Meu Estranho Mafioso
67 Cinquenta e cinco.
Notas iniciais
A ENTRADA DA mansão estava completamente vazia, o que me fez estranhar o local. Ali nunca fora um lugar que tivesse cantos vazios — com exceção dos corredores —, Virgo sempre sabia quando havia alguém na entrada e sempre vinha atender, além de já ter visto alguns dos funcionários fantasmas que limpam e preparam a comida durante minha estadia aqui.
— Onde está o pessoal? — indaguei.
— Na sala de estar, provavelmente — respondeu Igneel. — Ou no escritório de Natsu.
Meu coração apertou-se por um segundo. Natsu. Não havíamos nos falado muito quando ele apareceu para me resgatar, e não parecia disposto a mudar isso quando tentei falar sobre... Gray...
— Espero que meus anjos estejam bem. — Iryn pronunciou. Ela também parecia levemente tensa.
O rosado bufou.
— São suas filhas, Iryn. Até mesmo aquela criança, Lisanna, sabe como se defender — ele parecia estranhamente irritado agora.
— Você tem razão... — concordou Iryn. — Espere um pouco! “Aquela criança”? Não me diga que ainda não perdoou Lisanna pelo o que aconteceu?
Só então compreendi. Muito tempo atrás, Lisanna dissera que Igneel não gostava dela, e Natsu confirmara dizendo que era pelo ocorrido com Sting.
… Como Igneel me trataria se soubesse que beijei meu ex-namorado depois que comecei a namorar seu filho?
Yamaguchi coçou a parte de trás do pescoço.
— Veja bem... Perdoar Lisanna depois dela ter traído meu filho é meio...
— Ora essa! — Iryn inflou as bochechas e seu rosto começou a ficar avermelhado.
— Espera! Iryn, mantenha a calma!
— Mantenho a calma coisa nenhuma! Isso é um insulto para mim!
— Bom, também foi um insulto para mim o que sua filha fez! — Igneel rendeu-se à raiva também.
— Vocês dois... — tentei intervir. — Vamos nos acalmar, certo?
Ambos viraram seus olhares furiosos para mim, o que provocou-me um pouco de medo. Suspiraram, desviando a atenção para ooutro canto e tentando não olharem um para o outro.
— Isso me lembra os velhos tempos, quando Layla apartava nossas brigas. — Iryn comentou, deixando um riso nostálgico escapar de seus lábios.
— Ela costumava fazer isso um bocado... — Igneel comentou, rindo.
Senti um aquecimento em meu peito. Desde que minha mãe morrera quando era pequena, papai perdeu o costume de contar-me as façanhas dela. Ver que amigos dela ainda lembravam-se tão bem dos momentos vividos juntos fazia-me sentir saudade.
— Olha... — Iryn começou, virando-se para Igneel. — Não vejo porque ainda não se permite perdoar Lisanna. Seu próprio filho deu-lhe outra oportunidade. Como pai, não pode fazer isso também? Lisanna é uma ótima pessoa, assim como aquele garoto. Eles só tiveram problemas ao longo do caminho.
O rosado encarou-a. Pela primeira vez, não soube que tipo de resposta Igneel poderia dar.
— Acho que posso tentar.
— Viva! — Iryn comemorou batendo palmas e logo jogou-se em cima do Yamaguchi, aplicando-lhe um belo beijo na bochecha. — Como imaginei, você é o melhor!
— Sabe... — comecei, atrando a atenção para mim. — Você não parece igual aos outros membros da máfia de Acnologia, Iryn. Todos com quem me encontrei pareciam extremamente perigosos e ameaçadores. — Com exceção do Cruela, adicionei mentalmente.
— Ah, isso — ela sorriu. — A única razão de estar lá é por causa de um acordo entre as máfias.
— Acordo? — estranhei.
— Quando peguei o comando da máfia Dragneel — Igneel explicou — a máfia ficou meio dividida. Iryn é muito boa no que faz...
— Obrigada — a albina agradeceu.
— Acnologia não queria perdê-la. Então fizemos um trato, cuidaríamos das filhas dela e ela ficaria sob comando dele.
— Enquanto meus bebês não fossem metidas no meio das confusões dessa briga sem sentido, não faria nenhum movimento. — Iryn completou. — Então a estúpida Minerva mandou explodirem o Fairy Latte e acabou envolvendo meu pequeno menino. Soube que Mira foi resolver as coisas pessoalmente, então tive que fazer algum movimento — ela olhou para o corredor. — Espero que esteja bem... José ficou sob as ordens daquela garota por muito tempo, e Mira poderia se lembrar de quando ele foi padrasto dela...
— Eh? — encarei-a estupefata. José... Aquele José, já foi padrasto de Mira?
Iryn sorriu tristemente.
— Não sou santa, Lucy. Também já cometi muitos erros nessa vida. Meu amado marido morreu em um confronto contra a polícia e, pensando nas crianças, acabei me casando com José. Um terrível erro, devo admitir. Quando virava as costas, ele tratava Mira como um animal selvagem que só poderia ser controlado com violência. Só percebi o que fazia quando encontrei-a com um olho roxo protegendo Lisanna, que era apenas um bebê pequeno naquela época.
— Mira passou por tudo isso? — quanto mais sabia das desgraças que rondavam os membros da máfia “Yamaneel”, mais triste ficava.
— Não sei se passou por coisas piores no passado, pois ela nunca abre a boca a respeito do assunto. Talvez Laxus saiba algo, já que é o namorado dela há anos.
— Espera! — exclamei. Era muita coisa para minha cabeça. — Você disse “confronto com a polícia”, certo? Mas sempre pensei que a máfia tinha um tipo de acordo com a polícia, porque quando incendiaram o prédio aonde morava, Natsu apenas ficou lá, enquanto a polícia fazia perguntas e tentava afastar a multidão.
Entreolharam-se.
— É melhor você descansar, Lucy. — Igneel disse. — Depois a colocaremos a par de tudo.
— Promete? — pedi.
Ele entrelaçou o mindinho com o meu.
— Se não cumprir, engolirei mil agulhas.
E então voltamos a continuar nosso trajeto. Mal pude acreditar quando chegamos à sala de estar. Aries, Virgo, Rogue, Mira, Natsu... Todos estavam lá, olhando esperançosos em nossa direção assim que atravessamos a porta. Pude perceber o alívio no rosto de todos — exceto no de Natsu, para quem evitava olhar.
— Mamãe! — Mira correu para os braços de Iryn, ambas com enormes sorrisos no rosto.
— Mirajane! Como está linda! — a albina mais velha elogiou, fazendo a filha girar em sua frente. — Estava realmete preocupada, uma vez que foi para um lugar que tinha a presença de José.
— Oh, mamãe! — Mira segurou suas mãos. — Ele não foi grande coisa assim, no final das contas.
Iryn olhou ao redor da sala, procurando algo.
— E Lisanna?
— Ela está bem — acalmou-a Mirajane. — Está no quarto médico com Loki e Sting.
Deixei um suspiro de alívio escapar. Então Sting estava vivo? Ainda bem.
— Ah, devo vê-la antes de voltar para o trabalho!
— Mal chegou e já vai embora?
— Vim apenas para verificar como estavam. Elfman está em um estado deplorável... — comentou tristonha. — Perder Ever foi muito para ele... Mira, por favor, dê muito apoio para ele por mim.
— Irei. — Mira puxou a mãe para fora do cômodo. — Venha, vou levá-la até Lisanna.
Senti meu coração pesar com a afirmação de Iryn. Perder Ever... Novamente alguém querido por mim se fora...
Uma mão tocou meu ombro. Virei-me para a pessoa e lágrimas formaram-se em meus ombros.
— Ei, não me deixe preocupado assim.
— Rogue! — exclamei, abraçando-o com toda a força que me era permitida e pegando-o de surpresa. — Rogue. Rogue. Rogue. Rogue. Rogue. Rogue... — continuei a murmurar. A presença do moreno acalmava-me. Fazia-me pensar que ficaria bem, apesar de tudo.
Ele retribuiu o abraço, acariciando minha cabeça.
— Está tudo bem, Lucy. Estou aqui — ouvir isso lembrava-me de quando perdi minha mãe. Ele também fora a pessoa que mais me confortara naquela época. — Você pode chorar. Ponha tudo para fora.
E então chorei, como nunca havia chorado em toda minha vida. Chorei por mamãe, chorei por Honoka, por Gray. Por todos que haviam sido envolvidos naquela situação. Chorei por Sting, pelo irmão dele. Por Cruela, por Rogue, por Aries... Por Juvia e pelo bebê...
Chorei como se não houvesse amanhã. Até que minha lágrimas secassem.
— Nii-sama, onde vai? — ouvi Aries perguntar e, por um segundo, desviei minha atenção para o rosado que saía da sala. Tive tempo apenas de notar um curativo mediano em seu pescoço, e depois as lágrimas voltaram a tomar conta.
Não sei por quanto tempo Rogue e eu ficamos ali, abraçados, com ele me confortando. Foi o moreno mesmo que deu um fim, dizendo que precisava tentar dormir um pouco.
No entanto, quando minha cabeça tocou o travesseiro, memórias de Gray sendo assassinado voltavam à minha mente. Foi nesse momento que percebi que, por muito tempo a partir daquele momento, não teria uma boa noite de sono.
✩ ✩ ✩
Avaliei os curativos feitos por Virgo de manhã. Minha tensão antes era tão grande que nem cheguei a ligar muito para a dor que as feridas ocasionavam. Poluchka viria mais tarde dar uma olhada e dizer se alguma deixaria sequela ou algo do gênero, mas isso não estava tomando muito espaço em minha mente.
Respirei fundo, reunindo coragem e, só então, bati na porta. Há quanto tempo não ia ali? Creio que a última vez foi no dia do baile e fundação da Fairy Tail.
A porta abriu e ela apareceu, com um toalha jogada ao redor do pescoço. Encarou-me em um misto de frieza e preocupação.
— Pois não?
Só percebi o quanto nossa relação havia mudado por conta da dureza em suas palavras.
— Se estiver disponível, gostaria de conversar com você, Aries.
— Não estou — respondeu, já prontificando-se a fechar a porta. Impedi-a colocando meu braço machucado entre o vão. — Esper... O que está fazendo?
— Realmente quero resolver as coisas com você — disse, encarando-a com determinação.
— Não vejo o que pode querer tratar comigo — ela tentava me empurrar para poder fechar a porta.
— Quero pedir desculpa! — exclamei, olhando diretamente em seus olhos.
Parou de me empurrar para poder encarar-me melhor.
— Desculpa? Por que raios está se desculpando?
Engoli em seco.
— Você sabe... Aquilo que me disse no festival cultural... Sobre nem tudo ser resolvido com palavras.
— O que tem? — arqueou uma sobrancelha.
— Você estava certa — admiti. — Nem tudo nesse mundo dá para ser resolvido com sorrisos e conversas. E, depois de tudo o que passei nessa semana, percebo isso. Eu, realmente e sem dúvida nenhuma, sou apenas — não acreditava que estava mesmo dizendo aquilo — uma caipira estúpida.
Avaliou-me com os olhos, sem dizer uma palavra. Por fim sorriu, o mesmo sorriso que dirigia a mim quando éramos amigas.
— Fico feliz por ter percebido isso, Lucy! — e, sem mais nem menos, abraçou-me. Tão forte que alguns machucados chegaram a doer.
— Obrigada — agradeci, devolvendo o abraço.
— Ah! Soube que conheceu meu avô! — exclamou do nada. — O que achou dele? Legal, não?
— Hum... — desviei o olhar. — Ele é... bem centrado em seus objetivos — comentei.
— Oh, é verdade! — concordou. — E... O que queria com você?
— Isso não sei — fui sincera. — Mesmo perguntando, ele não quis me dizer o real motivo.
— É a cara dele mesmo... O único problema dele é essa mania horrível de omitir coisas.
— Diz a garota que controlou toda a minha vida desde que pisei nessa cidade — ironizei, arrancando-lhe uma risada.
— Foi mal.
Sorri. Era ótimo ter feito as pazes com Aries.
— Bom, tenho outra coisa para resolver — murmurei. — É melhor eu ir.
— Com meu irmão? — indagou.
— É... — balbuciei.
— Boa sorte.
— Obrigada.
Virei-me, caminhando pelo corredor em direção ao meu quarto. Parei uma porta antes. Voltei a respirar fundo. As coisas andavam estranhas entre nós, por isso não fazia ideia de como seria nossa conversa.
Bati três vezes, ansiosa. Ouvi um “entre” baixo e arrepiei-me por isso. A última vez que o ouvi dizer essas palavras foi no mesmo dia em que brigamos, na época em que ele não me contava nada.
Tudo bem, consolei-me. Natsu não vai esconder nada.
Empurrei a porta com um pouco de dificuldade. O rosado parecia ter acabado de sair do banho, pois usava apenas uma bermuda. Corei ao ver seu dorso nú.
— Ah, desculpe! — pedi, virando-me de costas. — Espero você terminar de se vestir!
— Já me viu com menos antes, Lucy — balbuciou, soltando uma risada que não durou muito.
Senti meu rosto arder, entretato voltei-me para ele. Era engraçado tant ele quanto Aries terem tomado banho na mesma hora.
Seu semblante era sério e, em seus olhos, havia algo que não conseguia identificar.
— Creio que precisamos conversar — murmurei.
Suspirou.
— É... — coçou a nuca. — Acho que sim.
Sentamo-nos na cama, um encarando o outro, sem saber direito o que dizer.
— Antes de mais nada — senti meus olhos pinicarem —, quero pedir desculpa, Natsu. Por minha causa, Gray... — minha voz morreu. Nunca irei conseguir terminar essa frase.
— A culpa não é sua, Lucy — disse. — Fui eu que deixei-o ir até lá sozinho. Subestimei Minerva, e paguei o preço por isso — percebi que havia cerrado seus punhos.
— É minha culpa sim — contradisse, olhando-o nos olhos. — Aries me avisou para ter cuidado, para perceber qual era minha posição como sua namorada. E, agora eu sei, Natsu. Sei que sou namorada de um mafioso e que devo ter cuidado com as pessoas que me rodeiam.
Ele deixou uma expressão triste transparecer.
— Não era para as coisas serem assim... — enervou-se. Socou o colchão. — Droga! Não era para ser dessa forma!
— Natsu... — choquei-me. Peguei seu rosto em minhas mãos e percebi ele retesar-se por causa do toque. — Está tudo bem. Se tem outra coisa que sei com certeza agora, é que te amo. Eu te amo, Natsu. E, embora essas coisas me assstem, estou disposta a enfrentá-las para permanecer ao seu lado.
— Lucy... — pela primeira vez, vi o rosado chorar. — Eu não... mereço isso... Não mereço você...
— Shh — calei-o com um dedo. — Quem decide isso sou eu, Natsu Dragneel.
Sem dar a ele a opção de responder, selei nossos lábios com um beijo.
Foi como beijá-lo pela primeira vez novamente.
O mesmo choque ao sentir seu toque. O mesmo batimento cardíaco descompassado. A mesma sensação gostosa por saber que era ele ali. Mas, diferente daquela vez, era algo maior. Mais profundo. Porque agora conhecia Natsu de tal forma que nunca imaginara antes. Sabia de suas dores, de sua situação, de seus pensamentos.
Senti seus braços enlaçarem meu corpo e puxar-me para mais perto. Aquele beijo era mais que uma demonstração de amor, era uma necessidade.
Nos separamos, tão ofegantes quanto no dia daquele festival.
Natsu entrelaçou seus dedos aos meus.
— Quer mesmo ficara ao meu lado?
— Tanto que sinto que morreria se tivesse que sair do seu lado — sorri. — E sei que se culpa por isso — apontei para os machucados. — Então pare. Esse machucados foram causados por mim. Por minha — sorri torto — ousadia.
— É... — concordou. — Você é cheia disso mesmo. Sei desde que me deu o primeiro tapa.
Sorrimos.
— Também sei que seu avô está o pressionando. Por isso me sequestrou, não é?
Ele baixou o olhar.
— Não sei o que fazer. Nunca fui com a cara de Acnologia. Porém ele me pressiona. Meu pai conseguiu proteger Meredy, mas Aries é como uma área neutra. E, mesmo que não tenha sido moldado para o papel de irmão, sinto que não posso deixá-la cair nas mãos dele.
— Discordo.
— O quê? — encarou-me.
— Faz muito tempo que ouço dizerem que “Natsu não foi moldado para o papel de irmão mais velho”. No entanto, toda vez que paro para pensar nisso, vejo o quanto se sacrifica pelo bem deles. Ficou ao lado de Meredy quando sua mãe se foi, preocupa-se sobre o futuro de Aries e, tenho certeza, fez tudo para conseguir proteger Zeref, mesmo sendo mais novo — encarei-o carinhosamente. — Não importa quantas vezes pense, Natsu é alguém incrível para ser irmão de alguém.
— Lucy... Você...
— Lucy! — Aries gritou rompendo pela porta e nos assustando.
— Mas que merda, Aries! — exclamou irritado o Dragneel ao meu lado. — Quer nos matar?
— Isso não importa! — respondeu. — Lucy...
— O que foi? — questionei amedrontada. Minha mão ainda permanecia no peito, como se conseguisse acalmar meu coração com aquilo.
— Ele está aqui — sua seriedade causava-me calafrios.
— Quem? — Natsu indagou.
A rosada respirou fundo antes de soltar um nome, responsável por congelar meu sangue:
— Jude Heartfilia.
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