – Tento sorrir com o constrangimento que só eu tenho. – Eu não podia deixar de vir, eu só preciso te ver, te contar e te pedir para me entender.
Ela levanta com sua expressão impassível. Aquela que nunca vi. Sinto falta dos seus sorrisos. Eu espero seus passos lentos em minha direção e sua atitude. Tenho medo de ser enxotada por suas palavras.
Ela está cada vez mais perto e esse caminhar dura uma eternidade preso em segundos.
Perto demais.
— É um prazer te conhecer Kara Zor-El. — Ela sorri e me desfaz. Toca meu rosto. Céus! Como eu desejei esse calor. – Senti sua falta.
A terra me trouxe tudo. Família, amigos, trabalho, objetivos, descobertas, reconstruções e a mulher que amo.
A terra me trouxe o impossível.
Lena Luthor é meu impossível.
Notas finais
Até a próxima.
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