Meu Estranho Mafioso
46 Trinta e oito.
CRUZEI MINHAS PERNAS, virando-me para o outro lado. O Fairy Latte estava lotado, decorrente do fim das férias. Soltei um mínimo gemido só de lembrar que em breve as aulas voltariam. Embora Fairy Tail não fosse uma escola tão normal... Que tipos de eventos será que teremos nestes novos bimestres?
Suspirei.
Fim das férias, hein? Meu aniversário estava próximo...
— Desculpe a demora. — Murmurou Rogue, puxando a cadeira à minha frente e sentando-se. Ele trajava uma camiseta simples preta de mangas longas e calças jeans da mesma cor. Trazia nos braços uma pasta fina e seu cabelo estava um pouco bagunçado.
— Tudo bem. — Balbuciei lançando-lhe um sorriso. Ele apenas desviou o olhar para o menu que havia acabado de abrir. Que estranho... Rogue sempre é tão atencioso comigo e sempre retribuía meus sorrisos...
— Já pediu alguma coisa? — Indagou.
— Não, só estava lhe esperando chegar para pedir. — Novamente sorri, esperando ele fazer o mesmo gesto.
— Oh, vejo.
Fechei a cara. “Oh, vejo?” Rogue estava magoado com alguma coisa.
— Aconteceu algo de errado?
— O parfait daqui é bom? — Desviou de assunto.
— É incrível. — Disse. — Rogue, seria impressão minha ou está tentando se manter mais distante de mim?
— O quê? — Finalmente olhou em meu rosto. — Por que pensa isso?
— Desde que chegou mal olhou para mim! — Bufei, exasperada.
— Está imaginando coisas. — Voltou a atenção para o cardápio.
Estou? Não parece. Nem um pouco.
— Já se decidiram? — Indagou um dos garçons, postando-se ao lado de nossa mesa.
— Hã... — Olhei para ele, sendo pega de surpresa. — Gajeel?! O que você...
— Minha missão é vigiar a baixinha e mantê-la a salvo. — Especificou sem rodeios. — Entretanto não tenho dinheiro suficiente para vir aqui todo dia. Então acabei por aceitar um emprego aqui.
— Entendo...
— Já se decidiram? — Repetiu.
— Hã... — Lancei o olhar para as milhares de opções. — Ainda não...
— Vou querer parfait de chocolate — cortou Rogue —, e ela... um sundae de morango está bom?
— Eh? Ah! Claro! — Respondi às pressas.
— Entendido. — O moreno rabiscou de qualquer jeito em seu caderninho. — O pedido de vocês irá ser providenciado. Esperem! — Tosnou. Bom... ele estava sendo muito educado e certinho mesmo. Estava estranho.
— Então ele está cuidando da Levy. — Balbuciou Rogue.
— Me pergunto como será que vão as coisas entre eles. A Levy costuma não falar muito bem dele. — Confessei.
— Hum...
— Voltando a falar de você, Rogue... — Retomei.
— De mim?
— Sim. O que aconteceu?
— Por que tem que ter acontecido algo?
— Porque o Rogue Cheney que conheço não seria tão evasivo assim.
Suspirou.
— Como pôde? — Perguntou.
— O quê?
— Como pôde me fazer uma perguntas dessas, Lucy? Será que não está óbvio o que ocorreu?
— Eu não... — Comecei, confusa.
— Não entendeu? — Pela primeira vez o vi exasperado. — Simplesmente a garota que amo me trocou por outro cara, Lucy. E não somente isso. O cara é um babaca estúpido.
A compreensão me tomou. A culpa também.
— Natsu não é...
— É. É sim. — Interrompeu meu argumento. — Natsu é um babaca estúpido porque, além de deixar lhe estuprarem — sussurrou essa palavra —, não fez nada com o imbecil. Porque ele aparentemente não consegue lhe proteger como deveria. Porque ele quase lhe matou.
— Como você sabe de tudo isso? — Parecia que meu sangue havia congelado nas veias.
— Levy. — Admitiu. — O que mais me irrita nisso tudo, é que o escolheu. Esse cara que atraiu tantas coisas ruins para você, ao invés de mim.
— Rogue...
— Desculpe, acho que me deixei levar. — Respirou fundo. — Me desculpe, Lucy. Eu que fui um babaca por fazer você lembrar dessas coisas.
— Seu pedido. — Anunciou uma garota qualquer, depositando o que pedimos anteriormente.
— Obrigado. — Ele lançou um sorriso envergonhado para a garota, cujas bochechas coraram instantaneamente. Que atirada! Não, Lucy, para! Ele agora é seu ex!
— A culpa é minha. — Disse quando a garota se foi.
— O quê?
— Desculpe se lhe fiz pensar nesses tipos de coisas. — Sussurrei. — Na verdade, eu sou a cretina por fazer você sofrer.
— Lucy, não quero que pense... — Segurou minhas mãos.
— Tudo bem. — Interrompi-o. — Sinto muito por tê-lo feito sofrer. — Senti meus cílios pinicarem. Ótimo, agora eu ia chorar. Que ótimo! — Entretanto não posso, simplesmente não posso, deixar de gostar de Natsu. Ele é...
—... O verão de sua vida. — Completou para mim e sorri.
— É... Eu te amo, Rogue. Muito, muito mesmo, porém de uma maneira muito diferente do que imaginei, amo o Natsu. É como se não fosse ter paz caso não o tivesse ao meu lado. O que é irônico, porque quando ele está presente, é tudo tão barulhento... — Funguei. — Desculpe, não deveria estar lhe falando dele...
— Acho que devemos comemorar.
— Hein?
— Você achou alguém que a faz se sentir viva. Ora, não posso deixar de ter ciúmes. — Confessou. — Contudo, o que disse agora, me deu certeza de que ele pode tentar, de todas as maneira, fazê-la feliz. — Limpou uma lágrima que escorria por minha bochecha. — E, por enquanto, isso está bom. Não se preocupe, vou omitir esse acidente que começa com “e” do relatório que enviarei para seu pai.
— Relatório?
— Como você não manda notícias...
— Oh céus! Ele lhe mandou mesmo para me espionar!
— Acho que fez uma péssima escolha, porque — chegou mais perto e sussurrou — não me importo de ser um espião duplo, se for por você.
— Oh, Rogue! — Abracei-o por cima da mesa.
— Não faça isso. — Afastou-me rapidamente. — Meu coração não poderá suportar se for tão carinhosa comigo. Tem noção de como ele está só por causa desse abraço?
— Descul...
— Não peça desculpa. Não é como se não gostasse. — Sorriu de canto. — Vamos comer?
Acenei com a cabeça e começamos a degustar as sobremesas deliciosas do Fairy Latte.
— Agora que pensei nisso... — Começou ele, depois de algum tempo. Já havíamos saído do FL e agora caminhávamos juntos pela rua tumultuada. — Seu aniversário está chegando. Animada para semana que vem?
— Animada, hein? — Arrumei meu cachecol. — Hum... Um pouco, talvez?
— Por que não estaria animada? É seu aniversário! Deveríamos comprar seu presente agora?
— Como? Ro-Rogue! Não precisa!
— Como não? Eu insisto! Façamos disso um recomeço, que tal?
— Recomeço? — Balbuciei confusa.
Ele soltou um sorriso convalescente.
— Não acho que poderei vê-la de uma forma não-romântica ainda. Então... vamos recomeçar? Desta vez, somente como amigos, sim?
— Sabe que em momento algum quis lhe machucar e...
— Eu sei. E isso é mais doloroso ainda. — Admitiu. — Vamos comprar seu presente juntos, okay? Esse será nosso marco final como amantes. E também será o inicial como amigos.
— Rogue... — Senti um nó na garganta, porém tratei de engoli-lo. — Sim, vamos fazer isso, amigo.
Passamos a tarde inteira passeando pelas lojas de Magnolia. E devo acrescentar que o Rogue foi um anjo para mim! Contei sobre o incêndio e que perdi todas as minhas roupas e ele disse que meu pai havia mandado uma verba — que ficaria sob o controle dele — para cobrir qualquer coisa que acontecesse. Ou seja: roupas novas! E só minhas!
Ah... Tinha cada conjunto lindo que comprei. E nada supera a face corada do moreno quando paramos nas lojas de lingerie! Sinceramente... está certo que, no conceito “sexo”, Natsu havia se adiantado. Pois é, Rogue e eu nunca transamos. Estávamos dispostos a fazer isso depois que voltasse de Magnolia.
Irônico minha primeira vez nesse tipo de atividade íntima ter sido com o... Sting — por falar no dito cujo, lembro-me claramente de tê-lo visto no aeroporto... Será que Natsu sabia que ele estava de volta?
Saí da cabine de prova já devidamente vestida com minhas roupas e entreguei o conjunto que provara para a atendente, pedindo para empacotá-lo junto aos outros.
— Já terminei por aqui. — Avisei-o. Rogue mexia no celular.
— Ah! Aproveite e prove um biquíni. — Disse.
— Por quê?
— Levy mandou uma mensagem há pouco. Disse que você precisaria para as aulas de natação da escola, ou algo assim. — Digitou mais algumas coisas no celular.
— Temos aulas de natação na Fairy Tail?
— Você que estuda lá, por que está perguntando para mim?
— Ah! É mesmo. — Fiquei meio sem graça. Talvez tivessem sim essas aulas. Não estava por dentro de tudo na FT ainda.
— Antes de ir provar um biquíni, poderia segurar minhas coisas? Preciso muito ir ao banheiro!
— Claro. — Segurei a pasta e o celular que entregou-me.
Observei-o afastar-se. O que ele tanto digitava ali?
Lancei meu olhar para a porta do banheiro masculino...
Ah, ele não ia se importar tanto. Acendi a tela e pam! Tinha uma porcaria de senha! Entretanto, veja bem... não era difícil de adivinhar. Desenhei um grande “L” na tela.
Nada.
Okay... Éramos apenas amigos agora, é claro que não seria mais eu a senha do celular. E se não sou eu...
Desenhei um “F”.
A tela mudou rapidamente para a caixa de mensagens, onde havia a mensagem inacabada que ele estava digitando. Dei uma espiadela em direção ao banheiro. Nada dele.
“Jude, não precisa se preocupar.”; começava.
“Lucy está bem. Já estou informado de tudo o que aconteceu nesse meio tempo em que não obtivemos notícias. Ela está atualmente no fim das férias. Fez diversos amigos e tenho que admitir que não poderia estar mais segura.” — consegui sentir a ironia dele — “Ou seja, em um todo, não há nada para se preocupar. O motivo de não ter conseguido contatar Tara é porque a pensão pegou fogo. Entretanto, Lucy conseguiu se acomodar na casa de uma amiga e já comprei um apartamento para ela e Levy.
Quando tiver novidades, envia...”
A mensagem acabava aí.
— Obrigado por esperar. — Agradeceu Rogue, que vinha caminhando em minha direção. Imediatamente apertei o botão de desligar a tela.
— Não foi nada — sorri —, e aqui está. — Entreguei-lhe o celular. — Agora, tenho um biquíni para experimentar!
No final acabei escolhendo um conjunto vermelho bem simples. Foi um pouco difícil achar uma parte superior do tamanho certo, porém achamos algo perto disso. E então decidimos encerrar as compras por ali.
— Sei que ainda quer morar com o Dragneel, mas preciso mesmo que saia daquele local. Tanto você quanto Levy. — Começou.
— Eu entendo. — Disse após um suspiro. — Não gostaria que mentisse tanto para meu pai também. Li a mensagem. — Confessei, parando de andar e lhe encarando.
— É, eu tenho certeza que viu, Srta. Curiosidade.
— Obrigada, Rogue.
— Me sinto mal fazendo isso. Seu pai tem plena confiança em mim.
— E eu também. Sei o quanto deve ter sido difícil mandá-la, por isso sou ainda mais grata.
Chegamos ao ponto de táxi.
— Esse é o endereço do apartamento que consegui para você e Levy. As contas já estão acertadas. — Ele abriu a porta do táxi que parou à nossa frente. — Vai ficar bem mesmo?
— Sim. Já conversei com Natsu. Ele nos levará até o apartamento e ajudará com o que for preciso. Desculpe incomodá-lo tanto.
— Para você tudo. — Sorriu e aproximou-se, depositando um beijo em minha bochecha. Senti minha pele pinicar com aquele toque tão íntimo. — Obrigado, Lucy. Por concordar em ser minha amiga. Por concordar em recomeçarmos. — Respirou fundo. — Nos vemos uma hora dessas, amiga.
Apenas acenei e o vi entrar no automóvel.
— Rogue... — Senti meus cílios pinicarem e deixei uma lágrima rolar por meu rosto. — Obrigada à você, por ter sido meu primeiro amor.
A partir de agora, imagino que tudo vá ser diferente. Pelo menos era o que pensava enquanto ligava para Natsu. Não há mais obstáculos, não há mais contradições. Agora não era mais um acordo para enganar o Igneel, nem algo cedido pelo físico.
Eu sei. Podia sentir.
Agora realmente era a namorada de um mafioso.
Esse era meu recomeço. Esse era meu futuro.
E eu não podia estar mais feliz por ele ser junto à Natsu.
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