No dia no qual contemplei Kentaro derrotando Roy quase sem esforço eu não consegui dormir. Pela primeira vez eu percebi que Kentaro podia ser um androide, para mim essa era a única coisa que parecia plausível. Após muito raciocinar tentei pensar em maneiras nas quais podia expor sua natureza robótica e quando o sono me alcançou o sol já estava quase nascendo. Ao acordar descobri que estava mais de meia hora atrasada, durante todo o ensino médio eu nunca havia me atrasado.

Só havia duas escolhas me arrumar ou tomar o café da manhã.

Não preciso dizer que alguns minutos após levantar eu parti em direção a escola deixando meu café da manhã para trás, prioridades meus amigos, prioridades.

Durante as primeiras aulas não consegui raciocinar direito porque tive que usar todo meu foco para prestar atenção nas matérias. Durante o recreio fiquei sabendo que Kentaro já não estava mais se escondendo dos outros agora que os bolinhos tinham acabado, de longe pude ver que ele estava na companhia da She-Devil, não que isso me surpreendesse porque tudo aquilo que é ruim encontra um jeito de se unir com aquilo que é ruim. Não, eu não estava stalkeando Kentaro, estava apenas recolhendo informações.

Após o recreio surgiu o que parecia uma oportunidade perfeita para colocar meus testes em prática, perfeita demais eu diria. A professora de português Vânia Silva teve uma consulta no dentista e trocou de aula com o Professor Yuri, ele ainda estava no ritmo das férias por isso não tinha nada preparado para a aula naquele dia, por isso ele levou a classe para o terraço e nos dividiu em duplas para jogar xadrez. Kentaro foi sorteado para ser minha dupla, até então eu estava irritada, mas quando chegamos no terraço eu percebi que uma das mesinhas estava sem cobertura e o sol estava particularmente quente naquela manhã. Um sorriso tomou meus lábios, o calor poderia fritar os circuitos de qualquer um, incluindo um androide, assim me dirigi para essa mesa em questão.

— Ah não acha melhor, a gente sentar em outra mesa? — indagou Kentaro se colocando na minha frente quando percebeu minha intenção.

— Não. — disse me desviando dele.

"Por que? Está com medo de alguma coisa?” pensei, mas ao invés disso disse:

— Estou precisando de vitamina D.

Ele deu de ombros e sentou de frente para mim, quando me sentei era como se o banco de concreto fosse um forno que assou todo o meu interior instantaneamente. Eu quase gritei, mas como era por uma boa causa aguentei a dor calada.

Do outro lado Kentaro parecia tranquilo arrumando as peças do xadrez e deixou as peças brancas para o meu lado, provavelmente duvidando da minha capacidade de vencer seu algoritmo.

Meu objetivo era simples observar qualquer comportamento estranho de Kentaro, para isso eu tinha que oferecer a ele o meu melhor lado Bobby Fischer, obrigando-o a ficar concentrado no jogo.

Eu comecei olhando atentamente para Kentaro com os olhos semicerrados, mais por causa da luz do sol do que por qualquer outra coisa. Ele não pareceu perceber, focado que estava contemplando as peças do jogo como se fossem itens preciosos de um museu. Movi primeiro o peão na frente do bispo ao lado do rei. Ele respondeu movendo o peão na frente do rei duas casas para frente. Eu limpei o suor da sobrancelha e movi o peão a frente do cavalo do lado do rei duas casas para frente. Kentaro respondeu movendo a rainha para o lado do meu último peão e disse:

— Xeque-mate.

— Que? — deixei escapar em choque, era verdade, quando reparei no jogo percebi que tinha perdido para o truque mais barato do xadrez o Mate do Louco.

Eu estava tão distraída com meu objetivo que havia esquecido de prestar atenção no jogo. Eu devia estar com cara de ovelha naquele momento porque logo em seguida perdi para o Xeque Pastorzinho, o que não melhorou nem um pouco meu humor.

Daí em diante foi um desastre absoluto, comecei a perder um jogo atrás do outro, cada um da forma mais ridícula que você possa imaginar. O suor foi da cabeça para o resto do corpo e dentro de alguns minutos eu era uma versão miniatura das cataratas do Iguaçu.

— Tem certeza que não quer trocar de mesa?

— Eu... tenho... certeza... absoluta. — respondi um pouco mais lento do que gostaria, mas a qualquer momento ele mostraria algum sinal de falha no circuitos.

Na décima ou centésima derrota, eu já tinha perdido a conta, eu percebi que lágrimas estavam caindo dos meus olhos, não porque eu estava chorando, mas sim por causa do calor.

— Tem certeza que quer continuar jogando?

Antes de responder eu contemplei o rosto de Kentaro atentamente, por algum motivo eu estava tendo muita dificuldade para me concentrar, ele tinha um olhar estranho no rosto, que alguém inexperiente diria que era preocupação e em suas têmporas eu vi uma gota de suor escorrer. Por um instante eu pensei que aquele era um sinal de humanidade, mas me lembrei que no Blade Runner os androides também ficavam suados.

— Sim! — disse respondendo à pergunta de forma um pouco abrupta demais.

Minha mão bateu na mesa derrubando algumas peças no chão, mais lágrimas minhas caindo sobre o tabuleiro.

Uma sequência de eventos bizarros se seguiu, primeiro tentei me concentrar no rosto de Kentaro, mas suas feições começaram a se distorcer e as cores do mundo ficaram muito mais vibrantes do que o normal, segundo eu ouvi um terremoto, que na verdade parecia ter vindo de dentro de mim e terceiro eu senti um sono tão forte que decidi dormir sobre o tabuleiro de xadrez naquele exato momento.

Daí tudo apagou.

De repente eu abri os olhos calmamente como se tudo não tivesse passado de um sonho. Bocejando eu percebi que minhas amigas incluindo Ivana estavam do lado da minha cama.

— O que vocês estão fazendo no meu quarto? — nesse momento eu percebi que tinha algo grudado no meu braço esquerdo, era um soro, quando eu vi tomei um susto tão grande que perdi as palavras. — Ah AAAH!

Sim eu odeio agulhas não importa o tamanho ou função odeio todas elas.

— Calma Vi — disse Giovanna me segurando e me impedindo de fazer alguma besteira. — Essa é a agulha do soro.

— Aqui não é o seu quarto, você está na enfermaria da escola. — disse Mila.

— Por que eu estaria na enfermaria? — perguntei confusa.

— Você não se lembra? — disse Rosinha preocupada. — Você desmaiou duas horas atrás.

— Até mesmo a Ruiva Gótica ficou preocupada. — disse Giovanna balançando a cabeça. — Por alguns instantes nós pensamos que você tinha morrido...

— Mas aí a enfermeira nos acalmou explicando para gente que você desmaiou por três prováveis motivos, falta de dormir, falta de comida ou por ter tomado sol muito quente na cuca. — disse Karina um pouco animada demais para o meu gosto.

— Ou os três. — disse Rosa cabisbaixa.

— Vi o que a gente tinha conversado sobre dietas extremas? — perguntou Mila invocando a mãe interior.

— Eu não estava... Meleca! — disse tentando me ajeitar na maca. — Como foi que eu vim parar aqui?

—Você não se lembra? — disse Karina soltando um grasnado.

Rosinha começou a dar risinhos e até mesmo Mila tinha um sorriso largo no rosto.

— Kentaro — disse Giovanna. — Ele te carregou nos braços até aqui.

— A boa forma física dele não era só aparência. — disse Mila. — Ele trouxe você aqui sem nenhum esforço.

— Alias, eu prometi mandar uma mensagem para ele se você estivesse bem. — disse Rosinha pegando o celular.

— Não! — deixei escapar.

Todas as meninas olharam para mim sem entender, naquele momento eu estava com tanta vergonha que se pudesse cavar um buraco e morar o resto da vida nele eu assim faria.

Ao invés disso eu fingi desmaiar de novo, mas não sei se minhas amigas acreditaram.