— VOCÊ PARECE UM animal com medo. Seus pelos estão todos eriçados. — Disse Gray, enquanto estávamos na avenida de Magnolia, já em segurança. Mantinha meu olhar no horizonte, repassando as cenas assustadoras de agora há pouco.

Natsu... quase me matou. Tinha como não estar assustada?

— Gray... — Balbuciei, virando meu olhar em sua direção. — O Natsu... ele... por pouco não me...

— Sim, eu sei. — Murmurou mudando a marcha e desviando o caminho entrando em um atalho desconhecido por mim. — Sabia que isso ia acontecer. Desculpe.

— Por que está se desculpando? — Indaguei lentamente.

Soltou um sorriso triste e irônico.

— Por não conseguir impedi-lo antes.

— Você não tinha como saber. — Balbuciei.

— Tinha sim. — O sorriso sumiu de sua face.

— Como?

Soltou um longo suspiro antes de acrescentar:

— Não é a primeira vez que acontece.

— Não é... a primeira vez que isso acontece? — Arregalei os olhos totalmente surpresa e chocada.

Virou em uma curva muito perigosa com muito cuidado antes de prosseguir:

— Aquele idiota vive perdendo a razão assim que pega uma arma. Acho que isso... remete ao irmão dele.

— Natsu tem um outro irmão? — Embasbaquei-me.

— Tinha. — Corrigiu.

— “Tinha”?! Então ele...

— Foi assassinado quando criança. — Seu semblante mudou para algo incomodado.

Levei minhas mãos à boca, completamente horrorizada.

— Isso é...

— Eu sei — Concordou. — Foi terrível e na frente do Natsu. Eles eram gêmeos e viviam juntos.

— Gêmeos?— Tentei imaginar dois Natsu's... — Soa engraçado.

— O Natsu era o mais novo. Naquela época vivia animado.

— Igneel-san disse algo assim. — Lembrei-me de quando o rosado conversou comigo no corredor da mansão. — Que Natsu havia perdido a vivacidade.

— Foi depois da morte do irmão dele. Não entrarei em mais detalhes.

Percebi o que ele havia feito e sorri.

— Obrigada, Gray.

— Pelo quê? — Perguntou confuso.

— Você fez de propósito, não? Me distraiu do que o Natsu fez. Obrigada.

Corou levemente, mantendo a atenção na estrada de terra.

— Não sei do que está falando.

Sorri, observando o local a nossa volta.

— Para onde está me levando? — Indaguei, olhando as árvores que iam se alternando e aparecendo cada vez em maior escala.

— Lucy, você vai conhecer a avó de Natsu.

— Quem? Poluchka?

— Já a conhece?

— Não... Aries já me contou sobre ela.

— Hum... De qualquer forma, temos que dar um jeito no seu braço. Ela é a melhor escolha que temos.

— Por quê?

— Ela é a melhor médica que conhecemos. Ganhou até um prêmio não lembro do quê.

— E ela terá tempo para dar uma olhada em meu braço?! Se ela é tão boa deve ser realmente ocupada...

Ele riu.

— Nããão. Ela odeia humanos.

— ... O quê?

— Eu sei que soa estranho. Acho que é por isso que ela e Makarov vivem separados atualmente. Ele adora pessoas e companhia e ela, não. Completos opostos. No entanto, acho que é isso que os faz ficarem tão bem juntos. Apesar de tudo, eles são bem unidos.

— Mas... se ela é uma médica, obviamente ela deveria gostar de pessoas, certo?

Deu de ombros.

— Boatos dizem que ela gostaria de ser uma veterinária.

Calei-me durante o resto do caminho, só voltando a proferir algo quando chegamos a uma espaçosa clareira rodeada por pedras e rochedos, com uma grande árvore no meio e diversas flores roxas no chão.

— É ali. — Murmurou Gray, parando o carro de qualquer jeito perto de uma árvore de tronco grosso. Soltou seu cinto e o imitei, saindo do automóvel logo em seguida. Caminhamos até a porta (?) também de madeira e apertei o ferimento em meu braço anda mais, pois ainda sangrava, enquanto Gray batia nesta.

— Que inferno! Será que poderia parar de bater na merda... — berrou uma mulher de aparência velha, com longos e lisos fios de cabelo rosa que estavam presos em um coque de cabelo alto; assustando tanto a mim quanto Gray. Seus olhos eram de um vermelho meio fosco e, ao nos ver, seu tom tornou-se mais calmo e quase chocado — … da porta. O que fazem aqui? — Encarou-me dos pés a cabeça, parando o olhar em meu braço e depois o dirigindo ao meu rosto. — Deixe-me adivinhar... Quer que eu cuide desse braço.

— Por favor, Poluchka-san. — Pediu Gray.

— Isso é obra de Natsu? — indagou ela, abrindo mais a porta para ficar de frente para nós.

— Sim. — Mantinha-me calada, apenas observando-a. Usava um longo vestido azulado de mangas grandes, o que destacava seu cabelo rosa. As orelhas e o pescoço eram enfeitados por pingente dourados de meia lua.

— Aquele tapado. — Murmurou com certa irritação. Deu um passo para o lado para que pudesse entrar, no entanto barrou Gray. — Você fica aqui fora e espera no carro.

— Mas, Poluchka-san, ela é...

— SAIA DAQUI! — Tirou uma vassoura sabe-se lá de onde e o espantou.

— Está bem! Está bem! Velha maluca. — Balbuciou baixo o bastante para ela não ouvir, no entanto ela ouviu e tacou uma maça em sua cabeça.

— Sinceramente... é por isso que odeio humanos! — Exclamou andando para dentro da “casa”. Mesmo que por fora aparentasse ser um lugar pequeno, era, na verdade, bem grande. E tudo, TUDO ali era feito de mogno — menos, é claro, do fogão e os eletrodomésticos e objetos de uso pessoal. — Sente-se. — Apontou para uma maca com lençóis brancos. — Então... você é a filha de Layla, certo?

— Conhece minha mãe? — Arregalei os olhos.

— Praticamente a criei. — Pela primeira vez a vi sorrir. — Ela e meu filho, Igneel, a anta; eram verdadeiros pestinhas quando criança. Conseguiram botar fogo em nossa casa uma vez.

— Eeeh?! Minha mãe e Igneel-san?

Tentei imaginar essa cena, no entanto falhei completamente. Porém... as aparências enganam. Essa foi a principal lição que aprendi desde que vim para Magnólia. As pessoas não são o que realmente aparentam ser. Foi assim com Sting, com a Meredy, que parecia alguém insuportável mas só queria atenção... E até mesmo com ele, Natsu. Mantinha a atenção em meu braço, qual ela limpava-o e passava algum medicamento que no início ardia e em seguida pinicava e acabava com a dor.

— Er... Poluchka-san? — Chamei-a. Tomei seu silêncio como um sinal positivo para continuar a falar. — Quando era pequeno... como Natsu era?

— Uma criança realmente bagunceira. — Sorriu com alguma lembrança distante. — Embora o tenha visto poucas vezes. Ele era um verdadeiro irmão mais velho quando tinha aquela idade, mas depois do acidente... — Calou-se.

— Acidente?

— O irmão gêmeo dele foi brutalmente assassinado quando Natsu tinha uns... sete? Ou seriam nove? De qualquer forma, ele era bem alegre quando mais novo. Depois virou um garoto problemático.

Ela agora enfaixava meu braço e não sentia mais um pingo de dor. Ela realmente era uma médica incrível.

— Está pronto. Agora pode sair.

— Eh?! Não vai receitar nenhum remédio ou algo assim? — Indaguei.

— Por que precisaria? O seu braço estará novo em folha em uma semana. Não vai ficar nenhuma cicatriz porque a bala pegou de raspão. Agora saia. Filha de Layla ou não, você ainda é humana. E eu odeio humanos.

Enxotou-me para fora e Gray correu em minha direção.

— E então?

— Em uma semana meu braço estará novo em folha... foi o que ela disse.

Soltou um suspiro aliviado enquanto guiava-me até a Ferrari.

— Que bom. Agora devo levá-la até o Fairy Latte.

Retorci o rosto em uma careta ao lembrar do lugar. O problema não era exatamente o lugar, e sim quem trabalhava lá.

— Por que aquele lugar?

— Não precisa se preocupar — disse ele. — Sting foi demitido de lá, ou se demitiu, não faço ideia. É um local seguro agora e... Levy trabalha lá.

— O quê?! — Isso explicava porque ela andava tão sumida.

— Isso mesmo que ouviu. — O carro corria pela estrada de terra a toda velocidade. — E ela praticamente estava tendo um filho quando saí. Acho que só você poderá acalmá-la... — Encarou-me intensamente. — E vice-versa.

Pensei no que ele havia dito e percebi que tinha razão. No começo tinha achado ruim, porém...

Que bom que Levy estava aqui.

✩✩✩

— Lu-chan! — Berrou Levy assim que dei um passo dentro do Fairy Latte. Ela saltou em mim e abraçou-me igual a um urso, só que mais forte. — Estava tão preocupada! — Exclamou, deixando algumas lágrimas tomarem-lhe a face.

— Devo dizer o mesmo, não? Como você sumiu daquela maneira quando disse que tinha algo para mostrar-me?

— Ah! Bem... Desculpe. — Sorriu envergonhada enquanto bagunçava o próprio cabelo. — Tive que correr para o trabalho. Tinha esquecido que tinha turno naquele dia.

— Não saia assim, sem avisar ninguém. É perigoso.

— Está tudo bem! — Chegou mais perto e sussurrou. — O Igneel-san colocou o sr. Brutamontes ali – apontou Gajeel, que bebericava alguma coisa em um copo muito delicado para combinar com a imagem dele – como meu “guarda-costas”. — Bufou. — Será que não tinha ninguém melhor?

— Já cheguei a pensar isso também. — Murmurei de volta. — Pode não parecer, mas ele é uma boa pessoa. Alguém... digno, por assim se dizer. — Lembrei-me de quando ele instigou Natsu a dizer sua opinião sobre mim, naquela festa de fundação. Meu coração apertou-se um pouco ao lembrar do rosado. Engoli o nó que formava-se em minha garganta, pensando em algo mais agradável para se conversar. — Seu uniforme é realmente lindo. — Elogiei, observando o quimono laranja que usava. Ficava realmente bem nela. Senti uma pontada de nostalgia daquele uniforme. Eram tão confortáveis.

— Sério? — Girou para vê-lo melhor.

— Com toda certeza. — Olhei para a roupa esfarrapada que usava. Uma das mangas grandes havia sido parcialmente rasgada e Poluchka rasgara o que sobrara dela para cuidar melhor do corte. Percebi que Levy também avaliava a roupa que usava. — Um farrapo, certo?

— Não exatamente. Se arrumássemos a manga rasgada poderia se transformar em algo esplêndido — Travou seus olhos nos meus. — Ouça, Lu-chan, a respeito daquilo que disse que ia te animar... eu tenho uma notícia... — Foi interrompida pelo próprio celular que tocou, avisando que havia recebido uma mensagem. Ao terminar de lê-la, arregalou os olhos.

— Algo errado?

— Não... cla-claro que não. — Cerrei os olhos em sua direção. — Evergreen-san, será que poderia sair mais cedo hoje? Não estamos tendo nenhum movimento mesmo. — Meneou a cabeça em direção à cafeteria vazia.

— Oe, oe... — Balbuciou a morena que já foi minha chefe, ajeitando os óculos. — Não podemos nos deixar levar pela situação. E se algum cliente chegar?

— Eu sou um cliente. — Interrompeu Gray, ofendido.

— Desculpe. E se aparecer algum cliente importante? — Refez a pergunta e realmente me segurei para não rir da expressão apática de Gray.

— Então é só deixar por minha conta — fez-se presente Lisanna, depositando um copo grande de suco de guaraná em frente a Gray.

— Lisanna?! O que faz aqui? — Perguntei surpresa.

— Eu trabalhava aqui faz um bom tempo. No entanto saí quando aquela coisa loira abominável conseguiu um emprego aqui também. E como ele se demitiu... Pude voltar ao meu pedacinho de paraíso novamente. — Explicou abraçando a bandeja. — O que... hum... aconteceu aí? — Apontou para meu braço.

— Isso...

— Natsu? — Indagou e encarei-a surpresa.

— Si-sim... como você...

— Aquela anta.

Acho que Gray estava certo quando disse que o rosado sempre fazia isso. Aparentemente, também era dia de falar da “inteligência” dele. Concordo com metade do que ouvi. Natsu era verdadeiramente um palhaço. Mas... um palhaço bem assustador....

… Chan?

Não esperava que Natsu parecesse uma besta enfurecida daquela maneira. Estou verdadeiramente assustada. Tenho medo. Medo de não ter visto nem o começo ainda.

Afinal, quem é o verdadeiro Natsu?

… An?

Seria ele aquele pervertido tapado que passei tanto tempo? Ou então o mostro que quase atirou em mim? Poderia ser aquela criança alegre que todos queria que eu ajudasse a trazer de volta?

… Não... A pergunta certa seria: aquela criança realmente ainda vive em Natsu?

… U-chan?

Apertei meu punho frente ao meu peito, encarando o chão.

Quero saber. Quero muito saber!

— Lu-chan?

Quem é o verdadeiro Natsu?

— Lu-chan! — Levy praticamente gritou em meu ouvido.

— O que foi, Levy-chan? Quer me deixar surda?! — Indaguei irritada. Percebi que todos me encaravam. — O-o-o que foi?

— Eu que pergunto! — A azulada parecia impaciente. — Se fechou em seu próprio mundo e não me ouviu lhe chamando? Ouça bem: nós vamos voltar até a mansão D. e então você vai tomar um banho e ficar com a melhor aparência que puder.

— Para o quê?

— Sur-pre-sa. Gajeel, pode nos levar?

— Tenho escolha? — Murmurou mal-humorado.

— Nenhuma. — Sorriu para ele. — Esperem aqui enquanto vou me trocar.

Apenas lancei-lhe um olhar confuso.

O que aquela baixinha estava aprontando?

✩✩✩

— O que viemos fazer no aeroporto? — Era o que eu perguntava. Aliás, eu nem sabia da existência do aeroporto em Magnolia. O que, convenhamos, foi uma coisa muito lesada de minha parte. Magnolia é uma das cidades mais evoluídas do país, como poderia não ter um aeroporto?!

— Vai saber quando chegar a hora. Apenas me acompanhe. —Disse Levy que caminhava atrás de Gajeel fielmente, pois este abria caminho entre a multidão ali. Isso explicava porque o terminal do trem não tinha tantas pessoas quanto imaginava.

Suspirei fortemente.

— Olhe só... — Comecei e só então percebi que havia me perdido de Levy-chan. Bufei olhando para os lados. Era impossível achá-la. Ela era baixa demais.

Caminhei entre as pessoas, procurando algum resquício de Gajeel e foi então que vi algo peculiar. Um amontoado de fios loiros que reconheceria em qualquer lugar.

Sting.

Minha mente neblinou-se e vi-me sendo impelida em sua direção e, quando ele começou a andar, apertei o passo para segui-lo. Estávamos na plataforma de desembarque e observei ele acenar para alguém. Aparentemente para uma mulher de cabelo negro que começou a caminhar em sua direção. Senti-me induzida a caminhar até ele e tirar a satisfação pelo que aconteceu, no entanto Levy encontrou-me neste momento e perdi os dois de vista.

— Onde pensa que está indo? — Indagou ela.

— Desculpe. Pensei ter visto alguém conhecido. E então? Para onde devemos ir?

— Para nenhum lugar, Lu-chan. Ele já está aqui.

— Ele? — Indaguei confusa.

Ela apenas sorriu antes de uma voz muito conhecida por mim chamar-me:

— Luce.

Involuntariamente um sorriso tomou-me a face.

“Ele”. Ele!

Ele estava aqui. Uma das pessoas mais importantes em minha vida. Meu porto seguro, meu incrível “ex” namorado. Aquele que acudia-me sempre que precisava e sempre estava lá para me animar.

Virei para ele com um enorme sorriso tingindo minha face e adoçando minha expressão. Todas as minhas preocupações foram, momentaneamente, esquecidas. Se ele estava aqui, tudo ficaria bem.

Com uma onda de amor e animação desconhecida por mim, disse seu nome, sendo presenteada com seu incrível sorriso.

— Rogue...!

Notas finais
{Capítulo postado adiantado} FELIZ NATAL, MINNA! (?) — Na verdade, é Feliz Natal mesmo, já que esse é o ÚLTIMO capítulo de MEM a ser postado nesse ano! ~♥ Para quem quiser saber quando vão sair os próximos (vou arrancar a cabeça fora do próximo que me fizer essa pergunta), dê uma olhada em meu perfil. (^ o ^)/ Ao capítulo: × Levy trabalha no Fairy Latte! (' o ') #lugarnostálgico × Poluchka mostrou-se um amor de avó. -sqn × E o tão comentado ex é... ROGUE! Alguém imaginou isso? (Não deixei nenhuma pista de como ele era antes, então acho difícil.) × Depois de "Final de semana em paz" esse foi o primeiro capítulo sem o Natsu. Foi interessante de se escrever, admito. × Sting nos deu a honra de sua graça novamente. e.e O que ele fazia lá? E por que se demitiu? Aliás, era ele mesmo? × Agora com o ex no meio, será que Natsu conseguirá se aproximar de Lucy novamente? • Gente, um assunto sério. Lembram-se do meu pulso e das milhares de vezes que ele abriu esse ano? Então... Estou com tendinite inicial e por esse motivo, tive que mudar MEM para uma fic quinzenal. Espero que entendam. Melhor demorar e postar do que NÃO postar, certo? Comentários? Recomendações? -q Obrigada por me acompanhar este ano e nos vemos ano que vem! o/