— Parece que a força acabou. — disse alguém algumas fileiras a nossa frente.

Aos poucos todo mundo ascendeu as lanternas de seus respectivos celulares. Mesmo assim a escuridão ainda imperava na sala, como se tivesse vida própria.

— E agora o que a gente faz? — perguntou uma garota, pelo tom ela era do primeiro ano.

— Que tal se a gente contar histórias de fantasmas? — disse um outro rapaz e alguém deu um tapa na cabeça dele fazendo a luz de seu celular desaparecer por alguns segundos, para minha aprovação.

— Vamos falar com o Charles — disse alguém passando ao meu lado e indo em direção a porta. — Ele é o responsável pela escola hoje.

Após forçá-la algumas vezes ele se virou para nós e disse:

— Está trancada!

Alguns alunos tentaram abrir a porta logo em seguida, mas sem sucesso.

Do outro lado da sala, ao lado do telão a porta de emergência começou a tremer como se alguém estivesse tentando entrar à força, vários alunos gritaram correndo para o fundo do anfiteatro. Kentaro se levantou e com a mão direita ele segurou-me pelo braço me mantendo perto dele. Toda essa tensão fazia com que a boca do meu estomago doesse e o fato de eu ter enchido o bucho com porcarias não ajudava nem um pouco.

A porta de emergência abriu com um solavanco e o Sr. Johnson com uma lanterna na mão e uma expressão preocupada no rosto entrou na sala.

— Está todo mundo bem? — perguntou ele iluminando o rosto dos alunos que se juntaram ao redor dele como um bando de mariposas ao redor da luz.

— Estamos perfeitamente bem, muito obrigado. — disse Karina em tom sarcástico, ela e Justin ao lado dela eram as duas únicas pessoas que eu consegui reconhecer na multidão.

— O que está acontecendo? — disse uma aluna para o Sr. Johnson em tom choroso.

— Eu não sei ao certo — disse o Sr. Johnson suor descendo pelo seu rosto como se fosse água. — Mas para descobrir precisamos primeiro arranjar um jeito de fazer a luz voltar.

Todo mundo começou a falar histericamente ao mesmo tempo.

— Silêncio! — gritou o Sr. Johnson reestabelecendo a ordem. — Eu tenho um plano, existem três caixas de força e elas são responsáveis pela luz na escola e uma delas causou o nosso problema, nós vamos nos dividir em três grupos — uma nova onda de discussão interrompeu ele por alguns segundos. — Nós vamos nos dividir em três grupos e cada um ficará responsável por religar a força.

— Aonde essas caixas se encontram? — disse um aluno do terceiro ano ofegante.

— Uma fica na diretoria, uma na entrada e — nesse momento ele fez uma pausa dramática. — A outra fica no Galpão 13.

Nesse momento a porta de entrada do anfiteatro começou a chacoalhar como se alguém quisesse forçar a entrada. Um rangido inumano soou do outro

lado fazendo alguns alunos começarem a gritar desesperados.

— Silêncio — implorou o Sr. Johnson, sussurrando prosseguiu. — Rápido se dividam em três grupos, Kentaro e Vivien vocês ficam responsáveis por liderar um dos grupos até o Galpão 13, Karina e Justin vocês ficam com a entrada e eu fico responsável por liderar um grupo até a diretoria.

As coisas não saíram tão ordenadas como o Sr. Johnson havia planejado logo de cara, a maior parte se aglomerou em torno dele, e um punhado se juntou a

Karina e Justin, alguns até mesmo decidiram esperar escondidos na sala, mas ao lado de Kentaro só se encontrava a minha pessoa agarrada no braço dele como se fosse um carrapicho particularmente belo. As pessoas confiavam em mim e em Kentaro, mas a menção do Galpão 13 levou o que restava da coragem dos alunos.

A porta de entrada mais uma vez chacoalhou com um estrondo.

— Vamos! — disse o Sr. Johnson passando pela porta de emergência.

Ela levava direto para um corredor auxiliar e este se ligava com o corredor principal.

Em menos de cinco minutos todo mundo se viu abarrotando o corredor principal.

O lugar estava em tamanha escuridão que mesmo a luz das lanternas não ajudavam a iluminar nem mais do que um metro a frente.

— Muito bem, agora é cada grupo por si, lembrem...

Antes que o Sr. Johnson pudesse terminar a frase alguém gritou apontando para o chão.

— O que é isso!?

Uma névoa cobria o chão do corredor, ela tinha um tom esverdeado e luminescente e alcançava até o joelho da maioria dos alunos.

No fim do corredor uma luz alaranjada se acendeu revelando um ser carregando um candeeiro na sua mão. Ele era Jack O'Lantern. Como eu sei disso? Simples acima de seu pescoço não havia nada e a lanterna que ele carregava na mão era a sua cabeça, em formato de uma abóbora com um sorriso sinistro.

Tal visão foi o estopim que fez com que os alunos se dispersassem gritando para todos os lados.

Jack O'Lantern com uma gargalhada cavernosa se aproximou de mim lentamente. Kentaro disparou na direção oposta, eu por outro lado, fiquei lá que nem uma tonta, paralisada como se fosse o Chaves tendo um piripaque, a lanterna do celular na minha mão tremendo como se fosse uma luz de discoteca. A alguns metros de distância Kentaro percebeu que eu era a única que tinha ficado para trás, ele voltou correndo ao meu lado e sem pensar duas vezes me jogou sobre o seu ombro como se eu fosse um saco de arroz e saiu correndo me carregando.

A força dele ainda me surpreendia apesar de tudo.

Ele correu por nem sei quanto tempo até que recuperei meus sentidos:

— Kentaro me põe no chão! — exclamei, ficando vermelha que nem um pimentão eu disse: — Kentaro me põe no chão... Eu... Eu acho que me mijei!

Ele parou abruptamente e me colocou no chão. Eu comecei a apalpar as partes baixas e constatei que era só um pouco de suor.

— Ufa, alarme falso. — disse com um sorriso sem graça, olhando ao redor. — Aonde a gente está?

Não havia nenhum sinal dos alunos e muito menos do Jack O'Lantern.

— Estamos perto do Galpão 13. — disse Kentaro após recuperar o fôlego.

Ele voltou a caminhar em direção ao seu objetivo, chocada eu tentei parar ele:

— Galpão 13? Por que?

— Essa foi a missão dada pelo Sr. Johnson.

— Pro inferno com a missão, Kentaro — disse puxando o braço dele em direção a saída da escola. — A gente tem que dar o fora daqui!

Ele se soltou de mim e disse:

— Se quiser ir embora fique à vontade. — ele me encarou com seu olhar penetrante como de costume.

Depois se virou antes de receber uma resposta e se dirigiu para o Galpão 13.

— Eu te odeio Kentaro, sabia? Eu te odeio!

Comecei a chutar tudo pelo caminho irritada, era a segunda vez em menos de cinco minutos que eu estava agindo como o Chaves, isso devia ser um novo recorde.

Segundos depois a gente chegou na entrada do Galpão 13. Eu tinha decidido ficar ao lado de Kentaro porque ele não tinha uma lanterna e a visão dele ainda não estava cem por cento. Minha decisão não tinha nada a ver com o fato de eu ter medo de ficar sozinha.

Toda aquela situação era absurda e eu estava quase convencida de que tinha dormido assistindo o filme e tudo aquilo não passava de um pesadelo, mas assim como nos filmes do Freddy Krueger eu não queria testar minha teoria e descobrir que estava errada.

A porta do Galpão 13 estava aberta, isso era um péssimo sinal.

— Primeiro as damas? — disse Kentaro me dirigindo o sorriso mais cara de pau de seu arsenal.

Evitei dar uma resposta para ele porque estava com tanto medo que eu sabia que se tentasse falar iria começar a chorar.

Antes de descer a escada eu passei um braço pela cintura de Kentaro, por baixo da jaqueta e com o outro eu iluminei o caminho a frente com o celular. Por sua vez Kentaro passou um dos braços sobre o meu ombro, me segurando com firmeza.

Quando a gente alcançou o fim da escada eu estava apertando Kentaro com tanta força que havia uma pequena chance de eu cortar ele no meio que nem a Alien Rainha fez com o androide no final do Alien 2.

Ao atingir o fundo do galpão Kentaro se desvencilhou de mim e começou a trabalhar na caixa de força. Eu não parava de olhar ao redor com a inquietante sensação de que nós não éramos os únicos ali embaixo. O Galpão 13 era um daqueles lugares onde o silêncio era ensurdecedor, o único som que dava para ouvir era o bater dos meus dentes.

Kentaro girou a alavanca para cima conforme as instruções na caixa, mas nada aconteceu.

Um ruído de caixas caindo soou ao meu lado fazendo eu dar um pulo que daria inveja em qualquer gato. Eu direcionei a lanterna em direção ao barulho. Foi então que eu vi a coisa.

Um gemido aterrador ecoou pelo galpão, um som genuinamente similar com quando alguém me acordava muito cedo.

Ao nosso lado se encontrava uma mulher toda de branco, incluindo o vestido, o cabelo, a pele e o globos oculares, seu pescoço estava em um angulo estranho como se tivesse destroncado e o sorriso em seu rosto ia de orelha a orelha, quando a boca se abriu revelou vários dentes afiados. Ela era a Assombração do Galpão 13!

Dessa vez eu estava preparada e sai correndo o mais rápido que podia com Kentaro na minha cola, é a única vez em que consigo recordar que corri mais rápido do que Kentaro.

No meio do caminho eu peguei uma vassoura que encontrei no chão, percebendo o que eu estava planejando, a assombração soltou um grito atrás de mim, o grito soou muito mais natural e humano dessa vez.

Ao terminar de subir as escadas eu fechei a porta e tranquei ela com o cabo de vassoura. A porta chacoalhou violentamente, mas permaneceu fechada.

Ofegando a gente se afastou do Galpão 13.

Kentaro então parou repentinamente e pegou meu rosto nas mãos e disse sorrindo:

— Você é muito corajosa! — ele começou a limpar o suor do meu rosto com as mãos. — Estou muito orgulhoso de você!

Ele falava comigo como se eu fosse uma criança que acabou de aprender a usar o pinico sozinha, mas por algum motivo meu peito se encheu de alegria e eu balancei a cabeça positivamente ainda sem conseguir falar.

— Acho melhor a gente voltar para o anfiteatro. — disse Kentaro me pegando pelo braço e liderando o caminho.

Esse plano era péssimo, mas eu me deixei ser guiada.

Ao nos aproximar do refeitório era possível ouvir os gritos dos alunos espalhados pela escola inteira, ao que parece eu e Kentaro não éramos os únicos que tiveram que lidar com monstros.

No meio do refeitório havia uma criatura peluda parecendo um Lobisomem procurando vítimas como um cão farejador. As vezes o monstro parava do nada e soltava um uivo arrepiante.

Primeiro eu desliguei a lanterna, depois eu e Kentaro nos abaixamos e começamos a dar a volta por trás das mesas e cadeiras de metal. Próximo a cantina eu tropecei em algo e teria dado um grito se Kentaro não tivesse tampado minha boca.

A nossa frente estava ninguém menos que Justin Case, acocorado quase em posição fetal, parte de mim jura que ele estava chupando o dedo, mas como estava muito escuro eu não tenho certeza absoluta.

— Meu Deus! — sussurrou Justin ao encarar a gente, depois ele observou a criatura por cima da mesa e voltou a se esconder ao perceber que ela não tinha notado a gente. — Vocês quase me mataram do coração.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Kentaro para ele em um tom reprovador. — Pensei que você tinha ido com a Karina até a entrada.

— Eu tinha — disse Justin balançando para frente e para trás. — Mas quando a gente mexeu na alavanca nada aconteceu, daí surgiu uma horda de zumbis... Eu tentei voltar para o anfiteatro, mas não tinha mais ninguém lá. Pensei em ir atrás do Sr. Johnson, mas ouvi um garoto gritando que ele tinha sido pego antes de chegar na diretoria por uma criatura nojenta... Por isso eu fugi para cá, pensei que estaria livre dos monstros, mas ao que parece estava errado.

— Droga — disse Kentaro reflexivo. — Por isso a luz não voltou, a caixa de força da diretoria continua desligada.

— O que a gente faz agora? — perguntei com a voz rouca.

Kentaro tirou sua jaqueta de camurça e colocou ela em mim. Ela era vários números maior do que eu e mais uma vez me senti como uma criança.

— Se eu não voltar em cinco minutos...

— Que papo é esse? — disse impedindo-o de partir.

— Alguém precisa ir na diretoria...

— E?

— É melhor você ficar aqui.

— Por que?

— É perigoso...

Puxei Kentaro para perto de mim com toda a força e batendo meu indicador várias vezes no peito dele eu disse:

— Escute aqui, eu poderia ter escolhido ficar em casa e nesse momento eu provavelmente estaria indo dormir na minha cama quentinha, mas não, eu escolhi ficar com você, eu escolhi VOCÊ Kentaro, então agora que as coisas ficaram difíceis você quer me deixar para trás?

O rosto de Kentaro não sabia se ficava pálido ou corado diante das minhas palavras, por fim ele engoliu em seco e disse:

— Ou você pode vir comigo, se você quiser.

— Aow cara! — disse Justin de cócoras. — Agora eu também quero uma namorada assim.

Corada que nem uma abóbora tentei acertar um tapa em Justin, por ter interpretado errado minhas palavras, ele conseguiu se desviar, mas acabou acertando uma das cadeiras que por sua vez caiu no chão com um tinido metálico fazendo o Lobisomem que estava quase indo embora vir em nossa direção.

— Parece que ele ouviu a gente! — disse Justin voltando a ficar em posição fetal.

— Me diga algo que eu não sei Sherlock. — disse tentando me esconder o máximo que podia atrás das mesas.

Aos poucos a criatura começou a se aproximar da gente, quando ela estava quase nos encontrando Karina entrou no refeitório gritando e se descabelando como se fosse um boneco de posto. Atrás dela vinha uma Bruxa horrenda dando uma gargalhada macabra.

Ao dar de cara com o Lobisomem, Karina soltou um grito tão forte que por alguns segundos achei que ela iria começar a cantar um cover de “I Feel Good” do James Brown. Logo em seguida ela disparou como um míssil com o Lobisomem e a Bruxa em seu encalço.

Karina podia não ser a heroína que a gente queria, mas acabou sendo a heroína que a gente precisava.

Aproveitando o caos Kentaro avançou a caminho da diretoria, eu puxei o braço dele e ele se virou para mim confuso.

— Melhor a gente não ir pelo caminho tradicional — disse. — Eu conheço um atalho pelos terrenos da escola.

Ele balançou a cabeça positivamente e me deixou tomar a frente da situação. Assim Justin ficou para trás ainda sem coragem para perceber que estava sozinho no refeitório.

Eu e Kentaro avançamos pela grama em direção a diretoria o mais silenciosamente possível. No meio do caminho Kentaro me segurou e apontou para uma múmia que estava na esquina de um dos edifícios, de costa para gente, provavelmente esperando alguém se aproximar da diretoria pelo caminho correto.

O engraçado era o fato de a múmia estar bebendo água e comendo um bolinho como se estivesse fazendo uma pausa. Eu ri por dentro refletindo como um sonho as vezes consegue ser hilário de um momento para o outro.

A gente voltou a seguir nosso caminho cuidadosamente e chegamos na frente da porta da diretoria sem encontrar mais nenhum obstáculo.

Eu e Kentaro nos abaixamos e observamos o corredor da diretoria pelo vidro da porta.

— E agora? — disse para Kentaro, enquanto me aquecia na jaqueta dele.

— A caixa de força está na sala a direita — disse ele coçando o queixo. — Com toda certeza tem um monstro lá.

— Nem vêm. — disse para ele balançando a cabeça.

— O que?

— Eu conheço essa expressão — disse forçando-o a ficar de frente para mim. — Está querendo bancar o herói, não é?

— O que?

— Escute Kentaro, eu que vou me sacrificar dessa vez — disse pegando meu celular. — O plano é o seguinte eu vou entrar na sala da caixa de força primeiro e atrair o monstro para fora, depois você entra e liga a luz.

— E por que eu deixaria você se arriscar? — disse Kentaro cruzando os braços. — Não estaria certo fazer uma coisa dessa.

— Já está decidido Kentaro — disse observando o corredor pelo vidro. — O sonho é meu e eu decido como ele termina, se eu deixasse você ir na frente teria que enfrentar o resto dele sozinha...

— Vivien você não está fazendo o menor sentido. — disse Kentaro preocupado, com a mão direita na minha testa verificando se eu estava com febre.

— Sonhos são paradoxais, eles raramente fazem sentido bobinho. — disse, depois de respirar bem fundo prossegui. — Certo, eu já vou indo, infelizmente você vai ter que chegar até a caixa sem a lanterna, acha que dá conta disso?

— Sim. — disse ele perdido.

Eu liguei a lanterna e antes de partir eu me aproximei e dei um beijo na bochecha de Kentaro, aproveitando que ele estava com a guarda baixa.

Ele me encarou com as bochechas coradas e os olhos arregalados.

— Adeus.

Logo em seguida eu entrei no corredor sem olhar para trás. Conforme eu me aproximei do objetivo senti uma pontada de arrependimento, tudo estava estranhamente quieto e minha lanterna não parava de trepidar.

Eu abri a porta da sala onde a caixa se encontrava e me aproximei dela lentamente, de repente eu ouvi um barulho vindo do outro lado do cômodo e para minha surpresa não havia apenas um monstro ali, mas sim três! Um Zumbi, a Bruxa do refeitório e um Monstro do Pântano. Sabe a frase um é pouco, dois é bom e três é demais? Nunca ela foi tão inapropriada quanto naquele momento.

O Monstro do Pântano era o maior entre eles e tentou me agarrar com as mãos estendidas. Sem perder tempo eu me abaixei e escapei da sala passando por baixo da mesa como se fosse uma foca. Corri pelo corredor indo na direção oposta de Kentaro, quando olhei para trás as três criaturas estavam me seguindo conforme o meu plano, para minha alegria e para o meu completo desespero.

Meu objetivo era correr até o armário de vassouras e me esconder nele, mas na minha pressa eu acabei tropeçando, por sorte consegui manter meu celular intacto durante a queda.

O Mostro da Pântano pegou uma de minhas pernas e eu tentei me soltar esperneando que nem uma minhoca, o Zumbi veio e pegou minha outra perna e ambos começaram a me arrastar pelo corredor com a Bruxa a minha volta dando gargalhadas.

Eu esperava acordar a qualquer momento, mas esse momento não chegou, o que aconteceu foi que a luz de repente retornou com um estampido.

Cobrindo meus olhos por causa da claridade eu continuei gritando até ficar rouca, com o tempo eu percebi que os monstros tinham me soltado e aí eu abri os olhos. A Bruxa me estendeu a mão e me ajudou a levantar ainda gargalhando, mas agora sua voz e sua expressão soavam familiar.

— Mila? — disse sem fôlego.

Kentaro se aproximou cauteloso e o Zumbi apertou a mão dele rindo, agora com a luz dava para ver que ele era o Edson. E o Monstro do Pântano tirou a máscara do rosto e por baixo se encontrava ninguém menos do que o próprio Sr. Johnson.

Tudo não havia passado de uma pegadinha de Halloween.

Nos minutos seguintes todo mundo se reuniu no pátio da escola, alunos e monstros dando risada do quão divertida a noite tinha sido, e no centro de tudo Charles e Alan foram parabenizados pelo feito. A única que não estava nem um pouco contente era a Bianca, porque eu tinha trancado ela no Galpão 13.

Charles e Alan então explicaram para todos que eles tinham combinado com o Clube de Teatro de fazer uma surpresa de terror e com a ajuda do Sr. Johnson mantiveram tudo em segredo até mesmo da diretora e dos professores.

Em seguida todos eles voltaram a colocar seus disfarces se preparando para a próxima sessão.

Por fim o portão principal abriu e os alunos da segunda sessão começaram a ir embora rindo e comemorando enquanto os alunos da terceira sessão chegavam sem saber o que aguardava por eles.

Por volta das dez horas eu e Kentaro éramos os únicos que ainda aguardavam na frente da escola.

— Que noite hein? — disse Kentaro quebrando o silêncio.

— Nem me fale. — disse ainda sem graça.

Pouco depois o carro do pai dele chegou para buscá-lo.

— Quer uma carona até em casa?

— Não precisa — disse verificando meu celular. — Meu irmão vai chegar daqui a pouco.

Kentaro continuou parado ao meu lado receoso de me deixar sozinha ali.

— Não esqueça da sua jaqueta. — disse começando a retirar ela.

— Pode ficar. — disse Kentaro ajeitando a jaqueta em mim. — A noite está fria, depois você me devolve ela... Provavelmente no mesmo dia que eu devolver a sua.

E assim a gente se despediu e logo em seguida eu fiquei sozinha.

Por alguns instantes eu observei minhas tremulas mãos, depois cheirei a jaqueta refletindo que este devia ter sido um dos dias mais bizarros da minha vida.

Horas depois no meio da noite eu acordei e lembrei que tinha esquecido minha mochila no anfiteatro!